Chuva de Vento

Este texto foi escrito em janeiro de 2009. Estava de férias na casa de praia da minha irmã mais velha quando Lydiane, a caçula, nos ligou. Estava chovendo muito e a vontade que tive quando desliguei o telefone era sair gritando e correndo embaixo daquela chuva. Ao invés disso resolvi escrever. Para ela.

Em tempo, Lydiane, hoje, mora em Florianópolis.

Em Dezembro de 2008, formou-se, em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lydiane Takimoto, a temporã da nossa família. Agora, com menos de um mês de formada procura empregos em todos os cantos do Brasil e cada dia nos atemoriza com as novas propostas que anda recebendo. Ora vindas do Oiapoque ora do Chuí. Uma coisa é certa, não vê beleza e nem futuro na Cidade Maravilhosa. A minha cara, ao ouvir por telefone a voz empolgada da caçula ao receber uma nova oferta de Chapecó, deve ser a mesma que faço agora ao olhar pela janela essa chuva acompanhada de muito vento que não pára de cair nos meus últimos dias de férias na casa de praia. Fico assustada com a coragem e ousadia de minha irmã em transformar algo que pode ser tranquilo e pacato como o fluxo de um rio (e até mesmo da própria vida) em algo agitado e temeroso como a aproximação de um tornado.

Lydiane nasceu quando Tony, até então possuidor do título de caçula da casa, tinha dez anos; eu, recém chegada à adolescência e fazendo com que o ingresso no ensino médio durasse um pouco mais do que o planejado por meus pais, estava com treze e Tata, a prodígia, fazia pré-vestibular com seus quinze aninhos. Mamãe já passava dos quarenta e por uma forma que todos já sabem como acontece, engravidou.

Não me lembro de ter ouvido da maioria das pessoas, ao receber a notícia de que a família aumentaria, uns parabéns verdadeiros. Percebia que muitos se espantavam e esperavam uma atitude diferente da que minha mãe resolveu tomar. Havia quem verbalizasse isso sem ter a sensibilidade de que crianças pudessem estar ouvindo. Pensa bem, Ruth, você já tem três filhos perfeitos…arriscar pra quê? Eu ficava observando o rosto de mamãe ao ouvir esse tipo de gente que brinca de ser Deus (ou o Diabo) e em nenhum momento percebi (embora, por curiosidade, sempre procurasse) sinal de dúvida naqueles olhos verdes. Reencontrei essa firmeza em mim, sete anos depois, quando as mesmas pessoas se espantaram da mesma forma ao ouvir que eu, solteiríssima e no meio da faculdade, estava grávida. Hoje, já se arrependeram ao olhar para meu filho mais velho e dizer nossa!como ele cresce rápido! Você queria que eu o matasse, se lembra?, esta é a minha impaciente resposta para a hipocrisia. Mas isso já é uma outra história …

Lydiane não foi mais uma, pelo menos essa foi a sensação que tivemos quando ela entrou pela primeira vez em casa nos braços de mamãe. As risadas, que já ouvíamos, foram multiplicadas por um número que não era dois e ela não ocupava um cômodo só da casa como fazem os seres humanos que se restringem ao seu corpo. Para quem pensa que estou me referindo a brinquedos ou bagunça de uma forma geral, digo que essa não é a única maneira de ultrapassarmos nossos limites. Lydiane não causou desordem na casa. A caçula ocupou espaço porque todos lá de casa pensavam principalmente nela. Se saíssemos, ela ia junto de uma forma ou de outra. Ou ao nosso lado ou dentro da gente.

As coisas se sucederam mais ou menos dentro do esperado pelos meus pais. Novos endereços e telefones residenciais foram naturalmente aparecendo. Tata, a mais velha, arrebentou o cordão umbilical de tanto esticar. Foi parar em Florianópolis, a primeira cidade que conseguiu emprego, e mudou até de sobrenome (atitude essa, para mim, lastimável pois é análoga a um animal tendo o seu coro marcado pelo novo dono). Eu, primeiramente, consegui adicionar um complemento ao endereço antigo. Fundos. Hoje ainda divido o mesmo CEP mas já tenho que calçar sapatos para ir à casa de meus pais. Tony, praticante de esportes radicais depois dos trinta, já quebrou a perna, já moeu o punho e bate bem a cabeça a ponto de ficar temporariamente mais desmemoriado quando vê o chão se aproximar rapidamente de seu nariz. Morou sozinho uns tempos na Freguesia, casou-se com Luciana e hoje dividem a infértil ilusão de que já tem um filho. Uma kalopsita que não canta como o Elvis mas que atende pelo nome do saudoso e completo artista, entrou para nossa árvore genealógica.

Lydiane acompanhou essa saudável diluição familiar em cada fase de sua vida. Na infância viu-se sem mais a necessidade de ter sua cama montada quando fosse dormir. Tata, quando foi morar no Sul, deixou de herança para Lili o local da casa em que mais se deitava. Na adolescência ganhou um quarto só para ela quando, ao me casar, passei a dormir numa cama bem maior e confortavelmente bem mais apertada. No início da vida adulta, já com carteira de motorista, ela acompanhou a transformação do quarto do Tony em quarto de hóspedes e esporadicamente, o aposento servir como local de estudos dos seus sobrinhos mais velhos. Viu assim, de uma forma que não se vêem com os olhos, a casa que sempre teve os mesmos metros quadrados ficar maior.

E, de várias, o curso da vida (marcado pela renovação dos modelos dos porta-retratos que ficam em cima do piano ainda hoje tocado por mãos infantis) a transformou numa só que se agiganta em sua unidade. Ainda há pouco, Lili, por telefone, me mostrou o novo ângulo, cada vez maior, formado pela junção das duas hastes que limitam o leque que segura tremulante. O meu voto é que vá, já que quer ir para algum lugar, para Florianópolis. Assim, com uma só passagem é resolvido o problema dolorido da saudade para aqueles que ficam. Mas ela nem me ouve. A cada proposta, independente de onde venha, pensa (!) a respeito.

No fundo eu sei que depois de uma chuva com muito vento, o Sol sempre aparece. Mudei rapidamente o foco que estava no infinito e percebi um sorriso refletido no vidro da janela que me protege da água que cai lá fora. Mesmo que as minhas férias tenham acabado e eu não possa mais curtir o calor dessa estrela, outros o aproveitarão no meu lugar.

 

Já com saudades

Elika Takimoto

 

8 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

8 Respostas para “Chuva de Vento

  1. Não é fácil estabelecer nossos passos. Mas coragem é fundamental. Sucesso à caçula!!Bjs,

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  2. Sua sensibilidade sempre a flor da pele, hein?Lindo texto.

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  3. A poesia está em tudo e atravessa todos os campos científicos. Afinal, é o ser humano quem faz a ciência. E quem faz a arte. Pena a maioria dos professores de física e de matemática não terem despertado de sua letargia.Parabéns pelo belo texto!Kátia Rebello

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  4. Você transborda os significados em cada narrativa. Parece que eles escapam pelos sentidos antes únicos das palavras. Não só quartos ou porta-retratos. Tudo se amplia e se transforma. Meus parabéns. Beijos.

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  5. janeiro de 2009! Bjão!!!

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  6. Tudo tão bem narrado…Tenho muito orgulho de ti, professora.Beijos.

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  7. Tom

    Comentário tardio: lindo texto. Adorei o final. A mudança de foco da chuva pro sorriso refletido, que é uma forma de sol. Como o texto também é.

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    • Esse foi um dos textos mais importantes desse blog. O grau de importância aqui é medido pela emoção que senti ao escrever.

      Ao ler de novo, lembro-me do meu desespero e da minha dor. O quanto brigamos e discutimos.

      Que bom que gostou.

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