Arquivo do mês: setembro 2009

O que será que meu pé está me dizendo?

Rio, 17 de Setembro de 2009

Já sabia desde ontem que hoje o dia seria difícil. Antes de sair de casa tratei de por a caixa de Neosaldina na bolsa. Lá pelas três da tarde certamente um comprimido seria subtraído. Marido embarcado, meus pais viajando e eu aqui com três crianças, duas casas para olhar (papai só viajou com mamãe na condição d’eu aguar as plantas, colocar cloro na piscina, pegar as cartas, revistas e jornais, cuidar da Hanna e alguém dormir lá) e a minha vida tendo que seguir normalmente.

Nara faz teatro, inglês, piano e estuda no sexto ano. Eu faço italiano, doutorado, sou professora e tenho mais dois filhos além dela. Tive que levá-la e trazê-la do teatro, do inglês, do piano e da escola e não podia perder as aulas de italiano, deixar de dar aula e me encontrar com o orientador. Além de aguar as plantas, colocar cloro na piscina, pegar as cartas, cuidar da Hanna e dar atenção ao restante da prole. O pior é ter coincidido com a semana de fazer mão e pé. O pé é que me matou.

Hoje não teve jeito, tive que pedir ajuda ao meu vizinho para levar Nara a escola. Aqui em Madureira é assim: podemos contar com a ajuda, a oração e a fumaça de nossos vizinhos. Dona Jurema sempre que defuma a casa dela deixa um pouco de fumaça entrar na minha, diz que mesmo que eu não acredite, ela faz questão de purificar a minha casa também. Umas duas vezes por semana, meu cafofo fica com o maior cheiro de macumba. Já dona Nilce gosta de colocar a Ave Maria bem alto todas as manhãs. Diz que mesmo que eu não acredite, ouvir a Ave Maria só me faz bem. Sendo cercada de vizinhos que se preocupam tanto comigo, na hora do aperto são os primeiros a serem lembrados. Seu Ivaldo, não tenho a quem recorrer… O senhor pode levar a Nara hoje na escola para mim para eu poder trabalhar? Com o maior prazer, minha filha! Seu Ivaldo é assim, parece que foi feito de açúcar. De quebra levou Yuki para passear.

A minha aula termina meio dia e trinta, encontro com o orientador uma hora na UERJ, uma hora de conversa prevista, depois tenho que entregar dois livros no CBPF, lá na Urca, antes das três e meia tenho que chegar em casa para dar tempo de Marilene fazer a mão e o pé (!) e sair a tempo de buscar Nara na escola e levá-la ao piano. Vai dar tudo certo. Tem que dar tudo certo.

Quando saí da sala no último tempo de aula recebi uma mensagem pelo celular. “Eka, quer ver uma coisa super engraçada? Liga para a mamãe agora. Bjs Lyli”. Ótimo, nada como rir num dia tenso. Imediatamente liguei para os pombinhos em Lua de Mel. Alô, pai! E aí, curtindo muito? Ah, que bom! Lyli me falou que vocês têm algo para me contar que eu vou rir… Papai não estava lá com nenhuma voz de estar achando nada engraçado mas passou imediatamente para a minha mãe. Alô, mãe, tudo bem? Elika? Kkkkkkk (Kkkkkk é minha mãe rindo) o seu pakkkkkkkk está brabo comigkkkkkkkkkk! Estamos conhecendo as vinícolas aqui do sukkkkkkkkkkk. Resumindo, em cada vinícola que paravam, mamãe experimentava o vinho que elas produziam. Resultado? Essa alegria desmedida. Enquanto ouvia mamãe tentando falar já estava a caminho da UERJ. Almocei hoje as risadas de mamãe.

A conversa com o orientador foi tranquila. Chegamos à conclusão que eu só tenho que ler mais uns seis livros antes de fazer a prova de seleção e acionar um plano B. Saí de lá não sem antes engolir um comprimido. Tudo bem. Estava tudo como havia previsto.

O que não estava no script do programa foi eu não encontrar rápido uma vaga aos arredores do CBPF. Cheguei à rua e dei uma piscadinha para o flanelinha com os faróis pedindo vaga. Ele ficou juntando e afastando os dedos de uma só mão com cara de quem pede desculpas. Não havia vagas… Ok, vou dar mais uma volta. Desliguei o rádio. Nunca entendi porque não consigo procurar uma vaga com o rádio ligado. Dei mais duas voltas no mesmo quarteirão quando o flanelinha me parou. Moça, encosta ali naquele ponto de ônibus com o pisca-alerta ligado. Enquanto a senhora dá essa volta sempre sai um carro. Obedeci. Abri a janela.Esperei um minuto e quarenta segundos. As pernas estavam balançando. Será que vai sair alguém? Perguntei ao flanelinha tendo a sensação de que nunca mais as pessoas sairiam de onde estavam. Sempre sai. Respondeu o flanelinha tendo a certeza de que eu não estava raciocinando. Mais um minuto e quinze segundos. Pior, moço, sabe?, o que eu tenho que fazer é tão rapidinho … Aonde a senhora vai? Vou ali, entregar uns livros no CBPF. Falei com cara de choro já acreditando que terminaria o dia com o meu pé cheio de cutículas e calos. Faz o seguinte, deixa a chave comigo que se precisar eu manobro para a senhora. É rapidinho mesmo, né?

Por um motivo mais do que justo e explicado não pensei duas vezes. Entreguei a chave, peguei os livros e saí correndo. Somente no elevador dei conta do que havia acabado de fazer e entrei em pânico. Comecei a ouvir todo mundo me dizendo: Como você é burra! Não lê os jornais? Você veio da roça? Não ouve rádio? Como você confia assim em um flanelinha? Aimeodeos, e se o moço roubar meu carro… Não vai dar tempo de fazer nem a mão! Como pude fazer isso? E a Nara? Vou ter que ligar e pedir socorro ao seu Ivaldo de novo! Onde estava com a cabeça? Mania minha de sair confiando em todo mundo! Será que já não é tempo de crescer e amadurecer? Papai vai me matar quando souber que eu confiei num estranho…

Entrei na Biblioteca, disse à moça que era só para entregar os livros e voei na janela para ver a rua. Está preocupada com o carro, senhora? Ah sim, deixei a chave na mão do flanelinha. A senhora fez isso? Não lê os jornais? Você veio da roça? Não ouve rádio? Como você confia assim em um flanelinha? Olha, moça, se a senhora for um pouco mais rápida talvez dê tempo d’eu desfazer tudo isso e a felicidade continuar a existir para mim.

Assinei sem ler nada uns papéis que a moça-slow-motion me deu e desci pelas escadas com uma aceleração de dez metros por segundo ao quadrado. Se o carro estiver lá vou dar cem reais ao moço bonzinho. Fiz essa promessa sabe Deus para quem. Saí correndo pela rua, torci o pé e me aproximei do flanelinha pulando como um saci apostando corrida. Se machucou, moça? O flanelinha me perguntou se dirigindo rápido e assustado na minha direção para me ajudar. Depois me acompanhou até o carro e me disse: vou tirar o talão para a senhora poder estacionar em qualquer outro lugar hoje sem pagar nada. Dei os três reais do talão e sorri, a ponto das minhas orelhas se mexerem e meus olhos ficarem somente vinte por cento abertos para o moço bonzinho que deve ter se assustado com o que viu. É melhor a senhora ir andando…

Marilene se atrasou. Terminei o dia somente com as unhas das mãos pintadas, estranhamente feliz e aliviada, mas com uma sensação de que do dia de hoje posso tirar uma grande lição. Essa dorzinha chata no pé torcido e esse bando de cutícula nos dedos dos pés parecem estar querendo me dizer alguma coisa… Bom, deixa isso pra lá.

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Parágrafo excluído:

Voltando para casa liguei o rádio, coloquei o CD de Toquinho e cantamos juntos bem alto A Tonga da Mironga do Kabuletê. No sinal fechado olhei-me no espelho. Certifiquei-me que estava descabelada e sem batom e filosofei: quem marca melhor o tempo? O relógio ou meu rosto? Passei batom, dei um jeito com as mãos mesmo no cabelo e saí rápido dessa crise metafísica. O relógio, claro que o relógio.

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Luciene

Esse texto funcionou como uma terapia para mim. Semana passada fiz exame de vista e constatei que minha miopia havia aumentado. Cheguei a 6,5 graus! O médico falou que ela ainda deve aumentar. Na mesma semana marquei uma audiometria e o resultado também foi assustador.

Luciene me mostrou que mesmo que eu fique cega e surda, a vida ainda pode ser divertidíssima.

Luciene nasceu assim, perfeitinha. Era a segunda filha de um casal que teve quatro filhos. Teve uma infância feliz. Foi criada numa casa no subúrbio carioca que possuía um quintal bem grande refrescado pela sombra de uma belíssima mangueira. Teve cachorro, coelho, hamster, porquinhos da índia, mas nunca passarinho. Luciene achava que passarinho na gaiola era triste, mas morria de rir ao ver o seu hamster correndo sem sair do lugar na roda girante. Colecionava selos, papel de carta e brincava com bonecas de papel.

Luciene era super saudável quase nunca ficava doente, mas ao nadar na praia do Leblon com seus nove anos contraiu hepatite. Ficou amarela, vomitou muito e teve que ficar deitada durante um mês. Quando ouviu do médico que não poderia comer batata frita Luciene preferiu a morte. Deixou o altruísmo de lado que tanto pregava e fez a mãe prometer que enquanto ela estivesse doente nenhum irmão comeria batata frita também. Luciene se sentiu melhor quando a mãe disse que sim com a cabeça.

Quando começou a estudar tinha dois graus de miopia e vergonha de usar óculos, era uma das melhores alunas, freqüentava a Igreja todos os Domingos, estudava piano, mas para desespero de seus pais os hormônios da adolescência mudaram drasticamente esse quadro. Luciene tornou-se, assim, digamos, da pá virada. Sua mãe enlouquecia diariamente com as besteiras que Luciene falava que ia fazer. Luciene dizia que não queria mais estudar, que queria trabalhar e ser independente aos 14 anos de idade. Queria ser dona do próprio nariz. Lia Roberto Freire, Paulo Coelho e nem piscava com as histórias da Agatha Christie. Achava Renato Russo o máximo e Fábio Júnior um pão. Ficou assustada com a morte de Cazuza e começou a usar lentes de contato. Luciene riu quando viu uma mulher comendo maçã na janela do quinto andar na Ernani Cardoso. Luciene começava a perceber como o mundo é cheio de detalhes.

Ficou em recuperação na sétima série, repetiu a oitava, mas mesmo assim ganhou um violão dos pais de Natal. Disse que ele era tudo o que queria na vida. Desistiu de estudar piano e nunca estudou violão. Luciene conheceu Nilton (aquele que seria seu marido dez anos depois) quando cursou pela primeira vez a oitava série. Como tinha certeza que havia achado o seu príncipe aos quinze anos de idade, Luciene relaxou e gozou. Quando estavam juntos Luciene dizia para todos que iam assim ficar para sempre. Todas as vezes que brigavam Luciene dizia que nunca mais o veria. Quantas vezes eles se separaram Luciene perdeu a conta.

Aos dezesseis anos voltou a ser uma das melhores alunas. Estudava francês às terças e quintas na Abolição na casa de um professor que também sabia latim, italiano e inglês. Luciene gostava de estudar francês e da casa do professor cuja cor das paredes nunca soube qual era, pois, eram todas revestidas de livros. Luciene roubou três livros do professor. Um do Carlos Drummond, outro do Ziraldo e um chamado Brasil Nunca Mais. Luciene ficou assustada com tudo o que leu.

O ponto de ônibus onde pegava condução para voltar para casa do curso de francês ficava em frente a uma Igreja evangélica. Luciene entrou e participou do culto. Na quinta-feira disse para a mãe que chegaria mais tarde, pois, queria conversar com o pastor. Luciene se revoltou com o que viu.

Luciene cursou física e na faculdade conheceu Gustavo. Achou Gustavo bonito e inteligente e tentou esquecer Nilton. Luciene engravidou de Gustavo e não esqueceu Nilton. Luciene teve dificuldades para contar para os seus pais que estava esperando neném com dezenove anos de idade, mas achou que não fosse ter forças para contar ao Nilton que estava noiva de Gustavo. Luciene chorou por não saber o que fazer.

Casou-se com Nilton três anos depois do neném de Luciene ter nascido, mas com sete meses de gravidez já haviam voltado o namoro. Tinha quatro graus de miopia. Luciene dizia que ficariam juntos para sempre. Luciene fez Gustavo sofrer.

Luciene recebeu uma proposta para fazer mestrado, mas teve que recusar, pois, estava grávida do segundo filho. Luciene trabalhava muito e cuidava de sua família. Teve uma inflamação séria na córnea que quase a cegou do olho esquerdo. Luciene passou a usar óculos com medo de se machucar de novo com lentes de contato. Separou-se de Nilton quando seu segundo filho estava com um ano. Achou que nunca mais veria Nilton. Luciene foi para Fortaleza com seu filho mais novo e sua irmã caçula. Luciene mandou um email para Nilton de Fortaleza.

Compraram uma casa de quatro quartos e um cachorro. Luciene resolveu fazer mestrado e ainda gostava de Fábio Júnior. No meio do mestrado engravidou do terceiro filho, passou num concurso público e estava com cinco graus de miopia. Luciene não ouvia seu terceiro filho chorar e nem o telefone tocar. Nilton pensou que Luciene estava muito concentrada nos estudos. Luciene foi ao médico. O resultado da audiometria de Luciene não foi bom.

Com menos de trinta e cinco anos de idade Luciene descobriu que havia perdido grande parte da audição e que nada poderia fazer para recuperar. O problema de Luciene era genético. A avó de Luciene era surda. A perda aumentaria exponencialmente com o passar dos anos. Luciene não deu ouvidos para o que o médico falou. Resolveu fazer doutorado e escreveu um livro. Luciene lia cada vez mais. Entrou para aula de italiano e descobriu que estava com sete graus de miopia. Começou a escrever crônicas e aprendeu a desenhar com lápis de cor. Ouvia Chico Buarque em italiano no volume máximo. Luciene passou a tomar decisões sozinha e sofria sempre com as conseqüências. Os amigos se perguntavam porque Luciene não mais os ouvia. Luciene vendeu o carro para comprar os aparelhos auditivos.

Luciene sentiu algo estranho quando colocou os aparelhos nos ouvidos pela primeira vez. Eles eram imperceptíveis, mas Luciene não prendeu mais os cabelos. Quando tomava banho Luciene tinha que tirá-los, mas também ficava sem eles quando lia. Luciene não queria ir à Itália de óculos e aparelhos nos ouvidos. Luciene resolveu operar a vista.

Luciene ficou indiferente à luz que recebia.

Seus olhos infeccionaram no pós-operatório e Luciene ficou cega.

Desistiu do seu curso de doutorado.

Luciene agora só queria ouvir os seus filhos. Passou a compreendê-los bem mais e participar muito mais de suas vidas. Seu segundo filho sempre teve dificuldades em história na escola e, depois que Luciene ficou cega, ele passou a ler o livro para Luciene que o interrompia sempre pedindo explicações. Agora ele diz que quer ser professor de história e só tira dez nessa matéria. Luciene cantava também com o filho mais velho que tocava violão. Passou a perceber quando ele errava uma nota e a ajudá-lo nas aulas de canto. Contava muitas histórias para o filho mais novo que adorava ouvi-las. Luciene amava conversar com Nilton que dizia que ela ficava muito bonita com óculos escuros. Luciene ouvia cada vez menos Fábio Júnior.

Luciene estava com quarenta anos quando os aparelhos auditivos foram ajustados ao grau máximo que se destinava. Luciene aprendeu cozinhar, a fazer esculturas, tricô, massagens, origami e ler Braille. O limite de freqüências audíveis estava cada vez menor para Luciene.

Luciene ficou completamente surda aos quarenta e cinco anos.

Luciene se lembrou quando não pôde comer batata-frita e lamentou o fato de não saber mais rezar.

Mas foi só com cinqüenta anos que Luciene chorou. De alegria.

Foi colocado pela primeira vez em seu colo o seu primeiro neto.

Luciene percebeu na primeira troca de fraldas que na verdade era avó de uma netinha. Luciene foi a avó mais carinhosa que uma criança pode ter. Não desgrudou dela um só minuto. Luciene teve quatro netos e todas as noras a queriam como babá. As festas de seus netos eram sempre decoradas com os origamis de Luciene. Nilton ficava muito orgulhoso e a abraçava com muito mais freqüência.

Luciene inventou um jeito especial de se comunicar com a gente. Cada parte do corpo que é tocado tem um significado. Podemos ficar horas conversando com Luciene. Exatamente agora a vovó está fazendo brigadeiro para o seu neto mais novo que tem quatro anos. O seu segundo neto quer ser escultor. Cláudio só quer saber de jogar bola por enquanto e eu, a primeira neta, quero ser escritora como minha avó já foi um dia.

13 de Setembro de 2040

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Good Morning Baltimore!

É…bem… todo dia eu acordo assim mesmo.

Som na caixa!

Oh, oh, oh
Woke up today feeling the way I always do
Oh, oh, oh
Hungry for something that i can’t eat
Then i hear that beat
That rhythm of town starts calling me down
It’s like a message from high above
Oh, oh, oh
Pulling me out to the smiles and the streets that I love
Good morning baltimore
Every day’s like an open door
Every night is a fantasy
Every sound’s like a symphony
Good morning baltimore
And someday when i take to the floor
The world’s gonna wake up and see
Baltimore and me
Oh, oh, oh
Look at my hair! What “do” can compare with mine today?
Oh, oh, oh,
I’ve got my hairspray and radio
I’m ready to go!
The rats on the street all dance around my feet
They seem to say”tracy, it’s up to you”
So, oh, oh
Don’t hold me back’cause today all my dreams will come true
Good morning baltimore
There’s the flasher who lives next door
There’s the bum on his bar room stool
They wish me luck on my way to school
Good morning baltimore
And some day when i take to the floor
The world’s gonna wake up and see
Baltimore and me
I know every step
I know every song
I know there’s a place where I belong
I see all those party lights shining ahead
So someone invite meBefore i drop dead!
So, oh, ohGive me a chance’cause when i start to dance
I’m a movie star
Oh, oh, oh
Something inside of me makes me move
When i hear that groove
My ma tells me no!
But my feet tell me go!
It’s like a drummer inside my heart
Oh, oh, oh
Don’t make me wait one more moment for my life to start…
I love you baltimore
Every day’s like an open door
Every night is a fantasy
Every sound’s like a symphony
And i promise baltimore
That someday whenI take to the floor
The world’s gonna wake up and seeGonna wake up and see
Baltimore and me…

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Leia a Bíblia, tia Jú!

Esta gravura é uma ilustração de uma passagem da Bíblia: Abraão a ponto de matar seu filho Isaac.

Ando sem paciência com as igrejas de uma forma geral, mas a igreja Evangélica tem me tirado do sério. Tento fugir dos evangélicos, mas hoje em dia, como todos podem perceber, eles estão por todas as partes nos forçando a “aceitar Jesus” como se alguma vez na vida eu o recusasse e obrigando-me a ler as Sagradas Escrituras como se eu eu já não a tivesse lido.

A falta de leitura e o excesso de novela da grande parte da população carioca sempre me incomodaram. Nos três anos em que fui professora da rede estadual do Rio de Janeiro convivi com a triste realidade de lidar com um grande número de pessoas que não lêem nem bula de remédio e, óbvio, gastava infinitamente mais tempo para fazê-los entender coisas simples que outros, ainda que com pouca leitura (mas pelo menos com pouca), entendiam. Ah sim, antes que me esqueça, sempre que perguntava (e perguntava sempre) o que eles estavam lendo, quando havia alguém lendo alguma coisa dizia que era a Bíblia. Ótimo! Dizia eu! Pelo menos vai questionar o que está escrito nas Sagradas Escrituras, pensava. Mas quando ia discutir determinadas passagens, verificava que elas eram todas desconhecidas. Dizia que lia mas era mentira.

Fato é, constatado e facilmente percebido, que os evangélicos em sua maioria nada lêem. Muito menos a Bíblia que é um livro super grosso e sem gravuras. O que me agride é que essas pessoas seguem um determinado pastor que prega, sempre segurando a Bíblia, que aquilo que Nela está escrito é a palavra do Senhor e deve ser seguido. Em cima disso, fazem o discurso lavando cerebralmente e facilmente seus fiéis, já que nada lêem, arrancando deles o que conseguir. A eficiência dos pastores é medida pela quantidade de bens materiais que conseguem arrancar de seus fiéis que, por sua vez, provam o tamanho de sua fé com o que lhe é oferecido.

Marilene, minha manicure, e tia Jú, irmã de minha sogra, são evangélicas. Ambas seguem um pastor e estão na promessa de ler a Bíblia desde que “aceitaram Jesus”. Devido à convivência e o fato de gostar muito das duas, tenho que ouvi-las sempre. Sinto-me, no entanto, na obrigação de alertá-las sobre o fato de que a Bíblia tem que ser realmente lida como tantos outros livros mas não deve ser encarada como A Verdade. Quando digo isso elas se estremecem, se assustam, pedem, inutilmente, piedade pela minha alma.

A maioria de nós não provoca sofrimento desnecessário; acreditamos na liberdade de expressão e a protegemos mesmo quando discordamos do que está sendo dito; pagamos nossos impostos; não traímos, não matamos, não cometemos incesto, não fazemos aos outros aquilo que não queremos que façam conosco. Alguns desses bons princípios podem ser encontrados em livros sagrados, concordo com vocês duas, mas enterrados junto com um monte de coisas que nenhuma pessoa decente gostaria de seguir. Enfim, as Sagradas Escrituras, definitivamente, NÃO fornecem regras para distinguir os bons princípios dos ruins!

Agora quem resolveu salvar essas duas das trevas fui eu. Peguei a Bíblia, separei algumas partes para mostrar o que nenhum pastor mostra e muito menos discute. Para provar que não estou mentindo deixo para quem quiser a referência de onde tirei cada passagem.

Comecemos no Gênesis com a adorada história de Noé. A lenda dos animais entrando na arca aos pares é linda, mas a moral da história de Noé é assustadora. Deus condenou os seres humanos e resolveu (com exceção de uma família) afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais (presumivelmente os inocentes).

Apesar de muitos teólogos (mas nenhum evangélico) já entenderem que não se interpreta o livro do Gênesis em termos literais um número assustadoramente grande de pessoas ainda interpreta as Escrituras, incluindo a história de Noé, de forma literal. Na destruição de Sodoma e Gomorra, foi Ló, sobrinho de Abraão, o escolhido para ser poupado junto com a sua família por ser especialmente correto. Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar a Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre. Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então, todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para sua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”(Gênesis, 19,5). A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma. Mas a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (Gênesis, 19,7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura inteiramente religiosa. No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os opressores cegando-os por milagre. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com a sua família e seus animais porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele. Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também (Gênesis, 10, 31-36). Se essa família tão perturbada era a melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para entender o enxofre punitivo mandado por Deus!

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juízes, quando um levita (padre) não identificado viajava com a concubina em Jebus. Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado “para que dele abusemos”. Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: “Não, irmão meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura”(juízes 19, 23-24). Acho o termo “humilhai-as” especialmente aterrador. Divirtam-se humilhando e estuprando a minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem. A concubina não teve a mesma sorte que as filhas depravadas de Ló.

O levita a entrega à multidão que a estupra coletivamente a noite inteira: “E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e , subindo a lava, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro”(Juízes 19, 25-26). De manhã o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz: “Levanta-te e vamos”. Mas ela não se moveu. Estava morta. Então ele “tomou um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e a enviou por todos os limites de Israel”. Sim. Você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29. Mas a história não é tão maluca quanto parece. Havia um motivo: provocar uma vingança. E deu resultado, pois o incidente causou a guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juízes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos. Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério.

Esses episódios desagradáveis não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de filho de Abraão, Isaac. Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido em oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha. A faca assassina já estava em suas mãos quando um anjo interveio drasticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, estava apenas testando a fé de Abraão. Ufa! Mas, como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico? Essa lenda que se assemelha a um filme de terror é um dos exemplos citados por vários pastores sobre a força da fé.

Mais uma vez muitos podem dizer que as Escrituras não devem ser encaradas ao pé da letra. Mas sim, Elas são encaradas como fatos literais e como exemplos a serem seguidos. Quem me disse isso foi Marilene e tia Jú fervorosamente. E mesmo se não for como fato literal, como já me cansou de alertar a minha mãe, como devo encarar todas essas histórias? Como uma alegoria? Alegoria de quê? Certamente de nada digno de louvor. Como lição moral? Mas que tipo de princípio moral podemos tirar dessas histórias, pastor? Ah, mas tem outras histórias lindas nas Escrituras…você está sendo radical! Alertou-me um pastor quando fui questioná-lo com meus 17 anos e com a minha Bíblia devidamente lida. Se é assim, pastor, precisamos ter algum critério independente para decidir quais trechos são morais: um critério que venha de onde vier, não pode vir da própria escritura.

Mas, minha filha, voltemos a história que tanto te incomoda, continuou o pastor, não foi bom que Deus tenha poupado a vida de Isaac no último minuto? Ah sim, seu pastor, isso prova que Deus realmente é bom, mas a onisciência cai por terra já que Ele não foi capaz de entrar na cabeça de Abraão e poupar a criança do trauma. Mas tudo bem, vou te mostrar outra história com um final menos feliz. Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonistas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, “aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu.” Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonistas e voltou para a casa vitorioso. Como era de se esperar, sua filha, única filha, saiu de casa para recebê-lo e, que pena, foi a primeira a sair pela porta. Jefté rasgou suas roupas, compreensivelmente, mas não havia nada que pudesse fazer. Deus estava ansioso pela oferenda prometida, e dadas às circunstâncias, a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada. Ela só pediu permissão para ficar dois meses na montanha para lamentar a sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e seu pai a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso.

Mostrei esses trechos à Marilene e à tia Jú. Poderia mostrar outros já que minha Bíblia está toda grifada mas o rosto delas me mostrou que já era o bastante.

Refletiram. Ponto para mim.

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Parece que o presidente dos Estados Unidos pensa como eu. Fica aqui o vídeo para quem quiser conferir:

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