Arquivo do mês: outubro 2009

O Ovo Quis Também!

Jesuis!!! Agora aqui em casa temos que comer escondido!!!!

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“Para que serve um livro que não tenha figuras ou conversas?” *

*Alice, em Alice no país das Maravilhas

Há tempos coleciono livros. Meus três filhos sabem que independente do preço e da época do ano, livro é a única coisa que eles ganham, na hora em que me pedem, sem o menor questionamento e hesitação. Muito pelo contrário. Certamente aprendi isso com papai que sempre me deixava à vontade nas livrarias e nas bienais da vida. Gostou desse? E pronto. Era meu. Simples assim. Reclamava do preço das roupas, das mensalidades das escolas, mas nuncanuncanunca ouvi papai reclamando do preço de um livro.

A verdade é que por conta disso eu já li muita besteira tendo a sensação de estar digerindo o manjar dos deuses. Hoje abro alguns livros e me divirto com a minha saudosa e doce imaturidade. Em uma fase rápida de minha adolescência, por exemplo, fiz dos livros de Roberto Freire a minha Bíblia Sagrada. Para quem não o conhece ele foi um sociólogo anarquista inclusive (e principalmente) do amor. “Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários”. Quanta bobagem… Essa é uma das partes por mim sublinhadas! Desde meus quatorze anos tenho essa mania de sublinhar expressões que me marcam de alguma forma nos meus livros. Às vezes faço um comentário curto ao lado de um parágrafo ou coloco o nome de uma pessoa que tenha sido lembrada quando li determinada locução. Não é raro ver numa obra literária lida por mim um simples ponto de exclamação ao lado de uma pequena parte ou seção de um discurso do autor. Quer dizer que eu fui deliciosamente surpreendida naquele momento.

Por conta disso não gosto que me emprestem livros. Eu os rabisco. Tenho mania de dialogar com o autor e dar minha opinião. Se gostou muito de um e quer que eu leia me dê as referências. Eu compro. Ou me presenteie. Mas não me empreste. Mesmo porque eu tenho dificuldade em devolvê-los caso me apegue realmente. E, pelo visto, outras pessoas são iguais a mim. Há uns buracos em várias prateleiras de minha biblioteca e consequentemente nas minhas lembranças. E isso é um pouco chato. Um pouco só.

Fato foi que de uns tempos para cá comecei a comprar livros em sebos. O último que comprei, com o intuito de estudar para a prova do doutorado que será sobre o filósofo e doido varrido Kant, foi um livro de Georges Pascal. O Pensamento de Kant. A compra foi feita pela Internet e para quem se interessar pelo site: estante-virtual-ponto-com-ponto-bê-érre. A livraria foi honesta, disse que o livro estava com as folhas amareladas e com algumas anotações feitas a lápis. Mandei vir mesmo assim. A diferença de preço para um novo era cinqüenta reais com trema e tudo. O que umas anotaçõezinhas iriam me atrapalhar? Sublimar-lhes-ei! Disse eu com a convicção de quem usa uma mesóclise nos dias de hoje.

Ao abrir o livro fui surpreendida de imediato por um nome escrito de próprio punho numa tarde certamente chuvosa de quarta-feira com uma caneta bic azul. Uma adorável sensação de estar de mãos dadas com alguém, estranhamente se fez presente quando escrevi com a minha caneta preta pentel Elika Takimoto, 2009 bem abaixo de Patrícia Alves Pinto da Veiga, 1986. Isso foi na sexta-feira retrasada. Fazia sol.

Patrícia, para meu desespero, tem a mesma mania, ou tinha há vinte três anos atrás, que eu. Sublinha, coloca pontos de exclamação, comenta, coloca pontos de interrogação(!). Patrícia não entendeu muita coisa que Georges lhe explicou. Eu fico agoniada com o fato dela, por exemplo, não ter entendido que “…o caráter intuitivo do espaço explica que tais juízos são sintéticos e, como a intuição é pura, a síntese é a priori”. Mas porque ela não entendeu? Estava tão clara no parágrafo anterior a explicação do Georges dessa proposição kantiana … ai, Patrícia, por que você não entendeu? Será que eu estou entendendo errado então??? Por outro lado, às vezes fico orgulhosa com a Pati. Quando, por exemplo, ao lado de um parágrafo difícil eu vejo um ponto de exclamação. Ufa! Ela entendeu também. Olha que esse foi brabo, hein? E coloco o meu ponto de exclamação ao lado do dela. O parágrafo foi duplamente entendido!!

Depois que conheci Patrícia parei para refletir sobre o que ando fazendo nos meus livros. Eu nunca havia me dado conta de que um dia as minhas anotações, o meu diálogo silencioso com algum autor, as minhas lágrimas e os meus aplausos fossem vistos e ouvidos por mais alguém e que um simples ponto, seja ele de exclamação ou de interrogação, causasse tantas dúvidas e travasse tanto uma leitura.

Ainda estou mergulhada nos meus pensamentos que se voltam para mim mesma e examinam o meu hábito de literalmente meter meu dedo e minha lapiseira aonde não foram chamados. Mais um motivo para entrar urgentemente numa terapia.

Enquanto a coragem de encarar meu inconsciente de frente não aparece, fica a certeza de que pelo menos a Alice, a que andou no país das Maravilhas, se deliciaria lendo tudo o que já li.

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