Arquivo do mês: dezembro 2009

Nara

Nara participou de um evento promovido pela Folha Dirigida pelo fato de sua redação ter sido uma das melhores esse ano. Cada escola manda 3 redações e a da Nara entrou! Todas as redações foram editadas no livro Projeto Redação 2009 do qual participam escolas públicas e particulares do Rio de Janeiro. A homenagem a todos os participantes foi feita no Jockey Club no centro da cidade.

A brincadeira era falar sobre a Lua. Todos falaram muito bem dela mas a Nara mandou essa:

Eu não sou nenhum poeta,
nem repentista de rua
Como é que quer que eu faça
Uma poesia da Lua?

A Lua não me fascina,
Nem luz própria ela tem.
É fria, branquela, redonda e
Exibida também.

Vive mudando de fase
Do efeito sanfona padece
É mulher de duas caras
Mas só uma aparece.

Vive rodeando a Terra
De tão chata que ela é.
Enche a cara, joga charme
E sobre a nossa maré!

Ai…quanto orgulho!!!!!

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Pre$ente*

Estamos nos aproximando do Natal. Muito embora a televisão não me tenha como expectadora percebo, por outros meios, que há sempre uma forte associação com a data, teoricamente ligada ao calendário religioso, e o comércio. As primeiras páginas na Internet e nos jornais nos bombardeiam de anúncios que se metem na frente das notícias nos obrigando praticamente a comprar qualquer coisa. Também há os shoppings lotados de pessoas penduradas de bolsas que, para quem as carrega, parece mostrar uma certa proporcionalidade do volume transportado com a alegria que sentirão na noite de Natal.

Todo esse desconforto que sinto passaria em silêncio, como já passou vários anos, mas o diferencial que não mais me deixou ficar calada foi o fato de minha filha de 11 anos vir me pedir um presente. Ainda por cima, pediu algo bem caro, pois, como ela mesmo disse, não era um presente qualquer, era um presente de Natal! Ela quer um PSP. Na hora eu pensei que fosse algum partido político e não entendi nada, mas depois descobri que é um videogame portátil de mil reais mais ou menos. Eu poderia até dar o que Nara havia me pedido, mas não mais como presente, pois este não se pede. Foi exatamente isso o que eu lhe disse e ela, obviamente, não entendeu. Então, contei-lhe uma história.

Há pouco tempo atrás eu vi vendendo em uma padaria umas bananadas pretinhas e grossas. Comprei uma e, antes mesmo de sair do estabelecimento, abri e comi. Ao descer pela garganta, aquele doce trouxe, além de calorias para dentro de mim, uma lembrança com a mesma quantidade de açúcar que continha. Fez com que meus olhos brilhassem com mais intensidade por causa das lágrimas que foram produzidas muito timidamente. Quem, ou melhor, por que um adulto choraria numa padaria ao morder uma bananada? Contive-me um pouco e acabei fazendo pior do que chorar. Ri com os dentes ainda pretos para quem me vendeu o doce e pedi todas as outras bananadas que estavam no balcão.

Cheguei em casa, coloquei toda aquela deliciosa aquisição numa caixa de sapato e embrulhei com um papel de presente bem bonito. Abusei do durex e das fitas vermelhas em volta. Tudo propositalmente, pois, como já deu para perceber, iria presentear alguém. A abertura de um presente é um momento solene e eu queria que esse momento durasse um pouco mais do que o normal… exatamente para eu ter mais tempo de observar o rosto assustado para quem ele seria destinado.

Manoela, que morava na casa ao lado da casa de meus pais, a madrinha de todas as minhas bonecas, foi minha melhor amiga na infância. Tínhamos a mesma idade, íamos juntas para a escola cantando as músicas do Balão Mágico, voltávamos juntas, fazíamos deveres de casa separadas porque mamãe dizia que aprender era um ato solitário, mas depois era só pular o muro e pronto! Juntas de novo! Fizemos, agora veja, o catecismo e a primeira comunhão juntas! Contamos tudo uma para a outra, até o que dissemos e não dissemos para o padre na hora da nossa primeira confissão. Manoela que falou mais do que devia teve a primeira penitência muito maior do que a minha. Quando eu estava no “amém” terminando a minha dúzia de pais-nossos, Manoela se ajoelhou ao meu lado com aquele número assustador: 30 pais-nossos e 20 ave-marias. Você contou aquele sonho? Ai, Manu, como tu é burra! Deixa que eu rezo as ave-marias pra você. Dentre tantas coisas prazerosas que a infância nos proporcionou uma delas era a nossa ida semanal a um botequim perto de casa que vendia umas bananadas que era o manjar dos deuses. Comprávamos o doce preto embrulhado no plástico e corríamos para nossa cabana para comer bem devagar. Nem sei quantas vezes fizemos isso juntas.

A infância havia passado e a adolescência também. Manoela estava morando sozinha num apartamento por aqui perto. Bati na porta e ela se surpreendeu ao me ver e ficou mais ainda assustada quando, sem falar nada, estiquei os meus braços passando-lhe o presente. A ingenuidade havia passado com os anos. A desconfiança, marca dos sobreviventes, ganhava espaço no olhar. Sorri. Abra, sua boba! Ainda na porta, cada uma de um lado que marcava o limite daquele lar solitário, Manoela começou abrir a caixa de sapatos. Parou um momento com medo de continuar. Estava na cara que era uma brincadeira e ela não estava segura de que iria se divertir com aquilo. Abra, Manu!Olha, se você não gostar me devolva, ok? Manoela demorou a acreditar quando viu o conteúdo. Ficou olhando para dentro da caixa um tempão e seus olhos azuis estavam completamente lubrificados de emoção. Elika, foi o melhor presente que ganhei na minha vida!

Aquelas bananadas, que não me custaram cinco reais, mostraram como Manoela esteve presente dentro de mim. E deve ser por isso que presente se chama presente. Para mostrar que não esquecemos da pessoa. Ele é uma comunicação simbólica na qual estão expressos nossos sentimentos mais pessoais. O valor não está ligado a um número que vem precedido de um cifrão.

Tá bom, mãe, entendi. Mas, por favor, não espere que eu fique feliz com bananadas no Natal.

Um a zero para a televisão.

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A imaginação é mais importante que o conhecimento*

* Albert Einstein

Eu tenho uma teoria. Na verdade duas, mas uma delas faz uma previsão de como os chineses vão dominar o mundo e hoje eu não quero falar sobre isso. Então, esqueçamos esta última, por ora, e nos apeguemos somente à primeira.

Não se pode dizer que a teoria em questão se enquadra nos padrões exigidos hoje no mundo acadêmico e, portanto, não possui o status científico. Mas isso não a diminui. Ela é uma teoria super séria que se baseia em observações realizadas por mim desde os idos de 1991. Se hoje não a publico em revistas de divulgação da ciência é pelo fato dela envolver um mistério indecifrável e todos sabemos muito bem que os cientistas são altamente preconceituosos com esse tipo de coisa.

A minha teoria explica as muitas sensações estranhas que temos tido ultimamente. Quem nunca percebeu que uma pessoa de setenta anos hoje aparenta ser muito mais jovem do que uma de setenta anos vinte anos atrás? Quem também nunca reclamou ou ouviu alguém reclamar que as vinte e quatro horas do dia não tem sido suficientes? Baseada nessas e em muitas outras observações, a minha teoria afirma com total segurança que:

O “tempo” gasto pelos planetas para dar uma volta completa em torno do Sol e em torno de si mesmos vem diminuindo.

A forma como o período de rotação e translação dos planetas vem se tornando menor, é impossível de ser conhecida e logo adiante explicarei o por quê. Mas é certo que algo nos é subtraído a cada ano e não é o tempo tal como ele o é entendido no senso comum, a dizer, aquele marcado nos relógios. Por isso o escrevi, acima, entre aspas. Digo isso porque os minutos continuam tendo os mesmos sessenta segundos desde que o sistema sexagesimal foi inventado. Porém, raciocinem comigo, o segundo, unidade de tempo mínima nos relógios analógicos, foi inicialmente definido como fração 1/86400 do dia solar médio. Se o dia solar médio, como versa a minha teoria, diminui, o segundo, aquilo que marca o ponteiro mais fino dos relógios, diminui consequentemente, exatamente da mesma forma que a medida da polegada (uma unidade de medida que era realizada com o polegar do Rei vigente na época) diminuiria para um Rei anão! Quando vamos medir o período de um planeta usamos um relógio que, neste caso, está intimamente e misteriosamente ligado ao próprio período que desejamos medir! Torna-se impossível, desta forma, a demonstração da minha teoria. Você deve apenas aceitá-la como verdade.

Seguindo esse meu raciocínio super elaborado, os nossos dias realmente são menores do que os dias de quando éramos crianças embora, continue tendo as mesmas vinte e quatro horas marcadas nos relógios (que se aceleram junto com todo o movimento planetário). Todos esses “idosos” serelepes caminhando, indo à academia e correndo nas praias não tem nada a ver com avanço de medicina porque a longevidade das pessoas não está aumentando, assim como de bicho nenhum na face da Terra! Estamos sim, dando mais voltas em torno do Sol, mas, insisto: durando o mesmo tempo que durávamos há mil ou cem mil anos atrás! Continuamos a envelhecer na mesma velocidade que nossos mais antigos ancestrais, mas mantivemos a tradição de contar como um ano de vida cada vez que o planeta volta a ocupar a mesma posição que estava em relação ao Sol no dia em que nascemos! A nossa indignação ao ver o final de ano se aproximando desenfreadamente só comprova a veracidade de tudo que foi explanado aqui hoje com tanta austeridade.

Após a aceitação dessa teoria super séria, a culpa que sentimos pelo fato de não se conseguir cumprir os prazos e fazer tudo o que está na agenda chega ao fim. Caberá agora reformular o nosso calendário de forma que se adapte às novas velocidades dos astros fazendo com que, por exemplo, o intervalo entre dois reveillons seja de no mínimo dois verões. Caso o contrário, chegará o dia em que nem mais dará tempo de desmontar as nossas árvores de Natal.

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