Pre$ente*

Estamos nos aproximando do Natal. Muito embora a televisão não me tenha como expectadora percebo, por outros meios, que há sempre uma forte associação com a data, teoricamente ligada ao calendário religioso, e o comércio. As primeiras páginas na Internet e nos jornais nos bombardeiam de anúncios que se metem na frente das notícias nos obrigando praticamente a comprar qualquer coisa. Também há os shoppings lotados de pessoas penduradas de bolsas que, para quem as carrega, parece mostrar uma certa proporcionalidade do volume transportado com a alegria que sentirão na noite de Natal.

Todo esse desconforto que sinto passaria em silêncio, como já passou vários anos, mas o diferencial que não mais me deixou ficar calada foi o fato de minha filha de 11 anos vir me pedir um presente. Ainda por cima, pediu algo bem caro, pois, como ela mesmo disse, não era um presente qualquer, era um presente de Natal! Ela quer um PSP. Na hora eu pensei que fosse algum partido político e não entendi nada, mas depois descobri que é um videogame portátil de mil reais mais ou menos. Eu poderia até dar o que Nara havia me pedido, mas não mais como presente, pois este não se pede. Foi exatamente isso o que eu lhe disse e ela, obviamente, não entendeu. Então, contei-lhe uma história.

Há pouco tempo atrás eu vi vendendo em uma padaria umas bananadas pretinhas e grossas. Comprei uma e, antes mesmo de sair do estabelecimento, abri e comi. Ao descer pela garganta, aquele doce trouxe, além de calorias para dentro de mim, uma lembrança com a mesma quantidade de açúcar que continha. Fez com que meus olhos brilhassem com mais intensidade por causa das lágrimas que foram produzidas muito timidamente. Quem, ou melhor, por que um adulto choraria numa padaria ao morder uma bananada? Contive-me um pouco e acabei fazendo pior do que chorar. Ri com os dentes ainda pretos para quem me vendeu o doce e pedi todas as outras bananadas que estavam no balcão.

Cheguei em casa, coloquei toda aquela deliciosa aquisição numa caixa de sapato e embrulhei com um papel de presente bem bonito. Abusei do durex e das fitas vermelhas em volta. Tudo propositalmente, pois, como já deu para perceber, iria presentear alguém. A abertura de um presente é um momento solene e eu queria que esse momento durasse um pouco mais do que o normal… exatamente para eu ter mais tempo de observar o rosto assustado para quem ele seria destinado.

Manoela, que morava na casa ao lado da casa de meus pais, a madrinha de todas as minhas bonecas, foi minha melhor amiga na infância. Tínhamos a mesma idade, íamos juntas para a escola cantando as músicas do Balão Mágico, voltávamos juntas, fazíamos deveres de casa separadas porque mamãe dizia que aprender era um ato solitário, mas depois era só pular o muro e pronto! Juntas de novo! Fizemos, agora veja, o catecismo e a primeira comunhão juntas! Contamos tudo uma para a outra, até o que dissemos e não dissemos para o padre na hora da nossa primeira confissão. Manoela que falou mais do que devia teve a primeira penitência muito maior do que a minha. Quando eu estava no “amém” terminando a minha dúzia de pais-nossos, Manoela se ajoelhou ao meu lado com aquele número assustador: 30 pais-nossos e 20 ave-marias. Você contou aquele sonho? Ai, Manu, como tu é burra! Deixa que eu rezo as ave-marias pra você. Dentre tantas coisas prazerosas que a infância nos proporcionou uma delas era a nossa ida semanal a um botequim perto de casa que vendia umas bananadas que era o manjar dos deuses. Comprávamos o doce preto embrulhado no plástico e corríamos para nossa cabana para comer bem devagar. Nem sei quantas vezes fizemos isso juntas.

A infância havia passado e a adolescência também. Manoela estava morando sozinha num apartamento por aqui perto. Bati na porta e ela se surpreendeu ao me ver e ficou mais ainda assustada quando, sem falar nada, estiquei os meus braços passando-lhe o presente. A ingenuidade havia passado com os anos. A desconfiança, marca dos sobreviventes, ganhava espaço no olhar. Sorri. Abra, sua boba! Ainda na porta, cada uma de um lado que marcava o limite daquele lar solitário, Manoela começou abrir a caixa de sapatos. Parou um momento com medo de continuar. Estava na cara que era uma brincadeira e ela não estava segura de que iria se divertir com aquilo. Abra, Manu!Olha, se você não gostar me devolva, ok? Manoela demorou a acreditar quando viu o conteúdo. Ficou olhando para dentro da caixa um tempão e seus olhos azuis estavam completamente lubrificados de emoção. Elika, foi o melhor presente que ganhei na minha vida!

Aquelas bananadas, que não me custaram cinco reais, mostraram como Manoela esteve presente dentro de mim. E deve ser por isso que presente se chama presente. Para mostrar que não esquecemos da pessoa. Ele é uma comunicação simbólica na qual estão expressos nossos sentimentos mais pessoais. O valor não está ligado a um número que vem precedido de um cifrão.

Tá bom, mãe, entendi. Mas, por favor, não espere que eu fique feliz com bananadas no Natal.

Um a zero para a televisão.

16 Comentários

Arquivado em Crônicas, Filhos, reflexões

16 Respostas para “Pre$ente*

  1. Eu me sinto assim como a Manuela, quando conseguimos reunir nem que seja como no primeiro ano poucos amigos que estudaram conosco anos atrás. É maravilhosa a presença de amigos, é um presente preservar amigos, é como cultivar um jardim. O presente tem que nos dar prazer e normalmente o que não custa nada é o melhor dos presentes, porque vem do coração!Claudia Rodrigues

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  2. Elika!Mas infelismente como dizem o pessoal di funk, tá tudo dominado!E os meios de comunicação que tanto n0os ensina, mas nem tudo é benéfico…Parabén pelo belo conto.Abraço!

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  3. Penso assim como voce, presente é presente, tem que ter um significado… mas nossos filhos não tem culpa de pedirem o que todos pedem, e é assim a frase que os jovens sempre falam: "todo mundo tem….","todo mundo usa…", "todo mundo gosta…", e assimm por diante.Já minha filha, agora com 15 anos, sempre pede algum sinal, coloca leite e biscoitos na porta dos fundos e pensa que Papai Noel passará….Todos nós queremos um sinal, uma luz, uma noticia, um presente, uma lembrança, e sempre queremos mais….Mas o mais importante mesmo são os momentos de festa e alegria que passamos juntos com nossa familia.Adorei tua história, a bananada (ótima idéia), voce é muito linda.

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  4. Elika já era sua fã, agora mais ainda que história linda!Sua filha entenderá essa história um dia.Essa bananana na minha terra chama-se Mariola.Abraços.

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  5. Nossa Elika que bonita a sua historia com a sua amiga. Realmente os presentes de verdade tem muito mais sentimento do que valores materias. O comércio deturpou completamente o espito de natal e dos presentes. Mas mesmo assim ainda sinto que é uma data importante e, se um dia eu ter filhos, lutarei ao maximo contra a influencia da tv!!parabens pelo texto e pela atiutude com sua amiga!bjoos

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  6. Caraca Élika, deixa de ser pão-dura e compre este PSP para a Nareca que ela merece. Compre em dez vezes na americana. Vc sabe que os nossos filhos, tão amados e bem criados entendem o que e a hora que podemos dar-lhes presentes. Adorei a sua história e Narinha com ceteza tb, mas continua querendo o game. Isto não vai fazer dela uma pessoa egoísta e fútil. Conhecemos os nossos pequenos. Pense no lado bom, assim, quando o João for aí com o dele, eles podem trocar joguinhos (hahahah) e bananadas tb. Se vc não der, vou falar com a Greuza, hem!!!rsrsrsrrs. Beijos com muita saudade. Claudia.

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  7. Difícil terminar esse texto sem uma vontade urgente de ter um punhado de bananadas e mais um punhado de amigos como a Manuela ou (e talvez principalmente)de ter sido amigo de infância da Elika.Difícil dizer se o que é mais bacana é a idéia do presnte ou a história que faz com que ele se multiplique pra tanta gente.Alguém já disse que "nesse mundo, a beleza é comum", mas ela fica ainda mais fácil de se encontrar aqui, nesse blog.ObrigadoAndré Nakamura

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  8. ela não era facil!uma pessoa sensacional.uma pena que, com todas as dificuldades que passou, não teve boa escolarização. para vc ter ideia, ela às vezes via políticos no horário eleitoral e lembrava das promessas que eles tinham feito (sem cumprir) quatro anos antes…são gênias diferentes. ela de um jeito, vc do outro.beijoca!

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  9. Mãe eu NÃO quero PSP quero um DS! Entendeu? PSP é legal mas se for comprar compre DS ok? O que não muda nada para você mas faz muita diferença para mim. Ah! Eu realmente não quero bananadas no Natal, de jeito nenhum!Você ainda é a melhor! Te amo!E Tia Claudia, adorei o seu comentário! Tomara que minha mãe te ouça. rsrsrsrsBeijos Nara!

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  10. A televisão martela todos o tempo inteiro. Não há como as coisas serem diferentes. Aliás, existe a fábula, o ensinamento, a educação dos sentimentos, não servirá para agora. A criança quer tudo e agora. Não ficará nada para depois. Ficará, entretanto, a sensibilidade aguçada que fará o papel da bananada daqui algum tempo. Beijos.

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  11. Ahhhhhh…Meu orgulho! Ela é uma amiga e tanto!! Não tivemos mariolas, mas passamos alguns carnavais juntas, viajamos pra Itajubá… e meu presente é ela ser "as próprias mariolas da minha vida" te amo amiga querida… sempre e memso à distância na maioria das vezes… cheguei, agora vou estar por perto esse ano.

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  12. Olha,concordo plenamente. Um PRESENTE sinsero e a melhor coisa que podemos receber, a maior demonstracao de carinho, afeto… realmente cura qualquer coracao ferido. (e um pontinho extra entao… hahahahaha, cura qualquer nota baixa…kkkkkkk)bjs do seu aluno/faVinicius

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  13. Vinícius,esse é um dos meus preferidos. Adoro esse texto.Quanto ao seu ponto, espere sentado (e estudando muito!!!) :-)beijo

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  14. rsrsrspode deixar! (mas que ia ser bom…) ;pbjsVinicius

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  15. Emocionante.. combina com fim de ano onde se renovam as esperanças que tudo se acerte e a gente torce pra paz no mundo…Feliz Natal e um 2012 cheio de surpresas boas e agradáveis beijo grande

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  16. Que história linda, Elika! :)Mais bonito ainda é ver como teus filhos te inspiram. Parabéns pelos três.Mas não vá esquecer que é um DS e não um PSP. :DBeijos.

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