Arquivo do mês: outubro 2010

Capitão Nascimento e Dona Maria José

Depois de enfrentar uma fila fora do comum no Norte Shopping para comprar ingressos no cinema em plena segunda-feira, eu e Nelson entramos na sala de projeção quinze minutos antes de iniciar Tropa de Elite 2 com o intuito de garantir um bom lugar. Menos de cinco minutos depois que sentamos, a sala já estava lotada. O filme, como todos sabem, é um fenômeno de bilheteria. Havia pessoas de todas as idades, cores e tamanhos ansiosas e empolgadíssimas para torcer pelo Capitão Nascimento.
Com poucas luzes ainda acesas, bem antes do aviso para que desligássemos os celulares, uma senhora que pertencia a um grupo de mais umas seis idosas e que por sua vez estavam sentadas na fileira em frente a minha, começou a tossir de tanto rir. As outras estavam bem agitadas também gargalhando. Eu estava atenta a observá-las. Um grupo de senhoras sempre me causa um certo desconforto. Fico logo imaginando que deve ser um bando de viúvas, morando sozinhas depois de uma vida dedicada a um lar movimentado com filhos e que agora estão todos casados e mudaram-se para outros Estados… e de repente, no meio dessas divagações devidamente discutidas na terapia que não está adiantando de nada, algo estranho aconteceu. A senhora que tossiu ficou em pé, agora séria. Olhava para o chão e parecia procurar algo.
– O que foi, Maria José? – Perguntou uma senhora com cabelo acaju.
– Shhshhshshs – cochichou Dona Maria José no ouvido da amiga que imediatamente se levantou também e começou a olhar para o chão.
Não demorou para todas aquelas senhoras estarem na vertical em pleno cinema. Havia uns meninos vestidos com uniforme da rede estadual de ensino sentados ali por perto, mais precisamente em frente a elas que, rapidamente, ofereceram ajuda.
– Tia, perdeu alguma coisa? – Perguntou um garoto alto e negro sentado à frente da senhora-acaju.
– Perdi mas não quero dizer o que foi. – Respondeu Dona Maria José.
– É melhor falar que eles ajudam, Maria José!- Aconselhou uma outra senhora que segurava um pacote grande de m&m´s ainda fechado.
Maria José ainda relutava em responder.
– Fala, tia! Quer ajuda? – Insistiu o outro de cabelo cheio de trancinhas tererê.
– Perdi o pivô.- Disse Maria José envergonhada, mostrando para as velhas amigas e para os meninos um buraco entre os dentes.
Dito isso, as amigas com a ajuda dos meninos de uniforme imediatamente intensificaram a busca naquela penumbra que fica as salas de cinema antes do filme começar.
– O que está acontecendo? – Perguntou uma menina da minha idade sentada logo atrás de mim.
– Maria José perdeu a dentadura. – Respondi no reflexo.
Os meninos, nessa hora, estavam todos tentando iluminar o chão com a parca luz de três celulares juntos.
– Pede pro lanterninha iluminar! – Gritou a menina atrás de mim  se compadecendo com o problema de  Maria José e revelando que não era tão menina assim.
– Que lanterninha? O que é isso? – Interpelou um dos meninos de uniforme lá na frente para a infeliz que não sabe que lanterninha é coisa do tempo dos dinossauros.
– O que está acontecendo? – Perguntou o senhor atrás da menina que não era menina droga nenhuma.
– A senhora ali perdeu a dentadura. – Respondeu um moço com um saco enorme de pipoca duas cadeiras à esquerda da meninossauro.
– Achei! – Gritou o rapaizinho alto de uniforme. – Ah não, era pipoca… – Lamentou-se em seguida.
Por um momento, aquela busca me lembrou o resgate dos 33 mineiros. Vários celulares iluminavam do alto o cocuruto das senhoras que olhavam por debaixo das cadeiras. E o mundo inteiro, a essa altura, já acompanhava o desespero daquela senhora com o sorriso pra lá de comprometido. O filme quase para começar… A pouca luz que tínhamos ia acabar em instantes!
– Deixa pra lá. – Falou Maria José meio descontente e perdendo as forças.
– Desiste, não, tia! Esse troço é caro a beça! – Aconselhou o menino que não sabia o que era  “lanterninha”.
– Não, tia, desiste não! A senhora é brasileira! – Esbravejou um patriótico aluno da rede estadual.

– Vê se melhora. – Falou firme um rapaz bem vestido que veio lá detrás com um celular super bombado que apertando um botão durante três segundos se transformava numa lanterna hiper potente.
Não sei quanto quantos minutos se passaram, mas sei que foram tensos. Estávamos todos com os pescoços esticados com medo das luzes se apagarem e Maria José ficar sem o dente que custou os olhos da cara, como lembrou a senhora-m&m´s.
– Achei! – Vociferou feliz a senhora de cabelo acaju levantando bem alto um dente com um pino  para todos verem que, dessa vez, não era alarme falso.
Todos do cinema, nesse instante, aplaudiram, ovacionaram, eu até dei um abraço forte no Nelson! Um menino que estava com mão cheia de pipoca, com aquela gritaria e batelança de palmas jogou as pipocas para o céu, certamente agradecendo aos deuses por aquele sufoco ter acabado. A amiga de Maria José, feliz da vida, abriu, finalmente, o m&m´s e começou a oferecer para todo mundo. Enfim, um negócio assim de doido e muito bonito de se ver!
– Já valeu o ingresso! – Gritou Nelson emocionado aplaudindo.
Daí, as luzes começaram a se apagar, o filme começou e bem, foi aquilo que todo mundo já sabe.

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Biciquétala! Sabe andar disso?

Yuki: Móin, vamos andar de biciqueta?

Móin: Só se você aprender a falar direito.

Yuki: Eu num sei falá dileito, móin!

Móin: Sabe sim. Fala: lá lá lá.

Yuki: Lá lá lá.

Móin: Fala: Lé lé lé.

Yuki: Lé lé lé.

Móin: Fala: Biciqué.

Yuki: Biciqué.

Móin: Bi.ci.que.lé.

Yuki: Bi.ci.que.lé.

Móin: Bi.ci.que.lé.ta.

Yuki: Bi.ci.que.lé.ta.

Móin: Isso! Agora fala bicicleta!

Yuki: Biciquétala!

Móin: Bicicleta!

Yuki: Biciquétala!

Móin: Bi.ci.queleeeeta!

Yuki: Bicique.leeeta.

Móin: Tia Calááááudia.

Yuki: Tia Calááááudia.

Móin: Isso! Tia Cláudia. Bicicleta!

Yuki: Tia Cáudila. Biciquétala.

Móin:

Yuki: Vamu agola? Vamu andá comigo de biciquétala?

Móin: Agora vamos! Adorei isso… Bóra, meu filho!

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Zapeando sem Controle



Joe Reese

Feriadão em casa e maridão embarcado.

Hideo: Mãe, você acha que a Natália vai ficar chateada comigo se eu for à festa com o Coutinho?

Nara: Mãe, você prometeu que hoje ia comprar esmaltes comigo. Vamos agora ou depois?

Livro: Em 1695, Leibniz publicou “Specimen dynamicum” e “Système nouveau”. Essas publicações se complementam no desenvolvimento do conceito de força como uma substância metafísica e como fenômeno da matéria.

Yuki: Acabeeeeeei, móin!

Email: Água e coca-cola IMPRESSIONANTE!!!!!!

Lucimar: Acabou o gás.

Livro: O que Leibniz diz aqui é que Aristóteles e os filósofos escolásticos tem certamente tentado expressar a unidade das coisas, mas o fizeram com conceitos obscuros e confusos.

Hideo: Mãe, tem um filme maneiraço que eu quero ver com você. Rock Star, tá afim agora?

Email: Fwd: Fw:Enc: *Aviso das Seguradoras – Vale a pena ler pra não cair no golpe dos motoqueiros!!!!

Nara: Mãe, o Jonnhy Depp nem parece a idade que tem, né? Ai, mãe, ele é o máximo!

Yuki: Quelo vê tlem na intenétchi. A intenétchi tá lenta, móin???

Lucimar: Posso fazer lasanha pro almoço hoje?

Livro: Uma ideia atomista produz uma contradição, enquanto composição de pontos matemáticos é impossível. Leibniz conclui assim, que é necessário reintroduzir a forma substancial.

Hideo: Mãe, tem ideia de alguma fantasia para eu ir à festa, caso a Natália não se importe?

Nara: Ai, mãe, essa cor não é linda?

Lucimar: Não tem carne moída.

Livro: Não é possível discutir a diferenciação de Leibniz do conceito de força sem primeiro discutir a metafísica subjacente: força é a essência da verdadeira unidade.

Yuki: Posso chupá o pilulito de molango agola?

Email : Fwd: FW: Técnica para RELAXAR…mto bom…rs…..

Celular: Sogra chamando. Ekinha! Vou almoçar na sua casa amanhã para ver meus netos!

Livro: Há, então, dois níveis de realidade, ambas construídas da matéria e da forma. O que é complicado no sistema de Leibniz…

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Sinal Verde

Estava tirando o carro para levar minha filha Nara de doze anos à escola. Enquanto Nara fechava o portão da garagem, eu fiquei olhando a rua dentro do takimóvel, verificando se havia algum perigo iminente. Aqui em Madureira é assim, temos que ficar sempre espertos senão o moço leva nosso carro sem nem pedir direito.

Nesse momento de a-tensão acabei vendo a Nádia, amiga de infância de Tatiana, minha irmã mais velha. Da mesma forma que eu, Nádia manteve o mesmo CEP desde quando nasceu. Ela sempre foi gordinha. Desde criança. Foi uma adolescente que lutou para diminuir a força da gravidade, às vezes ficava mais magra mas passava um tempo, já estava ela ocupando bastante espaço de novo. Crescemos. Eu pouco, é verdade e Nádia bastante para cima e para os lados. O máximo que fazemos é nos cumprimentarmos quando passamos uma pela outra. Nunca tive intimidade com ela para ir além disso.

Pois bem, hoje a vi levando suas filhas gêmeas de três anos à escola acompanhada do marido que carregava duas mochilas rosas. E pensei: caramba…Nádia nunca emagreceu mesmo pensando bem se ela fosse magra ela não seria a Nádia ou seria? que legal duas filhas iguaizinhas já pensou se Yuki tem um irmão gêmeo a Ta também não mudou nada vou perguntar a ela se está gostando da escola para eu matricular Yuki ano que vem nunca tive intimidade com ela mas que legal duas mochilas rosas o marido tem uma cara boa a família está bonita… as vírgulas são desnecessárias porque nem deu tempo de respirar nessa fração de segundos em que Nara fechava o portão.

Quando Nara entrou no carro e me viu olhando alguma coisa perguntou:

– O que você está olhando, mãe?

– A Nádia, amiga da tia Tata que sempre foi gorda e está levando as filhas gêmeas para escola com o marido.

Engatei a primeira e lá fomos nós!

– Que horror, mãe… Por que ela sempre foi gorda?
– Não faço a menor ideia.
– Por que ela teve gêmeas? Qual o problema dela ser gorda?
– Nenhum.
– Mas você não está aí olhando?
– Estava. Até que você entrou no carro e quis entrar na minha cabeça.
– Puxa, mãe, que horror!
– ???
– Ela só colocou casaco em uma filha!
-Vai ver que a outra não quis colocar, Nara.
– Cruzes, mãe, você virou para mim e disse: olha lá, Nara, a amiga da  tia Tata que é gorda mas é feliz!

– Eu disse isso? Eu nem disse para você olhar nada. Você entrou no carro e me perguntou assim – falei afinando a voz e fazendo cara de retardada – “Mãe, o que você está olhando?” e eu respondi o que estava olhando!!!

– Mas precisava???
– Precisava o que, Nara?
– Nem precisava dizer nada. Você disse: Nara, a amiga da tia Tata sempre foi gorda mas teve gêmeas.
Mas? Eu não disse mas! Eu disse que a amiga da tia Tata sempre foi gorda e que estava levando as filhas para a escola.
– Mas por que você faria essas duas observações? Que ela sempre foi gorda e tem duas filhas?
– Porque era isso que eu estava olhando.
– Isso foi um insulto para mim, mãe! Um in-sul-to!
– ???
– Você quer me dizer- Nara disse engrossando a voz e levantando o dedo indicador- : “viu, Nara? Você pode continuar assim e ainda ser feliz!”.
– Assim como?
– Gorda, eu estou gorda, mãe, você sabe disso, papai falou!
– Nara, vai fazer terapia!
– Mãe, confessa, mãe. Você acha que ela é feliz só porque tem filhas gêmeas e nem acreditava que isso fosse possível e agora está feliz porque viu que eu posso ser feliz do jeito que eu sou. Por isso está rindo agora.
– Nara, eu nem pensei em você quando olhei a Nádia! E estou rindo de seus devaneios.
– Que horror, mãe!
– Nem posso olhar a Nádia com as duas filhas em paz…
– Mas você só ficou olhando porque ela é gordinha.

– Não, fiquei olhando porque ela estava andando na rua e pensei “Olha a Nádia, amiga da tia Tata que sempre foi gorda e está levando as filhas gêmeas para escola com o marido!”. Simples assim: sem quê nem por quê.
– Você não ia pensar “amiga da tia Tata”.
– Nara, isso que dá querer entrar na cabeça dos outros. Os outros não sabem nem por que pensaram isso ou aquilo…
– Mas por que você olhou fixamente, mãe? Eu te conheço…
– Fixamente???
– É, mãe…

Chegamos, enfim-graças-à-Deus, à escola. Observei  a Nara atravessando de forma atrapalhada a Intendente Magalhães e pensei: ” Caramba…a Nara atravessa a Intendente toda atrapalhada ela é ainda muito pequenininha nem sabe atravessar a rua Nara vai ficar maluca se continuar assim ligada em tudo que está perto dela será que Yuki já almoçou ainda tenho que fazer unha hoje e acabar de ler livro do Gusdorf o que será que vai acontecer no Prison Break vou matar o Nelson por ter falado que Nara está gorda…”. E pensando pensando pensando, rapidinho já estava de volta. Ao apontar o carro para a minha garagem, vi a Nádia voltando de mãos dadas com o marido.

Nádia hein…quem diria!

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Pronto. Virei Sogra!
Pre$ente

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Bússolas. Quando arremessá-las?

Irisneide veio do interior de Minas, com seus filhos Emerson e Thales. Um de cinco anos o outro de oito. Chegou com destino certo. Trabalhar na casa de Aline, filha de Penha e minha vizinha. Moramos na mesma vila no subúrbio carioca. Aline terminou o ensino médio ano passado e veio para o Rio fazer um curso profissionalizante. A mãe, o pai e a irmã de Aline moram no mesmo lugar de onde veio Irisneide. Por se conhecerem e por gratidão, Irisneide veio fazer companhia e comida para Aline.

Assim, no início desse ano, meu filho Yuki de quatro anos ganhou de repente dois amiguinhos que, a princípio, tiveram dificuldades em arrumar vaga em uma escola aqui perto. Todos os dias, Yuki brincava com Thales e Emerson. Dividia brinquedo, comida e a atenção de todos da  nossa família.

O problema é que Irisneide é da pá virada. Menina nova, de 22 anos, cheia de vida como dizem os que não a acompanham. Não nasceu para viver sem amigos, sem forró e sem tatuagem e talvez por isso os filhos dela até dormiam de vez em quando aqui em casa e meu filho se divertia tanto quanto Irisneide.

A convivência se estendeu por sete meses até que a patroa descobriu que Aline estava ficando muito sozinha em casa, quando não ficava cuidando de duas crianças enquanto Irisneide estava digamos, balançando o esqueleto não necessariamente ao som de uma música. Penha veio de Minas sem querer conversa. Pegou a danada da Irisneide, o Emerson e o Thales e levou todo mundo de volta. Justo agora que eles haviam conseguido vaga na escola e eu havia comprado copos com o nome deles.

Yuki ficou sem amigos, a casa ficou vazia e com o “copo-Emerson” e o “copo-Thales” no armário que nem deu tempo de dar para eles levarem de presente. Foram embora para Minas e para sempre.
Agora tenho que explicar para uma criança o por quê dele nunca mais poder ver os amigos. Por mais que eu fale que eles foram morar longe, em uma outra casa, em outro Estado, ele não entende. Yuki não aceita tamanha perda sem uma boa e detalhada explicação. A questão é que eu também não entendi direito. Não entendi o por quê do fogo e também não entendi o por quê do gelo. Hoje até fui surpreendida na cozinha olhando os copos fixamente. Não os estava entendendo também. Como vou (se é que posso) dizer para meu filho que viver ultrapassa qualquer entendimento e que é preciso, às vezes, entregar-se à desorientação?

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O que será que meu pé está me dizendo?

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