Arquivo do mês: novembro 2010

Contando as Estrelas

Estou participando de um Congresso em História da Ciência aqui em Salvador. Aprendi já um monte de coisas legais, fiz alguns contatos, conheci ídolos, apresentei meu livro para um monte de gente e, por tabela, fiz um tratamento de choque. Existem terapias que colocam o paciente em contato com o que lhe causa pânico para ver se ele aprende de vez a ser homem. Cá estou eu, vivendo meu maior pesadelo, tendo a visão do inferno a cada segundo. Apesar de dar alguns “ois” nesse congresso, não consegui fazer uma aproximação além da profissional. Resultado? Nos tempos vagos, acabei ficando completamente sozinha e hoje, por exemplo, fui ao Pelourinho tendo ao meu lado somente a minha parca coragem. Cheguei a cogitar a hipótese de não ir a lugar nenhum e curtir uma depressão, mas nem de longe isso combinou comigo.
No final do tratamento, algumas histórias para contar.
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No Mercado Modelo entrei numa loja que vende instrumentos musicais dentre outras coisas esquisitas. Comprei cuíca, pandeiro, pau de chuva e um agogô para o Yuki, meu filho sambista de quatro anos. Mas mesmo após ter finalizado a compra continuei olhando os objetos expostos nas prateleiras.
– O que é isso? – Perguntei apontando um côco com um canudo minúsculo de madeira meio achatado.
– Sabe não?- Respondeu o baiano com o maior sotaque de baiano.
– Sei não. – Saiu a resposta meio assim sem querer.
– É pra fumar maconha. Vou lhé éxplicar como sé usa.- E dito isso o baiano pegou um baseado apagado.
– Carece não, moço. Eu não fumo. – Disse em baianês claro, já arrependida de ter perguntado.
– Mas deixa eu lhé éxplicar para a senhóra aprénder.- Disse o baiano pegando o côco em slow motion.
– Mas eu não vou usar! – E comecei a me afastar do baiano maconheiro com medo de ser presa.
– O nóme disso é côco lôco – Continuou o rapaz lentamente. – A gente énfia o baseado aqui, énfia o canudo no côco, e a fumaça fica présa. Assim, senhóra, ninguém sénte o cheiro, éntende o que estou a lhé dizer?
– Sim, perfeitamente, obrigada. – e comecei a ir embora.
– A fumaça éncontra uma barréira.- Falou o rapaz que pelo visto já havia fumado e não me ouvia e não parava de mostrar a porcaria do côco.
– … – Desesperei-me em silêncio.
– Eu estou lhé explicando isso, senhóra, tenha médo não, mas é que se a senhóra ver alguém com isso vai saber o que está acontécendo. – Justificou calmamente o soteropolitano.
– Obrigada.- Agradeci depois de ter refletido sobre preconceitos e  medos precipitados. – Côco-lôco. Aprendi.
Agora estou espertinha.
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 Voltando para o hotel de táxi imunda, suada, morta de tanto andar, o motorista resolveu puxar assunto:

– A senhóra é daqui não, acértei? – Cutucou-me o motorista.
– Sou não. – Saiu a resposta, de novo, meio assim sem querer.
– Da onde a senhóra veio? – Insistiu o motorista.
– Vim do Rio. – Respondi simplesmente.
– Cónhéço. Ja tive em cópacabana. Fui lá fazér um biscate. Vénder chinélo. Déu certo não…- Estendeu-se o motorista.
– Mas é bonito o Rio, não? – Desvencilhei-me friamente de uma longa história contada em câmara lenta.
– Bónito é. Mas o próblema é que o Rio tem muita subida. Diférénte daqui. – Disse o motorista olhando pro horizonte como se ele (o horizonte (ou o motorista mesmo)) estivesse bem distante.
– Hum hum. – Concordei rápido. Apreensiva com aquela meditação toda repentina no meio do trânsito.
– Aqui não. Aqui em Salvador só tem déscida.
Meodeos… o que esse baiano está me dizendo? Diferente de lugar que tem muita subida é lugar que tem  descida por acaso? Ai, jesuis! Será que ele não sabe que isso é uma questão de referencial?
– Mas, meu senhor, veja bem, tudo que sobe…não desce? E se desce… não foi porque subiu?
– A sénhóra me entendeu diréito não. Lá no Rio de Jánéiro, tem muita subida e aqui, véja bém, é tudo baixo. Ou alto.
Ou não…
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A noite saí caminhando pela orla. Meu hotel fica na praia da Barra, pertinho do farol. A intenção era chegar nele e lá comer um acarajé. Com a iguaria nas mãos, sentei-me na grama, nas mediações do forte. Brisa, acarajé, farol da Barra…até que não posso reclamar. Ao meu lado, próxima a mim, sentou-se uma mulher. Menina nova. Por volta dos vinte anos aparentemente. Também só.
Reconheci a moça assim que olhei para o seu rosto e o brinco cor  rosa-pink que contrastava com a pele negra. Ela era a ascensorista do elevador Lacerda que peguei hoje.
Parênteses. O Elevador Lacerda é um ponto turístico aqui em Salvador. Ele liga a cidade alta à cidade baixa. Mas é apenas um elevador sem nem ao menos uma vista panorâmica. Quente quente quente. Assim que entrei, chamou-me a atenção a ascensorista pelo trabalho que ninguém merece. Aperta botão sobe. Aperta botão desce. Sobe desce, sobe desce, sobe desce…quantas vezes essa coitada faz isso ao dia? E que diabo de brinco feio é esse? Fecha parênteses.
– Te vi hoje trabalhando. – Falei assim, por falar.
– Ah sim, a sénhóra éstéve lá no élévador? – Perguntou com a intenção certamente de ser apenas simpática.

– Estive. Trabalho cansativo esse seu… quente lá dentro, né? – Disse eu limpando a boca com o antebraço já que as duas mãos estavam segurando o acarajé.

– Ah é sim, e por isso eu vénho aqui sémpre que pósso. Eu passo o dia usando o meu dédo indicador apértando bótão e suando. Aqui no fárol… com esse vénto…posso usar meu indicador como deve ser usado.
– ???- Perguntou a minha testa.
– Cóntando as éstrelas.

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