Arquivo do mês: fevereiro 2011

Quando a Imaginação é Mais Importante que o Conhecimento

Quando se convive com uma pessoa durante muito tempo conseguimos às vezes saber exatamente o que se passa na cabeça do indivíduo que tanto nos acompanha; outras vezes não fazemos nem ideia e, como estamos falando de dois seres, essas situações podem acontecer simultaneamente. Foi exatamente isso o que ocorreu entre mim e meu excelentíssimo marido há um mês atrás.
Estávamos na casa de minha sogra em Mangaratiba nos preparando para dormir. Eu não gosto muito de passar a noite lá porque a casa fica perto de muito mato, colada  numa reserva da mata atlântica e onde tem mato tem muitos bichos esquisitos com asas que ao entardecer cismam em nos visitar.  Mas no dia seguinte partiríamos para Ilha Grande com as crianças e a barca sai dali pertinho. Eu estava no quarto com Yuki e Nara que já estavam ressonando. Cômodo fresquinho. Ar condicionado no máximo. Eu estava calma. Serena. Deitada. Com o livro de Zélia Gattai nas mãos. De repente, Nelson coloca só a cabeça para dentro e com os olhos esbugalhados fala:
– Não abre esta porta por nada nesse mundo! – E a fechou em seguida me deixando só de novo com as crianças naquele compartimento gelado.
Levantei-me jogando a Zélia pro alto e abri a porta sem demora. Mantive as pernas bambas dentro do quarto e usei somente o rosto para me certificar do que estava acontecendo lá fora.
– Eu não falei para você não abrir? – Rugiu Nelson ainda com os olhos saltando das órbitas ao me ver com a cara assustada no corredor. Empurrou meu rosto para dentro e fechou inutilmente a porta mais uma vez.
Coloquei a boca numa abertura segura de três centímetros.
– O que está havendo? – E imediatamente posicionei minha pupila na brecha agora de meio centímetro. Nelson se aproximava nervoso.
– Me obedece, mulher! Fecha essa porta! – Bramiu rabioso com a minha indisciplina fantasiando uma esposa menos curiosa e mais obediente.
 Pela fresta eu vi, com a metade de um olho, Nelson com uma vassoura na mão.
– É bicho? – Perguntei com a voz embargada.
Nelson devia estar querendo me proteger e com receio de que eu desmaiasse, acordasse os vizinhos ou tivesse um piripaque devido a minha insectofobia crônica agia daquela forma bronca. Se ele respondesse sim, é bicho, eu teria fechado a porta e trancado com chave. Na hora! Mas não…surtou.
– É tudo! É tudo!!! Fecha a porta! – E mirou com um misto de ódio e pânico um ponto fixo na sala.
Do meu referencial não era possível ver o que ele estava focando sem piscar. Os nossos campos visuais sofriam a intersecção de uma quina de corredor. Também não era louca de sair dali. Já estava toda arrepiada só de pensar… mas, o que é tudo? Como assim tudo??? Essa resposta foi muito esquisita.
– É réptil? – Indaguei visualizando mentalmente uma perereca.
– É tudo! É tudo!!! Entra, mulher!!!! – Replicou sabendo que eu tenho o maior nervoso de anfíbios. Ele realmente estava muito preocupado em preservar a minha paz já inexistente com aquela resposta insana.
– É inseto? É um besourão??? – Interpelei ao me certificar com meu olho esquerdo grudado numa brechinha de nada  que ele estava com a vassoura numa mão e agora com um baigon preto na outra.
Mas por deus! Será que esse homem acredita que se ele não descrever claramente o que está vendo eu vou me acalmar?
– Fecha a pooooooorrrtaaaa! – Bramiu incisivo enquanto sumia por completo do meu campo visual.
Eu obedeci apavorada imaginando meu marido lutando com um bicho muito estranho. Ouvi um barulho seco. Era o som que a vassoura faz quando encontra o chão com muita velocidade e fúria. Mais barulhos de móveis caindo. Dei mais alguns segundos. A minha mão na maçaneta estava só esperando o sinal verde vindo de fora, porém, antes que ele fosse dado eu abri a porta e saí mais branca que ovo  bem cozido.
Nelson estava no banheiro dando descarga com cara de nojo. O bicho estava indo embora e eu fui correndo olhar a aberração. Quando mirei o fundo do vaso o nível da água já havia começado a subir.
– O que era, afinal? Um insetão? Um réptil? Mamífero?- Eu também tenho um pouco de medo de ratos. Nelson sabe disso. -Você está bem? – Preocupei-me ao ver a testa brilhosa de meu herói.
– Era tudo! Tudo!!! – disse balançando a cabeça como se dissesse não. – Vamos dormir. – Delirou.
Fui para o quarto. Esperei ele arrumar a bagunça na sala, tomar mais um banho e se deitar ao meu lado. Sabia que seria complicado obter um esclarecimento dos fatos. Nelson tem essa mania de achar que é melhor eu não saber das coisas para eu não sofrer. Ele acredita realmente que eu padecerei menos na escuridão.
Não poderia mostrar muita ansiedade. Em outras situações isso só piorou.
– Meu amor, se você não me falar o que é, eu vou imaginar o pior! – Disse com a voz mansa fazendo cafuné na cabeça rala de meu protetor que acabara de se deitar ao meu lado.
– Era o pior!!! O pior!!! – Replicou imperioso e sem se deixar seduzir pelos meus gestos.
– Caramba, homem! – Impacientei-me. – O que é um bicho que é tudo? Réptil, inseto e mamífero? – E continuei achando que havia falado todas as classes dos animais. – Caraca, Nelsu! Larga de ser chato! Se coloca no meu lugar! Eu não vou deixar você dormir enquanto eu ficar imaginando você lá fora lutando com um orangotango!
Perdi além da paciência o vocabulário e devo ter perdido também todas as aulas de ciências na vida. Nervosa eu sou assim. Raciocino menos do que quando estou fazendo jump. O ponto digno de nota é que muitas vezes meu marido sabe exatamente o que estou pensando e por conta disso, duas coisas acontecem: ele nem se dá mais conta das minhas gafes e fica fazendo esse tipo de coisa achando que é o melhor para mim. Afe.
Mas dessa vez, eu e meu tom de voz o convencemos a esclarecer o que de fato ocorrera ali fora.
– Tá bom. Tá bom, mas depois não reclama! – E sentou-se na cama olhando-me assustado. – Era uma barata desse tamanho! – Exclamou usando as duas mãos para que eu visualizasse o tamanho da criatura. – Satisfeita?
Não. Padeci à luz da verdade.  Não dormi visualizando aquele inseto caseiro ortóptero com as dimensões de um cachorro. Antes ele tivesse me contado como foi a briga com o ornitorrinco. Parece que nem me conhece…

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“A minha nuvem vai para a mamãe”

É…parece que o ano começou. A novidade-2011 aqui de casa é o Yuki, meu caçulinha de quatro anos, indo à escola.  O evento-primeiro-dia-na-escolinha foi devidamente registrado por mim que o levou, junto com toda a família, munida de óculos de sol (porque estava muito sol e não porque eu ia chorar sabendo que falta pouco agora para eu ter três filhos formados), de máquina fotográfica e de sacolas com quinze toneladas de artigos de papelaria.
Antes de levarmos as crianças à instituição de ensino que escolhemos com o maior cuidado temos que comprar tudo que está na tal lista de material e no primeiro dia de aula entregar à  tia Rose,  a coordenadora pedagógica, não sem antes etiquetar cada item desde mochila até escova de dentes com o nome e a turma da sua cria: Yuki, Pré I, no meu caso. Esse foi um momento delicado e não me lembro de ter me sentido assim e de ter refletido tanto sobre o que é a vida ao etiquetar saboneteiras, copinhos e uma pasta polionda comprados com tanta inquietação na alma como descreverei a seguir.  Meus olhos chegaram a ter um brilho mais úmido. Todos os filhos estudando agora. Muito emocionante isso! Quer dizer, será que Hideo, meu filho adolescente, vai estudar alguma coisa esse ano?!? 
Voltemos ao foco.
A compra do material de uma criança na pré-escola é uma aprovação espiritual se é que isso existe mesmo. Sou professora de física, faço doutorado em filosofia, desenho, pinto e bordo, mas tive que controlar a respiração diante alguns itens como 80 folhas de sulfite A3 (o vendedor poderia me dar até um pedaço de tecido e dizer que isso era sulfite e eu não tinha conhecimento para contestá-lo! 80! Por que não 100?), 01 metro de papel nacarado (sei o que é cartolina e papel crepom, papel NACARADO??? Esse radical “naca” é de quê?), 01 caixa de lápis de cor gigante (gigante? Mas ele é tão pequenininho??? Quão gigante será isso? Será que a mochila que comprei foi muito pequena???), 1 pacote de papel Romitec (Outro papel esquisito??? Deve ser algo moderno porque o sufixo TEC significa altas tecnologias…), pincel chato n° 22 (O vendedor me disse que só tinha o número 20 e eu quase morri porque era um dos últimos itens. Só fiquei imaginando Yukinho não conseguindo fazer um movimento sinuoso na papel color sete (só pode ser nesse papel que eles vão pintar porque o prefixo color quer dizer “vamos colorir aqui”) e todos os amiguinhos rindo dele… eu vou ao inferno, mas meu filho vai ter um pincel número 22!!!), 04 grampos trilho  (Grampo? Como assim grampo???) e 01 pasta polionda verde de 2 cm com alça (caramba…essa foi a pior porque nenhuma loja tinha mais essa de 2 cm, só de 4 cm. Isso deve fazer uma diferença enorme já que essa pasta tem ondas a beça e meu filho será o único com uma pasta com o número de ondas multiplicada por dois. Dependendo do tamanho dessas ondas…o problema é que já estava no inferno e mesmo lá não havia mais a  pasta de 2 cm!!!). Mas, por fim, todos os itens da lista riscados com uma caneta acrilex preta.
E quando eu pensei que já havia feito reflexões suficientes até o momento de  entregar meu filhote nas mãos da tia Marina, eis que chega a hora de buscá-lo. Na mochilinha hot-wheels encontrei o primeiro trabalho feito com a caixa de tubos de cola coloridas 40 ml sem glitter. Ao lado, escrito com a caligrafia da tia, estavam as palavras ditas por ele assim que terminou  a obra. Cá estou eu nas nuvens com o espírito devidamente elevado a um outro patamar e desfrutando dessa sensação boa de entrar numa catedral que eu mesma construí. 

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