Confissões de uma Ignorante

Estou um pouco cansada. Por onde ando sinto-me humilhada pela cultura de amigos, de inimigos, de alunos, de conhecidos e até de gente que acabei de ser apresentada. Não falo somente da cultura apreendida nas universidades e em escolas, mas também da cultura assimilada nos botequins, nas academias, nos shoppings e na Bahia. Quem está ao meu lado sempre leu mais livros do que eu, é filiado a algum partido político, cita com precisão frases de filósofos, estudou mais do que eu, sabe mais física do que eu, pratica mais esportes do que eu, foi a mais congressos do que eu, vai mais a médicos do que eu, sabe mais línguas do que eu, falam melhor do que eu, conhecem mais teatro e música do que eu e sempre bebem mais do que eu.

Basta eu colocar os pés na rua para certificar-me da minha pequenez. Você já leu Kenzaburo? Não? Como não? Você é filha de japonês e não conhece Kenzaburo? Chego a casa correndo, com pressa em ver-me livre de tanta ignorância, entro no site do submarino, compro o livro de Kenzaburo, leio Kenzaburo e vou para a rua de cabeça erguida. A alegria acaba ao me deparar com a primeira pessoa que estabeleço um diálogo. Já usou os cremes da Victoria Secrets? Victoria Secrets? Hã?!? O que é isso, só conheço nívea, johnson e os ácidos retinoicos que a dermatologista prescreve. Você é de marte? Como uma mulher pode não saber o que são os cremes da Victoria Secrets? Lá vou eu correndo, compro os cremes, na verdade, ganho os cremes, passo os cremes, volto às ruas me sentindo uma mulher mais completa e o que ouço? Além de tooodos me perguntando se estou usando Victoria Secrets (como todos conheciam o cheiro menos eu?) ainda apontam um prédio, assim do nada com a maior naturalidade, e falam que aquele desenho lembra Fernand Léger. Quem é esse? Não sabe? Como não sabe quem é Fernand Léger? O grande artista francês especialista em cubismo! Nem vou perguntar o que é cubismo, tenho lá minha ideias sobre uns quadros sem pé nem cabeça, ou com um pé e uma cabeça no meio do quadro, mas é melhor ficar calada. Deve ser isso. Deixa quieto. Quando o assunto é cinema sempre acho que vou arrasar, mas não tarda em chegar um daqueles que ficam classificando filmes pela direção e de diretor eu só conheço o Scorsese e o Spielberg. Também sei quem foi Copola e só! O cara me pergunta se eu já vi filmes do Kubrick. Quem? Stanley Kubrick, não conhece? Jesuis. Não.

De esportes ignoro absolutamente tudo. Por mais que meus pais me expliquem não sei contar os pontos de vôlei e não vejo sentido naquelas pontuações do tênis. Por que não um a zero, dois a três? Que diabos é isso de acertar uma bolinha e ganhar 15 pontos? Depois 30 e depois 40!!!! Não. Desisto. Nas raras vezes em que assisto uma partida de futebol me assusto cada hora que um menino cai. Todos gritam: não foi nada! Não foi nada! E aí vem o slow motion. Nem em câmera lenta eu consigo perceber que o jogador de verde caiu de propósito. Velejar? Eu sei toda a parte teórica porque tem a ver com soma de vetores e coisa e tal e disso eu entendo um pouco, mas me distraio contemplando as velas e esqueço sempre o que é uma bolina. O que é uma bolina? Essa é uma pergunta metafísica que ao ser feita resulta sempre em deslocar o centro de massa do barco e cair no mar. Resultado: sempre vou na direção que o vento sopra e tenho medo de navegar sem companhia.

Estive em Buenos Aires, no Caribe e na Suíça, mas não sabia ao certo onde estava. Nunca soube quem estava fazendo fronteiras comigo e ficava boquiaberta quando via alguém correndo animado para tirar fotos com a estátua de Rousseau ou algum monumento histórico que eu até então desconhecia a existência. Que legal! Uma igreja ortodoxa russa! Meodeos. Como sabem tanto? De história nem sei quais foram os quatro gigantes da Reforma e nem adianta me falar que esquecerei em menos de dois dias!

De bebida eu nada entendo. Não sei o nome de vinhos mais triviais e nem vamos falar da diferença de paladar entre um que custa os olhos da cara e um baratérrimo. Meu organismo carece de uma enzima que metaboliza o álcool e, portanto, não bebo. Quando insisto, desmaio. Pronto. Justificado. Mas comer eu como e como bem e de tudo, embora isso não seja coisa para se vangloriar e muito menos cultura que é o tema em pauta. Para dizer a verdade até passei vergonha ao tentar esnobar um pouco. Estive em Salvador e voltei batendo no peito dizendo que comi um sarapatel delicioso. Crente que estava fazendo bonito quando percebi que todos que me ouviam faziam cara de nojo. Sabe do que é feito o sarapatel, Elika? Alguém sabe? Como todos vocês sabem disso e eu não?

Além de tudo, sou uma leitora completamente devassa. Não posso ler nenhum filósofo e nenhum político. Sou facilmente convencida. Seduzem-me sem a menor resistência. Tenho orgasmos múltiplos sem perceber que estou sendo estuprada. Mas o meu amor não é inabalável. Ao abrir outro livro, lá vou eu de novo sem ao menos me sentir confusa para os braços de um outro bambambã qualquer.

Ando preenchida de indagações, angústias e incertezas, mas não sou infeliz por conta disso. Não transformo essa minha “ignorância” em depressão, mas em força, curiosidade e criatividade. Sobrevivo porque sou como os historiadores. Só explico depois do acontecido e escolho as causas para todos esses efeitos desastrosos. O problema é que, às vezes, eu fraquejo e fico assim. Como hoje. Cansada por ser tão inofensiva.

37 comentários em “Confissões de uma Ignorante

  1. Sem muito tempo…Vamos à última frase do seu texto lindo e, prá variar, criativo/inusitado/autêntico, tal como a autora!Frase típica de quem está de uma ou de outra forma relacionada à Ciência… Incertezas com graus flutuantes de certeza…Está escrito: "Só explico depois do acontecido e escolho as causas para todos esses efeitos desastrosos. O problema é que, às vezes, eu fraquejo e fico assim. Como hoje. Cansada por ser tão inofensiva."Mais um toque de cientificidade típica de Físico Experimental… rsrsO que não significa ser possível prevermos acontecimentos, teoricamente…Quanto à se/me sentir inofensiva/o, por vezes ser/estar inofensivo tem implicações de muita ofensividade… Talvez por ser fução de quem observa o "evento"… O que é/pode ser muito bom!Um beijo!Muita saudade!Marcos Fernandes

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  2. Eu tenho a impressão de que as pessoas acumulam conhecimento como se faz com o dinheiro, para demonstrar uma riqueza inexistente. Sempre serão números, coisas inúteis, ou melhor, dispensáveis, tais como a velocidade média de um bicho preguiça, a distância de "Pega" até "Aqui" e demais curiosidades. As dúvidas que você tem e declara, eu também tenho, e como não sei a resposta de quase nada, conto algumas histórias confiando que o leitor se identifique um pouco e consiga iluminar algum canto obscuro. Além disso: nada. … Vi um filme ontem chamado Mutum, e um garotinho de dez/doze anos, pergunta para a mãe:"Mãe, por que tudo acontece?"….Continue assim, devassa, como eu sou devasso, e convencida até que o primeiro argumento mude a direção do vento que bate no seu nariz. Conte comigo, se precisar de ajuda. Gostei do texto. Ótimo. Beijos.

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  3. Marcos!Será que conseguirei te ver em Foz? Não consigo dar conta dos meus trabalhos do doutorado! Estou querendo mandar um trabalho e cadê o tempo para escrever esse trem???Saudades? Nem me fale! Adorei a sua visita!Beijos

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  4. Ok, Elika,Está muito bem escrito!Agora vou te dar uma ajudinha para levantar sua moral. Os outros vão perguntar "o que é isso?" e você vai dizer de boca cheia "mas vocês não sabem?"Você faz parte de 50% da população japonesa que tem deficiência de aldolase que é a enzima do fígado que age na segunda etapa da metabolização do álcool. O subproduto da primeira etapa da metabolização é tóxico e causa taquicardia, vasodilatação (por isso a cara vermelha rápido) e pode dar até arritmia cardíaca.Como sou do grupo que tem deficiência de aldolase, posso dizer que a vantagem de não beber álcool é que você nunca vai ser apanhada no bafômetro na blitz às 22:00 horas, embora provavelmente será requisitada para dirigir (vá de táxi); não terá o risco de fazer cirrose hepática; não terá de decorar os nomes dos vários tipos de vinho para esnobar para os outros numa conversa que é só para mostrar que tem dinheiro; vai economizar o tal dinheiro para viajar e quando tiver terremoto, você terá certeza que o chão realmente está tremendo e que não é o vinho, e vai ter os reflexos em dia para se proteger.Gostou?Beijos, Elise.

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  5. koe! profs, nem li direito mas ta manero. na verdade li o primeiro paragrafo. essa ignorancia(inveja, né?) q faz as pessoas evoluirem. e acho tbm importante ter pensamento filosofico, apesar de nao conhecer muito de filosofia – nao da pra ser ignorante tratando de filosofia. acho q sao duas virtudes (ou sei la o nome q se da) mais importantes para o ser humano. By René Descartes.

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  6. Quisera eu me exprimir tão bem assim!!Você escreve maravilhosamente bem,profa.,faz corar alguém que se acha de humanas mas que quando se depara com as letras não consegue escrever metade de tudo isso que lê aqui…rsrsrsbeijos

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  7. Um dia percebi que tinha a assinatura de um jornal que não conseguia ler, de uma revista semanal que ficava dentro da embalagem plástica etc etc etc. Ao invés de me sentir infeliz, parei para refletir e "sabiamente", baseado em minha experiência de vida percebi que não precisava de nada disso pra viver e ser feliz. Já é uma RODADA DE PERFIL !!!!!!!!!!! Duvido vc descobrir quem sou eu. KKKKKKKK

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  8. Professora, a cada texto que leio, me torno sua maior fã, pela forma com a qual você se expressa, pela forma com que você me faz refletir sobre tantas 'coisas'. Identifiquei-me bastante com o texto. Nunca pare de escrever, pois sempre estarei aqui lendo, refletindo, admirando :)bjs, amandinha

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  9. Eu sempre achei que a humanidade evoluiu pouco em alguns aspectos. Se há 500.000 anos quem conquistava o lugar mais alto na hierarquia do bando era aquele que batia, mordia e arranhava com mais eficiência, agora trocamos as mordidas no couro pelos arranhões no ego: "Você já ouviu a Nona Sinfonia executada pela Orquestra Filarmônica da Eslovênia? Nããão?". E pronto! Já está o sujeito rebaixado em seu status de gente.Pensando nesse comportamento como algo intrínseco à natureza humana, eu decretava: aquele que nunca decorou uma lista de livros e autores antes de uma reunião social, que atire a primeira pedra. Aí vem a Elika e pimba! Atira esse texto de mestre e acerta direto no coração.Obrigado por mostrar como somos vulneráveis, especialmente à beleza.André Nakamura

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  10. André,Fico feliz em ver tanta gente se identificando com um texto. Realmente esse blog é uma terapia. Nem me sinto mais tão sozinha "desse lado". Sempre bom saber que sou plural.Muito ´gradecida pelo comentário.

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  11. Escritora,Somos grandes em nosso pequeno universo e minúsculos diante do verdadeiro universo. Não há como.Viver e saber é a certeza de que nunca se saberá tudo. Ou, na prática, saber de quase nada.Aproveitemos nossas migalhas pelas esguelhas.Beijoca.

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  12. Elika, vc acaba de ganhar mais um amigo ignorante pra sua coleção. Eu sinto a mesma coisa em varias partes do dia e eu pensava que era o único que sentia isso, hahaha. Gostei muito, muito bem escrito e garanto que muita gente se identificou rs.Beijos

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  13. Estou feliz de ter conhecido você um pouquinho, e saber que compartilhamos uma ignorância assumida. É tão bom partir do princípio que não vamos dar conta… não vamos dar conta dos textos a ler, dos autores que temos que estudar, dos filmes por ver, das peças e dos jornais!!! Nada me angustiava mais que ver a pilha de jornal se acumulando na mesinha da sala. Mas agora eu sei que simplesmente não dou conta. As coisas que sei são poucas, mas eu gosto delas (Acho que é por isso inclusive que eu as conheço). Hoje eu conheci você, um pouquinho, antes mesmo de ler seu texto sobre o Paolo Rossi. E fiquei feliz por isso. Obrigada!

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  14. Adorei o texto, Elika.Me encontrei do início ao fim, mas confesso que não tenho maiores problemas para metabolizar bebidas alcoólicas.E isso é bem angustiante, já que são 02:20AM e ainda estou às voltas com um trabalho ininteligível. Acho que minha pequenez atingiu níveis incomensuráveis.Prometo voltar com menos heidegger na mente para ler seu conto e passear pelo blog.Beijos,Helena.

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  15. Elika,já havia lido o texto e adorado (será que pq tb sou uma leitora devassa??). Hoje, procurei-o para reler. Vc traduziu em palavras o que senti sempre!! Por isso, é uma bambambã! Escreva muito… Beijo,Luciane

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  16. Querida Elika,Para mim este texto simplesmente simboliza um crescimento teu como pessoa. Quando uma pessoa se vê confrontada com tudo no mundo que não sabe e nunca vai saber, chega a conclusão que aquilo que sabe é um infinitésimo daquilo que não sabe, e aceitar isso como natural traz mais paz para a gente. Em poucas palavras, como diria Sócrates, "Eu só sei que nada sei"…

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