Arquivo do mês: novembro 2011

Pilares

Sempre me esquivei de lugares onde as perguntas não tem respostas claras e busquei freneticamente um chão firme para poder pular corda sem medo de que a Terra se deslocasse pela frequência e pela força do impacto de meus pés. Mas toda busca até agora tem sido em vão e isso tem me deixado um pouco cansada. Em cada canto que amarrei o meu bode o chão tremeu e o bicho escapou sem grandes dificuldades. Estressei-me com a religião por não responder de forma clara a nenhuma pergunta que eu fizesse, desiludi-me com a certeza da matemática após ter sido apresentada ao teorema da incompletude de Gödel que disse e provou ser impossível definir um sistema de axiomas completo que seja simultaneamente consistente. Por tabela, comecei a olhar de lado para a minha física uma vez que esta se assenta fortemente na matemática. Agora o meu mamífero herbívoro ruminante cavicórneo está amarrado num curso de pós-graduação em Filosofia cujos solos sofrem terremotos constantes. Quando eu vou acertar, afinal? Se houvesse por essas bandas uma montanha dessas da gente subir e ficar lá no topo meditando sobre a vida, refletindo sobre nossas escolhas, buscando respostas para tantas exclamações, descobrindo o porquê de termos percorrido por esse e não por aquele caminho, eu juro que pagaria para alguém ir lá para mim para voltar com a resposta somente para essa pergunta.

Mas agora que eu falei em chão, lembrei-me de algo que ocorreu quando morava em Pilares. Para ter sido ali, eu tinha menos de quatro anos, não sabia ler e nunca sequer havia pisado numa escola. Na verdade meus pais tentaram algumas vezes, mas ao chegar à porta agarrava-me ao pescoço de mamãe e não havia diretora com sorriso falso que me tirasse daquele colo. Então não menti. Nunca havia ‘pisado’ mesmo numa escola. Quando Tata, minha irmã mais velha, saía de mala, mochila e cuia para o Jardim-Escola Pequeno Céu eu ficava brincando com alguns vizinhos sentindo-me segura e feliz por ter mamãe sempre à distância de um berro.

Havia chovido de manhã e o nosso quintal, uma área que era comum a seis apartamentos, estava ainda um pouco molhado com algumas poças d´água, pois, ao contrário do que parecia (e muitos juraram a mãe mortinha debaixo do trem), o chão não era reto retinho retão. No início da tarde, o céu, para a nossa felicidade e graças à simpatia de Carmem que desenhou seis sóis no chão e jogou um pouco de xixi em todos eles, abriu. Após o cochilinho depois do almoço, as crianças começavam a aparecer devagar e, nesse dia, eu fui a primeira a acordar e sair para brincar depois de beber o nescau.

Ao fitar uma poça rasinha, levei um susto. O céu estava no chão. Lá no fundo bem fundo mesmo do chão! Como podia isso estar acontecendo? Se o céu foi parar no chão, o que ficou no lugar dele? Olhei imediatamente lá para o alto. Não é possível… O céu ainda estava no céu! Olhando para cima e para baixo rapidamente como alguém que está brincando com o jogo dos sete erros, eu constatei, certamente com a mesma surpresa daquele que decompôs pela primeira vez a luz branca, a existência de dois mundos. Um de frente para o outro. Mas algo estranho está acontecendo… Quando aquela nuvenzinha se mexe lá em cima…aquela lá embaixo se mexe também…A imagem era igualzinha! Como pode dois mundos serem exatamente iguais? Por que só do meu quintal a gente consegue ver isso? Quem é a menina do outro lado? Um misto de curiosidade e medo estavam se apossando daquela criança cheia de quatro anos, mas o primeiro sentimento foi mais forte. Bem devagarzinho e plena de coragem enfiei o meu dedo na poça. Nem minha unha que era toda roída até o sabugo entrou toda. Como pode? Rapidamente, levantei-me assustada com medo de ser sugada por aquele mistério. Vou chamar mamãe para ver isso… Ao encher meus pulmões de ar para gritar manhê emudeci. Eram vários os buracos rasos e sem fundo no meu quintal! Nóssinhora me proteja… E se eu correr e pisar em um sem querer? Eu queria gritar, mas estava sem voz assim como ficam algumas pessoas quando veem mais que os próprios olhos.

Em pé sozinha no meio do meu quintal, cercada por tudo o que tem uma causa oculta nessa vida e morrendo de medo de cair em um daqueles buracos e mamãe nunca mais me ver, notei Carmelita e Roselita aparecendo naquele pequeno pátio. Vinham as duas correndo com um pedaço de pão recheado de goiabada pisando nas entradas daqueles túneis que vão para o além, esparramando água para todos os lados sem a menor noção do risco de cada passada e de tudo o que estava sendo destruído com aquela tremenda falta de cautela. Fiz, em vão, um sinal para que elas parassem ou pelo menos tomassem mais cuidado. Em poucos segundos já estava sentindo o cheiro enjoativo de goiaba.

– Olha só o que eu descobri! – Falei eufórica apontando para o reflexo do céu na poça d´água.

As duas continuaram mastigando sem emoção enquanto olhavam para o chão molhado.

– O chão também tem céu! Na verdade, tem dois mundos num só! Tem uma criança ali dentro! Olha!

Porém, enquanto falava o Sol se escondeu por detrás de uma nuvem muito grande de forma que um mundo inteiro havia sumido bem embaixo do meu nariz só restando esse que todos já conhecem. Eu, sem saber ainda das leis que governam o fenômeno da reflexão, interpretei aquilo tudo que aconteceu como um milagre, tal qual a aparição de Nossa Senhora que ocorreu somente para três crianças, Jacinta, Lúcia e Francisco, em Portugal, como mamãe cansava de nos contar e que eu jamais esquecerei.

O céu seguiu nublado e sem chuvas pelo resto da tarde. As poças secaram rapidamente e a minha perplexidade se evaporou junto com a água. Nós andamos de velocípede, brincamos de pique, de amarelinha e acho que até pulamos corda. Mas, a noite algo se condensou. Eu não estava conseguindo dormir e chamei papai.

– Pai, será que aquela criança que me olhou do outro mundo está pensando em mim também? Amanhã você me ajuda a encontrar essa janela de novo no chão? – Indaguei.

Daí, claro, eu tive que explicar tudo para o papai. Ele estava rindo e achando que aquilo era coisa de criança. Papai, por sua vez, teve que explicar muita coisa também para mim já que eu estava angustiada e achando que ele não estava acreditando em nada do que eu estava contando.

Depois, lembro-me de papai falando ‘oyasumi’* e me deixando ainda no escuro.

Então tudo aquilo que pensei foi fruto da minha imaginação? Nunca mais vou poder ver aquela criança que me olhou assustada do outro mundo? Não houve milagre? Todo aquele medo foi em vão? Aquele vislumbre todo foi porque eu sabia tão pouco?

Dormi chateada pensando nessas coisas. Incomodada por tudo ter se tornado tão pequeno. No dia seguinte, enchi com água meu balde de brinquedo, virei-o naquela ligeira concavidade do chão e chamei papai. Quem me garante que sou eu a menina verdadeira e ela o meu reflexo? Certamente não devem ter sido essas as minhas palavras, mas era isso que eu queria saber.

Papai olhou para o homem no chão acompanhado de uma menina segurando um balde vazio. Não sei o que ele pensou, não sei se ele queria livrar-se de um problema ou prender-me o máximo naquele desenlace. “Ninguém”. Foi o que ele me respondeu. Ao ouvi-lo imediatamente espalhei a água para nossa segurança e fiquei feliz por viver de novo num lugar tão interessante.

Não sei por que me lembrei agora de toda essa história, mas algo estranho aconteceu depois de contá-la. Quem sabe a tal da montanha seja plana como uma página em branco de um editor de textos?

Cá estou eu descansada, caminhando saltitante com o meu baldinho cheio d´água e indo afrouxar o nó que dei ao amarrar o meu pequeno mamífero ruminante.

* Boa noite em japonês


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Em luta pela dignidade humana!


Acordei diferente. Hoje será a passeata contra a redistribuição dos royalties da exploração do petróleo e eu decidi na segunda-feira que não posso morrer sem participar de uma passeata. Sinto muita inveja daqueles que já desfilaram com a cara pintada ou apenas gritando algo de cara limpa mesmo no meio de uma multidão. Muito lindo as pessoas andando com os braços direitos levantados e punhos fechados que se movimentam no ritmo de brados retumbantes, segurando faixas, cantando Geraldo Vandré…nossa, acho isso o máximo e sinto até vergonha de nunca ter feito nada parecido. Mas resolvi que seja lá o que forem esses royalties, eles são é nossos. O Rio é nosso! O petróleo é nosso! Abaixo a injustiça!!! Se o impacto é nosso, os royalties também! Vou arrebentar nessa passeata. Estou até me vendo fazendo parte da história. Maneiro.
Senti, porém, pela manhã um desconforto semelhante ao que experimentei na minha abençoada infância quando comungava sem antes me confessar. Precisava resolver uns probleminhas para ir com a consciência tranquila lutar por esse Rio maravilhoso. Ter me lembrado disso hoje me deixou até feliz, confesso. Moro, no entanto, no subúrbio carioca, na parte calma de Madureira. Tenho umas multas para pagar e o Itaú mais perto do meu domicílio fica em Cascadura. O panorama não era dos mais animadores, ainda mais sabendo que não há mais estacionamento em lugar algum do planeta quanto mais em Cascadura. Restavam-me duas opções: ir de ônibus ou ir a pé. Julguei que uma caminhada me faria bem. Precisava me preparar fisicamente para a tarde.
Saí de casa às dez. Entupi-me de protetor solar e lá fui eu com a honra daqueles que não se envergonham dos seus erros e os reconhece sem orgulho, é claro, perante seja lá quem for. Com uma multa vencida por andar na faixa de ônibus em plena avenida Brasil (sem querer), com várias taxas de incêndio atrasadas desde 2009 e mais tantos outros pecados que couberam entre as folhas de um livro de Rubem Braga, caminhei com meu nariz em pé e protegido do Sol. Atravessei aquele viaduto todinho pensando em como o Rio precisa de mim e questionei como esse pobre subúrbio vai sobreviver sem esses Royalties… A falta de beleza dessas bandas nunca me fez sentir tão bem disposta.
De casa até o Itaú, ‘o banco do Rio’, eu vi tanta coisa… Eu vi uma mulher procurando o isqueiro na bolsa com o cigarro pendurado na boca enquanto esperava o trem na estação, eu vi um homem sentado todo agasalhado debaixo do sol e bem no vão central do viaduto, eu vi uma mulata bonita de cabelos longos e de salto alto sorrindo quando os homens da construção fizeram fiu fiu. Vi três pessoas vestidas de iogurte, puxando um carrinho-iogurte vendendo iogurte no saco a uma bagatela de centavos. Eu vi um carrinho de mão cheio de aipim-manteiga na calçada, vi uma mulher vestida de branco que media a pressão por um real. Vi o bicheiro. Vi um açougue cheio de carne pendurada, um coelho pelo avesso também suspenso, e vários frangos assando dentro desse mesmo estabelecimento. Vi uma loja fedorenta de artigos de macumba. Vi a imagem do capeta. Vi uma churrasqueira feita de um tonel por duzentos e noventa e nove reais. Vi um homem com um saco preto enorme de lixo cheio de bucha dentro. (Cinco buchas dois real). Vi o Natal no Amigão. Vi um senhor que conserta panela de pressão sentado consertando uma pipoqueira. Vi duas senhoras com óculos conferindo o troco na porta de uma farmácia. Vi várias pessoas acima do peso comendo pastel e bebendo caldo de cana. Vi dois chineses. Vi vários senhores na praça jogando cartas e conversa fora. Vi crianças também na praça matando aula e mexendo nos celulares. Também na praça, vi um menino no balanço, descalço e com um vidro de cola em uma das mãos. Vi um punhado de coisa nessa praça. Vi umas roupas secando no banco (da praça). Procurei o dono daqueles parcos trajes. Não o vi. Vi uma mulher que fazia artesanato nos panos de prato. Bordava o nosso nome em vinte minutos, um troço de doido. Vi muitos pombos e nenhum passarinho.
Enfim, vi o Itaú.
Até aí, eu estava super animada para lutar contra a injustiça e em defesa do Rio. Mas…
Entrei.
Fiquei quarenta minutos na fila, li seis crônicas do Rubem Braga e quando cheguei no caixa, a moça de unhas decoradas me falou que eu teria que tirar uma segunda via da multa vencida no terminal eletrônico lá embaixo. Fui lá embaixo. Toquei a tela várias vezes e consegui. Apertei sim quando a máquina perguntou se eu queria impresso. Tirei o papel. Subi. Esperei mais um tanto. Quanto ao outro documento, eu teria que conversar com a gerência lá embaixo, disse a moça de unhas decoradas e de cabelos alisados. Fui lá embaixo. Dirigi-me até o local onde cinco mulheres bem vestidas trabalhavam em mesas bem grandes. Li mais cinco crônicas. Desisti de ler. Fui mandar mensagens no celular. O guarda brigou comigo. Não pedi desculpas e ainda passei a frente de duas velhinhas que estavam na fila conversando e nem perceberam que foram chamadas. Perdi a noção. Peguei a porcaria de um número com a gerente que estava com uma bolsa certamente falsificada da Louis Vuitton na mesa. Subi. Aguardei mais um tanto assim de uma crônica e meia. A moça de unhas decoradas, de cabelos alisados e de sobrancelhas ultra-finas disse agora tá tudo certo. Olhei bem dentro daquelas lentes de contato coloridas. Senti necessidade de urrar. Tive vontade de jogar um balde d´água naqueles cabelos.  E eu também queria chutar as mesas e jogar todas as cadeiras longe. Precisa falar um tantão de palavrão aos berros. Visualizei os estudantes da USP me ajudando a quebrar tudo aquilo. Tentei sair de lá correndo e fiquei presa na porta giratória na saída! Tive que mostrar as chaves, o celular interdito e aaaaah como eu queria mostrar uma arma.
Fiz sinal pro ônibus e ele passou direto. Voltei andando, ou melhor, voltei correndo. Era mais ou menos como se tivesse apertado a tecla ‘voltar’ de um controle de DVD na velocidade 4x. Saco de bucha, homem-iogurte, bonecão do capeta, bicheiro, mulher de branco, mendigo, chinês, Natal no Amigão,… aquele pesadelo todo de novo.  Nem  o pedaço de madeira preso no asfalto com pregos para consertar um vazamento fez-me mudar o meu novo foco que está agora no meu umbigo. Precisava me isolar o mais rápido possível e evitar todo e qualquer contato social.
Agora? A minha luta agora será para resgatar a minha dignidade!  E isso não se faz de uma hora para a outra.
Paciência. Não será hoje que farei parte da história. 
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