Pilares

Sempre me esquivei de lugares onde as perguntas não tem respostas claras e busquei freneticamente um chão firme para poder pular corda sem medo de que a Terra se deslocasse pela frequência e pela força do impacto de meus pés. Mas toda busca até agora tem sido em vão e isso tem me deixado um pouco cansada. Em cada canto que amarrei o meu bode o chão tremeu e o bicho escapou sem grandes dificuldades. Estressei-me com a religião por não responder de forma clara a nenhuma pergunta que eu fizesse, desiludi-me com a certeza da matemática após ter sido apresentada ao teorema da incompletude de Gödel que disse e provou ser impossível definir um sistema de axiomas completo que seja simultaneamente consistente. Por tabela, comecei a olhar de lado para a minha física uma vez que esta se assenta fortemente na matemática. Agora o meu mamífero herbívoro ruminante cavicórneo está amarrado num curso de pós-graduação em Filosofia cujos solos sofrem terremotos constantes. Quando eu vou acertar, afinal? Se houvesse por essas bandas uma montanha dessas da gente subir e ficar lá no topo meditando sobre a vida, refletindo sobre nossas escolhas, buscando respostas para tantas exclamações, descobrindo o porquê de termos percorrido por esse e não por aquele caminho, eu juro que pagaria para alguém ir lá para mim para voltar com a resposta somente para essa pergunta.

Mas agora que eu falei em chão, lembrei-me de algo que ocorreu quando morava em Pilares. Para ter sido ali, eu tinha menos de quatro anos, não sabia ler e nunca sequer havia pisado numa escola. Na verdade meus pais tentaram algumas vezes, mas ao chegar à porta agarrava-me ao pescoço de mamãe e não havia diretora com sorriso falso que me tirasse daquele colo. Então não menti. Nunca havia ‘pisado’ mesmo numa escola. Quando Tata, minha irmã mais velha, saía de mala, mochila e cuia para o Jardim-Escola Pequeno Céu eu ficava brincando com alguns vizinhos sentindo-me segura e feliz por ter mamãe sempre à distância de um berro.

Havia chovido de manhã e o nosso quintal, uma área que era comum a seis apartamentos, estava ainda um pouco molhado com algumas poças d´água, pois, ao contrário do que parecia (e muitos juraram a mãe mortinha debaixo do trem), o chão não era reto retinho retão. No início da tarde, o céu, para a nossa felicidade e graças à simpatia de Carmem que desenhou seis sóis no chão e jogou um pouco de xixi em todos eles, abriu. Após o cochilinho depois do almoço, as crianças começavam a aparecer devagar e, nesse dia, eu fui a primeira a acordar e sair para brincar depois de beber o nescau.

Ao fitar uma poça rasinha, levei um susto. O céu estava no chão. Lá no fundo bem fundo mesmo do chão! Como podia isso estar acontecendo? Se o céu foi parar no chão, o que ficou no lugar dele? Olhei imediatamente lá para o alto. Não é possível… O céu ainda estava no céu! Olhando para cima e para baixo rapidamente como alguém que está brincando com o jogo dos sete erros, eu constatei, certamente com a mesma surpresa daquele que decompôs pela primeira vez a luz branca, a existência de dois mundos. Um de frente para o outro. Mas algo estranho está acontecendo… Quando aquela nuvenzinha se mexe lá em cima…aquela lá embaixo se mexe também…A imagem era igualzinha! Como pode dois mundos serem exatamente iguais? Por que só do meu quintal a gente consegue ver isso? Quem é a menina do outro lado? Um misto de curiosidade e medo estavam se apossando daquela criança cheia de quatro anos, mas o primeiro sentimento foi mais forte. Bem devagarzinho e plena de coragem enfiei o meu dedo na poça. Nem minha unha que era toda roída até o sabugo entrou toda. Como pode? Rapidamente, levantei-me assustada com medo de ser sugada por aquele mistério. Vou chamar mamãe para ver isso… Ao encher meus pulmões de ar para gritar manhê emudeci. Eram vários os buracos rasos e sem fundo no meu quintal! Nóssinhora me proteja… E se eu correr e pisar em um sem querer? Eu queria gritar, mas estava sem voz assim como ficam algumas pessoas quando veem mais que os próprios olhos.

Em pé sozinha no meio do meu quintal, cercada por tudo o que tem uma causa oculta nessa vida e morrendo de medo de cair em um daqueles buracos e mamãe nunca mais me ver, notei Carmelita e Roselita aparecendo naquele pequeno pátio. Vinham as duas correndo com um pedaço de pão recheado de goiabada pisando nas entradas daqueles túneis que vão para o além, esparramando água para todos os lados sem a menor noção do risco de cada passada e de tudo o que estava sendo destruído com aquela tremenda falta de cautela. Fiz, em vão, um sinal para que elas parassem ou pelo menos tomassem mais cuidado. Em poucos segundos já estava sentindo o cheiro enjoativo de goiaba.

– Olha só o que eu descobri! – Falei eufórica apontando para o reflexo do céu na poça d´água.

As duas continuaram mastigando sem emoção enquanto olhavam para o chão molhado.

– O chão também tem céu! Na verdade, tem dois mundos num só! Tem uma criança ali dentro! Olha!

Porém, enquanto falava o Sol se escondeu por detrás de uma nuvem muito grande de forma que um mundo inteiro havia sumido bem embaixo do meu nariz só restando esse que todos já conhecem. Eu, sem saber ainda das leis que governam o fenômeno da reflexão, interpretei aquilo tudo que aconteceu como um milagre, tal qual a aparição de Nossa Senhora que ocorreu somente para três crianças, Jacinta, Lúcia e Francisco, em Portugal, como mamãe cansava de nos contar e que eu jamais esquecerei.

O céu seguiu nublado e sem chuvas pelo resto da tarde. As poças secaram rapidamente e a minha perplexidade se evaporou junto com a água. Nós andamos de velocípede, brincamos de pique, de amarelinha e acho que até pulamos corda. Mas, a noite algo se condensou. Eu não estava conseguindo dormir e chamei papai.

– Pai, será que aquela criança que me olhou do outro mundo está pensando em mim também? Amanhã você me ajuda a encontrar essa janela de novo no chão? – Indaguei.

Daí, claro, eu tive que explicar tudo para o papai. Ele estava rindo e achando que aquilo era coisa de criança. Papai, por sua vez, teve que explicar muita coisa também para mim já que eu estava angustiada e achando que ele não estava acreditando em nada do que eu estava contando.

Depois, lembro-me de papai falando ‘oyasumi’* e me deixando ainda no escuro.

Então tudo aquilo que pensei foi fruto da minha imaginação? Nunca mais vou poder ver aquela criança que me olhou assustada do outro mundo? Não houve milagre? Todo aquele medo foi em vão? Aquele vislumbre todo foi porque eu sabia tão pouco?

Dormi chateada pensando nessas coisas. Incomodada por tudo ter se tornado tão pequeno. No dia seguinte, enchi com água meu balde de brinquedo, virei-o naquela ligeira concavidade do chão e chamei papai. Quem me garante que sou eu a menina verdadeira e ela o meu reflexo? Certamente não devem ter sido essas as minhas palavras, mas era isso que eu queria saber.

Papai olhou para o homem no chão acompanhado de uma menina segurando um balde vazio. Não sei o que ele pensou, não sei se ele queria livrar-se de um problema ou prender-me o máximo naquele desenlace. “Ninguém”. Foi o que ele me respondeu. Ao ouvi-lo imediatamente espalhei a água para nossa segurança e fiquei feliz por viver de novo num lugar tão interessante.

Não sei por que me lembrei agora de toda essa história, mas algo estranho aconteceu depois de contá-la. Quem sabe a tal da montanha seja plana como uma página em branco de um editor de textos?

Cá estou eu descansada, caminhando saltitante com o meu baldinho cheio d´água e indo afrouxar o nó que dei ao amarrar o meu pequeno mamífero ruminante.

* Boa noite em japonês


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12 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

12 Respostas para “Pilares

  1. Mais um belo texto literalmente reflexivo.Adorei

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  2. adoreeei, professora! de verdade!

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  3. Fala, Planck!Amei sua visita! Beijo enorme procê, lindona!

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  4. Élika, minha prima,Este mundo científico onde a certeza é tão real que não possa ser mudada amanhã, é tão mais bonito e interessante que o mundo "bem definido" do capitalismo, ou, do nosso dia a dia.Belo texto, lindas lembranças.Muitas saudades.Marcos

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  5. Ô.Nem me fale de saudades…Beijo e abraços pra lá de esmagadores em todos vcs.

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  6. Professora, Esse texto foi realmente interessante. A inocência, curiosidade e ao mesmo tempo inteligência da criança. A partir de textos como esse é que mudamos toda uma maneira de pensar. Você é ótima na escrita!Beijos, sua aluna, Fernanda Frota. (acho que não sabe quem eu sou, mas eu te admiro)Se quiser e puder, entre no meu blog e comente dizendo o que achou: http://aoabrirajanela.blogspot.com/

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  7. Fernanda,Ledo engano…uma pessoa como vc jamais seria transparente para mim.Seu blog está de parabéns. Li um bocado de coisa aqui. Viajei um bocado com os seus devaneios. E olha…vc leva jeito para coisa!Assinei para não te perder jamais e voltar sempre que puder.Grande beijo e muuuuito obrigada pelo comentário!

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  8. Professora,Eu sinceramente achava que você não sabia da minha existência, porque eu sou muito quieta em sala de aula e só falo contigo pra falar de provas ou pra tentar achar meu casaco perdido rs.Muito obrigada! Que orgulho minha professora de física (super inteligente) ter gostado do meu blog =) Ficarei muitíssimo feliz se te encontrar por meu blog novamente.Beijos e adorarei trocar figurinhas com você rs.

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  9. Oi Élika!Depois que comecei a trabalhar com algo que meus cinco sentidos não conseguem detectar, e que as leis da Química não governam por ali, meu mundo se abriu, ganhei uma liberdade imensa.Boa sorte!Luciana do Mazinho

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  10. Tô logo atrás de vc, Lú!=)Beijos e até o próximo samba!

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  11. ElikaJá havia lido este texto e não me lembro porque não comentei, mas agora ao fazê-lo, faço votos para que continue procurando os lugares estáveis e as respostas absolutas, pois assim podemos continuar a nos deleitar com seus textos maravilhosamente reflexivos e bem redigidos.Bjs

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  12. Oi, MAzinho!Obrigada pelo comentário carinhoso.Sim. A busca continua!=)Bjs

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