Defenestra-me?

Antigamente alguns homens olhavam com muita cautela e curiosidade, como fazem aqueles que sofrem de um amor platônico, alguma janela cuja fresta dava-lhes acesso à imagem de alguma moça interessante que se expunha de maneira descuidada. Seja na forma em que a jovem falava ao telefone com as pernas estendidas na cama e que de tempo em tempo levantava uma delas e ficava naquela posição em que as senhorinhas se bronzeiam deitadas sobre uma canga na areia da praia. Seja na forma em que a moça fazia as unhas do pé no sofá de sua sala enquanto via a novela das sete. Ou seja na forma em que escolhia um vestido para ir a alguma festa. Lá estava um apaixonado por esses gestos a observar na espreita a moça à distância de dois prédios. E quando a luz do banheiro se acendia…aaahh, ele ficava atordoado em seus devaneios com a demora do banho e via, em sua imaginação, a mocinha contraindo músculos que ela jamais sequer proferiria.

(Falo somente dos homens porque não faltam nesse mundo das letras poetas e cronistas machos e tarados que colheram da janela da frente inspirações para sua arte. (Mesmo porque homens no banheiro ou vendo televisão, nem nos dias de hoje, inspiram as mulheres para coisa alguma, ainda mais para a arte)).

Mas agora as ventanas são diferentes. Com a invenção do facebook as janelas observadas são as atualizações de status que fazem muitos apaixonados se assemelharem com os de outrora que incitavam a apetência munindo-se com binóculos e até lunetas quando clicam hoje, também no seu anonimato, uma imagem para ampliá-la e contemplá-la como fazemos diante de uma escultura. Embora os tempos sejam outros, os sentimentos permanecem os mesmos e os equívocos se equivalem. Da mesma maneira que uma senhora um tanto convexa do prédio da frente fingia-se irritada por achar que estava sendo espiada por aquele que tinha os olhos fixos na janela – que não era a dela,- não é raro alguém, mergulhado nessa ilusão comum ao ego negligente, acreditar que está sendo admirado e sentir-se melhor e mais interessante. Por sua vez, assim como a moça de antigamente que enrolada na toalha, fechava a cortina não sem antes dirigir a vista para o 306 do edifício defronte – cujo morador desconhecia a sua existência, – existem aqueles que se expõem para uns e, sem querer, despertam a imaginação de outros. Colocam uma música para agradar os ouvidos de sua amada e quem ‘curte’ é outra pessoa.

Fosse Carlos Drummond vivo e estivesse antenado numa rede social, como eu estou de cá colhendo material para uma crônica, diante de tantos olhares desencontrados poderia ter escrito outra ‘Quadrilha’. João curtia Teresa que curtia Raimundo que curtia Maria que curtia Joaquim que curtia Lili que não curtia ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes quem nem tinha entrado para o facebook.

Nem só de apaixonados e namoradeiras, porém, as janelas eram e são ocupadas tanto antigamente como nos dias atuais. Há aqueles que somente para espairecer olham, pelos buracos feitos nas paredes, o movimento da rua na esperança de ver algo interessante e se distrair com alguém lá embaixo fazendo algo excêntrico, de alguma pessoa reconhecer-lhe e oferecer-lhe um tchau animado pela coincidência de ambos estarem imersos em pensamento nenhum; de um amigo passar e balançar a mão fechada como um pêndulo apontando o polegar para a boca, gesto universal daqueles que tem sede. Ou ainda, para seu deleite, abrir e fechar os outros quatro dedos restantes mantendo o olhar fixo em você, acenando a necessidade de sua companhia.

 
 
 

7 Comentários

Arquivado em Crônicas, feicebuque, reflexões

7 Respostas para “Defenestra-me?

  1. Então, Elika,Passei por aqui e tive o prazer de encontrar três postagens tão recentes, que ate levei um susto. Acho que demora pra saber dessas delicias todos os tolos que, como eu, não se embrenham pelo Facebook. Falo deles, seus três-textos-tidos em ordem crescente:- Fugi pra estratosfera também. Tamojuntu!- O verso e o verbo, seus, presentes.- Sei bem o que faz alguém abrir janelas e mais janelas em busca de uma imagem-mensagem que pudesse refazer o sonho…e se quem escolhemos olha e chama, então…Deliciosos como sempre, esses seus quitutes de Natal.Andre Nakamura

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  2. Fala, AndréO Blog permite assinaturas por email, caso te interesse, ok? Nem só de facebook são feitas as propagandas de atualizações. =)Obrigada mais uma vez pelo comentário super simpático.Inté a próxima!

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  3. Adorei a forma como você escreve, e a sua perspectiva, e principalmente a parte que me toca. Aquele que reveste muros e lê livros; acho que isso deveria ser algo normal até mesmo para quebra deste paradigma que é: todo pedreiro é ignorante e sujo.Quanto a mim,eu desejo cada vez mais e mais informação e conhecimento, cultura etc…Luciano Moreira PintoObrigado por sua citação, eu me sinto muito honrado

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  4. ÉlikaQue comparação brilhante.Crônica fantástica.Você enxerga através dos olhares alheios.Parabéns.Marcos

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  5. Muito bom mesmo ! Principalmente o ultimo paragrafo 🙂

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  6. Obrigado, meu primo!Saudades

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