A Falsa Rainha

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte.
No início deste ano, resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava aberta à qualquer tipo de tratamento a despeito de minhas crenças. Acupuntura, lobotomia, shiatsu, pilates, chá de erva amarga, reza forte, banho de pipoca,…qualquer coisa contanto que me tirasse a dor. Acabei mesmo me resolvendo pelo lado tradicional. Postei no feicebuque que sentia dores, muitas dores, dores horríveis!!!, e pedi sugestões dos amigos conectados. Em menos de um minuto, um amigo de escola da época em que eu lia e achava bom Paulo Coelho, respondeu-me prontamente fornecendo um número de telefone para eu entrar em contato.
Não vou me estender muito aqui contando o nosso estranho reencontro, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração. Apenas farei uma pequena observação do tamanho de um só parágrafo. É costume universal quando vemos uma criança depois de um certo intervalo dizer “Nossa! Como ele cresceu!”, por ficarmos realmente assustados menos com o desenvolvimento da criança do que com o constatar do passar do tempo que ocorre para nós; também. Algo mais, porém, ocorre quando reencontramos amigos de infância quer ele tenha virado padre, professor, político ou quer tenha se transformado em um doutor. Percebemos a transformação externa, mas não conseguimos ver um adulto como um outro qualquer na nossa frente. Ao vivermos esse reencontro, não há cabelos brancos e rugas residentes em nossos rostos que nos impeçam de enxergar o menino que ainda é e sempre será, para nós, o amigo reencontrado. Por outro lado, somente nesses reencontros percebemos também que há um lugar dentro da gente em que seremos eternamente infantis. Ver, então, uma criança de jaleco, medindo a minha pressão, auscultando o ritmo das minhas sístoles e diástoles, e olhando a minha íris com uma lanterninha supimpa foi uma experiência que exigiu manobras psicológicas que ninguém havia me ensinado. Enfim, a minha sorte é que Leonam era do tipo “cê-dê-éfe”, ou para usar uma linguagem mais atual, meganerd. Sentava-se sempre lá na frente na sala de aula e não me dava lá tanta atenção naquela época. Vi isso como algo extremamente positivo e procurei só pensar durante a consulta em quanto ele sempre soube mais do que eu. Esse manejo mental evitou que eu pegasse aquele estetoscópio e dissesse para ele “agora é a minha vez de ver como você está!”.
O ponto que me fez vir aqui hoje é que Leonam, ou melhor, o doutor Leonam permitiu-me, sem querer, um outro tipo de viagem. Ele percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. E se eu já sonhava antes por madrugadas afora, agora por elas adentro ando vendo filmes de longa metragem projetados, diria Freud,  na tela do esconderijo secreto: o inconsciente. As dores passaram, mas ao custo de toda manhã eu ter que me olhar no espelho depois de tudo o que me é revelado. Como ocorreu na alvorada de hoje.
Sonhei que ia por uma rua bem íngreme sob a luz da lua cheia, quando a uma curva do caminho dou de cara com um casarão tipo um castelo por onde orbitavam morcegos. As luzes estavam todas acesas de forma que eu poderia ver o que se passava lá dentro. De longe parecia uma festa, de perto, uma orgia. Corpos seminus dançavam freneticamente, gargalhadas estridentes, espadas de brinquedo em riste e chapéus de Napoleão. Não era uma festa. Não era uma orgia. Tratava-se de um hospício. Sozinha,  prontifique-me de sair de lá o mais rápido possível quando de repente, não mais que de repente, surge à minha frente vindo do alto, talvez de uma árvore, um homem pensando estar vestido de homem-aranha. A máscara nada mais era do que uma cueca vermelha onde no buraco das pernas viam-se olhos esbugalhados. Ele ficou naquela posição com os joelhos dobrados e as pernas arreganhadas, uma palma da mão apoiada no chão, o pulso da outra apontando na minha direção. Queria me agredir, mas não sem antes, aparentemente, prender-me com uma teia. Era um louco fugido e eu estava em pânico. Ocorreu-me, então, uma ideia salvadora:
       – Como ousas a interromper o curso de uma Rainha? Fique de pé e volte de onde veio antes que eu mande os cavaleiros das… os cavaleiros das… os cavaleiros das Tilápias te prenderem!
      O maluco imediatamente cumprimentou-me, tal como saudamos uma majestade: curvando-se  e de cabeça baixa, gesto natural dos submissos. Isso feito, saiu pulando em direção ao castelo passando pelos ramos altos que saiam de troncos lenhosos. Comecei a rir no sonho, mas ri tanto e tão alto que o barulho rompeu a barreira onírica e materializou-se nos tímpanos de meu marido que imediatamente acordou e ficou me olhando assustado. Achando que eu estivesse sofrendo, despertou-me acariciando cautelosamente o meu colo.
      Tivesse eu ainda na terapia, ouviria que a doida que existe em mim é trazida num regime altamente rigoroso tal qual uma monarquia. O espelho que fala sem firulas o que vê disse-me que o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma.
     A doida que existe em mim… os doidos que existem em todos nós…Olhando para todos que me rodeiam percebo que a civilização não é passível de sucesso dado que todos nós sequer conquistamos um mínimo de equilíbrio emocional sem muito esforço. A Bíblia já nos diz isso há séculos de forma simbólica. Perdemos no pecado a condição de sermos racionalmente harmoniosos, somos proibidos de ter a visão do paraíso.
        Continuando a olhar a mulher descabelada e com olheiras no objeto de vidro e de metal bem polido, percebi que a doida que existe em mim é responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. É ela, essa descompensada oligofrênica de cabelos  longos e alvoroçados, portadora de um vestido branco, curto e todo rasgado, usando um chapéu grandão cheio de adereços e que vive descalça, que vira e mexe salta de dentro de mim e grita sim! num  momento em que meu ser civilizado, com calças sociais, blusinhas fru-fru e sapatos scarpins ameaça a dizer não a alguma aventura. Foi essa doida quem se apaixonou inúmeras vezes pela mesma pessoa e permitiu que um outro, amado somente uma, fizesse-lhe o primeiro filho. Foi ela quem chorou quando criança, debatendo-se e assustando os vizinhos, a perda de um preá . Foi ela quem negou Jesus Cristo, o único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra, por temer o mesmo fim. É essa doida que não adormece dentro de mim e que, por isso, nunca me deixou ter uma noite completa de sonos, pois, sempre me desperta ao ficar reivindicando aos gritos, muito antes do amanhecer, o direito de correr contra o vento. Essa louca contida, refreada, domesticada, enrustida e subjugada é o legítimo sustentáculo da minha verdadeira personalidade, é a medida da minha condição feminina, heroína e pobre-coitada, branca por necessidade, santa para tantos por tanta obtusidade, soldado obediente, mas que um dia há de revoltar-se contra toda essa conveniente disciplina e libertar de vez de toda essa loucura quando descobrir que nunca fui e que jamais serei uma Rainha.
         As dores de cabeça praticamente não existem mais e creio que ao parar de tomar o remédio elas não voltarão, pois a pureza de minha debilidade, antagonicamente poderosa pela sua fragilidade e pela sua força, está perto de ser coroada com flores, de ser adornada com bijuterias e de ir para as ruas saltitante, orgulhosa do que vê todas as manhãs naquele que reproduz nitidamente as imagens que o defrontam.

 

24 Comentários

Arquivado em Crônicas, reflexões

24 Respostas para “A Falsa Rainha

  1. Cara… você é muito inspiradora! Falou de um jeito sincero e bonito o que normalmente é visto como algo ruim… Gostei bastante 🙂

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  2. Bia,Que bom que agradei uma pessoa sensível como você!Fiquei bem feliz com a sua visita e ainda mais com esse comentário carinhoso.beijos

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  3. ÉlikaAcredito, com esse texto, que você deve estar finalizando o seu doutorado.AbraçosMarcos

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  4. De fato, acertou em cheio.=)Saudades

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  5. Incrível como você consegue fazer textos perfeitos, me vi como personagem deste texto. Adorei, parabéns.Renata

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  6. Olha, me identifiquei com a perturbação causada com o reencontro de colegas da infância. Lembro que vc comentou sobre isso comigo, mas como sempre, nunca terminamos de fato nossos papos. E parabéns pela entendimento que conseguiu sobre seus problemas, vc encontrou sua cura. Se escreveu que sem os remédios vai passar bem, acredite, suspenda-os agora! Estou passando por algo parecido e minha louca vai sair nas aulas de canto que vou iniciar em breve. Viva a liberdade!!!

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  7. Muito legal esse de vc ter ser visto no texto, Renata. O meu maior prazer é quando encontro alguém que se identifique. Isso é sinal que não estamos só no mundo. Obrigada pelo comentário!Beijos

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  8. Elikinha,Que delícia ler o seu texto! Do tipo que é para ser lido e relido muitas vezes. Enfim, um texto para ser saboreado como uma cuca de banana (meu doce preferido!). E esse, prá mim, tem um significado todo especial por eu estar tão diretamente envolvido. Prá comentá-lo como ele realmente merece, só pessoalmente (quem sabe até tomando um chimarrão??), mas, desde já, posso destacar alguns pontos.Que bom que eu não sou o único a olhar para os velhos amigos da maneira como você descreveu: enxergando o essência que está contida dentro do mesmo corpo, vinte anos mais velho. Que bom que não sou anormal por não me sentir maduro demais prá isso e por ainda conseguir revelar o menino que existe em mim.Pelo menos para pessoas como você.E olha, pode não soar original, mas posso dizer que senti o mesmo em relação a você. Tipo assim, é a mesma Elika! Em carne, osso e espontaneidade. Em inteligência, simpatia e beleza.Cara, aí a gente fica pensando, que coisa boa reencontrar uma pessoa assim na vida da gente. Mas que m…#&!* ter passado tanto tempo sem contato!! Feito o dia em que, batendo papo no elevador, fiquei sabendo que teria direito a um mega-aumento no salário por ter feito um ano adicional de residência. Fiquei contente por um lado, puto pelo outro, por constatar quantos anos se passaram sem ter me dado conta do que estava perdendo!Mas como o tempo não volta (nem mesmo dá uma paradinha), a gente tem mais é que olhar prá frente e agradecer pela sorte de um reencontro como esse. Ah, sim, e por que não, agradecer ao feicibúqui, também, vá lá… Esse troço que desvia a atenção da gente do trabalho, faz a gente conjugar o verbo procrastinar em todas as conjugações, mas, pô, é bão demais.Fico megafeliz por ter te reencontrado. Megafeliz por você estar bem. E megafeliz por ter ajudado. Bjs Leonam

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  9. Leonam!Viu, só? O que vc apronta na vida da gente?Qdo prescrever agora amitriptilina avise que um efeito colateral pode ser vc ficar de cara-a-cara com o seu inconsciente. Vai que a pessoa não esteja preparada para encarar uma falsa monarquia… =)Estamos juntos de novo, meu amigo!Beijos procê!

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  10. Querida Elika,Parabéns!O texto está excelente! Sorte a sua ter a louca contida…Vou pegar no pé do Leonam.Beijos, Elise.

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  11. Oi, EliseObrigada!Mas… "o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma."=)A louca está querendo passear mais! Beijos

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  12. Elika, você tem o dom de se superar a cada post! É uma delícia ler o seu blog! Agora cá pra nós: essas pilulinhas do Dr. Leonam, heim? Fiquei curiosa! Que onda, amiga!!!Drica Voivodic

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  13. Oi, Drica! Muito feliz com o seu comentário!!!! Pois é… estou surfando nessas ondas! Amitriptilina. Ela baixa a minha bola e deixa eu sonhar em paz. Assim, com o inconsciente desnudo, fazendo a festa em forma de imagens e cometendo o maior dos erros que é se auto-avaliar cheguei " A Falsa Rainha". =) Fiquei feliz em ter te agradado. Beijos

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  14. Que bom que sua vida é mesmo um blog aberto, Elika. Sigo-a a meia distância, inassiduamente, mas tenho a medida de sua pluralidade pessoal. A mãe de corujice indisfarçada, a docente empenhada em transmitir ciência, a rainha que recusa coroa e trono, a cidadã que ora torce, ora protesta, todas essas Elikas convergem numa só, singular e plural ao mesmo tempo, que produz estes posts tão interessantes, de leitura agradável e todos os etcéteras cabíveis, de quem, na qualidade de amigo virtual só posso mesmo gostar. Agora, tem uma pra mim especial, que é demais, e é essa justamente essa louca aí, amitriptilina e tudo.

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  15. Nossa, JoãoConseguiu me emocionar por aqui…:_)Um "muito obrigada" seria pouco por tamanha cumplicidade.Um grande beijo parar você!

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  16. Puxa, Elika! lamento não ter esbarrado com vc pelos corredores do Pentágono. kkkk Acho que o tempo deve ter sido o vilão deste desencontro… rsrsrs. Sou mais velho, creio.Mas adorei seu texto e sua atitude de criar o blog. Caraca. A cura pela literatura. Exorcizando sintomas e dando vida a personagens e outros eus.Vou te seguir por aqui. Inspiradora demais. Parabéns!BjosLucas Rizzeto

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  17. Lucas,Muito obrigada pelo seu comentário. Será um prazer ter vc por aqui mais vzs.De fato, o blog é uma tentativa de me auto-analisar através da literatura. Descubro coisas que não sabia quando começo a escrever sobre mim mesma. A experiência tem sido bem interessante. Parafraseando Rubem Braga, é a minha forma de viver em voz alta.O blog tem feito tanto sucesso que há um projeto de transformá-lo brevemente no eu terceiro livro. Quem sabe…sonhar não custa nada. =)Beijos pra vc!

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  18. Elika, emocionante conhecer esse seu lado literário profundamente criativo. É bom que continue a sonhar para nos deleitar com suas histórias. Ariete Regina

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  19. Me senti mega chique recebendo um elogio de uma artista como você, Ariete! Obrigada messsssmo. Beijão

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  20. Claudia

    Élika, esses reencontros são muito interessantes, porque realmente não vemos o amigo da infância com a opulência que lhe conferem os cargos assumidos na vida adulta. Eu, por exemplo, toda vez que reencontro alguém da época de escola, da faculdade é como se o tempo tivesse parado e revivo os mesmos sentimentos que tal pessoa me provocava, punk, não? (Rsrrsrsrrs) Reparei, também, que muitos amigos que terminaram seus casamentos, voltaram a namorar pessoas que na infância/adolescência tiveram um certo rolo (rsrsrsrsr). Enfim, acho que as amizades estão intimamente ligadas à época em que foram conquistadas e à essência do que éramos nesse momento específico, daí a vontade de gritar no estetoscópio do médico, como se ele ainda fosse aquele nerd sentado na primeira cadeira. No meu caso, encontrei a pouquíssimo tempo um amigo, super conceituado, que trabalha no Miami Hospital e bastou cinco minutos para eu mandar um: “não fode Afonso” ….rsrsrsrs….Faltava só bater a sirene do recreio……bjs

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  21. Claudia, excelente contribuição!

    Obrigada pelo comentário. Adorei!

    Beijos

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  22. rudimar fernandes de stefani

    Oi Elika, te conheci hoje e já te amei. Meu primeiro contato com vc foi através da ligação do Lula, chorei. Agora não consigo parar de ler suas crônicas(?), nem sei se é esse o nome dos textos que vc escreve e que nos faz chorar, rir, nos enxergar e nos emocionar. Obrigado por existir, vc é luz neste mar de trevas. Abraços de felicidade. Rudi

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  23. Fatima Freire

    Se me permite…A Rainha é falsa, por que há no interior do interior, que alguns chamam de inconsciente, uma princesinha que nunca cresceu (graças a Deus!), que lhe tirava o sono (e, os sonhos, ou os conteúdos oníricos, mais deliciosamente, secretos). Mas, um verdadeiro príncipe, com ares de Peter Pan, veio em seu socorro, com uma poção mágica…e, eis que “a princesinha” se (re)apresentou, porém com, muito ainda, por ser decifrada…Bendita enxaqueca! Bendito Leonam! Agora, você pode, também, sonhar acordada. Feliz Dia Internacional da Mulher! Todas somos Rainhas/Princesas e Doidas, cuja enxaqueca (e a TPM) é a nossa insígnia.
    Lindo texto!…

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