Arquivo do mês: outubro 2012

A Arte e a Ciência

– Mãe, o desenho está bonito? – perguntou o menino de seis aninhos para a mãe que dava aulas de física.

– Está, está lindo, mas está errado. Gotas de chuva são iguais as bolinhas e não assim como o Zé Gotinha com a cabeça afunilada.

– Por que?

Segundos de silêncio para a mãe pensar…

Mais alguns segundos…

O menino olhava para o desenho sem entender que mundo é esse em que as gotinhas de chuva não são como o Zé Gotinha.

(Custava a mãe ter falado para o menino que o desenho estava lindo e ponto final?)

Ok. A mãe pensou em algo.

– Porque as moléculas que formam as gotinhas de chuva dão as mãos de uma forma que  a menor quantidade delas fique com as costas de fora pegando vento. E elas só conseguem fazer isso formando uma bolinha perfeitinha! Qualquer outro formato que elas escolhessem teria mais moléculas pegando vento nas costas e isso não é legal como já cansei de te falar.

– Se não a mãe das moleclas briga?

– Exatamente isso, meu filho.

– E a mãe vai dar sopa pras moleclas depois?

– hm hmmm. Isso.

– E vai mandar as moleclas colocarem camisa?

– É.

– E a mãe vai levar as moleclas pra tomar vacina depois, é?

– É.

– E a mãe das moneclas…

-…meu filho, o desenho está lindo!!!!

– Brigado. Mas eu vou fazer um outro com menos moneclas pegando vento.

Entre a ciência e a arte, vivemos aqui com uma inominável terceira opção.

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Mais de nós dois em:

Limpando a cabeça

Biciquétala

A História do Meu Novo Amor

Viver é desenhar sem borracha

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O Sagrado e o Profano

A mãe ouviu ao fundo a voz do pai gritando com o menino, coisa rara naquela casa, pois o menino que acabara de completar seis aninhos é muito bonzinho e obediente além de cuidar com carinho de todos os bichinhos da casa que consistiam em sete peixes, dois hamsters e um cachorrinho. Querendo saber o que estava acontecendo, a mãe deixou o resto da louça suja na pia e dirigiu-se para o cômodo da casa onde estavam o pai e o filho, o primeiro falando ainda de forma exaltada e com voz embargada, o segundo de cabeça baixa e aparentemente muito envergonhado.
– Você por um acaso… você…por um acaso… se eu ficasse doente, trocaria de pai? Da onde você tirou essa ideia? Com quem você tem andado, meu filho? Eu não esperava ouvir isso de você por toda a educação que nós temos te dado! Isso não é papel de homem, meu filho! Você quer me matar de desgosto falando uma coisa dessas? Você já viu o seu pai fazendo esse tipo de coisa por aí?
A mãe, sem ainda saber o motivo daquele emocionado discurso e sabendo que o pai jamais levantara a voz para criança daquela forma, como boa cúmplice, virou o rosto tenso para o filho e condenou com o olhar aquele ato indecoroso do menino. Balançava a cabeça negativamente e olhava o pai exclamando indignado. Com a mão direita espalmada por cima do peito esquerdo e com cara de choro, a mãe sentia a dor do pai como se fosse a dela.
– Vá beber uma água, Nelson. Se acalme, meu amor. Deixa que eu converso agora com ele, tá? O Kinho não vai fazer isso de novo, né, Kinho? – Alterou o semblante no mesmo instante em que olhou para o menino. O menino sabia que a mãe era mulher braba e curvou-se ainda mais de tanto medo e vergonha.
Nelson saiu do quarto vociferando sozinho pela casa. Onde erramos com ele? Que horror! Que horror! Isso não existe!!! A mãe mal se aproximara do menino quando ele começou a falar baixinho e chorando:
– Mãe, desculpa, eu disse pro pai que se ele mudasse eu ia com ele, que eu não vou deixar nunca o pai sozinho. Eu só quero ver o pai feliz…descuuuulpa, mãezinha, – soluçava nas vírgulas o menino arrependido – eu falei, mãezinha, que eu ia com ele… eu não quero ver mais o pai sofrer, mãe. Eu pensei que ele ia ficar mais feliz se a gente mudasse, mãe! Me desculpa, mãezinha…
– Ãhn? Mudar pra onde, Jesus? – Perguntou a mãe sem entender patavinas.
– Pro Fluminense, mãe. O Flamengo só perde… me desculpa, mãe, me desculpa…
O menino aprendera uma grande lição. Com o sagrado das pessoas não se mexe e que um homem não torce por um time, mas o consagra e o confunde com a própria consciência que tem de si mesmo.
– Ãhn?

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Despindo Maria Lúcia

Maria Lúcia havia tomado um banho demorado. Após secar-se, hidratou a pele com óleo de semente de uva. Perfumou-se. O dia estava lindo e combinava com o seu vestido longo e estampado. De salto Anabela, levemente maquiada e com uma bolsa grande e estilosa pendurada no ombro direito entrou no seu carro possante cujo estacionamento era em uma das ruas de Copacabana. Virou a chave na ignição, ligou o ar condicionado, colocou o novo CD da Marisa Monte, ajeitou os retrovisores quando foi surpreendida por uma menina suja que batia na janela.

A princípio, Maria Lúcia sem ao menos saber o que a pobre menina queria, balançou o indicador de um lado para o outro, intercalando esse gesto com outro meneio negativo quando apontamos o polegar para baixo. A menina insistiu para que Maria Lúcia abaixasse o vidro e a moça de pele macia e aromatizada permitiu que somente uma frase passasse por dois centímetros de sua atenção.

– Posso ir com você até o centro? – Perguntou Stéphanny que de princesa nem o nome conseguiu ter.

– Queridinha, não estou indo para a cidade tá, meu bem? – Mentiu com serenidade e de forma espontânea Maria Lúcia que apesar de ter pronunciado inverdades o fez com carinho – não perceptível pelo vidro.

Assim, Maria Lúcia saiu da vaga em que estacionara e em menos de dois minutos estava deslizando pelo asfalto negro da Avenida Atlântica. A moça cuja pele estava coberta com estampas de flores partia otimista em direção ao centro da cidade para enfrentar a única possibilidade umbrosa naquele dia desanuviado: a consulta marcada com o seu ginecologista.

No entanto, algo aconteceu. O rosto sujo de Stephanny aparecia no meio dos carros, nos sinais fechados, na negritude do asfalto. Por que você mentiu, Maria Lucia? Era uma dessas vozes que parecem ser do além, mas que na verdade são de um grilo-falante. Ora, por que! Porque eu posso ser assaltada, a menina pode estar armada com um caco de vidro, roubar meu relógio da Mikael Kors! Ora, Maria Lúcia, não seja ridícula! Disse o Grilo-falante. Aquela menina lá tinha jeito de quem queria seu relógio? Por que diabos uma pessoa que pretende assaltar outra pediria carona com tanta humildade? Mas, Maria Lúcia estava relutante. Mandou o Grilo para os confins do inferno, pois não havia do que se culpar. A menina poderia muito bem pegar uma condução. Estava aparentemente bastante saudável para isso.

Como os mais prósperos e afortunados são insensíveis! Nós todos que já vimos uma cena semelhante sabemos que Stéphanny não pega ônibus porque não tem dinheiro algum! A pobre-menina passará o dia todo pedindo esmolas e muitos nem terão a delicadeza de Maria Lúcia de contar-lhe uma mentira.

E lá seguia Maria Lúcia com o corpo limpo e a alma lavada, toda dona de si dentro daquele vestido adornado com flores não cheirosas. Porém, antes mesmo de entrar no túnel, Maria Lúcia não mais se sentia tão bonita quanto outrora. A roupa lhe parecia muito papagaiada, os sapatos não combinavam com a estampa do tecido, o batom era vermelho demais…O que me custava ter dado uma carona a uma menina? Deixa isso pra lá, Maria Lúcia. O mundo não vai mudar com esse audacioso gesto de caridade! Mas e se essa menina foi a minha “prova” aqui na Terra? Às vezes pensamos que Deus será claro ao nos oferecer a redenção e a salvação, mas vai que estamos enganados? Vai que Ele se disfarça como o Diabo? Vai que Deus queria decidir o meu destino hoje com esse pedido de carona? Aquela tamanha humildade bem estava me parecendo suspeita… De onde viria? Porra, Maria Lúcia, como você é burra! Deus é super dissimulado! Aquele pedido de carona era fingimento! O que Deus queria ao usar aquela máscara era te testar!

Maria Lúcia ficou pálida. O túnel Rebouças lhe pareceu como o caminho para as profundezas do inferno e ela não poderia passar por ele de maneira alguma. Pegou o primeiro retorno.

E agora, Maria Lúcia, vai dizer o que para a menina? Que esqueceu alguma coisa? Que se arrependeu de ter mentido? E se a fedelha não estiver mais lá, Maria Lúcia? O que será de você?

Stéphanny estava ali perto no sinal segurando uma moeda de dez centavos mendigando pelos vidros mais moedas iguais a que firmava entre os dedos. Os motoristas fingiam nada ver. Maria Lúcia chamou a pequena gritando “Ei, garota! Ei! Vem cá!”. Stéphanny foi até Maria Lúcia que começou a gaguejar se explicando, dizendo que havia se esquecido para onde ia, que o médico dela possuía dois consultórios, que ela estava ficando surda e que não havia entendido direito o que a menina queria, que patati patatá…Stéphanny não parecia interessada em nada daquilo. Entrou no carro como se já soubesse que a madame voltaria e ficou o caminho inteiro respondendo com um português todo errado às perguntas de Maria Lúcia. A vida de Stéphanny daria um outro conto que deixarei para uma outra oportunidade. O ponto é que Maria Lúcia estava feliz e aliviada em ter ajudado uma coitada desafortunada e carente, a despeito do carro ter ficado com um odor desagradável mesmo depois da guria ter saído.

O médico deu péssimas notícias à Maria Lúcia. Ela teria que começar urgentemente uma quimioterapia e, muito em breve, possivelmente ser submetida a uma mastectomia.

Stéphanny realmente não reconheceu todo o esforço de Maria Lúcia.

Maldita seja.

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