Arquivo do mês: janeiro 2013

Sofia, Marilene, Clarice e Mais Tantos Outros.

Sofia possuía o hábito de ir toda semana a um mesmo salão de beleza perto de sua casa, localizado no subúrbio do Rio de Janeiro, para que a manicure Marilene cuidasse das unhas de suas mãos e de seus pés. Avessa àquele ambiente, Sofia sempre ia acompanhada de um livro, costume esse que não passava despercebido aos olhos de Marilene. Entre um cuidado e outro com as extremidades dos dedos dos pés de sua cliente, Marilene procurava ao menos ler (pronunciando sílaba por sílaba sem que se ouvisse um som saindo de sua boca) o título do livro quando a capa era-lhe acessível aos seus olhos verdes. Quando Sofia fechava o livro por algum motivo, Marilene sempre perguntava do que se tratava a leitura e a resposta de Sofia era vaga demais para a pobre da Marilene: literatura. Na semana seguinte ou no máximo quinze dias depois, a mesma pergunta já que o livro era sempre diferente. E a mesma resposta ininteligível para Marilene. Sofia era amante de livros cheio de histórias e Marilene não entendia como sua cliente não se cansava de ler sempre sobre um mesmo assunto. Literatura.

Por um motivo que é bastante óbvio ligado à matemática e à cifrões e que não aprofundaremos no assunto, o salão faliu. Marilene diante dessa notícia e espertinha que só resolveu manter algumas de suas clientes atendendo-as em domicílio. Ao invés de Sofia ir até Marilene, agora Marilene que ia até Sofia tal como Maomé foi às montanhas com a diferença de que essas jamais tinham ido até Maomé.

Sofia agora, no silêncio de sua casa, permitiu que alguns diálogos fossem travados com sua manicure de forma que algo além de unhas pintadas era somado àquela relação. Os filhos de ambas passaram a ser tratados pelos nomes. Da vida de uma, a outra grande parte sabia e a vida da outra, que frequentara a escola por apenas seis anos, Sofia sem querer modificou.
Houve um dia em que Marilene, sentindo-se enfim segura, resolveu perguntar algo que ela jamais havia tido coragem. Por que Sofia lia tanto sobre o mesmo assunto. A moça demorou a entender a pergunta de sua curiosa manicure e após algumas frases desconexas relembrando o passado em que trabalhava no salão e alguns títulos de livros associados à cores de esmalte, Sofia enfim compreendeu. E da posse dessa compreensão sobre o mundo de Marilene, Sofia resolveu que responderia à sua manicure. Mas sem explicar. De uma forma que Marilene além de entender, entrasse um pouco nesse universo formado de letras impressas que emocionam e modificam quem por ele viaja. Literatura.

Foi então que ao invés de ler em silêncio, Sofia agora lia em voz alta contos de Clarice que cabiam naqueles rápidos e meu Deus cada vez mais rápidos minutos enquanto as cutículas lhe eram subtraídas. Seria um conto por semana. O primeiro foi “Felicidade Clandestina”. Conforme o conto avançava e a menina de Clarice sofria por não conseguir um livro emprestado, Marilene acelerava o abrir e fechar do alicate e por fim, antes de ter terminado o serviço, tinha seus olhos verdes úmidos que acompanhavam fixos as frases de Clarice lidas por Sofia. O conto terminara e Marilene não voltara ao seu serviço imediatamente. Levou alguns minutos digerindo todo o alimento recebido pelos ouvidos. Voltou em silêncio o delicado trabalho. Coloriu as unhas dos pés de Sofia. Em silêncio. Limpando de forma intermitente seus olhos e seu nariz com a parte de fora de sua mão direita. Silêncio.

Na semana seguinte, Sofia lera “Restos de Carnaval” para Marilene. No momento que a menina de Clarice conseguiu uma fantasia de papel crepom porque havia sobrado material da vestimenta de carnaval de outra criança, Marilene disse aahhhh no mesmo instante em que levou a mão que segurava o pincel úmido de esmalte ao peito sujando-lhe a camisa. Quando Clarice ao fim, mostra-nos o desabrochar de uma rosa, lá estava Marilene de novo com o serviço parado. Nem se importando com o vidro de esmalte destampado que perdia sua fluidez ao contato com o ar que Marilene inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava inspirava expirava até que as lágrimas enfim corressem pela sua face contraída.

Quando Sofia leu “Miopia Progressiva”, Marilene ficou atônita. A ideia de um menino míope que percebe que a chave de sua inteligência não estava nem com ele e nem com ninguém, que por intermédio dessa prematura aceitação este menino tenha vivido em serena curiosidade, ao perceber pelos olhos míopes do menino de Clarice o relance mais profundo e simples do universo em que vivia e que por vezes devemos tirar nossos óculos para melhor enxergar… ah isso tudo perturbou muito a pobre da Marilene como desnorteia a qualquer leitor que descortina Clarice.

“Perdoando Deus” Marilene não entendeu. De fato Clarice lispectora muito intensamente. Fala que jamais se habituará a ela porque ela, que dela só conseguiu foi se submeter a ela mesma, pois é muito mais inexorável do que ela, ela estava querendo se compensar dela mesma com uma terra menos violenta que ela. Isso era demais realmente para qualquer mortal. Sofia que pensava que havia entendido Clarice, não conseguiu explicá-la para Marilene. E bem se sabe que o que não conseguimos ensinar é porque não se foi apreendido. “O Ovo e a Galinha” não foi feito para ser entendido mesmo e sim acomodado à forma da mente de quem o lê. Sofia preparou bem Marilene para recebê-lo seja lá do jeito que ela recebesse. Explicou que se lesse outro dia, Marilene sentiria outra coisa e quantas vezes fosse lido as mesmas tantas o conto seria diferentemente recepcionado. Marilene adorou.

Durante o intervalo de uma semana em que Marilene demorava para voltar à casa de Sofia, ela tentava relembrar de cada parágrafo de Clarice, cada etapa do conto para que pudesse ela também contar para outras pessoas e enternecê-las. Ao fazê-lo, percebeu que as pessoas para quem repetia a história não se emocionavam tanto quanto ela ao receber Clarice. Marilene não entendia porque não comovia. Ao retornar à casa de sua cliente ledora, pedia para que Sofia lesse o conto que ela, Marilene, havia tentado reproduzir por si mesma e falhara. E falhou. E continuava falhando toda vez que resolvia contar um conto que lhe fora lido.

Até que um dia Marilene pediu que Sofia imprimisse no “computadô alguns conto” para que ela pudesse ler para seu marido e para seus filhos. Sofia fez melhor e deu para sua manicure um presente comprado há tempos e que estava só esperando ser desejado: Clarice na Cabeceira, um livro de contos consagrados de Clarice Lispector.

Na semana seguinte: Fernando Sabino, Marilene. Marilene, Fernando Sabino. E lá ia Sofia após breves apresentações fazer Marilene morrer de rir com “Deixa o Alfredo Falar”, “Aflições de um Noivo” e “Conversa de Botequim”. Marilene, Rubem Braga. Rubem, Marilene. Pronto. Marilene queria levar Rubem Braga para casa de qualquer jeito. Mário tem que conhecer isso, dizia a Manicure. Luis Fernando Veríssimo, J.J. Veiga, Millôr, Raquel de Queiroz … Marilene queria que todos fossem morar com ela.

Sofia até onde sabemos ainda lê para Marilene enquanto suas unhas recebem seus cuidados. A manicure que estava acima do peso sempre gostou de receber de suas clientes uma amostra de um prato feito por elas em casa, mas sempre perguntava como prepará-lo para que toda a sua família pudesse, na medida do possível, também degustá-lo. Sendo assim, Sofia mostrou para Marilene os melhores sebos do Rio e as bibliotecas públicas as quais todos tem acesso.

Marilene enfim entendeu que um mesmo tipo de assunto pode ser inesgotável.

A mente que não conseguia imaginar um mundo sem água e energia elétrica agora é incapaz de conceber um mundo sem livros. A manicure que morria de medo da solidão agora com isso não se preocupa mais. Ela que imaginava o paraíso repleto de cachoeiras, árvores e anjos agora pressupõe que ele seja uma espécie de livraria. A mulher que se julgava analfabeta porque lia com dificuldade (que ainda não foi sanada por completo) agora se pergunta sobre os que sabem ler e não leem. Os olhos verdes que se viam prazenteiros de algumas maneiras agora somaram a essas tantas uma outra .

Incomensurável pela sua infinitude, mas que também é uma forma de felicidade.

Literatura.

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A ilustração desse texto é obra do artista Sergio Ricciuto Conte.


 

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Tudo em seu Devido Lugar


Quando somos bem ou mal educados por uma família achamos natural o que vemos ou ouvimos em casa. Ao cair no mundo, começamos a estranhar as diferenças e questionar o certo e o errado em vários referenciais diferentes da nossa morada. Quando fui pela primeira vez para a escola com seis anos, deparei-me com o fato de estar aprendendo algo errado com meus pais como a pronúncia das palavras. A partir de então, comecei a fingir que acreditava em tudo o que eles me diziam sem mais nem sequer prestar muita atenção na forma em que as palavras eram articuladas.
(Papai é japonês e possuía dificuldades naturais à sua etnia com erres e eles. Marília, colírio, por exemplo, eram um plobremaço. Mamãe, por causa de um fenômeno fonético já explicado por historiadores e que nada compromete a sua inteligência, falava Cráudia, chicrete, pranta, ingrês, frauta,…o que atrapalhava menos a papai do que a nós que aprendemos a nos expressar com os dois.)
Dentro apenas de mim mesma, decidi que não mais limitaria a duas pessoas a responsabilidade de ensinar-me o que era o direito e o desacertado a fazer nessa vida. E aos quatorze anos, já namorando com  aquele que seria o meu marido, comecei a frequentar uma residência muito distinta da minha, a começar pelo número reduzido de pessoas: a casa organizada da minha sogra. Um porta-retrato tirado do lugar e recolocado em um ângulo diferente era percebido e imediatamente reajustado de forma que em qualquer cômodo da casa em que entrávamos, tudo estava milimetricamente em ordem e organizado como nos cenários de novela. E em matéria de limpeza era tal e qual um bom consultório de dentista. Minha sogra havia me ensinado que a casa da gente reflete como anda a nossa cabeça. Se nos deparamos com um ambiente sem ordem, dizia ela, pode ter certeza de que a pessoa que lá vive está de alguma forma descompensada. Achei aquilo o máximo e mega correto.
Com o tempo, ao voltar para a minha vivenda o que jamais me incomodava começou a me importunar: a bagunça feita pelos meus irmãos e também pelos meus próprios pais. Fosse nos quartos, na sala, no banheiro ou na cozinha eu ficava boquiaberta com o desleixo de todos e fazia o que deveria ser feito: arrumar, pois assim os ajudaria a encontrar o equilíbrio interno que lhes faltava.
Aconteceu que um dia, já com mais idade, fui a uma confraternização de final de ano na casa do tio Nero e da tia Neide, pais da prima Silvana, parentes de minha sogra. Lembro-me como se fosse hoje o que senti ao observar aquela moradia em que visitei somente uma vez. Era tudo muito simples, os tios recém-conhecidos eram pessoas extremamente humildes, mas não havia dúvidas que cuidavam daquele simpático cafofo com muito amor e carinho a despeito de ter nitidamente objetos fora do lugar. Não hesito em dizer que ali foi um dos lugares mais bonitos em que já pisei.
Alguns meses se passaram. Recém-casada e completamente neurótica com a arrumação, por algum motivo ligado a comemoração e festa, fomos à casa da prima Silvana, lá no Recreio. Casa grande, bonita, em condomínio fechado e tudo! Tio Nero já era falecido, mas a tia Neide estava lá. Viria a deixar saudades de sua doçura pouco tempo depois. Como de costume, Silvana, uma mulher que aos meus olhos era bem resolvida e super determinada, convidou-me para conhecer a parte de dentro daquela imponente habitação e eu aceitei prontamente cheia de curiosidade.
A casa estava uma zona segundo meus novos parâmetros sograis! Silvana nem sequer se desculpou e mostrava cada cômodo bagunçado por seus filhos eu diria até com muito orgulho. Assim foi com a sala cheia de fitas e consoles de vídeo-game, com as camas removidas e as roupas jogadas no quarto das meninas. Mas, de uma forma estranha, senti exatamente o mesmo de quando pisei na casa de seus pais. Mais uma vez, eu estava dentro de um lar cheio de vida bem vivida.
Onde a minha sogra havia errado quando disse que anarquia de nossa casa reflete a balbúrdia de nossa mente? Em parte, ela tem razão, pois, nossa casa deve ser o centro de resolução de nossos problemas. E, para ser um local onde vivem companheiros que, mesmo na divergência, se apóiam e nas lutas se solidarizam, é bom que este seja realmente limpo e organizado. Mas, eu agora acrescentaria: de uma forma que nos reconheçamos e que nos identifiquemos quando estamos nele. Para que tenhamos pressa em chegar e para que retardemos ao máximo a nossa saída, a nossa morada deve ser arrumada de um jeito que nos sobre tempo de viver nela. 
Há de se gastar alguns minutos afofando as almofadas, esticando lençóis, limpando, esterilizando, quiçá ajeitando os porta-retratos!  Mas nada que impeça um ‘quando’ bem demorado para tirar os livros das estantes e um ‘onde’ bem espaçoso em que as crianças possam ser criativas. A forma em que vivemos em nosso lar não deve nos envergonhar mas sim nos encher de orgulho diante das visitas. E isso, a despeito de toda a admiração e carinho que tenho pela minha sogra, eu aprendi mesmo foi com os meus pais. Só percebi que eles estavam certos quando tive o prazer de conhecer tio Nero e  tia Neide e o  deleite de ser apresentada ao angu de caroço da prima Silvana pelos seus olhos repletos de vanglória.
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O quadro que ilustra esse texto é de CHILDE HASSAM e se chama A sala das flores.

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