Naquela Mesa

Mascaras

Ontem almocei sozinha em um restaurante nos arredores do Maracanã. Antigamente eu tinha problemas sérios em comer sem companhia, até mesmo dentro de casa. Preferia ficar sem comer do que me sentar a uma mesa sem ter com quem conversar. Hoje eu  tenho  só problemas em relação a isso. Sem  adjetivos. Probleminhas que, digamos, o celular resolveu. O ponto é que estou em períodos de abstinência em relação à tecnologia, evitando ao máximo usá-la na tentativa de ficar com um percentual maior de mim nos lugares onde estou.

No restaurante, cinco mesas ocupadas. Seis, contando com a minha. Abrem-se  os guardanapos.

Mesa um: Um casal e um filho ainda de uniforme. Ela corta o bife para a criança enquanto o pai mastiga e fala ao mesmo tempo. A mãe pergunta pro filho se está bom e o homem mastiga e fala ao mesmo tempo. A mãe fala para o filho comer tudo enquanto o homem mastiga e fala ao mesmo tempo. A mãe prova o suco do filho e coloca mais açúcar enquanto o homem mastiga e fala ao mesmo tempo. O homem não é o pai da criança. Os pais não falam tanto assim com as mães.
Mesa dois: Três amigos que não se viam há muito tempo. Todos eles riem e falam alto. Gargalhadas estridentes e o assunto oscila entre futebol e mulher. Grandes chances d´eu estar certa. Os três bebem chope e há momentos em que os três falam ao mesmo tempo. O celular é pego por um, digamos o amigo A, que imediatamente mostra algo para os outros dois, o B e o C, que sorriem olhando a tela do aparelho (Eu estava parcialmente errada). Depois B faz o mesmo. A e C sorriem olhando para o celular de B. C não tem nada para mostrar no celular. Alguns segundos em silêncio. A e B guardam os celulares. A e B voltam a falar de forma bastante animada. C está só ouvindo mas parece não estar mais ali.
Mesa três: Duas amigas. Uma fala sem parar. Espeta a carne do prato com mais força que a necessária. Corta a carne com mais pressão que a necessária. Serra a carne com muita velocidade, mas ela não está com pressa. Ela não enfia a carne na boca. Continua falando falando falando com um pequeno pedaço da carne enfiada na ponta do garfo. A outra só ouve e come seu espaguete.
Mesa quatro: Um casal comendo discretamente. Ambos devem ter por volta de seus quarenta anos. O rapaz ouve com os olhos o que a moça está dizendo. Ela come pouco, quase não enche o garfo. Ele interage com ela no diálogo. Ele pergunta algo. Ela balança a cabeça dizendo que sim. Ele pede um suco ao garçom.
Mesa cinco: Cinco amigos se apertaram para caberem todos à mesa de quatro lugares. Duas mulheres e três homens. Todos eles com roupa meio social. Falam em um volume normal e riem somente com os lábios. Todos mastigam e conversam entre si. Nenhum bebe chope. As mulheres estão ao lado uma da outra. Hora de almoço na empresa.

Mesa um: O menino comeu quase tudo e agora está jogando no celular da mãe. O homem e a mãe conversam. O homem é o irmão da mãe. A avó do menino mora com ele e com a esposa e isso não está legal pra ele. A mãe agora tem um problema. Tenso.
Mesa dois: A e B estão falando dirigindo-se a C que está de cabeça baixa balançando a cabeça negativamente. Triste.
Mesa três: A que  judiou do boi depois de morto agora está ouvindo a do espaguete que fala pausadamente. De repente, a do espaguete é interrompida pela dilaceradora de bifes que faz uma pergunta com a ponta da faca em riste. Doida.
Mesa quatro: A moça se levanta para ir ao banheiro. Ele olha a bunda dela e faz uma rápida ligação. Enquanto fala ao telefone o sorriso de idiota se esvai. Desliga. Ajeita o cabelo e a gola da camisa. Ao vê-la voltando, sorri novamente com o corpo inteiro. Homens.
Mesa cinco: Chamam o garçom. Pedem quatro cafés e a conta. O garçom aparece com uma pequena torta. Quatro cantam parabéns para uma das meninas que fica olhando para todos com um sorriso desconcertado e feliz. Legal.

Mesa um: O menino larga o jogo e se aproxima da mesa cinco.
Mesa dois: A e B começam a cantar parabéns para a menina da mesa cinco.
Mesa três: A faca e o garfo são largados para a maluca bater palmas olhando séria para o molho vermelho do espaguete.
Mesa quatro: Ele segura as mãos da moça que ouve sinos tocando.
Mesa cinco: A menina sopra a vela.

Mesa um: O menino ganha bolo.
Mesa dois: C ganha bolo.
Mesa três: As moças falam juntas não, obrigada.
Mesa quatro: Os dois nem ouviram a aniversariante oferecer bolo.
Mesa seis: Não. Obrigada.

Mesa um: O homem sorri para o menino. Mesa dois: C sorri para A e B. Mesa três: As meninas caem na gargalhada. Mesa quatro: Foram embora. Mesa cinco: A menina é abraçada pelos quatro amigos.

Mesa seis: Tento me lembrar quem falou que a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.

Mesa seis: Rubem Braga? Millôr? Antônio Fagundes? Confúcio? Não consigo…

Mesa seis: Desisto. Mas me lembrei do nada do nome do meu primeiro professor de química, Luis Manuel, e as aulas de reação em que ele falava que duas ou mais substâncias químicas quando reagem, sofrem uma transformação.

Fecham-se  os guardanapos. Ao levantar-me, sinto vontade de aplaudir.

8 Comentários

Arquivado em Crônicas

8 Respostas para “Naquela Mesa

  1. Grande parte do trabalho do cronista é saber observar.
    bjs

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  2. andréa

    Foi Charle Chaplin!..o autor da frase! 🙂
    ótima crônica! eu sempre adoro!…

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  3. Claudia

    Adorei a sua fase fofoqueira e pelo menos o gasto com celular foi poupado! O que mais gostei foi associar esse papo todo à química, melhor ainda foi lembrar do professor, kkkkkkkkkk

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  4. Demais! to apaixonada por esse texto. Saudades das suas aulas sobre a vida, LK “)

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