Arquivo do mês: julho 2013

Gavetas

gavetas

Você pensa que conhece bem alguém ou a si mesmo enquanto não adentra aquela gavetinha onde são guardados pedacinhos, a princípio sem maiores valores, de nossas vidas. Todo mundo tem uma, não? Pois então, vire a sua gaveta de cabeça para baixo e voilá o icognoscível.

Eu, por exemplo, vou citar algumas coisas que achei na minha caixa corrediça: duas pilhas rayovac que não sei se as guardei por estarem ainda boas ou por não saber onde descartá-las. Moedinhas de orelhão. Caneta azul bic-duvido-que-funcione. Uma tampa de caneta vermelha pentel. Um canhoto de talão de cheques. Um tubo de redoxon vazio. Um papel com um telefone que eu nunca soube de quem é. Outro papel com telefone que eu estava que nem louca procurando na semana passada e que agora não me adianta de nada. Um benjamim. Uma chave cuja porta sabe Deus se ainda existe. Uma capa de CD vazia. Duas fotos 3×4 do Hideo. Um manual de guia rápido para um celular de três gerações atrás. Um relógio Technos parado. Um restinho de borracha rosa. O Novo Testamento. Dipirona vencida. Comprovantes de depósito que não dá para ler mais nada. Dois bandaids. Receita de bolo de banana escrita de próprio punho, dois clips de plástico, pomadinhas, … e mais outras coisinhas que não cabem compartilhar aqui não por serem indecentes e sim vergonhosas mesmo, tipo um cotonete solto, sabe? Pedaços sem explicação da minha vida esparramados agora na minha cama. Um lixo para quem olha assim de repente. Um grande mistério se o olhar for um pouco mais demorado.

Com um dos braços esticados varro tudo para dentro da gaveta pressionada na lateral do colchão pelo outro membro tenso. Não jogo nada fora. E o maior enigma emerge nesse último gesto. Por que não consigo me desvencilhar desses objetos tão desconexos? Por que diabos não coloco esse lápis sem ponta para escrever de uma vez? O que eu quero guardar dentro dele? Até quando vou esperar uma caneta que precise de uma tampa? Qual a palavra que devo apagar com esse resto de borracha? Qual dor pretendo curar com esse remédio sem validade? Por que não coloco o tempo daquele relógio para correr? Para quem deixei de ligar naquela época medieval em que usávamos orelhão? E bababá? E bububú? Quando? Como? Quem? Pra onde? Pra que? Por que? Por que? Por que? Vai que… Vai que… Vai que…  Afff.

Como somos estrambólicos quando reviramos as coisas bem ali dentro, não?

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, reflexões

#ogiganteacordou

Estava na fila da papelaria nos arredores da Praça da Bandeira e uma menina-adolescente de uniforme que estava atrás de mim começou a  falar no celular. Antes que me julguem, já foi provado cientificamente que ao ouvir alguém conversando no celular, involuntariamente, nosso cérebro tenta completar o que o interlocutor telefônico da pessoa ao nosso lado está dizendo. Isso posto e bem entendido, vamos ouvir a menina:

– Mãe, eu vou hoje com a Rê e com o Ju, ta? – avisou a filha mega responsável.

Silêncio. A menina balançava uma perna e mantinha o celular na orelha.

– Mãe! Eu te disse que eu queria ir em uma e a senhora disse que deixaria se não fosse tarde!

Caraca, dona-mãe! A menina já era quase uma mulher e a senhora em pleno século XXI não deixa a pobrezinha ir em uma festa? Mas que festa acontece em plena Quarta-feira? Peraí, garota! Onde a mocinha pensa que vai com a Rê e com o Ju? E vai de uniforme???

– Mas, mãe! A manifestação hoje vai bombar!

Manifestação? Hoje??

– E depois, mãe, mãe!, me escuta! quanto mais gente, melhor para o país, o professor de sociologia disse. Vai geral da minha turma, mãeeeeeeee.

E desde quando dois é geral? Que diabo de professor é esse? De que escola será esse emblema?

– Ai, mãe, eu te amo! Tá bom! Eu te ligo de lá! Eu te amo, mãe!

A papelarista me atendeu, me deu o grafite Nextel 0.9 2B e um bloco de papel milimetrado. Era para eu sair, mas fiquei de uma forma giga disfarçada com a fuça virada para a vitrine cheio de borrachas de todas as cores e de todos os tamanhos e os olhos viradaços de lado observando a atitude da manifestante-debutante.

– Eu quero 3 cartolinas e uma caneta pilot!
– Só tem lá no estoque. Você aguarda enquanto vou lá buscar, por favor?
– Claro! – Disse a cidadã cheio de atitude.

Era a minha deixa.

– Eu estava pensando em fazer uns cartazes também para manifestação de hoje… – menti.
– A senhora vai também na da Rede Globo?

(Senhora????) Manifestação da Rede Globo??? Bem que gostaria de ir lá para pedir roteiros decentes para o Adnet.

– Não. Vou na dos médicos. – Menti pela segunda vez.
– A senhora é médica?
– Cardiologista. – (Terceira vez) – O que você vai escrever nos cartazes? Estou querendo fazer uns também… – Falei cheia de animação. (Quarta, quinta…)
– Sei lá … algo tipo queremos saúde, educação, transporte,… xô,corrupção! Fora, PT!… essas coisas…
– Mas não é na da Globo que você vai?
– Ah é. Tipo Fora, Globo! então. Sei lá. Vou pensar.
– Sei… Legal… O povo tá indignado com um monte de coisas que estão erradas mesmo. Nessa da Globo o povo vai pintar o rosto também? Na de médicos geral vai pintar de preto. – Mudei de assunto mantendo o tema.
– É. Mas vocês são da geração do impitimã do Collor. A gente não tá muito ligado em pintar cara não.

Ok. Mereci. Pelo menos ela não falou em Passeata dos 100 mil de 1968…

– Como é que vocês se organizavam na época do Collor? Não tinha tuíter, não tinha feice! Meu Deus! Não tinha nem celular!!!
– As diligências eram rápidas.

Rimos juntas. Ela com o corpo todo e eu só com a boca.

– Falando sério: no meu tempo, que foi um pouco depois da Idade Média, já existia um negócio chamado telefone. Ah! Também tinha outra coisa muito esquisita: a gente conversava olhando no olho.
– E como é que geral ficava sabendo das manifestações?
– O tal do boca a boca existe desde que o mundo é mundo. Interessante, não?
– Que estranho… Não consigo imaginar … – disse, sincera, a garota.

A papelarista chegou e entregou o pedido da jovem brasileira. Ela pagou, me deu tchau e se foi. Eu dei uma disfarçada básica e saí de fininho e devagar pensando sobre… Nem deu tempo de pensar em nada! Ao colocar os pés na calçada, a menina me aparece correndo com o celular no ouvido.

– Tia! A manifestação da senhora é onde?
– No Aterro.
– Rê, no Aterro! É mais perto pra gente! Bóra nessa?

Fiquei sabendo agora consultando o gúgol que haverá de fato uma manifestação dos médicos hoje! Puxa… Infelizmente errei o endereço, mas não foi por mal… Como eu ia adivinhar que parte dessa juventude revoltada está mesmo encorajada para lutar contra qualquer coisa a ponto de mudar de manifestação e não perder a animação!?! Quanta disposição desses jovens, não?

#ogiganteacordou

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Manifestação