Arquivo do mês: setembro 2013

Ser Humano Perfeitamente Feliz

sorriso

O ser humano perfeitamente feliz acima de tudo é saudável. Faz check-up todos os anos, tem o colesterol e a pressão controladíssimos, pois o ser humano perfeitamente feliz além de ir sempre ao médico, pratica exercícios regularmente e come muita salada e alimentos integrais. Caminha inspirando o ar pelo nariz e faz um biquinho para soltar o que os alvéolos pulmonares consideraram tóxico para o seu organismo. O ser humano perfeitamente feliz conhece bem as partes do corpo. Às vezes rola uma dorzinha de cabeça aqui, uma azia ali, mas isso não é problema para ele, pois o ser humano que é perfeitamente feliz tem sempre um remedinho a base de florais e chazinhos comprados no mundo verde.

O ser humano perfeitamente feliz pode não ter viajado muito, mas conhece Paris como a palma da mão. Fala dos bons restaurantes europeus, das obras do Louvre, sabe a história toda da Torre Eiffel. O ser humano perfeitamente feliz entende muito de arte.

O ser humano perfeitamente feliz é econômico, não deve nada a ninguém e tudo o que conseguiu foi extremamente planejado. Conhece os preços de quase tudo o que se come, sabe quanto valorizou o seu imóvel e onde tem a gasolina mais barata. Todos os planos do ser humano perfeitamente feliz dão certo. Por isso, ele não empresta dinheiro e muito menos é fiador de alguém. O ser humano perfeitamente feliz quer sempre estar no controle de sua felicidade e jamais a coloca em risco por um infeliz qualquer. Nem que este seja o seu irmão.

O ser humano perfeitamente feliz não conhece quase nada da modernidade. Escritor bom foi Manuel Bandeira, cantora como Eliseth Cardoso nunca mais vai existir, a nova ortografia não faz sentido e os programas de televisão hoje não prestam. O ser humano perfeitamente feliz tem um celular bem baratim porque ele só usa o aparelho para ligar e olhe lá. Hoje as pessoas mal se olham nos olhos para conversar, estão sempre mexendo em alguma engenhoquinha, só sabem ir daqui até ali com o GPS ligado. O ser humano perfeitamente feliz não gosta de nada disso. Ele fala com você olhando nos seus olhos.  E encostando a mão nos seus ombros. O ser humano perfeitamente feliz gosta de sentir o outro com as mãos.

O ser humano perfeitamente feliz deixou de fumar porque se tem uma coisa que ele possui é força de vontade e amor a sua vida porque deus foi muito justo com ele. Deus é justo para o ser humano perfeitamente feliz que é católico não praticante aos domingos e durante a semana, espírita. Não tem por hábito ir a nenhum culto, mas acha lindo as cerimônias budistas.

O ser humano perfeitamente feliz, tendo ou não um filho, entende tudo sobre educação. Educar é simples, diz ele a todos: dado um objetivo, você deve procurar fornecer à criança os meios para que ela atinja esse objetivo. Ele sabe dar limites. O ser humano perfeitamente feliz tem moral com os seus filhos porque é cheio de certezas. Ele acredita  no conforto que o dinheiro proporciona. Logo, ele educa o seu filho para que ele tenha também a segurança material. Não lhe faltam convicções sobre o que é melhor para isso.

O ser humano perfeitamente feliz, se casado, é fiel e acha que família é tudo na vida. Se solteiro, diz que nada é melhor do que a liberdade. Se médico, entende de física quântica. Se físico, entende de arte. Se psicólogo, de astrologia. Se engenheiro, de meditação. A ignorância não combina com o ser humano perfeitamente feliz que sempre foi um bom aluno e nem sabe o que é fazer bagunça em sala de aula.

Ele vai a todos os enterros que lhe são comunicados com antecedência porque devemos estar juntos na alegria e na tristeza,  diz sempre o  ser humano perfeitamente feliz. Vai a todas as festas que lhe chamam, nunca esquece do presente e caso alguma desgraça aconteça que o impeça de cumprir algum compromisso social, ele liga no dia seguinte ou manda flores com um cartão. O ser humano perfeitamente feliz é muito educado e tem a consciência tranquila.

O ser humano perfeitamente feliz não peca. A diferença entre ele e todos os infelizes mortais é que nós sabemos o quanto é bom não ser divino e que ao nos distanciarmos do céu, nos aproximamos do paraíso.  Sabemos que os remédios tapeiam o mal, mas não curam nada dentro da gente. Sabemos que a melhor viagem é aquela que fazemos dentro do outro; esteja ele próximo ou distante, seja ele nosso conhecido ou um artista qualquer. Sabemos que a arte explicada não é arte. Sabemos que podemos fazer algumas extravagâncias porque temos com quem contar caso precisemos. Sabemos que antigamente é um tempo muito falado por quem já morreu. Não sabemos educar os nossos filhos porque desconhecemos os objetivos a serem atingidos. Faltam-nos convicções de que a finalidade da vida seja a obediência, o poder, o sacrifício, o desfrutar, a conquista, a ascensão, o diploma… Sabemos que se estudarmos muito, o máximo que conseguiremos é aumentar a nossa surpresa diante do quanto não somos capazes de compreender. Sabemos que inteligência não tem nada a ver com conhecimento e que dinheiro e riqueza não são sinônimos. Estamos onde queremos estar e não onde devemos estar. Sabemos que Deus, se existe, fez as orquídeas e os ursos pandas, mas também criou os míopes, os surdos, os albinos, faz crianças com cabeças coladas e mata algumas mães de parto. Sabemos que, a despeito da possibilidade Dele ter criado a luz, é certo que  Ele sorriu perplexo diante da sombra.

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O Cabra Cabrês

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– Eu sou o Cabra Cabrês. Vai embora, coelhinho, que de um eu faço três! – Falei com a minha melhor voz de monstro. Estava encenando empolgadaça enquanto contava a historinha do  Cabra Cabrês  para o Yuki, meu caçula de seis anos.

-Peraí, mãe… dá um pause aí, por favor. Você está me dizendo que um cabra entrou na toca de um coelho? Já viu o tamanho de um coelho e de uma cabra? Não faz sentido… – Interrompeu-me  Yuki acabando legal com o meu barato. Estava com os braços para o alto quando ele me veio com essa observação sem pé nem cabeça naquela hora.

– Garoto, prestenção no que está acontecendo aqui: veja bem, tem um coelho falando com um cabra, tá ligado? Nem é ‘uma cabra’ e sim ‘um cabra’. O cabra tem nome e fala! Fala!!! O coelho responde! Isso faz algum sentido pra você??? Posso continuar a historinha? Dá licença, por favor?

– Mas, mãe. O cabra aí é tipo japonês! – Falou Yuki como se estivesse me contando algo óbvio.

– ??? – Óbvio que não entendi a colocação dele.

– Japonês é humano, ok? Mas a gente não entende nada que eles falam e eles se entendem entre si, não? O cabra é um animal e pode estar se entendo com o coelho. O moço que escreveu a historinha só traduziu pra gente, né? Ô…parece que não pensa…

– … – Fazia sentido o que Yuki estava me falando. – É, Yuki. Mas e agora? Será então que é mentira toooodo o resto? Eu passei a minha vida acreditando que o mosquito salvou o coelho ao entrar no ouvido do Cabra Cabrês! Sempre me guiei pela certeza de que os pequenos, como eu, as vezes resolvem um problemão que nem um boi consegue resolver!!!! Jesus! Será??? Será, meu filho, que é tudo mentira???? Será que o moço queria me iludir??? Queria que eu acreditasse que fosse capaz de mudar o mundo e na verdade eu só sirvo para irritar com meu zum zum zum nos ouvidos das pessoas??? Será??? Será que, de fato, o meu barulhinho nada resolve???

– Mãe, deixa disso. Deve ser uma toca grande, sei lá… Continua a história, por favor.

Me recompus. Respirei. Foquei no que o Yuki disse no final. Voltei de onde parei e terminei a história de uma forma diferente. Com coelho dando uma festa pra bicharada toda dentro da toca beeeeem grande depois que um mosquitinho destamaninho espantou o Cabra Cabrês! Agora estou bem leve e pronta pra amanhã. Nada como uma historinha antes de dormir!

Entre a magia e a realidade, ficamos aqui com uma terceira opção.

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Boa noite para todos vocês.

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