Olhos Fechados

universo2

Fui para o Parque correr às 7:00h. Levei um livro como companhia. Somente para não sentir solidão no carro. A verdade é que, a despeito de toda a minha disciplina, odeio correr e busco nos astros, nos signos, nos búzios, no evangelho e nos orixás alguma indicação que a corrida não fará bem para minh´alma. No entanto, o silêncio de todos eles se faz e ainda por cima (como me disse Chico Buarque) consta nos autos, nas bulas, nos dogmas, em teses, em tratados, está computado nos dados oficiais que eu tenho que correr para melhorar a minha saúde.

Ok.  Lá estava eu toda cheia de tênis.

Antes de dar o primeiro passo, porém, uma intuição. Achei que a leitura de um parágrafo me faria bem. Tirei Marcel Proust do banco de carona. Abri-o e escutei-o por uma página (era um parágrafo gigante, certo?). Depois, achei que se corresse sem terminar ao menos de ouvir a ideia iniciada, correria ansiosa. Não é algo saudável de se fazer… Então, li mais três páginas. E acabei ficando na leitura por mais de uma hora dentro do carro. Até que percebi que Proust fez um corte na história.

Droga. Estava a ponto de mandar se danarem, assim como Chico, os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, o evangelho e todos os orixás! Não podemos interromper Proust quando este fala senão não o entenderemos! Mas ele mesmo fez a pausa. Danei-me eu.

Ok. Relaxa, Elika. Você está pronta para uma hora de corrida. Está preparada para sentir, enquanto exercita o seu corpo, palavras circularem nas suas veias. Que lindo, isso. Vou postar isso no feicebuque. Isso, Elika, sente-se, escreva. Enviar. Enviou? Agora, levante-se. Ok. Há esperança de continuar lendo Proust enquanto você sua como uma burra de carga.

Comecei a correr.

Daí, imediatamente esqueci Proust e pensei: será que de olhos fechados o tempo passa mais rápido? E, a seguir, fechei-os. Como estava num retão por pelo menos 1,25 km cogitei de assim ficar para sempre. Dei uns dez passos e não aguentei. Abri meus olhos. Qual foi a minha surpresa ao perceber que estava indo para a direita e por muito pouco quase tropecei no meio fio. Fala sério!  Alinhei-me de novo e resolvi repetir a experiência. Dei doze passos e certifiquei-me que estava, agora, indo pra esquerda! Vixi… Agora vai. Fechei os olhos e disparei. Quatro passos e já estava correndo toda torta de novo.  Principiei a tentativa de correr sem ver a luz várias vezes e em nenhuma!!! consegui fazê-lo paralela à calçada.

Engraçado… procurei fazer com que o meu corpo fizesse exatamente a mesma coisa da mesmíssima maneira e foi só nem fechar, mas piscar os olhos e lá estava o esqueleto mudando os rumos que haviam sido traçados para que ele simplesmente, digamos, fluísse. Será assim também quando estou com os olhos abertos? Será que estou crente que sigo em uma direção e estou indo em outra completamente distinta ainda que todos os meus sentidos não percebam? Será que estou a ponto de tropeçar e preciso abrir os olhos antes que me estabaque toda? O que mais me escapa ao meu redor?

Vi uma libélula. Odeio libélulas. Odeio insetos de qualquer espécie até nas formas aracnídeas. E a criatura batia as asas ao meu lado. Acelerei. Ela acelerou. Freei. Ela freou. Parei. Ela parou. Estiquei o dedo e ela nele pousou. Bom dia, dona Libélula. A senhora sabe que eu te odeio, que tenho nojo de você e que está interrompendo a minha corrida? Bom dia, Elika! Pois é, estava achando interessante você correr de olhos fechados. Você me viu correr de olhos fechados, dona Libélula??? Sim, na verdade, percebi somente porque estava vindo em sua direção e você nem se desviou de mim espevitadamente como faz sempre. Daí fiquei te acompanhando, cheguei a gritar pensando que você fosse cair, mas você nunca me ouve! Dona Libélula, esse papo não faz sentido. Eu te ouço pra começar. Para terminar eu tenho que correr.  Coloquei-a no meu ombro e continuei falando. Eu tanto te ouço que te odeio. O seu som me arrepia. Zrzrzrzrzrz. Odeio esse barulho do bater de asas dessa sua raça. Sua classe. Sua espécie. Sei lá.  E  eu não te ouvi quando corria de olhos fechados.   Mas eu estava ao seu lado, Elika!, o tempo todo! Você não se desviou de mim e não procurou esquivar-se de minha presença porque não me viu! Entende que não há o que temer?

Meodeos… o que mais não percebemos quando estamos com o foco em outra coisa? Quais as coisas que me apavoram que não estão me assustando porque não estão detectáveis pelos meus radares? Por que tenho medo de certas coisas que  sei que não vão me ferir? O que mais volatiza sem que eu perceba? Dona Libélula, vai, me responda essas perguntas. Dona Libélula? Dona Libélula??? Para onde ela foi? Nem a senti indo embora. Que mal educada. Por isso tenho minhas reservas com esses bichos…

Passado esse fenômeno, percebi que estava quase ao final da corrida. Estranho. Com os olhos fechados, só fiz enxergar lá fora,  o meu corpo se transladando retilineamente (na intenção) no asfalto. E visualizando o lá fora, fui incapaz de guiar meus passos. Já com os olhos abertos, nada vi além da libélula e ainda assim não me desviei do caminho. Não entendi como o tempo passou depressa sem ter percebido nada em minha volta quando conversava com aquele ortóptero.

Quem sabe Proust está mesmo certo. Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar certas pequenas loucuras. Quem sabe mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la. Mas, vivê-la não pode ser também sonhar?

Palavras, enfim, circularam em minhas veias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Arquivado em Crônicas

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