Arquivo do mês: abril 2014

Carta aberta à minha filha Nara (que neste ano é minha aluna)

Nara querida,

Há muito penso sobre a minha prática profissional. Tenho percebido e sentido mudanças internas, mas as externas estavam ainda muito tímidas para se fazerem visíveis. Até que a sua presença fez tudo urgente em minha vida. Quando decidi ser sua professora foi não somente porque eu queria fazer mais ainda parte de sua vida, mas porque eu queria que você tivesse o melhor profissional à seu dispor e eu teria que me fazer muito superior ao que sempre fui. Ninguém, por mais física que saiba, faria para você algo com tanto amor e coragem como eu estou fazendo. Bem sabemos, minha filha, o quanto essas coisas fazem a diferença em nossas vidas. Eu sabia, como mãe, que a melhor forma de você aprender, seja lá o que for, é ensinando e que você sempre vai me ensinar quando estiver aprendendo. Como professora, por que teria que ser diferente? Em nenhum momento de sua vida, vi você aprendendo algo sentada de boca fechada e parando de aprender quando um ser em pé na sua frente decidiu que o que foi falado era o suficiente; nunca te vi assimilando qualquer coisa ouvindo somente as respostas às perguntas dadas por mim mesma. Todo e qualquer conhecimento por você adquirido começou com uma interrogação sua e não com uma afirmação minha, começou com a sua curiosidade e não com a minha autoridade materna. Você, Nara, sempre esteve no comando de seu aprendizado. Por que na escola teríamos que agir de forma diferente?

Ao ver o discurso de profissionais que ajudei a formar, percebi que estava, sem saber, imersa nesse sistema que se auto-reproduz “naturalmente” e ajudando a fortalecê-lo. Perguntei-me: em que medida eu ajudo os meus alunos a formular o conceito de ‘ciência’, ‘cientista’, ‘método científico’, ‘saúde’, ‘vida’, ‘organismo, natureza’, etc. ? Em que medida eu estimulo meus alunos a refletirem sobre esses conceitos?

Há tempos sei que a física que eu ensino é um desserviço para a sociedade. Eu estava somente fortalecendo os vínculos com correntes político-educacionais que apenas alimentam a mera reprodução de um sistema que sempre esteve a serviço da elite e que ajuda a mantê-lo. Veja que não é sem motivo que as cotas são recebidas com asco por muita gente, não é sem propósito que sou rotulada como romântica, intelectual, burra, ingênua e defensora de bandidos quando falo em direitos humanos. Eu já sabia que teria que semear com muito cuidado para fazer brotar um outro tipo de cidadão que tenha uma outra forma de vida material e cultural e seja capaz e enxergar as novas relações sociais. Não era simples, não era fácil. Estava estudando há anos de que forma sair dessa bolha. Até que você apareceu como aluna e toda a minha timidez e covardia sumiram de repente, não mais que de repente.

Sempre quis que a educação formasse um sujeito reflexivo, crítico, que fomentasse a emancipação popular e não mais que ela fosse a responsável pela formação de indivíduos acríticos, obedientes e conformistas, contribuindo para manutenção de um quadro de inércia coletiva diante das questões sociais. Na história da educação brasileira, Nara, até mesmo na época da ditadura, a legislação educacional não deixou de mencionar, como principal finalidade do processo educacional, a formação do cidadão. Há muitos paradigmas de cidadania e tenho pensado muito qual está sendo adotada na educação: para as elites condutoras ou para as massas a serem conduzidas? Analisando os documentos oficiais, a resposta foi clara. Afinal, não podemos e não devemos considerar que a escola pode se aproximar de instituições vinculadas não aos interesses concretos do povo, mas sim aos interesses dos processos produtivos? Se tomarmos em consideração que vivemos em um país que condenou milhares de pessoas a uma vida demarcada por condições de miséria, desemprego, violência, e demais indicativos de condições sociais inaceitáveis e as políticas sociais que o atual governo está implantando, o assunto ‘cidadania’ deverá ser, no mínimo, mais esclarecido. E em verdade, em verdade vos digo, minha filha, que o ensino de física, há muito praticado por mim que seguia O Padrão, contribui como um instrumental de formação política e não-reflexão sobre as mazelas do país e do mundo, além de influenciar a postura do indivíduo diante dos problemas que nos afetam diretamente como a saúde pública, por exemplo. Perdoe, Senhor, eu pequei tanto…

Eu via a necessidade de mudar, Nara, mas não sabia como. Até que você apareceu sentada à minha frente e  virar a mesa ficou fácil. O tempo urgia com seu olhar de aprendiz e eu não podia te passar de forma alguma que a física é um conhecimento compartimentado, isolado de outros. Não podia deixar você pensar que a minha aula terminava quando a de história começava e muito menos que a matemática é a única forma em que a natureza se manifesta para os cientistas. Não queria que você estudasse em uma escola em que os professores competem entre si em grau de importância da disciplina que leciona. Não me permiti estimular a ideia de que há uma diferença entre ciências exatas e todas as demais. Não posso aceitar você pensar que não pode ser engenheira porque gosta de literatura, pois nós, Nara, não somos tal qual o monstro criado pelo Dr. Frankstein. Um ser feito de pedaços. Nós fomos criados inteiros e tudo de uma só vez. A visão de você decorando fórmulas para uma avaliação me dava náusea. Não quero que você use o mínimo de seu cérebro como depósito de algum tipo de informação. Quero você usando-o para conectar os dados que lhe são apresentados. Que você analise-os, critique-os e reflita sobre eles.

Repudiei a imagem d´eu dando uma nota ruim para você e isso ter algum significado sobre a sua inteligência. As provas, definitivamente, não são capazes de medir a tua capacidade e nem a de ninguém. E as que eu fazia, antes de te ter como aluna, serviam apenas para provar quem estava mais adequado a viver no mundo do passado ou pronto para repeti-lo. Se você não estiver no seu tempo de assimilar o que tenho para te dizer, esperarei o momento certo sabendo que estou lidando com um ser altamente capaz de entender absolutamente tudo o que quiser. Não posso forçar nada porque isso seria um crime. Não posso fazer com que você acredite que errar seja uma coisa ruim e aprenda a evitar o erro. Quero ver você errando, minha filha,  e feliz com isso. Quero que você se orgulhe de seus erros e não os compare com os de ninguém. Quero você e todos os seus amigos errando quantas vezes forem necessárias até aprender e acertar. E não terei pressa para isso.

Não podia imaginar você se esforçando para alcançar a média imposta e, pela necessidade de se viver e aprender coisas mais úteis e mais belas, não se esforçar para passar com nota máxima na minha matéria. Não quero que você se contente por passar de ano se você não deu o que há de melhor em cada etapa do seu aprendizado e quero mais!, quero que isso seja o natural nesse processo.

Portanto, querida, se hoje você e seus amigos têm uma professora completamente fora do padrão, saiba que é porque estou envolvida até o último fio de cabelo para fazer que a escola em que vocês estudam, ao contrário de tantas outras, não veja o ENEM como o futuro e sim vocês como cidadãos. Luto por um CEFET em que os melhores alunos não sejam aqueles que acumulam mais informações e sim os que aprendem a gerá-las; luto por um CEFET em que os melhores alunos não sejam aqueles que se adaptam à escola e sim aqueles que fazem a escola se reinventar para melhor servi-los.

Sonho por uma escola em que os alunos não são ensinados e sim aprendam. E que todos percebam essa enorme diferença.

Com amor e esperança

Mamãe.

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E foi assim que meus filhos aprenderam a cantar:

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Ser mãe é aprender no paraíso.

paciencia

Amanhã eu vou gravar um vídeo com essa penca de filhos que eu fiz na vida. Já me programei com eles. Com Yuki, meu caçulinha, e Nara, minha adolescente, tudo certo. Hideo, meu eterno bebê de vinte anos, porém, tem suas demandas e para tê-lo comigo tive que me reinventar como pessoa. Ser mãe é ser uma eterna aprendiz.

– Mãe, tem que ser amanhã?
– Tem que. E você tem que ir. Qual o problema?
– Bem. Porque hoje a noite eu vou fazer sexo.
– Caceta! Precisa me dizer isso?
– Mas esse é o meu problema!
– Ok. – Elika, haja naturalmente. Isso é algo natural meeessssmo. Não surte, LK. Respira. Inspira. Expira… – Quanto tempo você demora? Eu te levo e posso te esperar no carro. Mesmo porque amanhã a gente vai ter que sair cedo para aproveitar a luz da manhã.

Mega fofa eu ajudando meu filho. Super moderninha eu e giga madura. Quase podre.

– Eu vou fazer sexo na Barra. Estava pensando em dormir lá na casa do meu pai.
– Hideo, na Barra não. Arruma uma cocota periguete por aqui mesmo, meu filho. Cocota subúrbia arrebenta no riscado, meu filho.
– Não é assim, mãe. Eu vou te explicar. A menina me ligou querendo dar e eu combinei de receber amanhã. Como diz meu avô Toninho…
-… um sábio contemporâneo…
– Isso. Bimbinha quando aparece, tem que aproveitar. Se não nunca mais volta.
– Tipo passarinho, meu filho?
– Tipo isso, mãe.
– Entendi.  Mas não pode fazer sexo a tarde? Faz hoje a tarde e vem dormir em casa, meu bem! Pronto. Problema resolvido!

Nisso chega a Nara:
– Você está ajudando o Hideo a escolher a hora que ele vai fazer sexo? É isso que eu estou ouvindo??? Que legal! Posso participar?

Depois do problema explicado para a Nara, continuamos. Família é isso. Temos que atender e respeitar a necessidade de todos. Sem alarde. Tipo super natural.

– Então, gente, ela trabalha até às oito.
– Beleza. Então marca às nove e às dez eu te pego. Uma hora você resolve o seu problema?
– Não. Não é assim, mãe. Pra fazer direito preciso de mais tempo. Se você deixar eu fazer sexo aqui em casa, ela dorme aqui e fica tudo certo.
– Não. Isso não! Isso não!!! – Disse eu mega séria em um ímpeto impensado de mãe surtadíssima.  – Foco no local agora, querido. Longe daqui, sim?

E assim, com Hideo respeitando os meus limites emocionais,  depois de muito discutirmos, chegamos a uma logística onde tudo se resolverá da melhor forma para todos e o Universo-meu-lar, em sua plenitude, sorrirá amanhã satisfeito. Passarei o Domingo fazendo arte com toda a minha família.

Que todos e quaisquer diálogos surreais tenham abertura nesse mundo. Quando a queda de protocolo for uma necessidade para que fiquemos mais e mais unidos, que essa barreira seja sempre derrubada com um sopro.

Salve o eterno aprendizado.

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Pichação

grafite-mulher

Estava levando Yuki, meu caçula de sete anos, para a aula de bateria quando, de repente, ele grita apontando:
– Olha, mãe! Que desenho lindo no muro!
– Cadê? Ah é… maneiraço! Isso se chama grafite. Fica mega estilo mesmo.
– Por que, mãe, por que todos os muros não são assim? Por que as pessoas picham. Por que não pintam bandeiras de times, coração, carrinhos…
– É, Kinho, perceba: essas pessoas que picham enfeiam o mundo. As outras que pintam com carinho põem beleza no Universo. Mas veja: há outras formas da gente enfeiar isso tudo aqui.
– Tipo jogando lixo no chão?
– Tipo isso. Tipo bater, xingar,…
– Tipo falar palavrão…
– Aí depende. Tem palavrão que não enfeia nada. Mas se ele for usado para ofender alguém pode até ser mais feio que bater, sabia?
– Por que as pessoas enfeiam o mundo, mãe? Por que? Será que elas não sabem que, tipo, se elas derem flores ao invés de xingar o outro, o mundo não fica beeeem mais agradável?
–  E você, meu filho, o que pretende fazer para aumentar o pouco de bonito que temos  aqui?
– Ah eu… eu… eu pretendo fazer uma casa e pintar o muro com a bandeira do Brasil para mostrar que eu torço por todo mundo aqui. Pretendo fazer música. Pretendo fazer as pessoas mais felizes. Pretendo dar muita flor…

Fofurééééésimo meu Yuki. Fofurééééésimo.

Mas, agora que ele está lá dentro na aulinha que lhe ensina a ter foco no ritmo, cá estou eu pensando completamente descompassada…

Diante dos muros que me aparecem pela frente, estou sendo tal e qual uma pichação ou uma pintura feita com carinho? Ando contribuindo de que forma na estética dessa budega? Onde acho mais tinta? Como misturo essas parcas cores que tenho aqui???

Não é difícil, mas como dá trabalho inflar o belo, não?

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Tarde de Outono

image

Ando calada. Quieta no meu canto. Mas o silêncio é apenas aparente, pois o repouso, como se sabe, é relativo. E relativamente a torrente de meus devaneios estou para eles como a sombra para os raios de sol. Iluminada tanto quanto eles. Caso o contrário, nem penumbras seriam. Estou mais permeada de pensamentos do que um banco à beira da Lagoa.

Acho que enfim cresci desde que comecei a escrever em 2004. Já durmo sozinha (com ajuda de remédios), já almoço sem companhia (com o celular na mão), já vou ao centro da cidade sem papai, sem auxílio de drogas e de nenhum aparelho eletrônico. Enfim, mãe, cresci. Ainda que a dependência sempre vá aumentar, não mais me desespero de forma infantil como outrora quando não podia ter o brinquedo que queria, viajar para Paris na baixa temporada,  comprar a loja de sapatos na promoção ou morar ao lado de uma livraria.

Passei uma linda tarde de outono lendo Proust e me lembrando de tanta coisa bacana que o próprio autor, denso que só, remeteu-me. E foi ele quem me fez perceber hoje que virei adulta, menos por entendê-lo e muito mais pela cumplicidade dos sentimentos.

Não preciso sair de onde estou para ir longe, muito longe assim como o passado que mesmo recente (como nos foi o ontem), por ter sido deixado para trás, torna-se inalcançável como Júpiter. Aprendi como trazê-lo para mim. Digo. O passado. Há uma tela em branco que a minha memória vai pintando com umas pinceladas encharcadas de minhas aspirações mais ocultas e secretas. O quadro vai se formando inicialmente de maneira que não compreendo e muito menos me preocupa tentar entendê-lo, com a finalidade única de fazer da imagem formada um presente embrulhado em um papel de eternidade.

E descubro que  durante todo o processo que desenhava, sou capaz de sentir a mesma alegria (ou infortúnio (para que repintá-los?)) de quando experimentei a imagem pela primeira vez,  contanto que haja tempo suficiente, se não de usar todo o espectro das cores, pelo menos para manipular aquelas que foram essenciais na estrutura de minhas emoções. Já dizia a minha avó: recordar é viver. E adiciono a essa máxima uma observação em forma de pergunta: perceber a realidade por meio de nossos sentidos, comover-se com alguém à nossa frente em carne e osso, é mais real do que sonhar, se de qualquer ser que tangencia a nossa carne só percebemos em cima da noção que temos dele?

Agora entendo claramente que justamente o que escapou de uma realidade,  com massa e com um peso natimorto pela minha percepção limitada, por ser impenetrável à minha alma, tem a mesma natureza do que consegui captar no momento. Algo imaterial e, portanto, onírico.

Faço, então, do que apreendi uma repetida experiência, pois em mim a mesma beleza é revelada: as coisas pintadas na tela, que me foram preciosas,  o que de mim foi projetado sobre elas, são elas mesmas os próprios pigmentos. Não é como ver uma fotografia antiga. É tirá-lá novamente.

E rio com vontade ao ver que tudo o que lembro está provido de natureza, de realidade (sabendo que há uma para cada pessoa), do mesmo encanto, de um semelhante esplendor e influi em um ser que está situado fora de mim e longe de mim. Não me desespero mais porque sei, agora, que terei tudo. O que foi bom. Para sempre.

Enfim. Cresci.

(E como todo adulto, sei que todo esse discurso é uma bela tentativa de não tacar a cabeça na parede.)

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