Arquivo do mês: julho 2014

Palomar ao cair

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Há um ano resolvi correr e desde então tenho alcançado a meta de ver cinco quilômetros sendo deixados para trás em menos de quarenta minutos. Pelo menos, duas vezes por semana essa história se repete. Há três, faço pilates segundas, quartas e sextas e, a despeito de ser uma aluna assídua e dedicada, hoje na corrida, meus músculos, de uma forma que ainda não consegui entender, falharam.

Em todos os treinos matinais, a parte mais difícil sempre é começar. Não importa o dia, não importa o tempo, meu corpo jamais acorda disposto a se exercitar. Se ele se levanta é porque a mente lhe impõe isso e, tal como um títere, ele se veste, arrasta-se até que esteja diante a linha de partida imaginária no Parque. Somente após a largada, a mente descansa e se liberta dos cordéis e engonços sem os quais não conseguiria levar até lá a minha carne envolta por gorduras localizadas. Depois do primeiro passo, quem passa a mandar, no que em mim é matéria, são as próprias pernas. Assim tem acontecido desde o primeiro dia em que comecei.

Hoje, porém, diria que, em algum momento no início da corrida, ninguém mais estava no comando de minha carcaça. A alma vagando sabe deus por onde, crente que a matéria obedeceria, como lhe é habitual, sua inércia em movimento retilíneo e quase uniforme. Qual o quê! Até essa tendência natural a qualquer corpo que tenha um mínimo de massa resolveu sair do volume ao qual pertencia. Tal como os jogadores de vôlei que atiram-se no ar, como se estivessem mergulhando, para interceptar uma bola, e termina o movimento sob o próprio abdômen, eu caí ralando o joelho e o barrigão no asfalto. De repente, não mais que de repente, do vento fez-se a calma e do momento imóvel a metáfora.

Um tombo.

Um tombaço.

Se em Deus acreditasse, poderia entender aquilo não como um sinal que deveria ter ficado em casa curtindo mais a minha caminha em plena manhã de inverno lendo um livrinho qualquer, mas sim como uma prova. Como um desafio. Um ensinamento, diria. Sem que ninguém me ajudasse a levantar, eu teria que me erguer sozinha, tal como nas grandes decepções. Ele estava me preparando para os próximos desapontamentos e desencantos. Não desanimes com essa queda, Elika. Ela apenas te mostra que o chão não é o seu lugar! Levanta- te e corre! É. Talvez Deus tenha feito as quedas d’água para aprendermos quanta força de trabalho podemos extrair de nossos próprios tombos…

Estatelada no chão, após verificar o que o asfalto havia feito com as palmas de minhas mãos e com o meu joelho esquerdo que sangrava e após parar o tempo no aplicativo do celular cujo vidro estava completamente quebrado, eu vi a minha honra lá ao fundo do horizonte voando voando voando até desaparecer por completo. Se Deus existe, não poderia Ele ter me equilibrado ou ter Se metido na minha frente como um Air Bag e amenizado pelo menos o estrago no celular (que viria a saber, depois, que custaria a bagatela de 700 reais)? Será que foi Ele que me empurrou para que eu aprendesse algo com todos  esses clichês?

Aceito as metáforas, mas não posso admitir que as trivialidades movimentem a minha vida.

Então, caso Deus não exista, como tendo a acreditar, por que levantar e sair correndo? Se tudo o que o meu invólucro queria era parar, por que diabos não obedecer a ele? Lembrei-me de outros tropeços, de outros machucados e percebi que cair não é algo raro em minha vida. Vivo me levantando e caindo de novo e me levantando e caindo como agora cá estou, pensava. Não sei qual é a razão disso e se, de fato, há algum sentido, mas sei que essa é e sempre foi  a minha forma desalinhada de caminhar.

No lugar de Deus ou da logicidade dos acontecimentos, o Apesar De. Apesar De doer, devo escrever. Apesar De não sentir fome, devo compreender. Apesar De não querer, devo consentir. Apesar De sorrir, devo morrer. Apesar De amar tanto, caio. E quem disse que tenho que me manter forte mesmo quando transpiro fraquezas? Por que não aproveitar que a queda foi debaixo de uma árvore, tal como um fruto maduro sempre que cai naturalmente, e deitar-me na sombra? E se Deus existe e não me ilumina, mas sim me protege da luz? Desde quando desistir é vergonhoso? Quem impôs a ditadura da conquista a qualquer custo? E se abandonar for uma arte? Se é frequente essa situação em que me encontro, pensando se devo escolher entre prosseguir ou desertar, por que não sou capaz de repudiar honrosamente? Por que temos que prosseguir teimosamente esperando louros de tanta queda? São os fins que importam e não os e-mails?

Enquanto palomava (do verbo Palomar no mais que perfeito Ítalo Calvino), o sangue fluía e, uma pequena quantidade dele, escorria pela perna esquerda. Mais do que força divina, eu precisava encontrar a minha própria. Sempre, desde sempre, o maior obstáculo para eu seguir em frente e acelerar sou eu mesma. Um único problema: estava difícil levantar com charme e com movimentos suaves com a alma tão austera. Ainda assim, dispensando os amarrilhos e os barbantes, pus meu corpo, mais uma vez, ereto.

Destravei o tempo. Bati, mais uma vez, o meu recorde.

Não foi preciso acreditar em alguém ou em alguma coisa – bastou apesar. Nunca perdi a fé no apesar pelo estado de graça que ele sempre me conferiu depois.  É uma benção estranha, como ter a cura ainda estando febril. Delirar sem ser demente. Rezar sendo descrente. Sou assim mesmo, quase terna de tão estúpida. Nada posso fazer com tanta determinação obstinadamente serena: parece que há em mim um lado idiota, imbecil que não quer jamais entender e, de modo algum, parar.

Parar de escrever.

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Velocidade Congelada.

estátua estátua2

As estátuas
que simulam movimento
possuem algo
de mágico.
Paradoxal.
E vejam esses
Meninos Pulando
Rindo
da gravidade!
Eternizou-se
um movimento
alegre.
Daí, a gente
que é gente
fica parado
como uma estátua
vendo todos
os deslocamentos.
E bate uma animação
do nada assim
só de ficar olhando…
Talvez, por querer,
lá no fundo d’alma,
onde os sonhos descansam,
descongelar a tal da velocidade e,
por tabela,também
a felicidade.

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Quando Morre um Escritor

livro quimado

Dizem que cada vez que um filho morre, as mães de todo o Universo padecem. Dizem também que não importa a nossa idade, ao perder um pai ou uma mãe, tornamo-nos órfãos. E quando morre um escritor? Como ficam os leitores? Para mim, que perdi Saramago, Millor, Drummond entre outros tantos e em uma mesma semana, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Suassuna digo: a sensação é como se um livro (ou quiçá uma biblioteca) fosse queimado.

Não.
É pior do que isso.
Muito Pior.

Sei que os livros escritos não se perdem na erosão, pois o que consta neles transcende a materialidade. E quem os leu antes de serem queimados fez com que a palavra escrita cumprisse, ao seu modo e no seu tempo, o seu destino. Portanto, quando morre um escritor é muito pior. Quando morre um escritor é como se várias clínicas de aborto fossem abertas.

Marias, Capitus, Macunaímas, Policarpos, Palomares, Iracemas, Joões Pedrosos, Anas Claras, Ângelos Marcos e tantos outros grandes personagens deixam de nascer. Quantas crônicas perdemos quando os olhos de um escritor se fecham para sempre?Quantas histórias são sufocadas? O quanto deixamos de crescer quando morre um escritor?

Ah, meus queridos e falecidos escritores, vocês são imortais que matam quando morrem…

Por que morrem?

 

 

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Enfim, tiro o meu time de campo

Soccer - 2006 FIFA World Cup Germany - Quarter Final - Brazil v France - Commerzbank Arena

Eu, como qualquer brasileiro, quis participar da festa que foi a Copa do Mundo. Senti imensa vontade de comentar com todos os amigos sobre os jogos, os lances, as jogadas… mas de futebol o que entendia? Nada. O ponto é que isso para mim nunca foi problema, bastaria um pouco de pesquisa e leitura e já estaria apta a dar o meu palpite em tudo como sempre faço. O que não podia era ficar de fora da brincadeira de jeito maneira.

A primeira grande surpresa foi ver que Casagrande estava vivo. Eu jurava que ele já havia passado para o meta Universo. Depois, a dificuldade foi decorar os nomes dos jogadores. Dependendo da seleção dava para me referir aos meninos de alguma forma. A da Inglaterra por exemplo, era composta por Gato, Cheiroso, Príncipe, Passo, Lindo, Nada Demais, Modelo, Vem pra Madureira, CasaComidaeRoupaLavada. Outra coisa que me assustou, a despeito de tanto ter estudado sobre o assunto, foi com a cara do David Luiz ao comemorar um Gol.

(Em tempo: David Luiz Elika Elika David Luiz muito prazer o prazer é meu.)

david luiz-horz

O que era aquilo? Eu só fico assim quando tomo dez litros de café e vinte de guaraná em pó, acabo de corrigir todas as provas, digito a senha do cartão e depois de segundos leio transação aprovada, quando quero e consigo matar um de susto, acerto uma bolinha de papel no cesto de lixo e  quando vai ter pudim de sobremesa. Por um gol? Não sabia que era a mesma emoção.

Mas aí depois veio o inacredítável 7×1. Nesse momento, eu me senti à vontade para comentar. Ninguém nunca tinha visto nada daquilo, havia gente culpando o PT, … enfim, o que eu falasse entraria bem na conversa. Mas para não fazer feio, apelei para a física e falei algo sobre falta de entrelaçamento quântico entre os jogadores que foi tão bem aceita quanto as teorias da conspiração que já estavam circulando. Questionei o spin da bola e a indutância da taça. Agi naturalmente e consegui interagir bem. Mas o meu lado mãe foi mais forte e os meus comentários foram no sentido de demonstrar preocupação com os meninos. Primeiramente, com a coluna do Neymar. Segundamente, eu fiquei me lembrando recorrentemente da entrevista que Júlio Cesar deu depois do jogo com o Chile no qual ele defendeu uns pênaltis dizendo que ficou 4 anos traumatizado e que iria lavar a honra dele nessa Copa e bababa bububu. Tive vontade de indicar alguns bons terapeutas e sugerir uma lobotomia para que o coitadinho ficasse bem. Por fim, sofri mesmo ao ver o David Luiz (que até então não sabia se ele jogava no Rio ou em São Paulo) dizer que queria nos trazer alegria.

DL

Na disputa do terceiro lugar, estava segura. Sabia o nome de quase todos os jogadores. Mas quando a câmera passou pelos rostos dos nossos guerreiros, enquanto o hino era cantado, desesperei-me. Crente que ia abafar e Felipão havia trocado o time inteiro! Fala sério. E nem vamos falar que eu jurava que aquele tal de Robben era o Zidane. Estava com o mó medo dele dar cabeçada nos nossos meninos. Foi brabo viu. Mó vexame. Daí, veio Alemanha e Argentina e, como diria Drummond, foi-se a copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas.

Mas  antes de voltar às coisas mundanas, eu gostaria de agradecer aos amigos pela paciência e pelo carinho que tiveram comigo, principalmente ao meu marido que ao me ver na área urrava em um misto de alegria e desespero sem saber se eu daria um drible da vaca ou da jumenta. Para alívio de todos, minha breve carreira de comentarista esportiva se encerrava com o final da Copa. Fiquei mega feliz, pois, não sabia nada de futebol e aprendi um bocado vendo todos esses jogos e pesquisando muito na tentativa de não falar muita besteira.

Agora, por exemplo, eu sei que não podemos morder o amigo de jeito maneira porque a punição é braba, que uma lesão na L3 te permite andar dois dias depois com mochila nas costas, que os portugueses, como Cristiano Ronaldo, deram espelhos para os índios e os alemães um cheque de 30 mil reais, que o capitão de um time pode chorar como um bezerro desmamado antes da cobrança dos pênaltis, que temos que conquistar toda a antipatia de Mick Jagger, que é possível mudar de nacionalidade a cada jogo da Argentina, que pela integridade moral de uma nação passou do marco de 5 gols o jogo tem que acabar, que cantamos o Hino a Capela e não à Capela, que entre o hino e o voltano pode ter prorrogação, que o Fred não teve culpa do resultado porque ele não fez nada, que existe vice que não é o Vasco, que se soubéssemos o que aconteceu nas Copas de 1998 para cá ficaríamos enojados, que japonês é limpinho, que o coração de torcedor brasileiro não bate, só apanha, que não sou só eu-professor e sim que todo mundo aqui ganha menos que jogador de futebol, que qualquer um podia ganhar o que o Fred ganha, que o Casagrande não morreu quem morreu foi o Sócrates, que não é padrão FIFA e sim ladrão FIFA, que quando um craque se machuca ninguém mais joga, que existe vários níveis de autismo e o que Messi tem é mimimi, que síndrome de Asperger passa na hora do gol mas ataca forte quando perde a Copa, que se o Messi foi o melhor jogador dessa Copa não fizeram justiça com o Fred, que a cobertura da Globo foi tão boa que eu nunca mais quero ouvir falar no assunto, …

Enfim, acabou. Foi tudo hiper divertido tirando o episódio da ameaça a nossa democracia que seguirei acompanhando giga atenta. De novo, como diria Drummond, o povo, noutro torneio, havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio, a Copa da Liberdade.

Beijo proceis

 

 

 

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Mudando de Assunto

12-copa

 

– Mudando de assunto, vamos falar de sexo?
– Sim, claro! Antes da partida, você acha que é bom ou ruim para os jogadores?
– Ok. Vamos falar da coluna superfaturada.
– Pois então, aquele filha da put* quase aleijou o Neymar.
– Não. Eu disse coluna superfaturada, a de BH e não ‘coluna fraturada’. Vamos falar de problemas femininos. Menstruação.
– Deveria acontecer de 4 em 4 anos e não todo mês. Todo mês Copa. Menstruação 4 em 4 anos.
– Vamos falar do ENEM.
– A lesão do Neymar vai cair no ENEM. Avisa pra geral.
– Seriado.
– Será que Dr House conseguiria botar o Neymar jogando na final?
– Vamos falar então de vírus Chicungunya que começou a circular no Brasil e é bem pior que a dengue.
– O Messi tem que pegar isso.
– Ok. Amor. Vamos falar de amor.
– Só ficarei satisfeito no amor quando alguém me olhar da mesma forma que o Galvão olha para Neymar.

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