Arquivo do mês: agosto 2014

Abençoe, Senhor.

oração1

Senhor, obrigada pelo pão de cada dia e pela Nutella.

Cuide das crianças do mundo todo. Empenhe-Se melhor nisso, por favor.

Abençoe minha família e meus amigos.

Abençoe Marie Curie, a minha vira-lata, o Senhor sabe. Deve ter nos ajudado a escolhê-la certamente.

Abençoe Tobias Miguel, nosso hamster lindo.

 Abençoe todos os bichos, Senhor, sobretudo as rãs, os lagartos e as lagartixas que tanto inspiraram Manoel de Barros. Quanto as baratas… Por que as fez, Senhor? Fica ao Seu critério abençoá-las ou não.

Abençoe quem estuda física para vida e não para a prova.

Abençoe quem estuda e quem não estuda também.

Abençoe quem perde tempo em aprender coisas que não interessam e são privados de descobrir coisas giga interessantes. Abençoe todos os alunos do Brasil, Senhor.

Continue abençoando quem não ouve funk mas principalmente os que ouvem, pois me parece que eles precisam muito de Ti, Senhor.

Abençoe quem tenta descobrir pensando alguma coisa mais profunda de como não querer saber nada sobre as coisas profundas. Abençoe quem tem profundidades sobre nada, Senhor. Quem pensa que sabe muito, abençoe mais ainda, Senhor. 

Abençoe quem tem paciência, Senhor. Mas quem têm excesso de paciência não precisa abençoá-los, Senhor. Esses dão nos nervos de muita gente.

Abençoe quem é livre para ouvir as cores, cheirar o silêncio e ver o perfume das pedras, Senhor. E quem busca essa liberdade, abençoe também, Senhor.

Abençoe quem se esconde, Senhor, e só é visto pelos poetas. Abençoe os que se encontram, Senhor.

Abençoe os amantes, Senhor, esses que atraem os passarinhos e que são os mesmos que enchem de amor cada palavra e quem adentram a palavra amor.

Abençoe muito quem lê para o outro.

Abençoe quem dança, Senhor, mas tenha piedade e abençoe também os desajeitados.

Abençoe quem dá água para ozôto bebê de preocupação com o ôto, Senhô.

Abençoe quem alimenta a alma das pessoas só por chegar perto, Senhor.

Quem vê tudo de olho fechado e, ainda assim, sorri com os olhos, Senhor. Abençoe esses alucinados.

 Abençoe quem acha que a noite vem quando o dia envelhece, Senhor. Coitados desses. Abençoe também quem é rejuvenescido pela noite e quem é criança durante o dia, Senhor. Abençoe a maturidade das manhãs e as tardes de adolescentes, Senhor.

Abençoe a proximidade dos seres humanos. Abençoe o sexo com amor, Senhor.

(O sexo sem amor, quando divino, abençoe também.)

 Abençoe os saudosos que não podem estar juntos e os que mordem quando muito perto. É tudo amor, Senhor, como disse Nelson Rodrigues.

Abençoe o Homem-Aranha, Senhor.

Abençoe quem tem abastança de incompletudes, Senhor, e que são os mesmos, vale avisar, que estão presos por algemas à liberdade.

Abençoe quem entende que eterno pode ser aquilo que dura uma fração de segundo, tipo um átimo do ápice do ótimo
do gozo do amor. Abençoe esses felizardos, Senhor.

Abençoe quem mede tudo com fita métrica, balanças, paquímetros e barômetros, Senhor. Mas abençoe também quem mede as coisas pelo encantamento que tudo produz em nós, Senhor. Abençoe quem tem massa crítica, peso nas ideias e quem confunde comprimento com cumprimento, não na escrita dessas palavras e sim na essência de seus significados, Senhor.

Abençoe todos aqueles, Senhor, que como Carlos Drummond encontraram não a explicação duvidosa da vida, mas a poesia inexplicável da vida.

Abençoe quem está viajando, Senhor. Abençoe também os que ficam vagando pelo tempo sem sair do lugar.

Abençoe quem dá chocolate sorrindo, Senhor, pois isso é lindo demais.

Abençoe quem faz música. Abençoe também quem faz macarrão al dente, Senhor.

Abençoe os poetas e os analfabetos em Proust.

Abençoe quem leu Palomar e quem não leu não dê bênção e sim Palomar. Dá no mesmo.

Abençoe as atéias por parte de pai como eu, Senhor, que tem tantas razões, infinitas diria!, para duvidar e descobriu uma só para crer. Abençoe, portanto, as incrédulas e egoístas que de tão felizes e por não saber a quem agradecer, agradece ao Senhor.

Abençoe todo mundo, Senhor.

Amém.

Ah! Menos os que furam fila em engarrafamento.

Amém de novo.

Os que não dão passagem quando a gente pede também esquece deles, Senhor, pois eles têm o diabo no corpo.

Amém.

Ah! Também não abençoe quem não devolve a bola quando cai na casa deles. Não abençoe essa raça, Senhor.

Amém a vera agora.

Amém.

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Isaac No Mundo das Partículas

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Vejam que interessante. Ao pedir para Sergio Ricciuto ilustrar o meu livro “Isaac no Mundo das Partículas”, algumas imagens apareceram naturalmente na cabeça dele e ele, simplesmente, colocou-as no papel. Ricciuto, diretamente de São Paulo, via mensagem, me comunicou o que havia acontecido: Isaac ganhou um presente de Aristóteles. Como?, Onde?, Quando?, perguntei. E ele disse: ao se despedirem. Ecomplementou: Pergunte ao Yuki como isso aconteceu.

Dito e feito. Yuki foi me contando detalhes e eu só fiz escrever toda aquela história relatando da forma mais fiel que consegui, diria, o fato visto por Ricciuto e pelo Yuki.

Segue a passagem que eu nem sabia que havia acontecido nessa viagem de Isaac quando escrevi o livro, caso queiram ler. A prova de que tudo foi verdade é que Isaac passa o resto do livro com o regalo pendurado no pescoço. Essa belíssima ilustração é a primeira que Isaac aparece com o adorno.

“- Vamos, Argo. Mamãe já deve estar preocupada. – Falou Isaac para o grãozinho.

Aristóteles estava olhando o foguete de Isaac com uma incômoda curiosidade.

– Vocês viajaram nisso? – Perguntou.
– Sim. Viemos de muito longe. Tão longe que a distância pode ser medida em séculos!
– Isso viaja pelo céu?
– Sim. Se chama foguete intergalático espaço-temporal 5-AR6. – Detalhou Isaac o nome de batismo de seu brinquedo favorito.
– Você pode me levar rapidinho, antes de partir, para dar uma volta? Gostaria de sentir o cheiro das estrelas.
– Perfeitamente, seu Aristóteles. Será um prazer!

Dito isso, subiram todos no foguete. Aristóteles ficou encantado ao poder tocar as estrelas!, as mesmas que ele ficava horas olhando lá debaixo, observando como elas giram bem juntinhas e imaginando-as tangenciar o limite do Universo. Tamanha era a sua emoção que chegava ao ponto de transbordar em formas de risadas misturadas com lágrimas furtivas. Teve, de repente, a ideia de pegar uma estrelinha bem brilhante daquele céu por eles visitado. Amarrou-a com cuidado em uma linha arrancada de sua roupa.

Antes de se despedirem para sempre, já em solos firmes, o filósofo entregou-lhe o cordão, feito por ele, dizendo que aquele pingente super brilhoso e colhido do cosmo cuidadosamente pelas suas mãos simbolizava a ciência que Isaac estava buscando. Somente quando as estrelas apagarem, saberemos que os homens conheceram a matéria em sua plenitude, disse o homem para o menino.

Isaac aceitou com prazer o regalo. Ficou alguns segundos (talvez minutos) olhando para aquela luz pendurada em seu colo. Lembrou-se que estava chegando a hora da janta. Voltou-se para o filósofo para agradecer e se despedir como os meninos educados fazem.

– Valeu, tio! Valeu mesmo! A gente se vê por aí.

E acrescentou uma frase super sincera, mas um tanto assim esquisita para aqueles que nunca pensam em nada:

– Vou pensar sobre “nada” em casa, ok?

Argo e Isaac colocaram os capacetes e entraram no foguete supersônico que viajava quase na velocidade da luz. Ficaram dando tchau para o barbudo até que ele ficasse do tamanho de um grãozinho de areia, depois do tamanho de meio grão, depois do tamanho de um quarto de grão, depois e de repente, Isaac não mais viu Aristóteles.

E ainda assim, ele sabia que o tio sabichão estava lá.”

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Em tempo, sigo procurando uma editora. Assim que conseguir publicá-lo, aviso a todos.

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Das Paixões

cataratas

Os apaixonados
passam por um período de pôr
do Sol e inspiração
para cigarras
Se interessam pela selvageria
das palavras
Lecionam gaivotas
E quanto às luas ?
Libélu-las
Estreitam as tardes de outono
desenhando cheiros das obras-primas
Portanto, primaveram
comungam, palomam
conjugam
Se eu flor, se tu flores
nos florescemos
Independem do lugar
pois são encontrados sempre
por poetas
Têm predomínio por árvores
que se movem
com a Terra. Amanhecem
a qualquer hora da noite
Preferem viajar
com gestos ao invés de avião
Borboletam-se com os olhos
que se fecham
para ver as Cataratas do Iguaçu
No átimo do ápice do ótimo
Do gozo
Do amor.

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Ontologia do Meu Ser

ricci4

Gosto de ver as rãs sendo equilibradas por passarinhos
e os urubus pelas formigas vestidas de verão.

Almejo descobrir que gosto tem as joaninhas para as margaridas
(Sabor de brinco?).

Queria poder engolir os fiapos de Sol do inverno
Adaptar-me a dimensão da luz que brota das tartarugas e dos caramujos
Ouvir o barranco lodoso
Comungar Suassuna aos domingos
E no equinócio, as estrelas corajosas
Assistir a maçã mastigando Adão lentamente.

Gostaria de ter um lugar
Para ser um grilo rosa
E me entupir com o som das mudas.
Acredito que pelas frestas consigamos ver
Como as palavras tiram retratos dos pintores
E como os problemas que dormem nos livros de física possam ser resolvidos
com uma dança ao som dos pólens
E os que despertam nos livros de matemática
com cambalhotas dadas pelos girassóis.

Queria entender por que determinadas noites usam muletas
Se depois correm tanto  pelo Universo

Sou como um sabiá em um terreiro.

Sinto-me plena quando não estou.

O meu lugar é o outono carioca.

E o meu melhor dia é ontem – o presente
embrulhado em papel de eternidade.

 

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A pintura que ilustra a poesia é obra do artista Sérgio Ricciuto

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Respondendo ao Snoop

snoop

Querido Sorvete de Amarena, saiba que você é como morango mergulhado na nutella, chocolate ao leite, batatinha chips. As vezes, sushi. Outras, feijoada. Sempre dilícia. Portanto, salada de tomate, nunca. Aliás, nenhum tipo de salada porque você, meu bifão mal passado, é alimento de peso.

Pão francês fresquinho, hmmmm, sempre (já que o amor é deleite).

Meu Bombonzinho de Licor, escrevo para dizer que o amor é iguaria sem igual mesmo que se repita o prato.

O amor é pavê, pacumê (com o zóio fechado), pafalá, pacantá e pabeijá. Paconhecê sempre. Quando assim, nóis têm vontade de agradecê de joeio sabe deus paquem.

Ass. Pão de ló com cobertura.

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