Doce forma de Educar

Antigamente havia nas festas infantis um grande momento. Não era o parabéns.  Era a hora que o balãozão ia ser estourado. Durante a festa, toda criança olhava com rabo de olho a pelotona de borracha pendurada. Lembro-me que sempre chegava perto e tentava com o meu olhar raio-X detectar quais eram os doces deliciosos que a mãe do aniversariante havia colocado lá dentro. Hoje, cada criança já sai da festa com um potinho cheio de doces e quiçá com brinquedos dados como lembranças. Tsc, tsc… Não estamos preparando essas crianças para a realidade que elas, em muito breve, terão que enfrentar. Na época do balãozão, cada um saía com o que conseguia pegar. 

Ficar embaixo daquele bexigão quando o tio vinha com o isqueiro e fazia o fogo encostar naquela bola de goma gigante até que ela explodisse e voasse doce pra tudoquécanto era uma experiência e tanto viu. Empurrávamo-nos sem a alegria outrora usada nas brincadeiras que dispensavam animadores. Nosso comportamento nessa hora era bem parecido com o dos jogadores de futebol em uma cobrança de escanteio. Era tiro, porrada e bala. 

Lembro-me que sempre pedia um balde ou uma bacia para a minha mãe e ela sempre me negou dizendo que não havia levado para a festa nem uma coisa nem outra. A única vez que consegui um recipiente devidamente surrupiado da cozinha da casa do aniversariante e entrei bem no meio daquele mar de crianças, cujos semblantes estavam transtornados pela euforia típica da ganância, nessa única vez que senti que estava saindo anos-luz na frente de todos os meus agora inimigos mortais e andava por eles com os braços lá no alto abrindo caminho dando chutes e pontapés para conseguir finalmente ficar bem embaixo do bolão, lembro-me que, ao me ver acertadamente  munida, preparada e posicionada, minha melhor amiga, que era um pouco mais alta do que eu,  invejando tamanha sabedoria pegou o meu bacião e zuniu para o espaço sideral com uma força que sabe deus de onde veio. 

Acredito que essas ocasiões somadas à dança das cadeiras nas festas juninas prepararam-me muito bem para que eu fosse inserida com louvor na sociedade. Se não fosse por elas, eu não teria hoje tamanha desenvoltura quando disputo um lugar no trem na Central ou no 326 e nos aniversários do Guanabara. Foram nesses momentos-Esparta quando, como diz Paulinho, irmão desconhece irmão, que eu desde muito cedo percebi a força que tem um foco em nossas vidas e que não há amigos quando algo, tipo um balãozão, estoura. 

Como era doce essa forma que éramos educados para a vida, não?

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Educação

Participe! Comente você também!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s