No ar

fora do ar

Quem é jovem como eu viveu tempos nos quais internet e celular não existiam. Passamos a infância e a adolescência sem nos preocuparmos com tantos eletrônicos. Íamos sozinhos, desde os sete anos, comprar pão na padaria e leite de saco para o café da manhã. Não havia condução com tio ou tia e os pais não morriam se fôssemos ou voltássemos da escola de ônibus com os amigos. Quando bebês, andávamos no banco da frente no colo de nossas mães sem sequer usar o cinto de segurança! Não tínhamos Play Station, X Box, Wii, Wifi, nada de trocentos canais de televisão, NetFlix, celulares, computadores, Whatsapp… A TV pegava no máximo globo, sbt, manchete e bandeirantes e tínhamos que nos levantar para mudar de canal! Vimos a Xuxa namorar o Pelé que tomava Vitasay. Mas na nossa infância quem nos entretinha era Daniel Azulay que jamais conseguiu nos ensinar a desenhar nem um círculo e Plim Plim pra vocês. A noite, a televisão saía do ar. Poltergeist que o diga. Para ouvir a música favorita, tínhamos que ficar horas sintonizados na mesma rádio. Nossos pais fumavam e muitos de nós também. Dentro de hospitais e nas salas de aula.

Tudo isso não quer dizer que fomos mais felizes ou que nos comunicávamos mais, ou que éramos menos frescos e saudáveis, mas que somos, no mínimo, uma geração única no que diz respeito a ter visto o Michael Jackson surgir, dominar o mundo, mudar de cor e morrer; o John Travolta dançar magro, sumir do mapa e depois voltar gordo e arrasando em Pulp Fiction; e milhões e milhões de vezes o mesmo desenho do Pica-Pau. E lá vamos nós. E lá vamos nós. E lá vamos nós…

Não sou chegada à nostalgia e consigo perceber como os adolescentes de hoje vivem bem essa etapa. Mas não pude deixar de ter meus olhos brilhando mais do que o normal quando abri agora um baú onde guardo um bando de quinquilharias e vi um bilhetinho, entregue em plena aula de química, escrito “Olhe para o teto! O que é aquilo?” que era passado de mão em mão nas aulas chatas. O objetivo era fazer o cara olhar para o alto e os outros simplesmente riam por ter conseguido enganar mais um colega. Nunca havia nada no teto. Acreditem: isso era muito divertido. Lembrei-me que fui pega desprevenida e fitei o teto no reflexo quando, já com o pescoço dobrado, percebi que havia caído numa armadilha. Para não dar o braço a torcer, fiz cara de espanto mas muito espanto mesmo mirando fixamente para um ponto invisível no reboco branco e os que pensaram que haviam me pegado na brincadeira se lambuzaram do próprio veneno. Enganei a todos que procuraram surpreendidos que diabos eu havia, de fato, encontrado. Até mesmo o professor parou a aula para conferir o que todos estávamos contemplando. Enfim, sempre fui foda.

Quando comparo as gerações, não faço para dizer que “no meu tempo que era bom”. E sim para ficar viajando e rindo sozinha completamente aérea, como agora, pensando no que faríamos se naquela época tivéssemos tantas parafernálias mega interessantes como as que existem hoje.

Eu, para começar, numa nice numa boa, ia fazer um vídeo no banheiro da escola me enroscando com a Mulher Loira. E só quem é jovem como eu sabe que não se trataria de um filme pornográfico.

Ia ser chocante.

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Arquivado em Crônicas

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