Enquanto isso na Índia, em Minas Gerais e na Nigéria…

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Aconteceu na Índia.

Quatro amigos monges budistas – Ryotan Igarashi, Shunyu Deshimaru, Taizen Rinpoche e Thich Susuki – estavam meditando há horas sem trocar uma palavrinha sequer entre eles. O local onde eles buscavam alcançar o nirvana,  o estado mais elevado e mais puro de existir, era em Madhya Pradesh, na Índia central, nos jardins do templo de Khajuraho.

Os budistas acreditam que quando atingimos este estado de pureza espiritual, o tal nirvana, conseguimos nos livrar do carma que todos temos por sermos condenados a reencarnar infinitamente. Somos por demais apegados ao mundo material e nossos, digamos, pecados nesta vida serão considerados nas nossas próximas vindas; esse é o nosso carma. Os budistas ainda creem que as reencarnações podem ser feitas em diversos tipos de seres vivos. Ao matar uma mosca, podemos estar dando fim ao nosso bisavô que veio nos visitar. Por isso, eles são meio São Francisco, amam os animais (até mesmo os mais peçonhentos) e não os comem de jeito maneira, nem assado nem frito. Nem com muito alho e com molho barbecue.

A ordem para os  budistas é se desapegar. Eles buscam o entendimento correto, o pensamento correto, a ação mais correta, o modo correto de se viver (virando monge) e para conseguir se livrar de todo desejo material e alcançar todo esse estado iluminado, o melhor caminho é a meditação que consiste em tentar limpar a mente de qualquer pensamento durante o tempo que suportarmos o desafio. Isso deve ser feito em um lugar de pouquíssimo ruído e em uma posição confortável para que nada nos incomode ou desvie a nossa atenção. Se não eliminarmos totalmente o carma, pelo menos, conseguimos diminui-lo um tanto assim considerável para a nossa próxima visita nesse mundo; isso, claro, se muito meditarmos. De fato, enquanto não fazemos nada e somente respiramos, não fazemos nada também de errado. Faz  todo sentido…

Isto posto e entendido, Ryotan, Shunyu, Taizen  e Thich estavam meditando, como já dito. Todos estavam sentados, com a coluna ereta, o pé esquerdo apoiado sobre a coxa direita e o pé direito apoiado sobre a coxa esquerda. Inspira. Expira. Inspira. Expira…

De repente, Shunyu  coloca as mãos para trás e dá-lhe de balançar os cotovelos.

Ryotan abriu um olho ao perceber uma vibração no olhar. Viu o corpo de Shunyu começar a tremer. Shunyu soltou uma alta gargalhada. Levantou-se de uma forma extremamente afeminada, deu alguns giros ainda mexendo os cotovelos para frente e para trás, aproximou-se de Taizen e disse:

– Que Conouó mais odubauê… – (Que quer dizer: que nego mais cheiroso) E deu-lhe uma forte fungada no pescoço do amigo revirando os zóio.

Thich caiu para trás.

– Mas que silenço é esse? Kadê o atabakê? Cadê meus baluás e meus arimbós? – Perguntou em uma língua que misturava sânscrito com umbandês colocando as mãos nos lóbulos das orelhas como se procurasse por brincos e no colo catando por cordões.

Shunyu segurou o koromo (uma espécie de kimono usados pelos monges) pela barra e levantou-a colocando as mãos na altura do quadril. Gargalhou alto de novo com as pernas cabeludas e branquelas à mostra e saiu correndo rindo alto para dentro do templo enquanto gritava como fazem os recém-libertos:

– Eu quero Irubuá, eu quero Unuiê!

Antes que Ryotan, Taizen e Thich tivessem se recomposto, Shunyu voltou com uma garrafa de sakê segurando pelo gargalo. Pegou uma folha seca no chão, enrolou-a e colocou o charuto assim feito no canto da boca.

– Suncês ké sabê como se livrá do karmá? – Perguntou olhando bem na alma dos outros três.

Ryotan, Taizen e Thich balançaram a cabeça de uma forma lenta, mas positivamente.

Shunyu riu estridentemente. Agarrou ligeiro um gato que por ali passava. Com um golpe seco de kung-fu, decapitou o felino e se lambuzou todo com o sangue do animal. Ryotan, Taizen e Thich que nunca tinham ouvido o nome de Cristo colocaram lentamente a mão na testa, depois um pouco acima do umbigo, depois no ombro esquerdo e, finalmente, no ombro direito.

Shunyu rodava e gargalhava ensandecido com as mãos apoiadas no quadril e segurando o koromo. De repente, balançou os braços como um boneco de posto e caiu como os que desmaiaram vendo Elvis Presley ao vivo.

Fez-se o silêncio.

Shunyu, depois de lentos segundos, se mexeu.

– O que vocês fizeram com o gato???

Shunyu largou o koromo e mudou de espírito sem que o corpo tivesse morrido. Passou a escrever. Atualmente, ganha rios de dinheiro vendendo livros sobre poesias eróticas e parece bem mais feliz.

Até hoje, Ryotan, Taizen e Thich, a despeito de muito procurarem em livros e conversarem com monges mais experientes, não entenderam o que aconteceu naquele dia. Também pudera. Para acharmos a resposta certa, devemos saber fazer a pergunta que nos leve a ela e, cá entre nós, “Por que  diabos a Pombagira baixou em Shunyu?” jamais sairá da mente dos monges budistas de Khajuraho.

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Aconteceu em Minas.

No dia 16 de julho, quer faça um Sol de rachar o cocoruco ou caia chuva de encharcar a alma, ocorre a procissão das Comunidades na Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, na cidade do Carmo que fica em Minas Gerais. A Procissão acontece sempre nesse dia em louvor a Padroeira da cidade, de novo: a Nossa Senhora do Carmo. Vejam bem, eu disse Carmo e não carma.

O dia era desses de céu limpo e bem azul e a hora era pela manhã. A procissão seguia quando, de repente, nuvens começaram a aparecer do nada. Lúcia, Jacinta e Francisco, três crianças que iam à frente da procissão, ajoelharam-se onde estavam, bem no meio da rua. Quem olhou para o céu naquele dia viu vapor d´agua condensado de todos os formatos aparecendo do nada e voando em direção a rua onde passava a procissão. Do dia fez-se a noite já que névoas cinzentas eclipsaram por completo o Astro Rei.

Acima das três crianças, que continuaram ajoelhadas com as palmas das mãos juntas, abriu-se um buraco nas nuvens e raios de Sol rasgaram mais ainda a fresta iluminando, como um holofote, somente o local onde estavam Lúcia, Jacinta e Francisco. Daquela brecha, todos viram apontar dois pés. Lentamente, conforme era a descida, as pernas começaram a aparecer. Percebia-se que estavam vestidas com uma calça larga e brilhosa a la Alladin. Logo depois, apareceu o barrigão que teve sua passagem dificultada pela abertura insuficiente. A saída foi feita com a ajuda de duas mãos ornamentadas de anéis e pulseiras. A – até então – Santa continuava descendo e aparecendo bem devagar e com muito menos charme do que se espera para uma imaculada. Mais duas mãos surgem e finalmente os devotos de Nossa Senhora do Carmo viram uma cabeça de elefante com uma presa quebrada e que tinha, ainda por cima, um desenho esquisito no meio da testa! Minha Nossa Senhora que não era a Nossa Senhora do Carmo! Era Ganesha!

Ganesha, o mais conhecido e venerado dos deuses do hinduísmo que tem um cabeção de elefante simbolizando a inteligência, quatro braços e corpo de menino e representa uma solução lógica para nossos problemas, parecia mais ainda atordoado com o que via. Coçou a cabeça com uma das quatro mãos e decidiu por descer assim mesmo.

Todos se afastaram menos Lúcia, Jacinta e Francisco que seguiam de joelhos no asfalto. Ganesha acariciou a cabeça dos três ao mesmo tempo enquanto segurava a flor de lótus com a mão que lhe restava. Beijou as pétalas e entregou aquela parte de vegetal à Jacinta.

As três crianças cresceram. Tornaram-se adultas, jamais engordaram e passaram, de primeira, em concursos públicos federais.

Muitos moradores de Carmo, depois do episódio, evitam comer carne e acendem, ainda hoje, vela para a Nossa Senhora do Carmo que apareceu, assim do nada, no meio de um ritual africano em Kaduna, na Nigéria.

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Arquivado em Conto, Religião

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