Converse com estranhos, meu filho.

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Quando era pequena, quer dizer, menor, meus pais me orientavam: não fale com estranhos. Eu desde os 11 anos já ia de ônibus para a escola sozinha. Antigamente era assim. Não havia um pedófilo a cada esquina (pelo menos a sensação de ter) e o play era na rua sem brinquedos e chão emborrachados.

Mas eu não entendia direito essa parada de “não fale com estranhos”. Qual a definição de “estranho”? Para mim, estranho era algo como o homem do saco, um mendigo qualquer ou um homem cheio de piercings e tatuagens de caveira. Mulher com cabelos grisalhos e verruga no nariz também. Fora esses, sempre dei papo para geral na rua. E se tem uma coisa que é legal nesse mundo é conversar com gente que não conhecemos, fazer excursão em becos que são a antítese de nosso lar e amizades com gente exótica. E se encontrasse um alienígena, que sorte teria!

Se viajo e quando viajo, o bom mesmo é explorar as pessoas. Dialogar em outro idioma, desenhar, gesticular, aprender com um nativo a falar palavrão e como agradecer são a cereja do bolo do passeio. Na verdade, nem precisamos sair de nosso bairro para nos depararmos com algo bem singular a nós. Basta conversar com o vizinho e voilá um outro continente. Bom lembrar.

Agora a mãe sou eu e meus filhos vivem conectados como qualquer um de nós. Não posso ser incoerente e hipócrita. Então, aqui em casa a ordem é: falem com estranhos, brinquem com estranhos, aprendam com estranhos.  Claro que dou orientações quanto aos mal intencionados, mas é para aproveitar à vera e à brinca a oportunidade de viver nesse albergue gigantesco internáutico sem dar a cópia da chave de nossa porta, senha de banco, telefone e endereço. Isso não. Só isso. Sem neura de precisar levantar a ficha, cartas de recomendação e atestados de bons antecedentes do novo amigo que, de repente, jamais verá pessoalmente. Estranho é legal. Estranho é maneiro. Cuidado com as exceções e vai ser feliz, meu filho.

É isso. E se você pensa que estou delirando, saiba que estou bem sóbria e consciente e que tem muita gente que te acha mega estranho. Sorte a minha se sou sua amiga. Super adoro gente esquisita.

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Arquivado em Crônicas, Educação, Filhos, Opinião, reflexões

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