Arquivo do mês: abril 2015

Pedaço de Céu

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Foi ali, em plena Visconde de Pirajá, neste Domingo chuvoso pela manhã e ensolarado no início da tarde, que eu, ao sair da livraria que me acolheu do frio, tive um ataque de tosse. Pensei que fosse morrer. Mas não. Na calçada pisada pelas pessoas bem vestidas e também mal amadas como qualquer suburbano, vomitei um pássaro azul.

O bicho saiu inteiro das minhas entranhas e estivera tanto tempo dendimim que, agora vejam, sabia falar.

As pessoas olhavam, sem entender, o passarinho coberto de catarro que se debatia para se livrar da minha gosma. Mais leve, levantou o bico e perguntou o que estavam todos olhando.

– Ele fala? – Perguntou-me um senhor que vestia uma calça colada e um sapato esquisito.

Eu, ainda fraca daquele parto ao avesso, nada estranhei e respondi com a voz meio falhada, certamente irritada pelas penas:

–  Não vêem que sim? E acho bom não abusar dele. Não é de circo. Não foi treinado. Age por conta própria. -Avisei.

Peguei a ave, um pedaço de céu que estava crescendo no meu corpo, e arrumei-a em cima da minha cabeça com o cuidado que as madames dos séculos passados faziam de frente a um espelho quando colocavam um chapéu.

Eu suspeitava que meu estômago não é dado para borboletas e sim lagartas que viviam a confeccionar o casulo numa lentidão que pelo amor de deus… Mas qual o quê. Criava eu o tempo todo um passarinho.

Uma senhora chique, com cabelos grandes e grisalhos e um ar de cemitério sem flor, aproximou-se e disse a todos:

– Esse pássaro vem da fronteira da vida. Alguém perdeu um ente querido por agora? É uma oportunidade…

Pronto. Eu que queria ir embora logo e terminar o meu domingo acompanhada de meus filhos tive que voltar para dentro da livraria para uma sessão, digamos, espírita. Ave Maria…

– Jorge, disse uma outra senhora olhando para o pássaro que não saía da minha cabeça, você consegue contato com o Jorge?

O passarinho desatou a falar um monte de coisas.

– O que ele está dizendo? – perguntou-me a viúva de Jorge.

– É Jorge que está falando, senhora. Aproveite a ligação.- Esclareci.

– Mas com essa voz de passarinho?

– E a senhora quer que pássaro fale com voz de rinoceronte? – Respondi impaciente.

Puxei um livro recém comprado enquanto a senhora estava perguntando coisas como senha de banco, de que forma fazia para ver as milhas no cartão e que diabos a fatura no visa havia vindo tão alta no último mês se eles mal saíram de casa, ela pelo menos. Jorge, sempre para caminhar e conversar com os amigos no calçadão.

– Não enche, Juraci. – Disse o passarinho.

Cansada daquela ladainha que apenas começara mas que já tinha acabado com a minha paciência, levantei-me, pedi licença a todos que estavam boquiabertos ainda com tudo aquilo e ofereci meu dedo indicador para que o bicho nele subisse. Quem quiser apreciar a beleza de uma ave, jamais olhe para suas patas. Parece que Deus não trabalhou direito ou Darwin, muito. Os pés dos pássaros parecem guardar algo do passado, uma herança escamosa dos lagartos dos quais evoluíram. Com a ave nas minhas mãos, atordoada por aquela observação, saí novamente para a rua.

Vai, conte a todos que viverei não sei mais quantos verões, mas que vomitei as Primaveras.

E assim o passarinho voou e pousou numa lata de lixo cor de abóbora amarrada no poste.

Vim para casa sozinha. Aqui chove. E não paro de pensar naquela ave embaixo da chuva sem saber a quem se dirigir primeiro para dar o meu recado.

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O Amor da Nossa Vida

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Estava aqui lendo Proust (fala sério, gente, eu sou mega burguesia cultural insuportável), quando recebo o telefonema da Nara, minha filha adolescente, que acabava de sair de um ensaio.

– Mãe! Encontrei o homem da minha vida!

Nara faz cursos de teatro, dança, canto e bababá bububú lá em Copacabana. Num desses ambientes, apareceu um rapaz bonito, mais experiente que ela na carreira artística e que lhe ajudou em um ensaio lá pelas tantas. Ele explicava, ela ficava olhando com aquela cara de quem olha para um pote de nutella munido com uma colher. Entendeu, Nara?

– Ai, mãe!, eu nem havia prestado atenção!, acredita? Ele me perguntou quanto tempo eu estava estudando canto e o que mais eu fazia! Disse que sou afinada! Mãe! É o homem da minha vida! Tem que ver que fofo ele me ensinando as coisas! Quero me casar com ele, mãe! – Falava ela como se houvesse encontrado um vestido que lhe vestisse muito bem.

Nessas horas, eu tenho que fazer o meu papel de mãe e ponderar algumas coisas mega válidas.

– Ele é neoliberal? – Perguntei.

– Ai, mãe, mora na zona sul, já trabalhou para a um empresa americana… será?

– Ele é vegetariano?

– Não sei, mãe…, pode ser que sim.

– Ele tem cara de quem adotaria uma vira-lata?

– Tem super cara disso, mãe.

– Tem nada! Você não o conhece, minha filha!

Resolvi dar meu cheque-mate na conversa:

-Qual o signo dele?

(Não que isso importa para mim, mas sei que Nara é desse tipo que sabe se um relacionamento vai dar certo ou não olhando a data de nascimento dos namorados.)

– Não sei, mãe! Mãe! Ele NÃO pode ser de libra! Mãe! Se for de libra… eu teria que ver o ascendente… Eu super dou errado com librianos…

– Você não sabe nada desse rapaz e diz que ele é o homem da sua vida? E se for gay?

– Mãe! Não importa! Isso tudo que você falou são detalhes! Não dá pra ficar se pegando nessas pequenas coisas e, depois, agora ele me conheceu, né? Eu estou aqui para mudá-lo! Ele vai super ser desses que adotam vira-lata e se orgulham disso, vamos conhecer Cuba, comer só coisas que não têm cabeça, vamos andar de mãos dadas pelas ruas do Rio, ver filmes com o Johnny Depp e Helena Bonham Carter, ele vai aprender a cozinhar e vamos ser ricos cantando juntos! Não é lindo, mãe?

Nara estava com a Primavera no estômago. Que máximo…

O rapaz apareceu na aula como assistente do professor, resolveu ajudar a Nara e ela assimilou isso tal como aquelas cenas de filme onde o cara aparece no aeroporto no último segundo só pra pedir pra mocinha ficar. Nem acreditei… Incrível como Nara cresceu e está pronta para viver em sociedade. Viver a vida intensamente. Ter um relacionamento sério. Orgulho de ver minha filha iniciando o ciclo: apaixonar-se loucamente, viver o amor, desiludir-se, tomar rivotril fazer terapia engordar emagrecer e querer virar um monge budista desapegado. Se ela der sorte, o ciclo se passará ou muito lentamente, a ponto de não dar tempo de passar para a fase 3, ou terminar rápido demais e deixá-la pronta para iniciá-lo novamente.

Nara me disse que iria desligar e fazer algumas coisas importantes antes de pegar o metrô e depois o trem para Madureira. Mais tarde, a gente veria juntas o que era preciso para a cerimônia. Ok. Beijo, filha. Beijo, mãe!

– Mãe! – Ela, em menos de um minuto – Descobri! Ele pode ser de esquerda! Ele estuda na UFRJ. É de gêmeos! Hétero e compartilhou vídeos de animais! Agora estou indo para casa! Beijo de novo, mãe!

Nara stalkeou o príncipe todinho, gente.

Cá para nós… Ainda que ele tenha votado em Aécio, goste de bife mal passado e tenha um gato persa, eu sei, Nara sabe e todo mundo sabe que o amor entre o futuro-marido-da-Nara-do-momento e ela pode acontecer de verdade, pois, o amor debocha da nossa razão. Referenciais não nos enchem de desejo. Buscamos um parceiro tal como os animais: pelo cheiro. Talvez um pouco mais do que isso: pelo mistério, pela paz que a pessoa nos traz ou pelo tormento que ela nos provoca. Ama-se por aquilo que o beijo nos oferece. Pelo o que sentimos quando tocam a nossa nuca ou quando nos explicam o que não entendemos com um jeito suave, ainda que não prestemos atenção em nenhuma palavra dita.

O amor, cuja fórmula matemática é: eu fofa + você fofo = casamento eterno, não requer consulta prévia, não se dá a stalkeamentos.

O amor da nossa vida gosta de clichês, portanto, o amor da nossa vida não é aquele que nos leva a Paris e sim traz Paris para dentro da gente. Não nos faz querer a chegada da Primavera; o amor da nossa vida é a nossa Primavera.

É isso. Cá estou pesquisando na internet umas casas de campo bem bonitinhas para sugerir a eles como moradia.

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O Doce da Terra

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Ontem estava querendo conversar com a Nara, minha filha adolescente, sobre o filme-documentário-foda que vi sobre Sebastião Salgado: Sal da Terra, o nome da película. Eu estava mega emocionada e queria contar tudo, inclusive o final, porque acho que ela não vai ver mesmo e eu achei a história giga interessante e inspiradora. Sebastião Salgado destacou-se menos pelas fotos e mais pelo seu foco nos seus sonhos, fossem eles quais fossem.

Comecei, então, a fazer com que ela visse o filme com os meus olhos. Fui detalhando tudo o que observei, os detalhes das fotos, os filhos, a relação com a esposa, até que chegou o grand finale. Terminei super emocionada vendo uma floresta na minha frente plantada por um ser humano.

Quase chorei de novo…

– Grande merda. – Nara disse. – Grande merda! – repetiu assim que eu terminei.

Tóim Tóim Tóim. Mil martelos de borracha bateram na minha cabeça. Como assim ela não achou tudo fantástico?

– Então esse cara para você – esse cara é o Sebastião Salgado. Sintam o meu drama… – esse cara aí tem valor porque plantou árvores? – Disse ela balançando a cabeça como um sino e com a boca bem mole. E, continuou. –  Primeiro, ele era podre de rico, depois, por que diabos ele não ajudou as crianças da África com o dinheiro dele? Não seria mais nobre?

– Mas, Nara, minha filha, para que temos que dar um julgamento moral? Simplesmente ele fez isso e não aquilo, mas fez isso!

– E, daí, responda, mãe, uma ilustre pobre desconhecida que ajudou dez crianças na África, que se sensibilizou messsssmo com elas e não ficou só tirando fotos bem enquadradas não tem o mesmo valor do que ele para você?

– Por que temos que fazer essa comparação? – Questionei. –  Se esses dois que você citou tivessem em um barco e o barco afundando e você só pudesse salvar um, quem você salvaria?

– Justamente isso que te pergunto, mãe!

– Mas, filha, perceba, para que essa hipótese absurda? O que ganhamos fazendo isso? Para que comparar e não somente admirarmos muito o que um fez e depois o feito do outro? Nós que não somos capazes de fazer nem uma coisa e nem outra… Para que dar um juízo de valor nas atitudes e não somente nos inspirarmos nelas?

-Veja bem, mãe, eu não estou discordando de você. Estou exercitando a minha retórica.

Caraca. Nara estava era pra lá de, digamos, despirocada. A bichinha estava azeda, com o coração peludo e discutindo mega emocionada com uma pessoa com a qual ela estava concordando. Fala sério…

– Logo você, artista!, – continuei – que veio ao mundo para sensibilizar pessoas, por que se fecha para um tipo de arte como a da fotografia?

– Aí é que está. Eu não estou aqui para sensibilizar ninguém. E não vejo valor algum em alguém que fotografa a fome e sai plantando árvores.

Meodeos… Nara estava parecendo a menina do exorcista virando a cabeça.

– Como assim, minha filha? Você vai cantar e representar N tipos de dor. Vai sim emocionar e sensibilizar muita gente para uma determinada causa, o que não te dará nenhuma obrigação de lutar por ela! E você não será pior por não fazer isso! Apenas cante e já faz muito para o mundo! No mais, as coisas que eu escrevo, por exemplo, cumprem o seu destino apenas quando são lidas por alguém. Não importa a quantidade de pessoas. O artista não é feliz sozinho!, isso que estou querendo dizer, filha. O artista precisa de cúmplices da sua arte para ser feliz! Não percebe?

– Eu não preciso de ninguém, nem de você nem nada. Eu quero continuar ensaiando e acabar com essa conversa chata que não leva a nada.

– Mas, Nara…

– Eu já te disse não estou discordando de você! Estou exercitando minha fala! Aprendendo a argumentar! Eu não estou discordando de você! E esse cara é um nada para mim!

E subiu para o quarto correndo.

Jesuis… Socorro.

Corta. Cena 2:  Meia hora depois.

Nara está no banheiro e, de repente, abre a porta e me grita ainda sentada no vaso.

– O que foi, minha filha? – Disse assim que a vi sorrindo com todo o rosto.

– Mãe! Menstruei! Menstruei!

– Que bom,  Nara! Parabéns!

Não. Não era a menarca. Era a milionésima vez que Nara menstruava, mas era o sinal de que ela se livrou a TPM e isso, para nós mulheres, é o tipo de coisa que merece uma festa nível entrega de Oscar, no mínimo.

Nos abraçamos fortemente e jogamos vários pacotinhos de absorventes para o teto do banheiro como quem joga confetes e serpentinas. Foi lindo, gente…

– Passou, mãe! Acabou!!!

Não tocamos mais no assunto de fotos e florestas.

Nara hoje acaba de me ligar mega feliz para dizer que tomou um suco de todas as frutas do mundo, inclusive beterraba!

– Foi caro, mãe… Mas tipo tinha tudo! Uma delícia! E olha que eu não curto uma beterraba, mas mãe… Que delícia! Fiquei mega feliz em tomar o suco, mãe!

Não me chamo Sebastião, não fotografei a fome, não viajei pelo mundo, não plantei florestas. Não fui o Sal da Terra. Mas tenho a impressão de que, de uma forma bem humilde e modesta, hoje consegui registrar uma grande amizade e, também, de que ajudei a semear um colorido jardim.

Enfim, como disse, um filme inspirador.

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Lei.Tu.ra.

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Eu tenho esperanças de que o Brasil melhore e carrego também a extrema necessidade de alimentá-las já que tenho filhos. É necessário acreditar em um país mais digno e assim, no meu dia a dia procuro fazê-lo. Como acreditar na solução para o nosso Brasil se para que os homens se entendam precisam conversar e para qualquer lado que se olhe a gente se sente no pátio na hora do recreio no meio de um bando de meninos de dez anos de idade? Em verdade vos digo: eu sonho. E pouco me importo se estou no terreno do onírico vendo a realidade, pois, já dizia o recém-falecido-mestre Eduardo Galeano: Me aproximo dois passos, a utopia se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Para que criemos um país mais justo, com menos desigualdade social e pessoas que não se incomodem em diminuí-la, com menos crimes, um país onde não se veja sequer a necessidade de diminuir a maioridade penal pois todo o sistema de, digamos, correção funcione, para que não haja policiais agindo conforme bandidos, para que não haja mais bandidos e os policias ocupem a maior parte do seu tempo de trabalho com um sorriso no rosto cumprimentando a população, para que não haja crianças nos sinais de trânsito pedindo esmola, para que a palavra esmola não faça sentido um dia, para que homens respeitem mulheres, para que todos respeitemos as minorias e também a maioria, para que se combata o crime e qualquer tipo de degradação moral, a arma contra tudo isso pode e deve ser feita de papel. No meu modo de ver as coisas, para combater à violência, a nossa arma deve ser: leitura. Se para cada mulher espancada, livros fossem difundidos; se para cada morte por bala perdida em uma comunidade, livros fossem  distribuídos nas adjacências; se para cada criança morta por policiais, uma biblioteca fosse erguida no local… Não seria um meio bem eficaz de ir mudando a cabeça da sociedade para melhor? Se ao invés de investir em melhorar a polícia, ou se gastar tempo discutindo a diminuição da maioridade penal, debatêssemos formas de implantarmos mais bibliotecas públicas nas comunidades e direcionássemos a verba para erguê-las, a criminalidade, ao certo, diminuiria.

Não posso deixar de mencionar que um tipo de violência que percebo é essa quantidade de remédios que nos são indicados para ingerirmos. Fiz uma pesquisa por alto e sei que na comunidade médica há muitos hipocondríacos. Por outro lado, nossos médicos andam muito doentes e tomando, também, drogas demais. Então, meu sonho inclui a cura pela leitura. Alguns exemplos: Para estresse: Luis Fernando Veríssimo. Insônia: Senhor dos Anéis. Ansiedade: Proust. Depressão: Kafka. Confusão: Clarice Lispector. Déficit de Atenção: Rubem Braga… Parece-lhe razoável? A mim, bastante. O poeta Affonso Romano de Sant´Anna me contou uma história de um doutor chamado Ronaldo Tournell. Há tempos ele começou a comprar livro para seus pacientes e percebendo que muitos melhoraram, fez uma biblioteca para eles e eis que algo maravilhoso acontece: um paciente começou a se recuperar de forma ímpar e se recusou a ter alta porque queria terminar de “ler” uma determinada história. O médico sabia que aquele paciente era analfabeto e perguntou como assim ele estava lendo?, e o doente se explica: o paciente do leito ao lado lê para mim e eu leio na leitura dele. A doença, em parte, era de fato a falta de leitura.

Evitando deslizar para o profético, mas ainda no plano especulativo, afirmo que estamos mal e maus porque andamos simplificando muito pela nossa limitação de abstrair, de fantasiar, de voar. Assim como temos que caminhar (e os médicos não cansam de repetir que estamos muito parados), precisamos também ler porque, penso eu, literatura é uma sinvastatina natural. Através do livro, eliminamos as gorduras tóxicas da nossa imaginação. Conflitos, metáforas, ritmos alucinantes dos parágrafos, a complexidade das frases e a escultura de uma história passam um tipo de conhecimento que nenhuma conversa,a meu ver, pode ter. Os autores disponibilizam para a gente um instrumento, um tipo de lente para se ver alguns aspectos da realidade. Não estou falando somente do estilo que se percebe pelo modo como se escreve, estou apontando algo além disso: o modo como se vê o mundo. Mais ainda, não estou também querendo dizer com isso, abusando do clichê, que um universo se abre diante dos nossos olhos. Também. Mas dependendo do autor não somente isso. Há autores que nos mostram com maestria personagens, armas, conflitos, uma história envolvente. Fato. Mas há Autores que nos emprestam lupas e microscópios para que reconheçamos realidades diante das quais seríamos como os míopes sem Eles. O que eles escrevem eu chamo de literatura e é a ela que me refiro quando prego a leitura.

E nem sei se é tanto especulativo assim esse meu discurso sonhador. Olhando para os países que saíram da miséria e hoje são considerados exemplos de cultura e educação, percebemos o quão fundamental foi o incentivo à literatura. Muitos não têm os recursos naturais que temos, mas têm muito mais bibliotecas e livrarias nas ruas. Até os mais humildes sabem que a leitura é um poderoso instrumento de resgate social. Outro dia, já contei por aqui pelo blog, um garoto trocou as moedas que lhe daria como esmola pelos livros que estavam no banco de trás do meu carro e pertenciam ao meu filho caçula de oito anos. Seus olhos brilharam quando pedi para que escolhesse um. Eu acabei dando todos diante a felicidade do menino que sabia o valor exato dos livros.

As frases, por vezes difíceis de serem assimiladas, de sua aparente inutilidade e perda de tempo, são uma grande isca. Uma vez que mordemos, somos puxados por um anzol que desencadeia em nós uma série de interrogações, perplexidades, devaneios, interpretações, batalhas, epifanias.

Ler é preciso.

Ler é sobreviver.

Ler é desancorar-se.

Lendo o mundo se recria. A gente ouve “era uma vez” e abre-se um mar de possibilidades, inclusive a de melhorarmos um país.

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A obra que ilustra esse texto é do artista Sérgio Ricciuto Conte. Mais preciosidades como essa, encontramos aqui:  www.sergioricciutoconte.com.br

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Conversa de Peso.

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Há alguns meses atrás, no ano passado, andava eu por alguns desses shoppings da vida, quando alguém me chamou pelo nome:

– Elika? Caraca! Que surpresa! Quanto tempo!

Era uma mulher magra, alta, loira de cabelos lisos e escovados e devia ter a minha idade. Claro que eu não tinha a menor ideia de quem poderia ser. Queria retribuir a surpresa de eu também reencontrá-la, mas estava difícil.

– Não está me reconhecendo, né? – e com um sorriso, salvou-me daquele incômodo dizendo-me seu nome e sobrenome.

Meodeos… não era possível…

– Cadê o resto? – Perguntei sem pensar.

– Pois é, perdi cinquenta quilos. Nem eu me reconheço quando olho no espelho. – Disse minha colega dos tempos idos de escola.

– Como foi isso? – Questionei curiosa.

– Arrumei um nutricionista radical e comecei a fazer dieta associada a exercícios. Aquilo que estamos carecas de ouvir…Daí, comecei a ficar neurótica com essa parada de calorias. Qualquer coisa que eu vejo agora eu sei com precisão qual o valor calórico e quanto de exercícios eu tenho que fazer para eliminar o excesso de calorias ingeridas. A despeito de eu ter ficado obcecada, funcionou bem como você pode ver.

– E você não sente falta da outra que te acompanhava? Digo isso porque eu peso quase 55 quilos. Você era praticamente duas em uma. Era como se você me carregasse no colo pra baixo e pra cima.

– Ah, sabe que eu sinto? Os gordos têm fama de serem engraçados e bem humorados. Eu gargalhava alto com a mão na barriga. Hoje nem faço mais som quando rio, mas tenho a mania ainda de colocar a mão na barriga quando dou risada e me sinto estranha quando não sinto as banhas.

Rimos as duas com ela jogando o corpo para trás  com as mãos na barriga seca e a boca aberta tremendo sem que, de fato, saísse som. Super esquisito…

– Quando ando de ônibus,- continuou –  ainda encolho bem a barriga para passar na roleta e várias vezes penso que não vou conseguir correr para pegar a condução. Quando me lembro que agora sou magra, disparo a ponto de me sentir Usain Bolt e me surpreendo sentindo o vento nos meus cabelos com a velocidade que adquiro com os meus próprios músculos.

– Caramba… Mas você ainda está fazendo dieta?

– Ah não mais. Agora como tudo o que quero e não engordo mais. Exercício físico faz parte de minha rotina. O corpo se acostumou, eu acho. Agora ele mantém o equilíbrio por conta própria. – Disse ela acreditando que a mente é algo que se separa do corpo.

Minha amiga não tem facebook. Trocamos telefone, e-mail, WhatsApp para qualquer dia desses nos encontrarmos com mais calma. Coisas de carioca…

Aconteceu, porém, coincidentemente outro dia, algo semelhante mas bem diferente. Explico-me: eu encontrei outro amigo também da época de escola mas que estava muito acima do peso.  Não reconheci a pessoa para variar. Papo vem papo vai, lembrei-me de tudo. Não que eu tivesse questionado alguma coisa, mas meu colega sentiu necessidade de justificar porque havia engordado tanto a ponto de ficar irreconhecível. Casamento, filhos, trabalho, pós-graduação… essas coisas que todos nós sabemos muito bem do que se trata.

Não foi por mal nem nada, mas acabei contando que havia encontrado com a amiga em comum que mencionei acima. E se não falo o  nome e sobrenome de nenhum deles é para proteger a privacidade de meus simpáticos colegas. Well, como disse Proust: mais difícil que seguirmos um regime é não impôr aos outros. Não que eu estivesse seguindo alguma coisa, mas como vi uma pessoa satisfeita por ter se reduzido a metade, achei por bem repassar a experiência para quem, aparentemente, havia dobrado de tamanho e estava incomodado com isso.

– Ah sim, por favor, me passa o telefone dela para conversarmos. Muito me interessa sim! – Disse educadamente.

– Vou fazer melhor, vou ligar agora e já resolvemos isso.- Disse eu crente que estava ajudando.

E comecei a mexer no celular.

– Alô, Fulana! Eu, Elika! Você não sabe quem está na minha frente! Sicrano! Pois é! Olha, estamos aqui conversando e falando sobre você. Queríamos saber o telefone da médica que passou aquela dieta mágica para você…

– Ih, Elika…- Fulana falou. – Gordura podia ser igual virgindade, perdeu uma vez não volta mais. Mas não é assim… Se eu morrer hoje e for cremada e jogarem as minhas cinzas no mar, vão criar uma ilha! –  Gargalhou bem alto certamente com a mão na barriga. Falou mais umas coisas de peso e desligamos.

Bem feito para mim. E agora para passar com o Sicrano uma notícia que nem havia dado tempo d´eu digerir?

– E aí… o que ela disse? – Perguntou-me meu colega com o rosto ávido por notícias.

– É… bem… O ponto é que junto com os quilos perdidos de Fulana, foram também a sua felicidade, a sua simpatia, o seu amor por viver com os outros. Ela lhe aconselhou a procurar saber, antes de você pensar em emagrecer, onde está o seu alicerce, o que de fato te incomoda e verdadeiramente faz você feliz.

O rapaz ficou sério me olhando com os olhos mais brilhantes do que quando o encontrei.

– Peço desculpas por ter me precipitado e achar que iria te ajudar dando um telefone de uma nutricionista que nem conheci pessoalmente. – Disse sinceramente e muito arrependida. –  Claro que mais importante que o peso mensurável pela balança é o peso das ideias, de suas expectativas com o futuro de seus filhos, de seus sonhos… mil desculpas por ter passado por cima disso. Comecemos do início, por favor.

Meu amável colega deu outra chance para nós dois, afinal, em minha defesa, foi ele quem começou a explicar sobre seu corpo sem sequer eu ter perguntado alguma coisa. A minha ânsia de ajudar misturada com o preconceito de que a pessoa acima do peso está infeliz foi um fardo que enuviou o passado que outrora tivemos, ameaçou o futuro de nossa amizade e quase tornou o presente indigesto caso não houvesse tempo para pedir perdão e ser perdoado. Conversamos mais um tempo sobre literatura (ele se tornou professor de redação), sobre casamentos e separações (ele está começando o terceiro casamento mega animado), sobre viagens (meu amigo professor já viajou para vários lugares do mundo), sobre o futuro de nosso país (preocupação de todos nós independente do partido pelo qual nos simpatizamos) e sobre nossos atuais projetos.

E foi isso. Termino esse texto não envergonhada pelo que fiz e sim reconhecendo pela milionésima vez que o importante nesta vida não é ser magro e sim ser leve. Se der para ser os dois, ótimo. Se não, que a gravidade atuante na massa em excesso seja driblada pelo empuxo de nossos ideais. Afinal, o avião pesado adquire desenvoltura e voa não sem antes correr extremamente focado com os braços abertos para frente sabendo que há um céu para exercer a liberdade.

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Caleidoscópio

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“Lúcia ao chegar na cozinha vê uma barata, pisa e mata o inseto.” – Elika Takimoto

“Eu estava nu na cozinha, quando Lúcia entrou com a bunda de fora. Uma trintona atraente, a boca um pouco grande, mas eu já encontrei mulheres assim que não valiam nada. Tive que bancar o gentil e me prontifiquei para matar uma barata gorda e suculenta que desfilava no chão. Lúcia pediu para que, antes, eu passasse a minha mão nos pêlos de sua púbis enquanto ela corria o dedo de leve pelo meu pau. Em pouco tempo, expeli lava como um vulcão. O sêmen, cola exposta no ar. Lúcia com os dedos provou-o e com os pés descalços matou a barata. Aquele bicho foi dilacerado pelas mãos de Lúcia e sua gosma, junta da minha lambuzaram a sua boca.” – Rubem Fonseca

“-Argh! Mãe, fala sério! Mata logo essa barata! Eu super tenho nojo desse bicho e quero mega beijar na boca do Dudu quando ele chegar aqui. Fala sério, mãe! Se você não matar eu tenho que super sujar os meus chinelos mega lindos! – Falou a fofa da Lúcia.

A barata correu na direção da menina e ela no instinto pisou na bichinha com seus chinelos fofuréééésimos.

– Fala sério, mãe! Nem me ajudou!” –  Thalita Rebouças

“Em Lisboa, no outono de 1875, Lúcia já era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete tinha paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar e insetos relambórios d´onde D.Maria cozinhava. Affonso ia longe. Naquela idade, de verão ou de inverno, ao romper do Sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois de uma boa oração da manhã que era um mergulho na água fria.  Lúcia, com seu lenço de seda comprado em Coimbra por Affonso, às vésperas da chegada de Carlos, ao sair do fumoir, a sala mais cômoda do Ramalhete, adentrou a cozinha. Ao olhar para o chão, tão pleno de cores cantantes de velhas faianças holandesas, deparou-se com uma barata. Indignou-se com o inseto fugindo airosamente à bolina. O nojo exagerado e mórbido cessou por fim. Lúcia, numa exuberância ansiosa que desencadeou tão subitamente, na sua natureza desequilibrada, pisou depressa naquela criatura que sequer deixou ser percebida por D.Maria. A vida d’aquele invertebrado dissipou-se no piso do Ramalhete.” – Eça de Queiroz

“Lúcia da Paz entrou com o à-vontade de quem conhece os cantos à cozinha, e perguntou para a barata que viu no chão, O que fazes aqui, e ela ao não responder ouviu mais, Exijo que me faça um favor de sumires, Tome logo a sua direcção, Enfrenta-me? E matou a barata. Lúcia da Paz passou as costas da mão pela testa molhada de suor. Tinha conseguido o seu objectivo, não lhe deviam portanto faltar razões para estar satisfeita, mas a condução daquele dificultoso diálogo que correra sempre por conta dela mesmo quando não parecia que assim estivesse sucedendo, sujeitando a barata a um contínuo rebaixamento que não se objectivava explicitamente nas palavras por ela pronunciadas, mas que porém, uma a uma, iam-lhe dando nojo e fez-lhe de pura uma assassina.” – José Saramago

“Mire veja: de tudo não falo e dizendo vou. Eu quis lavar as mãos que muito sujavam. Acho que, de cansado estava também com dôres redondas de cabeça, molhei minhas palmas e minhas fontes. Cansaço faz tristeza, em quem dela carece. Adentrando na cozinha, vi Luça distraída sem ver uma baratinha. Os outros, o resto, essas criaturas? Assim eu discernava, sorrateiro, muito estudantemente. Mas nem birra nem agarre Luça estava acautelando. O que era direito, que se tinha. O que pensei, deu de ser assim. Luça pisou na bicha porque para matar ela sempre foi pontual. Se diz.”- João Guimarães Rosa

“A única verdade é que a barata ainda vive. Quem é ela? Bem, isso já é demais (…) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer o que é uma barata. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Pensou Lúcia. Mato-a e tudo isso acaba.” – Clarice Lispector

“Lúcia descobriu, ao ver uma barata, que é preciso superar a dor onde estiver, mesmo que isso signifique horas, dias, semanas de decepção e tristesa. Porque ao momento em que partimos para que tenhamos menas dor, ela também parte de nós. Lúcia matou a barata e olhou para as estrelas.”- Paulo Coelho

“Boa pontaria faz toda a diferença. – pensou Lúcia. Às vezes um alvo está mais perto que outro e isso parece facilitar as coisas, às vezes uma pessoa parece legal mas é camuflagem, às vezes alguém se move em nossa direção e, antes de ouvi-lo, o abatemos. – E concluiu ao ver uma barata: – Viver é lutar um pouquinho a cada dia pela nossa felicidade. Ninguém sai ileso dessa briga, mas fere-se menos quem tem bom faro, noções de diplomacia e, principalmente, sabedoria para distinguir a hora de atacar e a hora de se defender. Lúcia, então, bem mais segura, percebeu que era hora de matar a barata.” – Martha Medeiros

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Número de Emergência

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Despachando bagagem e fazendo o check-in, a moça de uniforme sem olhar para mim com os olhos fixos para a telinha do computador pergunta em forma de um pedido:

– Um número de telefone em caso de emergência.

– Se o avião cair? É isso? A senhora quer saber para quem tem que ligar se o piloto tipo não conseguir voltar para cabine?

– Mais ou menos isso, senhora.

– Mas se eu entrar nesse avião pensando que ele pode cair, isso não deve fazer bem para a energia do sistema. A senhora pergunta isso para todo mundo? Pois não deveria, pensamento negativo atrai, sabia? Não acredita? Nem eu. Mas esse papo me deixou muito tensa e pensativa. Não imaginava que pudesse morrer agora…

– Um número de emergência, senhora.

– O da minha mãe. 9804… não, péra. Meu pai não está muito bem de saúde e pode enfartar se souber que morri. Pensando bem, isso vai matar a minha mãe de depressão também. Eles não podem saber da minha morte. E receber essa notícia da companhia aérea não vai ser nada legal. Diga para meus irmãos, anota aí o telefone deles, diga para eles cuidarem um dos outros e para minha empregada, pode ligar lá para casa mesmo, agradeça pela dedicação. Só um número? Pode ser o da minha irmã mais velha, mas se for ligar só para ela eu queria que você deixasse um recado também. Diga para ela dar um jeito e vir morar perto do papai e da mamãe. Não quero eles sozinhos. Diga também para ela dizer para meus pais que eu estou em um lugar muito bonito e para conversar muito com a Nara, minha filha adolescente. Ela tem andado de mau humor ultimamente, mas pode ser hormônios. Não sei. Diga para a minha irmã ter paciência com a minha filha. De repente, ela anda irritada porque andei fazendo coisas, tipo me separado do pai dela. Mas diga para a minha irmã dizer para a minha filha que eu estava precisando ficar sozinha e, com ele, estava me sentido sozinha. Eu sei. É difícil de entender. Estou fazendo terapia para resolver isso e se essa budega cair não vai dar tempo. Morrerei sem esclarecer porque as minhas manhãs foram tão paradoxais, as tardes, plenas de incertezas e as noites têm sido tão escuras e, ao mesmo tempo, em claro. Diga para ela dizer ao Hideo, meu filho mais velho, que ele é muito inteligente e que ele vai brilhar como músico. Eu fui mãe dele muito nova, sofri muito quando estava grávida. Meu pai queria até que eu não morasse mais com eles, agora veja. Não quis casar com o pai do Hideo, que não é o mesmo pai da Nara e do Yuki mas que acabou sendo o pai dos três com o tempo, papo longo esse, depois te conto se quiser, mas continuando… e o fato de não ter conseguido dar uma família do tipo ideal para Hideo me encheu de culpa durante muitos anos e, sabe deus por quê, descarreguei essa raiva de mim mesma nele. Sinto muito por essa péssima administração de meus problemas. Diga ao Yuki, meu caçula, que as mães não morrem. Que estarei com ele sempre. Yuki é muito sensível, chora por qualquer coisa e não vê mais filmes da Disney com medo do momento-barra-pesada. Avisa para a minha irmã que ela tem que conversar muito com ele para quando a vida chegar, ele conseguir deixar o filme rodando e não dar pause como ele faz com os desenhos. Peça para ela ler para ele sempre. Quero que meus filhos morem com o pai e gostaria que eles nunca tivessem deixado de conviver com ele. Sinto vergonha por ter feito essa separação forçada com todos eles. Imagina… separá-los do pai… uma pessoa tão bacana que só acrescenta na vida deles. Quanto mais perto dele, melhor para os três. Quiçá para mim também. Mas por que não estava sentindo que era bom para mim? Por que quanto  mais tento consertar mais pioro tudo? Por isso as pessoas são acomodadas, moça. Todos têm medo. E é para ter mesmo porque a dor pode passar do limite de ser insuportável, sabia? A inércia não pode jamais ser julgada. Diga ao Nelson, o pai dos meus filhos e o melhor ser humano que já conheci na face da Terra, anota aí 9767…, diga a ele que eu morri sem entender nada. Que eu morri sem futuro por sequer conseguir imaginá-lo mais. Que eu não morri arrependida, pois, fiz o que deveria ser feito para nos poupar de mais sofrimento, mas que ainda assim, se vivesse, não sei se teria coragem mais de olhar para ele de tanta vergonha por ser tão incompreensível para mim mesma. Gostaria de ter sido uma pessoa mais simples, mas não consegui. Peça-lhe que me perdoe, pois eu não fui capaz de fazê-lo. A casa está florida, procuro deixar sempre assim, mas não ando mais rumo às primaveras. Parei no outono desde início 2014 quando, ao ler Proust, tive uma doce, breve e ímpar sensação de ter sido compreendida. Se meu corpo for encontrado, quero que este livro seja enterrado comigo.

A senhora quer só um número, correto? Pois então, agora veja, acabo de descobrir que preciso de um número de emergência também, mas caso o avião não caia.

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