Arquivo do mês: junho 2015

Voando como um Passarinho.

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Estava eu lendo em pleno bosque que fica no meio do CEFET no meu intervalo de tempo entre duas aulas. Na verdade, eu ainda trabalhava em silêncio. Quando gostamos do que fazemos nos tornamos escravos do que nos sustenta e nos sentimos felizes e condenados a não deixar de labutar mesmo quando repousamos embaixo das árvores numa manhã de inverno em pleno recreio. A despeito de ouvir mal, pude perceber com clareza vários cantos de pássaros invisíveis entre os ramos. Eu não sou dessas que sabem distinguir pelo assobio a raça do passarinho, digamos que jamais consegui ligar o nome à “pessoa”, salvos os Bem-te-vis e os pombos. Mas, confesso, gosto da minha ignorância neste e em outros determinados assuntos porque me parece que se soubesse associar um trinado ao pássaro que o emite perderia algo que se apreende sem o uso das palavras e que nenhum livro pode ensinar. Não sei descrever ao certo, mas aponto para alguma coisa da mesma natureza daquilo que passeia na memória da sensação de quando ainda éramos feto.

Observando aquela cantoria percebi que havia pelo menos uns quatro tipos diferentes de assobio. Além disso, o pipio se repetia depois de um breve intervalo. Será que eles conversam entre si mesmo sendo de raças diferentes? Por que repetem o mesmo assobio? O que será que significa para eles o silêncio? O que ocorre no intervalo de dois silvos? Uma reflexão? Há um bate-papo ou cada um canta para si mesmo? Se o barulhinho que fazem se repete, será que se trata de uma mesma pergunta a ser repetida indefinidamente? Algo como: Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?. E o outro responde: E eu lá sei? E eu lá sei? E eu lá sei?. Ou seria uma afirmação que reforça o amor e amizade? Estou aqui! Estou aqui! Estou aqui!, e o outro responde: eu também! eu também! eu também! Ou…

Vai que o que acontece no meio dessas árvores é o mesmo que ocorre aqui embaixo onde ninguém se entende e cada um ingenuamente acredita na objetividade de cada proposição dita quando coloca a subjetividade como objeto para o outro e ainda formulam sentenças esdrúxulas como esta? Vai que eles são como nós que monologamos com o nosso interior em forma de sons articulados em direção a um ouvinte que apreende cada frase de uma forma diferente da que nós experimentamos quando a liberamos? Falo isso porque acho que é impossível exprimir pela via da linguagem o que em nós existe já que não há palavras que o revele; por isso, a música, a poesia, a dança, a pintura, a arte de forma geral que representa, na minha opinião, o desespero do homem em se fazer entender. Ou…

Vai que, como se realiza com os seres humanos, é no silêncio que tudo acontece já que a linguagem é a maior fonte de mal-entendidos e que cada gorjeio seja apenas um sinal de pontuação ou uma necessidade de se confirmar que os outros estão prestando atenção?: não concorda?, está me entendendo?, não lhe parece razoável?… coisas assim.  Ou…

Vai que a frase esboçada em forma de assobio seja tão linda que é melhor que seja repetida cem mil vezes do que dizer qualquer outra coisa? Ou vai que eles só nomearam uma coisa e isso lhes basta? Nós, bobos que somos, que nem aceitamos que as metáforas possam ser mais reais do que a nossa própria existência ou o chão que pisamos, ignoramos tudo o que não tem nome e acreditamos somente naquilo que pode ser chamado, por isso, dicionários cada vez mais grossos e entendimento que é bom…

Enfim, lá fiquei no meio daquelas árvores a observar aquele bando de passarinhos sem saber classificá-los. A ausência total desse conhecimento permeado de nomenclaturas acabou me fazendo vaguear por tantas interrogações. Talvez nenhuma enciclopédia possa nos ensinar aquilo que só podemos aprender quando somos saudáveis crianças ou adultos ignorantes – como eu – que se deixam levar pela investigação contínua e infinita da natureza de seja lá o que for e que não leva a conhecimento algum.

Acabei perdendo a noção do tempo no meio de tantas divagações. Vejam vocês, fiquei voando voando e voando e ainda tive que sair voando dali.

Tal como os passarinhos.

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Vida Privada

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Hideo, meu filho guitarrista e trabalhador, há dias está boladaço com uma casa que ele foi dar aula particular. Na verdade, era um apartamento e bem pequeno. Em um determinado momento, meu filho pediu para ir ao banheiro que era dentro do quarto onde estava a esposa do aluno dele. A esposa estava vestida e coisa e tal, mas continuou no quarto enquanto ele entrou no banheiro. Qual foi o desespero de Hideo ao perceber que não havia porta alguma. Como eles cagam, gente? Um fica olhando o outro? Como pode banheiro não ter porta??? A mulher não vai sair dali? Como assim? Eles são loucos?, repetia essas perguntas que lhe ocorreram na hora para toooooodos que ele contava e recontava a história.

Acabou que, após muito se concentrar, ele fez um xixizão com mulher do cara ali ao lado, depois pediu dá licença para ela e voltou a dar aula achando aquele povo da casa muito estranho.

Ontem, ele contou essa história pela milionésima vez mas pela primeira vez para meu irmão que conhece o tal do cara que vive em um micro apartamento que nem porta no banheiro tem.

– Tony, você já foi naquele banheiro?- perguntou ele indignado.
– Sim. Qual o problema?
– Não tem porta! Como pode o banheiro não ter porta! Como eles cagam, gente? Um fica olhando o outro? – e bababá bububú…

Qual foi a surpresa do Hideo ao ouvir que havia sim uma porta.

Mas era de correr…

E o meu filho é lesado.

Mas gente…

Agora fico imaginando o que a mulher do cara e o cara estão pensando do meu filho.

Moral da história: O julgamento precipitado é sempre uma merda.

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Falando de Sexo Em Família

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Fui convidada de novo para participar do programa de televisão Em Família do Canal Saúde/Fiocruz, emissora de televisão do ministério da saúde. Já havia participado de um em que discutíamos sobre privacidade na rede. Eu com o Minha Vida é um Blog Aberto fui lá para mostrar como podemos nos expôr sem fazer mal a nós mesmos. Mas no último programa que foi gravado ontem e que em breve vai ao ar, o tema era “Falando com os Filhos sobre Sexo”. Aceitei o convite, mas logo depois me desesperei. Fala sério eu em rede nacional falando de rami rami! Caraca! Se gaguejo na frente dos meus filhos, da televisão então…

Hideo, meu filho mais velho e guitarrista, pediu para eu aproveitar e dizer em rede nacional que ele é pegador profissional, Nara, minha filha que está saindo da adolescência, falou para eu contar, como eu já lhe expliquei um dia, aquela história que sai o negocim tipo um liquidozim do homem quando ele fica extremamente feliz tipo mega feliz mesmo. Yuki disse que aquele papo de rabo com semente de feijão na ponta desse rabo confunde ele até hoje (falei isso para ele na tentativa de explicar a reprodução humana de forma hiper didática e ele até hoje não entendeu). Enfim, eu não estava certa de que poderia contribuir com algo para esse tipo de programa mas vamu que vamu…

Meus dois filhos mais velhos me acompanharam no dia da gravação. Nara e Hideo sempre estão ao meu lado em momentos tensos como esse. Chegamos lá pontualmente às 9:30hs da manhã e ficamos em uma salinha esperando a hora de ir para o estúdio. Estávamos conversando com o produtor Telêmaco quando fomos interrompidos pela maquiadora me chamando para o camarim. Maquiadora?!? Ui! Que máximo! Levantei-me, e fui dançando ula-ula pelos corredores do canal mega feliz com o momento-estrela-de-roliúde.

Mal voltei para a salinha com o reboco da fuça nos trinques, chegou a outra convidada. Uma senhora para lá de simpática que se apresentou como Maria Cristina, psicóloga, terapeuta de casal e sexóloga.

– Que bom te conhecer! – disse Hideo. – Você é tudo o que minha mãe precisa!

– Mãe! Aproveita! Conversa com ela! – disse Nara mega animada.

Meus filhos acham que eu estou ficando maluca depois que me separei. Não que eu tenha feito nada excêntrico, mas ando, é verdade, sem entender o mundo e sobretudo a mim mesma. De qualquer forma, ser anunciada assim pelos filhos a uma profissional super fofa é meio barra pesada.

– Você trabalha com o quê, Elika?- perguntou-me ela curiosa.

– É. Bem. Acho que devo me apresentar primeiro como escritora. Tenho escrito muito mais do que dar aula e… ai que vergonha eu ao seu lado no programa, olha, eu não sei porquê me chamaram aqui e já te adianto que eu não sei nada sobre sexo, sou praticamente uma virgem e mal conheço esses dois aí. – disse apontando para meus filhos.

Nisso chega o produtor animado dizendo que já que Hideo e Nara estavam ali, poderiam eles também participar do programa. Oi? Eles não vão…

– Jura? Eu quero! – disse Nara.

– Posso dar meu telefone depois que eu falar tudo o que sei fazer? – perguntou Hideo.

Pronto. As chances daquilo virar uma crônica estavam definitivamente aumentando.

Nara foi chamada para se maquiar e eu resolvi acompanhá-la.

– E eu vou ficar aqui sozinho com a sexóloga? – perguntou Hideo se virando desesperado para a Maria Cristina que olhava para ele sorrindo com todos os músculos da face.

– Aproveita e se trata um pouco, meu filho! Cuida dele para mim, sim? – pedi olhando para ela que aparentemente se divertia com tanto doente em sua volta.

Hora da gravação. Na primeira parte do programa decidiram colocar a apresentadora, eu, Nara e Hideo. Somente no segundo bloco chamariam a profissional do assunto para ficar ao meu lado.

– E então, Hideo, é fácil conversar com sua mãe sobre sexo?

– Não. Impossível falar com ela sobre qualquer coisa. Tudo ela faz escândalo e chama todas as minhas namoradas de fedorentas.- respondeu ele super sério com cara de pobre coitado. Eu não estava acreditando…

– Nara, é fácil conversar com a sua mãe sobre sexo já que você é menina?

– Não. E nem posso contar todas as besteiras que ela fala para mim porque se chegar em casa ela me bate.

Mas, gente… quase dei uma bifa na Nara ali mesmo. Como assim? Helooou! Sabe lá o que é ter seus filhos diante das câmeras falando assim de você? Eles, para variar, estavam de gaiatice, mas o público não me conhece e minha imagem acabou ficando muito pior do que imaginei que ficaria se somente eu falasse sobre mim. Sei que os dois seguiram me esculachando e eu ali toda maquiada de cabelos escovados sendo bombardeada de perguntas cabeludas intercalados de comentários altamente travessos de Nara e Hideo.

No segundo bloco, entrou a Maria Cristina que chegou para salvar a minha imagem. Disse ela olhando para a apresentadora Yasmine que o importante é ter uma relação saudável, de intimidade e amizade com os filhos que o resto vem naturalmente, “algo como a relação da Elika com  a Nara e Hideo como pudemos ver”. Ufa. Amém.

E seguiu o programa com várias discussões sobre esse tema cabeludo que tem andando bem careca dado a moda da depilação. E não adianta falar o contrário ou tentar dar receita de como abordá-lo. É tabu sim senhor e vai ser sempre. Expôr a sua sexualidade é ficar literalmente e metaforicamente nu. É tenso. Somos inseguros não importa a idade porque sobre sexo todos somos neófitos. Até mesmo a sexóloga. A diferença dela para nós é que ela sabe menos ainda sobre o assunto porque estudou muito mais e, portanto, fica paradoxalmente bastante segura ao dissertar sobre o tema por entender que nessa esteira todos somos estranhos uns para os outros. Por exemplo, sexo acrobata e brinquedinhos que tanto excitam muita gente por aí a mim pouco ou nada impressionam. Por outro lado, jamais vou entender porque a posição papai e mamãe é classificada como pouco prazerosa, careta, nada criativa e sinônimo de sexo insosso para várias pessoas. E paremos por aqui porque já falei demais!

Acho eu, sinceramente, que educação sexual teremos todos enquanto vivermos porque por mais que leiamos e experimentemos o assunto é inesgotável como qualquer ser humano em si o é. Espero ter deixado claro que eu só sei que nada sei e a única coisa que posso fazer como mãe é conversar com meus filhos menos para lhes explicar algo e muito mais para trocarmos angústias, dúvidas e curiosidades sobre sexo, um jogo onde, penso eu, não há regras.

É isso. Só queria dar uma prévia do que foi essa aventura. Certamente, ao final, eu mais atrapalhei do que ajudei mas, ainda assim, o produtor falou que todos adoraram e que o programa muito em breve vai ao ar. Aguardemos, então, o resultado final.

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Segue o link do programa: http://www.canal.fiocruz.br/video/index.php?v=Falando-de-sexo-com-os-filhos-EMF-0095

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Deus, Jesus e Duvivier

Querido povo terráqueo,

Aqui quem fala é Deus. Tenho acompanhado vocês faz um tempo e sei que dispenso explicações de minha, digamos, pessoa. Resolvi interferir diretamente e de forma clara desta vez porque parece que as coisas fugiram do controle a ponto de um tal de Duvivier escrever em nome de Jesus se dizendo de esquerda e que já voltou à Terra disfarçado de prostituta, escravo, transexual, cachorro de chinês e sei lá mais o quê. Até aí, vá lá, tudo bem. Mas ele errou feio, errou rude quando disse que a nossa biografia é a Bíblia. Lendo as Escrituras fica confuso concluir algo sobre meu filho e Eu.

Vejam os Dez Mandamentos, por exemplo. Respondam-me: vocês deveriam honrar a vontade de seus pais se eles me pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Vocês podem roubar para prevenir um assassinato? É certo quebrar o sábado santo ou mentir para salvar a vida de alguém? Percebem como o bem e o mal são relativos? Não dá para tomar esse livro como verdade absoluta se cada um pode interpretar de um jeito e ainda assim todos estejam corretos.

Se existe o Bem e o Mal, como vocês afirmam, como podem dizer que Eu, representando o Bem, estou no comando dado o estado calamitoso em que vocês se encontram? Como vocês justificam o câncer, os micróbios, a difteria e milhares de outras doenças que atacam as crianças comigo no poder? Vocês acham realmente que se eu fosse O Bom, O Criador e acima de tudo O Protetor isso tudo seria possível? Já contou a quantidade de pedófilos nesse mundo? Acham que Eu, O Bondoso, os criei? Quantos inocentes morrem por causa dos ciclones, dos terremotos, da pestilência e da fome? Se Eu sou o Bom e O Criador como podendo criar um mundo sem dor criei deliberadamente o contrário? Pensem, meus filhos. Reflitam peloamordedeos.

Vocês criaram conceitos que, para mim, são extremamente confusos e que não consigo sequer pensar a respeito. Comecemos pelo Amor. Muitos dizem que ele não acaba, o que não me parece verdade. Outros dizem que é um sentimento que só faz o bem, mais um equívoco gigantesco dado o número de crimes e o estado em que muitos de vocês ficam. O amor que vocês criaram vem junto de outros sentimentos que não me parecem coisa boa como ciúmes, tormentos, medo, insegurança, saudades e coisas assim que tiram a paz de qualquer amado, amante e amador tomado aqui no sentido de quem ama.

Outro conceito extremamente confuso e ininteligível é o de liberdade. O que é ser livre para vocês afinal? Quanto custa a liberdade? Como ser livre com regras que limitam e explicam essa tal liberdade? O mundo é um obstáculo para a liberdade? Um escravo pode ser livre? Dentro de seja lá qualquer sistema econômico de vocês, faz sentido falar em liberdade? Vocês se acham mesmo livres para mudar? Não é possível entender esse mundo com as palavras e conceitos que vocês criaram…

Até com a morte eu fico confuso depois que vocês passaram a existir. O que é morte depois do ser humano ter existido? A morte mata exatamente o quê? A morte liberta? Como vocês podem sentir falta de algo que nunca tiveram? Para quem teve verdadeiramente um amigo, não será a sua ausência a mais forte das presenças? É preciso estar vivo para semear uma amizade? Só há um jeito de estarmos vivos? A morte é compatível com o sentido da vida que vocês acham que existe? A morte é ou não o fim? Existimos depois de morrer?

E acrescento mais: Os pensamentos são reais? Tudo o que existe é material? Podem os mortos terem acesso a vocês? Podem os mortos compreenderem mais do que os vivos? Podem os mortos lhes ajudar senão pelas obras de arte que criaram quando vivos? As palavras que vocês criaram apontam para alguma realidade? As palavras criam mundos? O tempo que vocês inventaram, mensurável pelos relógios, é real? Há tempo por extenso? Um incêndio pode ser belo? Por que é tão difícil a comunicação entre vocês? O que vos conduz à verdade? A Verdade pode ser um ponto de vista? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em algo? Vocês são mesmo racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que vocês se preocupam com o passado? Quem vocês são agora determina quem serão amanhã? Pode o sentido da vida de vocês parecer sem sentido? São os deuses astronautas? Vocês podem conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa de alguém prova a sua inocência? Onde é que as palavras criadas por vocês se encontram com as coisas que Eu criei? Vocês conhecem melhor o mundo através dos sentidos ou através das ideias? Vocês escolhem mesmo o futuro?

Enfim, queria mostrar que as palavras são controversas e que a despeito do texto do Duvivier ter sido muito bom, ele, digamos, pecou quando mencionou que Eu e meu filho temos uma biografia pois é impossível nos descrever e falar sobre nós pelas palavras.

Em relação ao Malafaia não posso dizer nada porque não o conheço muito bem. Perguntem pro Capeta.

Fiquem em paz e bebam menos refrigerante.

Beijos divinos

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Experiência

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José Cláudio era um homem extremamente religioso e temente a Deus. Acreditava tanto mas tanto Nele que pouco se lhe dava para as forças do Demônio. Defendia a ideia de que o Belzebu era antes de tudo uma figura folclórica. Tal era a ordem de grandeza de sua fé em Deus que José Cláudio chegava ao ponto de atravessar a rua sem recear ser atropelado por carros, ônibus ou caminhões. A cada final de dia, agradecia sempre feliz da vida a proteção do Seu Senhor.

José Cláudio tinha uma linda família formada por sua esposa e mais dois filhos. Mas a vida de casado, por descuido ou pela ordem natural das coisas, andava meio monótona e José Cláudio acabou arrumando uma bela amante e passou em suas orações a agradecer por ela também.

José Cláudio, como já dito, achava que a proteção dada por Deus Seu Senhor era infinita. Essa crença fez José Cláudio aumentar sem muito ponderar a frequência de seus encontros furtivos. Não ficando um dia sequer sem rezar, aconteceu de José Cláudio se apaixonar pelo seu caso extra conjugal e terminar seu casamento para poder viver o seu novo amor de forma plena. Deus, tão protetor e tão bom, havia lhe dado um novo e melhor caminho, acreditou José Cláudio.

Passados alguns meses, a ex-amante, agora namorada, outrora tão carinhosa, amarrou José Cláudio na cama e torturou-lhe munida de um canivete. Jogou ácido nas feridas abertas e em seu pênis e, ao final, fez com que José Cláudio testemunhasse seu suicídio cortando, na sua frente, sua própria garganta.

José Cláudio foi encontrado desfalecido com o corpo da maluca caído sobre o seu. Levaram-lhe para o hospital onde ficou internado por vários dias para se recuperar dos ferimentos. Quem assumiu os cuidados com ele foi a ex-esposa, menos pelo amor ao José Cláudio e muito mais pela gratidão e respeito que possuía acima de tudo ao pai de seus filhos.

No dia em que recebeu alta, um buquê de flores foi deixado na recepção para ser entregue ao depauperado José Cláudio. Dentro dele havia um pequeno envelope com um cartão de onde se leu: “Caro José Cláudio, daqui para frente você pode continuar duvidando da existência do Diabo, mas agora tem provas de que pelo menos a mulher dele existe.”

José Cláudio nunca mais orou antes de dormir por ter certeza de que havia sido o Nosso Senhor que havia mandado as flores.

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Um de cada vez.

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Quando eu nasci, lá pelos idos de um Fevereiro dos anos 70, eu ganhei vários anjos da guarda. Fui batizada no Domingo de Páscoa com dois meses de idade e entrei na Igreja em uma cesta fazendo parte de uma encenação em que eu interpretava super bem o menino Jesus. Disseram que foi lindo e deve ter sido mesmo porque nesse dia, se me lembro bem, ganhei mais três anjos. E assim cresci sempre muito bem protegida até que tudo começou a dar errado. Os anjos começaram a brigar entre si. Miguel queria que eu estudasse mais, Gabriel queria que eu ficasse mais com a família, Rafael dizia para eu esquecer de tudo e só escrever, Samuel que era extremamente preocupado com minha saúde tentava convencer os outros anjos que eu deveria me dedicar às atividades físicas, Ariel achava que eu deveria viajar, Uriel pensava que o melhor era eu ganhar dinheiro ao invés de ficar só pensando e por aí vai. Eu ficava no meio dessa anjaiada entendendo a boa vontade de todos mas, ao final, acabava me estressando demasiadamente tamanha era a discussão que eles faziam todo santo dia.

Até que eu mandei todos para os quintos dos infernos. Vi-me só sem qualquer apoio espiritual, mas bem menos confusa mesmo com tudo acontecendo de errado em minha vida. Pai doente, eu sem dinheiro, sem conseguir ler e escrever patavinas, trabalhando a trancos e barrancos, batendo com o carro duas vezes em um mesmo mês, sem carinho de quem precisava, chuveiros queimando no inverno, filhos surtando, vasos sanitários entupindo, sem conseguir dormir, amigos se afastando de mim quando eu mais precisava (Terá sido resultado de minhas orações “livrai-me de todo o mal, amém.”?), enfim, parecia que somente Lúcifer, o anjo caído e atrapalhado, havia me desobedecido e continuava a me rondar. A verdade, porém, é que era eu que estava com a mão no leme sem bússolas, astrolábios ou GPSs sabendo somente a direção que tomaria ao olhar as posições das estrelas. Porém, até as noites estavam vindo completamente enevoadas.

Ainda assim, algo extremamente positivo acontecia e permeava todo esse cinza escuro que me rodeava: eu estava com total percepção de mim mesma e do que eu era ou não capaz. Ao assumir o leme, brinquei com a direção dos ventos. No princípio, estava dominada pelo medo por estar só sem qualquer proteção. Conforme atravessava furacões, percebi a importância de sermos corajosos e deixar a porta aberta para a tristeza entrar. Ser feliz todos os dias pode significar fugir de si mesmo a cada minuto e não saber ao certo definir o que se vê no espelho pelas manhãs.

Há poucos dias, os anjos bateram na minha porta querendo se desculpar. Estavam arrependidos por terem me criado tanta confusão e dor.

– Ok. Desculpas aceitas, mas só aceito um de cada vez. Alguém fica um tempo comigo depois vaza e outro pode ficar no seu lugar. Mais do que um anjo é anjo demais para mim.

Agora, vejam vocês, tornei-me eu o anjo da guarda de meus anjos. Tenho tomado todo cuidado ao lidar com eles e sempre os oriento para que vivamos em paz e, assim, possam voltar sempre. Ainda que o tempo agora seja breve com cada um deles, tenho a impressão de que estou conseguindo desfrutar bem de cada companhia depois que assumi o comando dessa budega.

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Em suma, por que ele foi embora?

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Não consigo aceitar a ideia de que Deus criou o mundo e somente ao final fez o homem. Como assim não havia ninguém para aplaudir quando ele inventou o azul?

Minhas roupas limpas agitando como bandeiras penduradas em um varal estão me sinalizando alguma coisa?

Um céu cheio de nuvens visto pelos olhos de quem muito amou não faz lembrar uma noiva com seu vestido?

Por que somente os girassóis e não também as rosas e margaridas viram o pescoço para o Sol?

As conchas têm aquele formato porque foram moldadas pelos seios das sereias?

Por que nas minhas noites o que predomina é a escuridão e não as estrelas?

Sofre mais quem amou sempre ou quem nunca amou ninguém?

Como digo à minhoca que sou eu quem rastejo com maestria?

Enganou-me a Primavera com sonhos que não floresceram?

Quem será aquele que me amou tanto enquanto eu dormia?

Como se chamam os tsunamis quando não destroem nada?

Como digo à borboleta que meu vôo é bem mais colorido?

Quem pode convencer o inverno para que seja razoável?

Como suplico às andorinhas para trazerem mais verões?

Por que o grande Canyon não fica no subúrbio carioca?

O que tanto tagarelam as margaridas?

Dezembro é mesmo necessário?

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