Amor aos Animais (?)

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Yuki, meu caçula de oito aninhos, sempre que chega da escola é recebido com algumas perguntas feitas por mim que sondam como foi o seu dia. Uma coisa eu aprendi: se quisermos saber se foram boas as horas que seu filho passou na escola, jamais pergunte isso diretamente para ele porque a resposta será uma palavra: legal, boa, normal… coisas assim. Sempre que quero mesmo saber as novidades pergunto: o que aconteceu de mais engraçado hoje na escola? O que você acha que poderia não ter acontecido? O que a tia falou hoje que você acha que jamais vai se esquecer? Se viesse uma nave espacial, quem você acha que deveria se abduzido? Coisas assim que, literalmente, dão o que falar.

Esta semana que passou, por exemplo, sabendo que ele havia tido aula de ciências perguntei o que ele aprendeu sobre a natureza e havia achado maneiro.

– Bem, mãe, estou meio confuso quanto ao que aprendi. A aula foi sobre os animais, tipo: mamíferos, répteis, moluscos… essas coisas. – Respondeu meu pequeno.

– Ah sim. E qual foi o motivo da confusão? – Indaguei curiosa.

– A tia falou que é preciso querer muito bem aos animais…precisamos cuidar da flora. Não. Fauna, né?

– Isso. Disse a tia muito bem, meu filho. Você sabe disso. Sua irmã inclusive é vegetariana e aqui só comemos galinha que sabemos que foi feliz um dia ciscando.

– É. Bem. Eu sei disso. Os bichos, disse a tia, são muitos úteis. Quem tem cachorro em casa?, ela perguntou. Sabiam que ele é nosso melhor amigo e protege a nossa casa?, ela disse. Mas eu fiquei muito confuso, mãe.

– Por que, meu filhote?

Agora o que segue foi mais ou menos, por tudo o que Yuki me contou, o que pode ter sido essa aula sobre como o homem deve amar e respeitar os animais.

– O cavalinho… vocês sabem para que serve o cavalo? Eles são muito utilizados como meios de transporte. Além disso, ajudam o homem do campo em serviços mais pesados como para puxar carroças e arados. Quem já andou à cavalo na pracinha? Viu? Os cavalinhos são nossos amiguinhos, certo? .

– E aquele ali, tia?

– Aquele é o burro. Muito usado no nordeste. Ele carrega peso para o homem.

– Mas o cavalo não faz isso também?

– Ah sim, mas cavalos necessitam mais comida do que burros e mulas e são menos vigorosos quando submetidos a dias longos de trabalho com pesadas cargas. Um burro carrega em torno de 70 quilos, já imaginou? Como desvantagem, os burros requerem muito mais atenção que um cavalo devido ao seu caráter. No seu habitat natural, burros tendem a viver separados uns dos outros o que torna difícil a condução do animal em bandos. Burros são muito mais teimosos e não obedecem ordens com facilidade. Empacam, sabiam? Fora isso, burros tem dificuldade em se adaptar em grandes altitudes ou locais muito frios. Ou seja, tem hora que ele é legal para o homem tem hora que não nos serve para nada.

– Olha uma vaca malhada com seu filhotinho! Que bonitinhos! – Exclamou Julinha.

– Ah sim, Júlia. Dos bois e vacas podemos tirar muitos outros proveitos, sabia? Além de alimentos, como a carne e o leite, podem também nos fornecer o couro. Do chifre do boi fazemos utensílios como cinzeiro, pente, enfeite… E o bezerro nem precisa crescer para ser útil. Já experimentaram baby beef? Pede para a mamãe comprar. É uma carne super macia. O bezerro é confinado em uma caixa e fica paradinho. Assim, sua carne fica bem molinha depois que ele é abatido. Uma delícia!

– Mas a vaca não fica triste quando matam o filhote dela, tia?

– Mas temos que tirar o filhote dela porque ele bebe o leite da vaca e tira o nosso leite, concorda? Você quer deixar de beber leite, Joãozinho? Então…

– Olha o canguru! Tem canguru no zoológico, tia?

– Tem sim. Mas eles são muito comum lá na Austrália. O couro dele é extremamente útil.

– O que é couro, tia?

– É a pele dele, Juliana.

– Mas não dói se tirarmos a pele dele? Ele não chora? – perguntou Arthur.

– Não, Arthurzinho, ele morre antes! – gargalhou a tia com a ingenuidade da criança. – Quem morre não sente dor, não é verdade? Claro que a gente mata antes de tirar o couro. Então, temos malas, bolsas, sapatos… tudo feito com o couro do canguru! E ainda dizem que a carne dele é gostosa! Mas nunca vi vendendo por aqui.

– E aquele todo fofinho, tia?

– Aquela é a ovelha, Carminha. Agora que estamos chegando no frio, vocês vão utilizar muitos casacos quentinhos graças às ovelhas.

– Elas fazem casacos para a gente, tia?

– Não. – disse a amorosa tia. – Ela só fornece a lã que é o pelo dela. A gente raspa a ovelha e com o pelo dela fazemos a lã. Se ela sente frio, Paulinho? Oras bolas… O pelo nasce de novo! Igual o nosso cabelo.

– Mas daí a gente só raspa uma vez, né, tia?

– Não, a gente raspa sempre que cresce, Marcelinho. E esse aqui, conhecem o peixe-boi? Na verdade, ele é um mamífero e não peixe, sabiam?

– A gente pesca ele, tia?

– Não, sabe como se pega fácil o peixe-boi? Os índios faziam isso de uma forma bem certeira. Usavam um arpão. Eles entravam na canoa e quando viam o animal colocar o focinho para fora da água para respirar, zás!, arpoavam ele. Mas de tanto caçarmos, ele entrou em extinção e agora a caça está proibida. Mas daqui a pouco volta. A carne dele é uma delícia, dizem. Fora isso da gordura dele se faz um óleo muito bom.

– O porco eu conheço!

– Sabia que se você for um pintor, o melhor pincel é o do porco?

– Eles fazem pincel, tia?

– Quem. O porco? Não, Flavinha. – riu-se a tia de novo –  Ele só fornece o pelo. Por exemplo: pelo de porco preto dá pinceis ótimos para a aplicação de tintas a base de petróleo, álcool e solvente. Pincéis feitos de pelo de porco branco tem cerdas mais suaves. Por isso, os pincéis de grandes artistas são feitos todos  com cerdas naturais. Qualidade garantida! Fora isso o porco nos fornece a carne que é uma iguaria dos deuses! Quem aqui gosta de bacon levanta a mão!

– Mas como matam os porcos, tia?

– Ah, tem várias maneiras. Geralmente eles são desacordados através de eletrochoques.

– Isso dói, tia?

– Deve doer, mas é coisa rápida. Depois, eles são então pendurados em correntes por uma das patas traseiras e degolados com uma faca afiada, quando se aguarda então o sangue escorrer para os tanques. As próximas etapas são de imersão em água fervente e desmembramento. Se ele não morrer no eletrochoque morre quando for imerso na água bem quente. O importante é que vocês entendam que temos que viver em harmonia com a natureza, respeitando os animais para que eles continuem nos servindo, entenderam?

Yuki estava atordoado e não era para menos. Amar e respeitar está longe de ser sinônimo de matar, comer, pelar, caçar, arrancar o filhote da mãe…

Pois bem, daqui de casa, minha filha adolescente é a única que se recusou a entender o amor e o respeito dessa forma. Depois dessa aula do Yuki e de como ele ficou confuso com esses conceitos, penso que Nara tem agido muito bem. Menos com os animais e infinitamente mais com ela mesma.

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Arquivado em Crônicas, Yuki

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