Um de cada vez.

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Quando eu nasci, lá pelos idos de um Fevereiro dos anos 70, eu ganhei vários anjos da guarda. Fui batizada no Domingo de Páscoa com dois meses de idade e entrei na Igreja em uma cesta fazendo parte de uma encenação em que eu interpretava super bem o menino Jesus. Disseram que foi lindo e deve ter sido mesmo porque nesse dia, se me lembro bem, ganhei mais três anjos. E assim cresci sempre muito bem protegida até que tudo começou a dar errado. Os anjos começaram a brigar entre si. Miguel queria que eu estudasse mais, Gabriel queria que eu ficasse mais com a família, Rafael dizia para eu esquecer de tudo e só escrever, Samuel que era extremamente preocupado com minha saúde tentava convencer os outros anjos que eu deveria me dedicar às atividades físicas, Ariel achava que eu deveria viajar, Uriel pensava que o melhor era eu ganhar dinheiro ao invés de ficar só pensando e por aí vai. Eu ficava no meio dessa anjaiada entendendo a boa vontade de todos mas, ao final, acabava me estressando demasiadamente tamanha era a discussão que eles faziam todo santo dia.

Até que eu mandei todos para os quintos dos infernos. Vi-me só sem qualquer apoio espiritual, mas bem menos confusa mesmo com tudo acontecendo de errado em minha vida. Pai doente, eu sem dinheiro, sem conseguir ler e escrever patavinas, trabalhando a trancos e barrancos, batendo com o carro duas vezes em um mesmo mês, sem carinho de quem precisava, chuveiros queimando no inverno, filhos surtando, vasos sanitários entupindo, sem conseguir dormir, amigos se afastando de mim quando eu mais precisava (Terá sido resultado de minhas orações “livrai-me de todo o mal, amém.”?), enfim, parecia que somente Lúcifer, o anjo caído e atrapalhado, havia me desobedecido e continuava a me rondar. A verdade, porém, é que era eu que estava com a mão no leme sem bússolas, astrolábios ou GPSs sabendo somente a direção que tomaria ao olhar as posições das estrelas. Porém, até as noites estavam vindo completamente enevoadas.

Ainda assim, algo extremamente positivo acontecia e permeava todo esse cinza escuro que me rodeava: eu estava com total percepção de mim mesma e do que eu era ou não capaz. Ao assumir o leme, brinquei com a direção dos ventos. No princípio, estava dominada pelo medo por estar só sem qualquer proteção. Conforme atravessava furacões, percebi a importância de sermos corajosos e deixar a porta aberta para a tristeza entrar. Ser feliz todos os dias pode significar fugir de si mesmo a cada minuto e não saber ao certo definir o que se vê no espelho pelas manhãs.

Há poucos dias, os anjos bateram na minha porta querendo se desculpar. Estavam arrependidos por terem me criado tanta confusão e dor.

– Ok. Desculpas aceitas, mas só aceito um de cada vez. Alguém fica um tempo comigo depois vaza e outro pode ficar no seu lugar. Mais do que um anjo é anjo demais para mim.

Agora, vejam vocês, tornei-me eu o anjo da guarda de meus anjos. Tenho tomado todo cuidado ao lidar com eles e sempre os oriento para que vivamos em paz e, assim, possam voltar sempre. Ainda que o tempo agora seja breve com cada um deles, tenho a impressão de que estou conseguindo desfrutar bem de cada companhia depois que assumi o comando dessa budega.

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Arquivado em Crônicas

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