Somos Mesmo o Resultado de Nossas Escolhas?

livre arbitrio

Você já deve ter ouvido por aí que vivemos de acordo com as nossas escolhas ou que somos resultado daquilo que escolhemos. Há várias frases como essas compartilhadas ou ditas diariamente por alguém. A despeito de isso parecer algo óbvio e até sábio, esse papo motivacional, a meu ver, é uma grande ilusão. Há grandes possibilidades de que as “nossas escolhas” não sejam exatamente nossas, mesmo quando temos total certeza de que as tenhamos tomado de forma consciente.

Comecei a suspeitar de que a ‘liberdade’ é uma mentira em que acreditamos. Já escrevi sobre isso por aqui. Daí para concluir que a ‘escolha’ é uma ilusão não me custou nada. Nós, como seres humanos, gostamos muito dessa “ideia de liberdade”. Mas será que nós somos completamente autônomos como pensamos ser? No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que defendo é que esta noção é muito mais complexa quanto parece e que pode ser tão real quanto uma miragem no deserto. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre esse ou aquele caminho? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas? Ouvir que somos livres para escolher isso ou aquilo sempre me incomodou profundamente porque jamais me senti livre e escolhendo nada. Nem profissão, nem marido, nem ter ou não filhos e nem a separação foram me dados como alternativas. Como não?, diria você. Vem comigo que no caminho eu te explico.

Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito?

Ok. A ciência também pode ser um tremendo discurso romântico e subjetivo, mas trazê-la para a discussão nos permite perguntar se e quais forças externas desempenham algum papel na nossa tomada de decisões. E só pelo fato de flertar com a ciência sem sequer aprofundarmos em seus fundamentos já surge a dúvida: será que a razão pela qual a intuição nos diz que temos um livre-arbítrio não seria porque a nossa mente altamente limitada não consegue identificar todos os fatores que afetam a nossa “escolha”?

Diria você: mas eu me vejo escolhendo, por exemplo, em tomar café com açúcar ou com adoçante. É? Vejamos: seja lá qual for a sua “escolha”, considere que ela possa ter acontecido porque a mídia tem mostrado demasiadamente o mal que um ou outro produto faz, que seu paladar não aceita ou um ou outro, que o seu médico aconselhou a diminuir o consumo de um dos dois e por aí vai. Até a mais simples das escolhas conta com fatores que não podemos saber ao certo quais são e muito menos pensar em questioná-los, mas que existem, concordam?

Continuando… Se acreditarmos nas ideias levantadas por Freud, veremos que não agimos de forma livre mas sim conforme nossos impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns do mesmos.  Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos que se encontram em nosso inconsciente. E vejamos como isso faz sentido: o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas? O quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão? O quanto estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos? Dito de uma outra forma: se um objeto lançado por nós tivesse consciência do seu movimento não poderia ele se julgar livre para perseverar nesse movimento na medida em que ignorasse por completo o impulso que demos a ele? Em que medida aquele que crê ser livre não é tal e qual uma pedra lançada ao vento que ignora a força que a impeliu?

Se acompanharmos os estudos feitos pela neurociência veremos que atribuir à mente humana alguma liberdade de decisão não condicionada por processos inconscientes parece cada vez mais difícil. Para muitos neurocientistas, o nosso cérebro é um órgão do corpo, como tantos outros, igualmente formado por tecidos e células especializadas, que funcionam conforme nossa constituição bioquímica, reagindo a estímulos internos e externos de formas complexas, porém, de certa maneira, previsíveis. A mente é um troço que emerge da atividade do cérebro em conformidade com as leis da física e da química, o que implica em dizer que somos, em certa medida, o que a química de nossos cérebros faz de nós ainda que não sejamos previsíveis totalmente. Cada emoção pode ser associada a processos neurológicos que, por sua vez, podem ser reduzidos a processos bioquímicos que, em última instância, nós não temos controle.

Eu, particularmente, não acho que a mente possa se reduzir aos processos que ocorrem no cérebro. Para mim, a equação seria “cérebro + alguma coisa = mente”, sendo que essa alguma coisa geralmente é algo metafísico, que traria imprevisibilidade para as decisões do indivíduo, quebrando o determinismo do mundo físico. Mas ainda assim não acho que isso implique a existência do livre arbítrio. Sentir nojo de insetos não me parece uma escolha. Sentir-me mal em um determinado ambiente não me parece uma escolha. Sentir-me atraída por alguém não me parece uma escolha. Sentir saudade não me parece uma escolha. Sentir-me sozinha não me parece uma escolha. Sentir-me triste não me parece uma escolha. Sentir seja lá o que for não me parece uma escolha.

Afinal, “o que, então, determina a minha vontade?”, perguntaria você. Eu não sei ao certo, mas se você acha que é você mesmo ou nada, perceba o quanto isso é incoerente: se é você que determina a vontade, isso significa pressupor um “você” de certa natureza que determina necessariamente a vontade. Dizer que “você” determinou sua vontade só faz algum sentido na defesa do livre arbítrio se “você” não é determinado por nada. Porém, o que seria algo que não é determinado por nada? Complicado quando pensamos seriamente a respeito, não?

Ainda na esteira da ciência, pergunto-lhe: uma célula individual tem o livre-arbítrio? E uma bactéria, teria? Ou uma flor? E uma girafa, um cachorro ou um leão, por exemplo – será que eles têm livre-arbítrio? Em que ponto da nossa história essa tão contraditória e ilusória ideia de liberdade para escolher apareceu em nós?

Visto pelo lado religioso, perceberemos como essa ideia surge e a necessidade de que acreditemos nela, afinal, o fundamento do mal e da punição dos pecadores é o livre arbítrio. Que sentido teria mandar para o inferno pessoas cujos pecados não tivessem sido cometidos por vontade própria? Ou pior, sem agentes de vontade livre, a culpa pelo mal no mundo recairia sobre o único ser livre que sobraria: Deus. O fato de a ideia da escolha vir associada a outra de julgamento não é por acaso: a última precisa da existência da primeira. Isso é algo simples de compreender, afinal, quais seriam as consequências para a sociedade, então, se descobríssemos que não existe livre arbítrio? Como a doutrina da condenação e salvação se sustentaria?

Penso que grande parte da infelicidade, da culpa, do arrependimento e da angústia que sentimos é porque nos fazem acreditar que somos livres e que devemos pagar pelas más escolhas. No caso das religiões abraâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo) o impacto da ideia de que não somos livres para escolher seria fatal. Muito complicado, eu sei, acreditar que não escolhemos nada e que não somos culpados por nada. Como lidaremos com a responsabilidade e autonomia pessoal na Moral e no Direito? Como algumas religiões se legitimariam? Como educar nossos filhos sobre o certo e o errado?

Pesquisando aqui, li que em 2008, em um estudo publicado na Nature com o título Determinantes Inconscientes de Decisões Livres no Cérebro Humano, ficou provado que a decisão começa a ser formada no cérebro até 10 segundos antes dele tomar consciência disso. Ou seja, você se prepara inconscientemente pra fazer algo bem antes de sequer se dar conta que está fazendo isso – e bem antes de realizar o movimento de fato. Outros estudos, dessa vez focados na atividade de cada neurônio em vez do cérebro como um todo, mostraram que as células neurais ficavam ativas antes da decisão de apertar um botão, por exemplo.

Tudo bem. Vocês podem dizer que o livre arbítrio é muito mais profundo do que os resultados dessas pesquisas nos induzem a pensar. Em vez de mexer dedos e apertar botões, seria necessária a análise de atividades mais complexas. Concordo com isso, mas ainda assim percebo que mesmo essas tarefas mais abstratas e intelectuais do que propriamente de movimento não são totalmente espontâneas – elas dependem de coisas como carga genética, experiência, traumas de infância etc.

Talvez você acredite tanto nessa ideia de livre-arbítrio e da existência da escolha porque ignora as causas do seu querer. E veja que interessante e paradoxal: quanto mais imaginamos um livre-arbítrio para escolher, mais nos tornamos escravos porque precisamos de regras que limitem, justifiquem e expliquem a liberdade.

Somos o que somos porque, acredito eu, temos uma essência que não controlamos. Talvez, se houver liberdade de fato, esta deva ser compreendida como a proximidade máxima do conhecimento dessa nossa essência (que é ímpar para cada ser), do que nos torna tristes ou mais felizes. Vocês que acham que existe liberdade de escolha perdem o tempo pensando que tudo poderia ter sido diferente e ficam se culpando por caminhos (que não existem de fato) que poderiam ter tomado. É para isso que o livre-arbítrio nos serve. Para condenar e nos culpar.

Mas, então, perguntaria você, se eu não posso escolher como posso ser julgado? Justamente. Eu acho que essa ideia de ‘escolha’ leva diretamente a outras como de julgamento e moral que eu não aceito como objetivas e universais. Mas, continuaria você, se não há certo nem errado, matar, por exemplo, seria lícito? Se estou criticando a escolha, estou dizendo exatamente que quem mata não teve outra alternativa; o que não quer dizer que um assassino não deva ser condenado porque entendo que o ‘mal’ pode ser considerado como aquilo que prejudica o outro.

Perceba o que quero dizer: ainda que eu acredite que não exista o bem e o mal nesse mundo isso não significa que dispenso qualquer valor. Não existir o bem e o mal não quer dizer que não exista o bom e o ruim. Tenho meus valores. O ponto é que penso no ser em si, no que o movimenta, no que o engrandece e o diminui e dispenso um critério exterior e moral para julgar as coisas. Refugiamo-nos naquilo que nos limita, nossa moral nos protege, concordo. Mas friso que isso nos enfraquece e nos tira muitas essências. Quando eu nego essa ordem moral do mundo abro as portas para os devires: permito-me tornar o que sou e a aceitar o outro como ele é. Sem julgamentos.

Compreendo, vale observar, que a liberdade da vontade não poder ser coerentemente pensada através de conceitos (uma vez que, em última instância sempre caímos ou no determinismo ou no acaso) não significa que sua possibilidade esteja negada. Mas não consigo desistir da ideia de que a metáfora da bifurcação e de caminhos escolhidos é uma invenção que só nos serve para nos gerar culpa e medo.

Se entendo que agi mal em uma situação é pelo fato de ter feito uma coisa de uma determinada maneira e ter tido um resultado ruim.  Neste caso, tentarei mudar, digamos, a química de meu corpo ou o meu modo de pensar para que eu seja capaz de agir de uma forma diferente quando submetida a uma situação similar.

Por fim, as consequências de acreditar que não temos escolhas, ou seja, reconhecer que minha mente consciente nem sempre vai originar meus pensamentos, minhas intenções e ações não muda, a meu ver, o fato de que pensamentos, intenções e ações de todos os tipos são necessários para a vida.

Delirei muito? Não tenho culpa se entendo tudo assim.

17 comentários em “Somos Mesmo o Resultado de Nossas Escolhas?

    1. Acredito sem dúvida que há uma série de influências que interferem direta e indiretamente no desenvolvimento do ser humano, porém também acredito que a partir do “conhece a ti mesmo” podemos sim tomar posse de certa liberdade para mudar o rumo da nossa existência. Claro, é necessário “jogar luz” na nossa sombra, afinal não podemos mudar o que não sabemos/conhecemos. A força de vontade e capacidade de escolha é o que nos diferencia das girafas repolhos, eu acho… Adoro tiu Freud e concordo com o que ele diz, mas acredito sem dúvida que em algum grau podemos escolher sim, é mudar toda a história. Acho que a palavra é co-criação, o que farei com o que fizeram de mim.

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    2. Jung provou que nossa consciencia é formada por 4, digamos, modos operacionais que condicionam nossa maneira de ser, pensar e atuar. Voce, por exemplo, de acordo a sua maneira de refletir sobre as coisas, poderia escolher não pensar à sua maneira? Claro que não. Eu também não consigo. Assim sendo, “algo além de nós” nos determina. Além disso, ninguém criou a si mesmo, tão pouco temos escolhido nascer homem ou mulher no país, cidade, familia e epoca historica que vivemos, cuja cultura nos influencia a todos mas nem todos a seguem voluntariamente, muita gente revoluciona, ou seja, escolhe outras ideias. E se, na verdade não fazemos escolha alguma, que sentido há no fato de possuirmos mente para pensar, refletir, discernir e….FAZER BOAS OU CORRETAS ESCOLHAS? Os humanos não podemos escolher não ter mente nem não pensar nem não tentar discernir, isso é compulsório para qualquer de nós. Por outro lado, temos identificado que entre nós podem existir diversos graus de inteligencia, que variam da total idiotice à genialidade impressionante e algumas vezes até mágica. E o que determina realmente tamanha gama de diferenças de inteligencia? Podemos escolher ser mais ou menos inteligentes ou isso depende das influencias familiares, geneticas ou de uma hipotetica fonte espiritual? E o que faz uns se sentirem como artistas, outros cientistas, outros politicos, outros egenheiros, outros médicos, outros filosofos, outros sacerdotes etc etc etc.? A teoria das 7 inteligencias tem mostrado que as pessoas apresentam algum tipo de inteligencia especifica que lhe prevalesce en algum grau. Das ciencias esotericas orientais vem a informação de que as almas humanas são como que uma emanação dos 7 raios espirituais que também seriam uma emanção do que eles chamam de “mente cósmica”. Para verificar e investigar essa possivel verdade me dediquei a praticar seus metodos por 23 anos e ao menos consegui constatar o raio do qual provenho, conseguindo entender finalmente porque sou como sou compulsoriamente, ou seja, não tenho realmente liberdade de escolha, “algo” me fez assim e constato que até meus hipoteticos equivocos fizeram parte do processo para me tornar “eu mesmo”, isso que Jung chama de “singularidade individual”, coisa que não pode ser definida já que cada um é uma singularidade evidente. Talvez por isso os filosofos gregos classicos seguiam a máxima que está no templo de Delfos> “Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e a Divindade. Nesse caso, não faz muito sentido ficar divagando sobre qualquer questão, pois tudo o que devemos fazer é conhecer a nós mesmos, individualmente falando. O resto nos ocorre natural e compulsoriamente, sem escolha.

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  1. Concordo totalmente e recomendo a leitura de um dos livros indianos mais antigos sobre a conversa mais singular que já aconteceu. Ashtavakra Gita. Estou fazendo um curso na Arte de Viver sobre este livro, lá você também pode fazer cursos de meditação, respiração e Yoga. 🙂

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  2. Educadamente discordo de vc. Escolhemos sim, mas não desse jeito que vc narrou. Mas escolhemos pouco. Nosso livre-arbítrio é limitado pelas leis de causa e efeito. Mas saiba que, pela física quântica, um efeito pode ser alterado caso haja interferências entre a causa e o efeito. Dizer que o livre-arbítrio não existe é um escapismo. Realmente, é mais fácil dizer que é culpa é dos neurônios, dos traumas passados, do Universo. Isso tira nossa responsabilidade. Esqueça a palavra culpa e use essa! Responsabilidade, coisa que muita gente não quer olhar de frente. Responsabilidade lhe diz que vc é responsável por algo, mas esse algo é só o aquilo que existe em vc e não no outro, ou nas situações, ou nas coisas. Nos simplesmente interagimos com o outro ou as situações. As escolhas são feitas a nível pessoal, interno. Eu escolho parar ou escolho seguir em frente diante de um problema. Essa é o tipo de escolha que se faz. O resto não. A escolha é íntima, interna. E cada um escolhe por si. Os animais não tem escolha… Em a vivem a vida instintiva. Nos não. O cão dorme feliz pois não pensa na sua finitude. O nome sabe e tem consciência dela é por isso ganhou o poder de escolha. Eu escolho sim… Mas sei que seria muito mais fácil acreditar que não tenho responsabilidade pelas minhas escolhas… Pena que vc não está certa. Eu escolho continuar crescendo e aprendendo, sempre! Essa a minha escolha…

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    1. Somos todos zombies.
      Zombie é uma metáfora que significa um autómato vivo, isto é um corpo humano comandado por um computador de carne.
      Mas há uma diferença muito significativa entre os dois tipos fundamentais de zombies.
      Uns, alguns muito poucos ainda, “sabem” que são zombies, aprenderam que podem “observar” de forma sistemática o que o computador de carne vai produzindo em termos de resultados da sua própria programação (utilizando meditação de atenção plena, por exemplo).
      E aprenderam que através dessa “observação” podem modificar ou introduzir novas instruções no programa existente.
      Os outros, a grande maioria, além de não terem aprendido o que acabo de referir, funcionam como se houvesse um agente no seu cérebro com o qual se identificam e a que chamam de “eu” e que é o responsável por tudo aquilo que o computador de carne produz.
      Isto é, é esse agente “fictício” que, em cada momento, com o teclado e rato à sua frente, dá ordens ao computador.
      E de tal modo isso lhes é evidente, ( como assim foram programados), que não se apercebem do logro em que estão metidos.
      Para a grande maioria das pessoas, cada ser humano é “livre” de fazer aquilo que faz. Muitos argumentarão que não será sempre assim, que muitas vezes as pessoas fazem coisas sob a influência do álcool da hipnose etc.
      Isto é, é do entendimento geral, que há por vezes circunstâncias que limitam ou inibem o comportamento “livre”. De acordo com o referido atrás, nessas circunstâncias, o tal agente instalado no cérebro perde a possibilidade de agir sendo essa competência transferida para a atuação do programa que nesse momento estiver em vigor. Dirão que, dadas as circunstâncias, essa pessoa não poderia fazer de modo diferente do que fez.
      Ora, e por contraponto, ainda na ótica da maioria das pessoas, quando a pessoa está em “modo livre”, quando por exemplo vota “em consciência”, não é constrangida nem limitada nem inibida por nada, o tal agente entra em ação tomando a iniciativa de carregar nas teclas que “decidiu” carregar. Neste caso, e seguindo este estranho raciocínio, este agente poderia, teria a possibilidade de fazer diferente daquilo que fez.
      E, aqui chegado, investido o agente do poder de fazer qualquer coisa, já pode ser responsabilizado (culpado)
      de ter feito uma coisa em vez de outra.
      Eis o logro que referi atrás. Efetivamente e na realidade isso não acontece.
      Num dado momento da vida de cada um, o passo que for dado é a resultante da interação do programa em funcionamento nesse momento no cérebro (as circunstâncias internas) com as circunstâncias externas envolventes. Não há portanto diferenças entre quem está sobre a influência do álcool ou da hipnose, o processo é sempre o mesmo, as circunstâncias é que divergem. O percurso de vida de qualquer um é um continuum de momentos interligados por este processo. Além disso, as experiências havidas vão sucessivamente modificando os programas. Isto traduz ou está na raiz da metáfora que referi no início, somo todos zombies, ou, duma forma menos chocante, somos todos movidos pelos programas que o computador de carne tiver em funcionamento em cada momento. O que faz, pois, a diferença entre os dois tipos de zombies, é que uns, além de “saberem” que o são, tiram partido desse conhecimento.
      Os outros, não tendo aprendido isso, vivem, conforme foram programados, no pressuposto de que existe uma entidade, “eu”, que “decide” qual o próximo passo.

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  3. Concordo plenamente com você. O fato de não existir livre arbítrio não exime as pessoas da responsabilidade. Existem padrões que permitem a convivência em grupo e se alguém transgride este padrões tornam-se indesejáveis e são alijados do processo (punição). O mérito que temos é termos uma boa cepa, e só.

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  4. Oi Elika, muito bom seu texto. Recentemente li o livro “Free Will” de Sam Harris que aborda exatamente esse tema. Fiquei pensando muito nisso e me ajudou a compreender e perdoar as atitudes de pessoas próximas que me magoavam e inclusive mudar minha conduta com elas, e isso melhorou muito nosso relacionamento. Só colocando um adendo, nosso cérebro é plástico e pode sempre mudar com novos aprendizados e assim ajudarnos a fazer “escolhas” melhores.

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  5. Gostei muito. Mas tem uma coisa que não entendi. No final vc diz que “mudar a química do meu corpo” OU os “meu modo de pensar” – acho que vc mesmo provou que o modo de pensar deve ser resultado de muitas coisas – menos da vontade de muda-lo. Não?

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  6. Maravilha!!!
    Traduziu com autoridade coisas que “enxergo” há tempos.
    Só lamento não poder ouvi-la num podcast ou vê-la e ouvi-la num vlog. Quem sabe eu seja uma influência em suas decisões sobre isso.
    Abraço.

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  7. Você nao esta delirando…aliás, você esta começando a desconfiar,como diz Guimarães Rosa…
    O livre arbitrio só existe antes de reencararmos,quando fazemos o planejamento da proxima reencarnação…a partir do nascimento,nao se muda uma virgula do escripte que o ser humano(ator) vai interpretar no teatro da vida…
    É determinismo purinho!!!

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  8. É meio a meio, 50% escolhas 50% circunstancias. Circunstancias forçam escolhas mesmo que a maioria não entenda isso. Circunstancias influenciam na personalidade. Coisa ruim acontece pra todo mundo, o mundo não é um paraíso celestial. As escolhas precisam sempre se adaptar a realidade ao redor.

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