Ver e Olhar. A diferença.

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– Mãe, qual a diferença entre ‘ver’ e ‘olhar’? – perguntou-me Yuki, meu caçula de nove anos.
– Bem, well, a diferença? – E lá vamos nós… – Olhar é algo que precisa de olho, como a própria palavra indica.
– Ué. E ‘ver’ não? – assustou-se Yuki.
– Não. Podemos ver muita coisa de olhos fechados.
– Acho que não estou entendendo…
– Olhar algo pressupõe apenas que exista um objeto e um instrumento que capte a imagem desse objeto, por exemplo, um olho. ‘Ver’ pressupõe que por detrás desse instrumento exista um ser humano. E os seres humanos, bem sabemos, são únicos e extremamente complexos. ‘Ver’ é quase sinônimo de perceber. Cada um percebe, sente ou vê de acordo com a sua história, os seus defeitos e suas virtudes, consegue me entender?
– Tipo posso dizer que se olha com os olhos e se vê com o corpo? Com o coração? – questionava ele já de posse da compreensão.
– Ou com a falta dele. – E lá vou eu. – Por exemplo, quando um menino negro sem camisa e de sua idade aparece na sua frente, o que você vê?
– Uma criança oras.
– E vários desses juntos?
– Várias crianças oras!
– Pois então, muitos adultos vêem de uma forma bem diferente. Por vezes, e eles têm lá suas razões, ficam até com medo.
– É porque essas crianças também podem ver tudo diferente de mim, né, mãe?
– Justamente, meu filho. Se recebemos muito amor, a tendência é achá-lo, percebê-lo, vê-lo até no meio de um lixão. Se somos criados sem ele, é fácil perceber o mundo um lugar inóspito de convivência.
– O que é um “lugar inóspito”?
– Um lugar onde as pessoas não se abraçam, tipo isso.
– Ok. Entendi. Mas uma bola é uma bola para todos, né? – cutucou-me Yuki.
– Quando você olha para uma bola o que você vê?
– Um brinquedo. – respondeu-me prontamente.
– Eu vejo um objeto que mancha paredes e derruba meus porta-retratos na sala.

Yuki gargalhou e devolveu:

– E quando você olha uma beterraba, mãe?
– Vejo fonte de vitamina.
– Eu vejo um monstro vermelho. – disse ele com um sorriso gaiato.

E quando? E quando? E quando?… Continuamos nessa brincadeira por horas. Delícia de conversa viu.

Quando Yuki me pergunta algo, eu sempre vejo uma crônica.

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Arquivado em Crônicas, Filhos

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