Filhos que não me obedecem: uma dádiva por mim conquistada.

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A imagem do filho obedecendo os pais sempre foi, para mim, um exemplo a não ser seguido. Não sei se faço certo ou errado, mas muitas pessoas têm me perguntado como consegui essa relação de cumplicidade e amizade com meus três filhos que têm idades completamente diferente (hoje, Yuki está com 9 anos, Nara com 17 e Hideo com 22). Pelo fato da pergunta estar se repetindo, resolvi pensar na educação que dei a eles e concluí que eu jamais me importei ou precisei exigir que eles me respeitassem ou obedecessem.

O verbo obedecer significa “ato pelo qual alguém se conforma com ordens recebidas. Autoridade, mando, domínio. Sinônimo de submissão.” Deus me livre… Se o que se busca é respeito, penso eu que isso só é conseguido se o outro lado for respeitado também. Assim como faço com qualquer pessoa, respeito meus filhos e as opiniões deles em tudo. Como mãe, fico atenta às habilidades a serem exploradas, às vontades a serem aprofundadas, ao talento – seja lá para o que for – que pode aparecer a qualquer momento e precisar de um empurrãozinho para emergir.

Não quero que filho nenhum me obedeça. Não me sinto apta a comandar a minha vida quanto mais a dos meus filhos. Se eles tiverem que me obedecer é porque, de alguma forma, assim penso, eles foram podados ou castrados por mim e devem agir de acordo com os meus interesses. Eu passo ser autoridade se tiver que impor a minha vontade e fujo disso já que abomino qualquer tipo de autoritarismo. Filho meu não “tem que” me respeitar e muito menos me obedecer.

Quero que meus filhos tenham luz própria e não sejam sombras de outras pessoas muito menos de mim. Quero que eles sejam eles mesmos, reconheçam as suas vontades e tenham em mim um apoio para conseguir segui-las. As decisões são deles. “Mãe, posso…?” sempre busquei trocar por “Mãe, quero…”. Eu apenas pondero alguma coisa que acho relevante observar, mas as rédeas estão com eles. Quer matar aula, mata. Quer fumar, fuma. Quer fazer teatro, faça. Quer vender arte na praia, venda.

Como disse, não sei se faço certo ou errado, eu simplesmente não consigo agir diferente por aqui. Sei que operando assim tenho, de fato, construído uma relação que muitos têm elogiado. Vale observar que aqui vira e mexe a casa cai. Discussões homéricas são comuns nesse teto, mas nada que em algumas horas tudo volte ao normal. Não é novidade que existe uma quantidade exorbitante de jovens que se drogam. Pelo que afirmam os especialistas da área, muitos desses têm algum problema de relacionamento com os pais que exigem, de uma forma ou outra, obediência. Daí que esses meninos são praticamente forçados a seguir uma determinada profissão certamente pela questão financeira, proibidos de atender aos seus instintos e compelidos a adiar seus sonhos. Seus planos vão ficar a espera de um momento ideal para colocá-los em prática quando saírem da casa dos pais. A solução para esse inferno: as drogas. Isso posto e observado, penso que mesmo que transformemos nossa casa em um ringue de luta quando brigamos – coloquemos assim –  de igual para igual,  filho meu se um dia se drogar não vai ser por minha causa. Disso eu tenho total certeza. Não estou podando a asa de ninguém, pelo contrário, aqui eu só encorajo o voo. Não quero que eles andem no trilho, quero que eles percebam sempre que podem ir para qualquer lugar – como um trem descarrilado –  com o meu apoio.

Então, eu acho que pelo fato de permitir que eles sigam as suas próprias vontades e de criar um ambiente de condições favoráveis e saudáveis para que isso ocorra, acabo conquistando o tal do respeito sem, contudo, ser autoritária e, muito menos, fazer deles seres obedientes. Penso que o dia que  meus filhos se comportarem bem por medo e não por vontade própria eu terei falhado como mãe.

Pela última vez, não sei se estou certa ou errada. Mas uma coisa é fato: não há parque de diversão que se equipare com o que construí com Yuki, Nara e Hideo.

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10 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação, Filhos

10 Respostas para “Filhos que não me obedecem: uma dádiva por mim conquistada.

  1. Caramba que lindo seu texto e a cumplicidade com seus filhos. Confesso que me colocou a pensar bastante. Tenho dificuldades em pensar respeito sem autoridade. É difícil. Quando me percebo já agi. Bom, sigo tentando acertar, errando ou acertando. Quem sabe o certo?

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  2. Gabrielle

    Nao sabes, ou talvez saiba, a importância do seu manifesto. Entender que dar origem a outro ser não significa domina-lo, direciona-lo e sim empodera-lo de si em proposta da vida é em muitos ângulos um tabu, uma impossibilidade, e pra alguns até significante de fraqueza. ,(..)

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  3. Gabrielle

    Somos bombardeados com pensamentos arcaicos, como mães e como filhxs; e ver o espaço da existência coletiva ativo e não o da hierarquia é de abracar o coração. Uma satisfação sem tamanho.

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  4. Gabrielle

    Gratidão.
    E,
    Sawabona!

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  5. Olá, li seu texto através de um compartilhamento de minha filha para mim dizendo assim: ” amo você demais, parece até que você escreveu o texto.”
    E ela hoje está se tornando uma grande mulher, portanto, acredito que nossa escolha foi muito certa.
    Um forte abraço

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  6. Alessandra

    Inspirador! Eu como mãe de um menino de 5 anos reflito muito sobre a minha postura diante da educação dele, e acredito muito em tudo o que vc relatou. Existem tantos teóricos a nos ensinar o caminho, como se as pessoas fossem iguais e tivéssemos que seguir os “manuais” pra chegarmos aos resultados esperados. O que importa é estarmos próximos, atentos e deixá-los evoluir, ajudando-os realmente a criar asas. Obrigada pelo exemplo!

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  7. Tatiane

    Poxa….eu quero muito isso com meu filho, mas eu fui muito exigente com ele ate que um dia fui em um almoço de amigos e ele com 5 anos levou o tablet e veio me falar que um amigo queria brincar (ele nao queria deixar) e reapondi qua avisei se rle levasse ia “ter” q deixar todos brincarem. Uma amiga me corrigiu, q eu estava errada deveria deixar ele agir…entao percebi meu terrível erro…melhorei mas ainda não o sufuciente na minha opinião. Como posso incentiva lo mais? O que acha…rs? Ele tem 9 anos

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  8. Eu, como pai de dois filhos que venho penando para educá-los, sigo um caminho bem diferente do seu, sinto que não está funcionando e vejo que seu estilo é mais interessante. Também sou professor e já percebi que os professores em geral, eu inclusive, estamos no caminho errado, reproduzindo um modelo ultrapassado.Você fez minha consciência pesar,porém isto é mais um motivo para repensar valores, práticas e conceitos. Você é uma pessoa extraordinária. Continue assim.

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