Arquivo do mês: novembro 2015

Arrumando a casa

Tudo em seu Devido Lugar

Hoje resolvi arrumar a casa. Coisa que nunca faço porque sempre tem algo melhor a se fazer, tipo dessarrumá-la mais ainda. Comecei pelo quarto dos meninos.  Aqui em casa, Yuki de 9 anos divide o quarto com Hideo de 22.  As baquetas de bateria do Yuki estavam em cima da guitarra do Hideo que estava na cama do Yuki repletas também de gibi da Mônica, livros do Ziraldo e CDs de bandas de rock que não consigo guardar o nome. Não sei de quem é o quê. Como dormiram hoje com tanta coisa em cima da cama? Ou depois que acordaram jogaram tudo em cima dela? Não entendo. Pela mesa, a dúvida persiste. Encontro partituras e desenhos feitos à mão do Angry Birds que não consigo identificar qual dos dois os fez. Os chinelos tanto do Super Homem quanto do Incrível Hulk virados de cabeça para baixo. Esses garotos querem me matar, pensei.

Desisto.

Vou para o quarto da Nara, minha filha linda que adolesce. Flores murchas em garrafinhas de água vazias nas janelas. Sei que não posso mexer. Ela gosta dessas coisas que mesmo depois de mortas têm uma forma própria e carregam história. Esmaltes em cima das letras de música do CD de Elis. Não entendo como ela lia enquanto mudava a cor de suas unhas. Rabiscos de química misturados com croqui de alguma coisa podendo ser qualquer coisa. Há vários gibis da Turma da Mônica Jovem na estante do quarto dela misturados aos livros lidos como os de Mishima e Rubem Fonseca. Não sei se estão em ordem cronológica de leitura. Maquiagem no meio das teclas do piano. Estaria ela solfejando um batom? Ou queria ela achar o tom das sombras?

Desisto.

Vou para meu escritório. É tempo de colocar ordem nessa budega. O livro de física segue mantido aberto por um menorzinho há meses: o Livro das Perguntas de Pablo Neruda. Poética a imagem. Ao invés de separá-los, peguei a máquina (Cadê ela? Ah ali!  Ao lado das folhas de papel ofício) e fotografei. Onde estava com a cabeça em deixar na mesma mesa Em busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, 1984 de George Orwell e Vozes Anoitecidas de Mia Couto? O que Ítalo Calvino faz embaixo dos rascunhos? Caramba… que livro lindo esse do Calvino. Dei uma folheada e li quase metade dele. Fechei, levantei as folhas de rascunho (onde tenho algumas ideias anotadas de futuras crônicas) e coloquei Calvino na mesa. Cobri-o com meus repentes de novo. O bom de se esquecer das coisas é que posso fazer surpresas para mim no futuro. Não vejo a hora de encontrar Calvino de novo no susto. Por que Esconderijos do Tempo de Mário Quintana está junto de meus diários de classe? Que livro é esse dele que não me lembro? Nossa. Que lindo… li todo de novo. Levantei Felicidade Clandestina de Clarice Lispector na quina da mesa e vi três multas. Coloquei Lispector rápido de novo onde estava para acabar com aquela visão do inferno que me deu até taquicardia. Cartão de crédito bloqueado para desbloquear, caixa de chocolate em forma de livro que ganhei da Alice e dentro dela… nada. Comi tudo. Coloquei o cartão bloqueado dentro de onde estavam deliciosos bombons e deixei tudo como estava. Gosto de lembrar da Alice.

Desisto.

Fui para meu quarto. Lá, na minha cama, nos reunimos todos para conversar. Livro de fábulas, blusa usada com cecê  da Nara que chega se despindo e deitando ao meu lado, meia chulezenta do Hideo embaixo do meu lençol, pijaminha de hot whels do Yuki e minha camisolinha da Pepa foram todos para seu destino certo: espremidos ali no canto pórque daqui a pouco vamos usar de novo. As roupas sujas foram para o cesto onde encontrei um cinto que Hideo há tempos procurava. No banheiro, na pia, vejo meu caderno de anotações. Não entendo como foi parar ali, mas abro para conferir. Notas de reuniões do grupo de pesquisa em Filosofia com aulas de Física Quântica. No cantinho está escrito: paixão melhor nutella, se não nutella como sabella?

Desisto.

Parei de arrumar a casa e vim aqui escrever essa crônica.

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Obsessão

esmalte

Pareço (pareço?) madura, bem resolvida e bababá bububú mas hoje…

Abre a cortina:

Eu na manicure. Tive dúvidas. Muitas dúvidas. Tudo começou com dois esmaltes cujos nomes eram: Livros Inesquecíveis e Pura Luxúria.

A cor do Livros Inesquecíveis me agradou mais, mas trocar pura luxúria por livros inesquecíveis não estava me parecendo sensato diante da oportunidade. Afinal, pensei, uma pura luxúria pode virar um livro inesquecível na minha mão.

Diante de minha indecisão, a manicure falou para eu mudar um pouco. Sempre passo cores parecidas. Ok.

– “Encantos da Catalunha” ou “Experiência Caribenha”?

– Meodeos. Quero os dois! Qualquer um. Preciso, Marilene. Já sei. Mistura os dois e passa. – falei aflita.

– Que tal os novos tons de nudes, Elika?

Gargalhei animadamente com a boca aberta.

Ao final e a despeito de, “Paris” ganhou. Mas fiquei pensando enquanto Marilene começava a pintar as minhas unhas: e se?…

Antigamente era muito mais fácil, com certeza pior, mas mais fácil. Havia como opção somente as cores básicas e casar ou morrer virgem, por exemplo. Agora, diante o leque que se abre, sigo suspirando como fiz hoje diante das opções que surgiram. Por mais que dure uma semaninha só, dependendo da cor, pode parecer uma eternidade e, como sempre acontece comigo, eu querer repetir repetir e repetir de tão bonitinho que ficou na minha mão combinando até com um anelzinho lindo tipo desses de noivado, sabe?

– Mês que vem tem coleção nova: signos.

Aff. Nem vi ainda mas sei que faltam onze para experimentar.

Depois dessa, pensei na importância de segurar a onda e ficar um tempo sem esmalte nenhum. Afinal, se eu tiver bem com as minhas mãos ao natural, pode ser que tenha mais firmeza para escolher o que quero que passe nelas… Divagando divagando fixei sem querer meus olhos em uma cor oh que que êsso tipo, como dizem, pica das galáxias, entende?

– Nossa! Maravilhoso esse! – Exclamei. – Qual o nome desse, Marilene?

– Obsessão.

Fecha a cortina.

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Rio Doce. Choro Salgado.

samarco

Hoje mostrei para o Yuki, meu caçula de 9 anos, a foto da lama tóxica de Minas chegando no Oceano Atlântico. Falei para ele das consequências e como isso vai afetar o ecossistema.

Para quê… O bichinho entrou em desespero e começou a chorar.

– Quer dizer que nunca mais vou poder brincar no mar?

Daí eu disse no reflexo para tentar acalmá-lo:

– Não, meu filho, isso tá longe! Não deve chegar aqui. Pode ficar tranquilo, tá bom?

– E como eu posso ficar tranquilo sabendo que tantos meninos vão ficar sem brincar no mar? Por que fizeram isso com a gente? Por quê, mãe?

Não consegui explicar. A reação dele e seu altruísmo me descompensaram. Ao invés de secar as lágrimas de meu filhote, foi ele quem molhou meu rosto todo.

Acabo de deixar Yuki na escola com os olhinhos inchados de tanta dor por aprender que os homens são capazes de não só matar peixes, corais e jacarés. Os homens, ah os homens…, eles assassinam também a infância.

Agora estou indo à feira da informação em pleno início da semana, pois, além de vitaminas, tenho que alimentá-lo com esperança e otimismo. Desde já começo a pensar no almoço que darei para o meu doce menino quando ele voltar da escola.

Eita vida.

samarco2

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Julie & Eu

jl

Estive em Itajubá, Minas Gerais para o lançamento do Minha Vida é um Blog Aberto nas terras de mamãe. Contei uma história nas redes sociais que vivi ali que jamais esperava. Foi mais ou menos assim:

“Hoje eu vivi sem sombra de dúvidas o momento mais emocionante desde que me tornei escritora. O dia já estava para lá de perfeito. Falei na Rádio pela primeira vez na vida e o lançamento foi um deleite só. Revi primos, conheci gente bacana, recebi abraços dos tios… Assim que percebi que o movimento havia acabado, dei por encerrada a festa na livraria e aceitei o convite da prima Enilda para tomar um sorvete na Praça.

Mal sento com três bolas devidamente melecadas de caldas e cerejas (gordice nível hard), recebo o telefone da Janaína, a dona da Nobel onde se deu o evento.

– Oi, Janaína. O que esqueci aí? – perguntei já rindo.
– Elika, acabou de chegar aqui uma menina chorando muito dizendo que fez de tudo para chegar a tempo de te ver mas não conseguiu. Você pode dar um pulinho aqui, bem?
– Janaína, acabei de sentar. Ou você espera eu tomar meu sorvete ou você pede para ela… Janaína, quantos anos ela tem?
– Uma criança, me parece.
– Pede para ela vir aqui. Estou em frente a sorveteria, pode ser?

Em cidade do interior tudo é perto e em menos de dois minutos vejo Janaína vindo em minha direção com os olhos marejados segurando na mão de uma menina que parecia uma princesa de tão linda e que chorava convulsivamente.

Assim que a mocinha me viu chorou mais ainda. Abraçou-me forte e não parava de se balançar pelos soluços vindos com tantas lágrimas.

Como assim? O que era aquilo? Por que tudo isso???

– Calma, linda. A tia está aqui. Você conseguiu me ver…

Eu crente que estava falando com uma criança que queria apenas conhecer uma escritora. Qual o quê, minha gente, qual o quê…

A mocinha de doze anos é um mulherão que se chama Julie. Ela começou a falar – sem conseguir conter o pranto – que lê meu blog há mais de sei lá quantos anos. Desde quando eu era blogspot.

Como assim, minha gente? Como assim???

Julie me disse que está terminando de escrever um livro de quase trezentas páginas e que se inspira muito em mim para tudo e que ela não imaginava que eu era real até o momento que hoje, pela manhã, passei na turma dela convidando todos para o meu lançamento. Quando coloquei o endereço do meu Blog no quadro, ela disse que não acreditou. É ela!?! Elika Takimoto??? E ela é muito mais legal ainda pessoalmente??? Você não sabe, disse-me Julie, mas meu sonho era te conhecer. Por que não me falou isso quando estive na sua frente?, perguntei. Porque sou tímida e estava em estado de choque. Julie me disse isso e muito mais, meu povo.

Deus, se existir, não me preparou para viver Julie. Eu estava sem saber como lidar com toda aquela situação. Julie, se você está feliz em me conhecer, saiba que esse encontro mudou a minha vida para sempre, confessei usando toda a minha sinceridade. Eu escrevo há mais de dez anos, tenho muitas pessoas que adoram o meu trabalho, mas nunca senti isso como agora com você. De uma forma que não consigo explicar, há magia nesse momento.

A gente que escreve sabe o quanto esse ato é solitário, continuei. Somente nós sabemos o quanto somos sozinhos. Por mais que eu seja lida, a impressão que tenho é que ninguém me entende porque quem escreve cria castelos mas somente quando há um leitor esse castelo é habitado. Ainda assim, cada tijolinho requer minutos dolorosos de solidão. E eu percebo que você, Julie, conhece o peso de cada pedrinha que carreguei nessa labuta. E saiba, mocinha, que eu entendo a sua emoção por esse encontro porque ela é minha também.

Ao dizer isso, Julie me abraçou e chorou muito mais.

Enfim, isso foi apenas um resumo. Queria compartilhar com vocês e escrevi de qualquer jeito aqui do celular mesmo para não perder o timing desse sentimento quase anestésico que ainda jorra em mim.

Eu não sei direito como consegui manter a calma e trocar mais tanta coisa com Julie. Na dedicatória que fiz para ela, escrevi: juntas para sempre. E assim será.

Estou ainda sem acreditar. O que foi isso que vivi, gente?

Obrigada, Julie, por ter feito um dia que estava tão especial ser indescritível.

Juntas para sempre.”

julei

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Relatividade e Dilatação do Tempo

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Estou terminando o bimestre apresentando a Teoria da Relatividade para meus alunos (para quem não sabe, sou professora de física). Pensar sobre o conceito de tempo é algo fascinante. Há anos observo que o tempo, de fato, é relativo e cada qual tem sua forma de medi-lo. Mas não falo de referenciais com velocidades próximas a da luz e sim do temperamento de cada um de nós, de nosso ofício, do ambiente em que vivemos e de nossos sonhos.

Há quem meça o tempo na base do dinheiro. Os autônomos e os profissionais liberais são um exemplo. Nessa esteira, o taxista de ontem me contou que tem que trabalhar trezentos reais por dia. Existe também o caso de pessoas que só se sentem adultos depois de terem um carro. Uma outra forma de mensurar os anos é dizer que só vai ter filho após conhecer a Europa. A verdade é que todos nós medimos de acordo com o nosso mundinho.

Minha cabeleireira me respondeu quando lhe perguntei em quanto tempo ela poderia me atender que eu deveria esperar duas escovas. A passadeira me informou que a cada cinco camisas sociais passadas ela checa o celular. O pedreiro me disse em uma ocasião que daqui a quinhentos tijolos ele encerraria o expediente.

Perguntei ao Hideo, meu filho de 22 anos, se ele ia demorar muito para voltar para casa. Só mais cinco cervejas e eu vou embora, mãe. Fiz a conversão rapidinho e entendi que poderia ler mais umas cem páginas de Sérgio Porto. Yuki, meu caçula, ao ser chamado para jantar pediu que eu esperasse mais dois gibis da Turma da Mônica. Eram equivalentes a umas quatro crônicas de Veríssimo. Nara, minha linda mocinha, pediu para eu ver um filme com ela, mas só depois “d’eu acabar de cuidar da Marie Curie”, nossa fofurésima vira-lata. Ok. Divido aqui somo lá, cinco páginas de Marcel Proust.

E há os poetas. Um dia li que a moça havia chorado muitos lenços. Achei lindo. Sofri doze poesias, confessou-me um que não teve o amor correspondido. Compreendi que foi um ano doloroso.

Eu, já divagando, quero que a noite de hoje dure inúmeras gargalhadas. Ou, vá lá, não custa sonhar, um cinco beijos bem dados e três suspiros intensos também me fariam bem feliz. Tudo junto – as gargalhadas, os beijos e a comunhão – seria algo similar ao que Einstein chamou de dilatação do tempo.

No meu referencial, uma eternidade.

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Dança de Salão

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Uma forma que achei de afastar a depressão foi parar de pensar nela. Tentar entender o sentido de tudo e onde foi que havia errado estava me deixando louca. Desisti de ir adiante com a terapia e procurei buscar um ambiente em que ninguém me conhecesse, me julgasse, me questionasse. Um lugar onde apenas esquecesse. Seguindo o conselho de um amigo, entrei para a dança de salão e, para variar, observei coisas.

Na turma de iniciantes da dança de salão, vejam vocês, nunca veremos pessoas cem por cento felizes. Pelo contrário. Ninguém satisfeito com a vida entra, depois de adulto, em uma academia de dança. Todos, sem exceção, estamos ali porque resolvemos dar um “up” em nossas histórias. Recuperar a auto-estima, fazer novos amigos, superar um luto, arrumar um companheiro, afastar esse diabo que nos ronda que é a solidão. Há de se ter muito carinho com uma turma de iniciantes. Muita paciência. Mais do que técnica, muito amor. E foi isso que encontrei grazadeus.

Aprendi não novos passos, mas como caminhar de novo. Todas as vezes que olhava para o chão tentando não errar, era incentivada a manter o nariz apontado ligeiramente para cima que o resto lá embaixo se resolveria naturalmente. Quando pisei no pé de quem me conduzia (e isso acontece em quase toda aula) e pedi perdão, ouvi todas as vezes: não foi culpa sua, nunca é culpa sua. Não há como fazer o “dois para lá, dois para cá” pensando no que nos levou a fazer a matrícula naquela turma. Para que o movimento mais simples consiga dar certo, é necessário que ouçamos a música e prestemos atenção em quem nos dá a mão e somente nisso.

Compreendi, enfim, que esquecer os problemas também é uma forma de resolvê-los. Chutar o balde, em grande parte, não é sinal de covardia e sim de coragem. Permitindo-me brincar, ainda que encontrasse os abacaxis intactos quando voltasse para casa, percebia os problemas surpreendentemente cada vez menos ácidos e menores. Quando os ventos das mudanças começaram a soprar a ponto de me assustar, entrando para dança de salão, no lugar de fortalecer as paredes, contruí moinhos de vento. Hoje, rodopio, giro, fico tonta e dou gargalhadas. Dos meus tropeços faço agora passos cada vez mais seguros assim como da minha angústia fiz uma escada.

Enfim, mergulhei sem medo em um ambiente que jamais havia enfiado sequer a pontinha do dedo do pé. Não me preocupei em justificar a minha solidão e muito menos me envergonhei dela. Pelo contrário, habitei-a com percepções e muita música animada. Não fiquei menos sozinha, é verdade, mas povoei meu deserto.

Deu certo. Peguei as rédeas de minha vida. Segurei firme e as soltei. O cavalo segue desenbestado e totalmente sem rumo. E eu cantarolando em cima dele. Muito mais equilibrada.

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