Telemarketing

Lks

Eu em casa vivo um inferno com esse telefone. Todo dia ligam para cá. Nada de ninguém me convidando para ir dar um pulo em Paris ou, vá lá, tomar uma água de côco na praia. Só Bradesco, Globo, Embratel, LBV, Amil, Oi, Tim…

Sei que não é só comigo, mas eu tenho uma certa dificuldade em lidar com essa gente de telemarketing que por sua vez são profissionais treinados – mas não para lidar como uma pessoa como eu. Cara, essa raça tinha que ser enquadrada em coisas que nos causam câncer junto com bacon, glúten e aquela vendedora que mal a gente pisa na loja e vem logo perguntar se a gente quer ajuda. Respondo logo: Quero. Quero muita ajuda. Eu não entendo porque ele não liga para mim se sou tão fofa e inteligente. Por quê? Me ajuda? Por quê??? A moça trata logo de dar um passo para trás e me deixar me paz… Mas voltando ao telefone…

Lá estão eles que não estão nem aí se estão interrompendo algo importante tipo o episódio de Breaking Bad ou um vídeo fofo de gatos passando pelo meu feed. Hoje, por exemplo, estava acabando de ler um livro do Michel Serres quando o aparelho tocou. Mas eles lá não perguntam se a gente pode falar. Eles simplesmente vão invadindo. Se atendemos o telefone, pensam eles, é porque não temos nada de importante a fazer.

– Alô, eu falo com a Elika?
– Sim.
– Aqui é da Vivo e temos reparado que você tem usado muito seu pacote de dados.
– Entrei para o twitter agora para divulgar por lá meu blog e tenho escrito muito no próprio celular porque onde fica o meu computador não tem ar condicionado.
– E você tem feito poucas ligações…
– Perdi muitos amigos na minha separação… e ando produzindo muito também.
– Pois então, estamos te ligando porque estamos com um pacote novo que pode te interessar que atende a sua nova realidade.
– Com quem eu falo?
– Luis.
– Luis, você me conhece?
– Não senhora, dona Elika, mas creio que posso te ajudar.
– Como exatamente?
– Bom, a Vivo agora tem um plano que você pode ganhar 80 MB e reduzir seus 100 minutos, que não estão sendo usados, em ligação para 60 e …
– Cara, Luis, tu não me conhece… Meu nome é Elika Takimoto e eu sou imprevisível. Se me conhecesse estaria me oferecendo um curso em algo que nunca fiz na vida. Minha formação é esquizofrênica. Vou de Proust à Wesley Safadão em um piscar de olhos. E quero que piore ainda mais. Muito mais. Acabo de me matricular na Academia Internacional de Cinema para ganhar um certificado de Assistente de Direção. O que eu entendo disso? O que pretendo fazer com isso? Patavinas e é por isso que resolvi fazer. Não foi esse ano que fui à Itália ainda, mas a gente viaja de outras formas… Eu tenho tanto a dizer agora para tanta gente, Luis… Não sou de me adaptar às coisas ruins não, meu querido. Faço dos limões que a vida me oferece alegorias de carnaval. Idem com os abacaxis e com os pepinos e as bananas. Ando parecendo a Carmem Miranda se quer saber…
– Mas, dona Elika…
– Mas o piiiiiiii. Ouça aqui, Luís, respeita meu momento. O negócio é o seguinte: avisa aí para quem te treinou que o capitalismo moderno está fazendo com que nós, seres humanos, sejamos mais desprezíveis do que aquele animal chamado Eduardo Cunha. Não se deixe levar por essa piiiiiiii de sistema. Já dizia Sarte “Se os comunistas têm razão, então eu sou o louco mais solitário em vida. Se eles estão errados, então não há esperança para o mundo”. Passo por um momento complicado, mas acho que você, Luis, está pior do que eu porque você enche o saco de quem está pensando em como melhorar essa budega toda e eu, ao menos, não sou marionete de ninguém. Você é um pobre títere e eu estou aqui para cortar as cordas desse boneco que você se tornou e nem se dá conta.

Luís ficou mudo.

Confundir essa gente é o jeito que encontrei de me vingar. Ninguém liga para mim e sai disso impunemente.

– Luis, vou ler aqui um parágrafo para você. Parece que foi o destino que nos uniu: “Com nosso espírito prático e decisivo, irresistivelmente achamos que as revoluções se fazem em torno das coisas duras: importam para nós, as ferramentas como o martelo. Inclusive damos nomes assim não é à toa: Idades de Bronze e do Ferro…
– Dona Elika, A Vivo agradece a sua atenção. – Luís nem esperou eu fechar as aspas…
– Não. Péra. Ouve!

Luis desligou.

Antes que essa ligação me fizesse um mal maior além de interromper todo o meu já tão parco raciocínio, resolvi colocar tudo para fora. Suplício dividido implica em menos necessidade de ir ao médico…

Desculpa aê e obrigada por me ler até aqui.

1 comentário

Arquivado em Crônicas

Uma resposta para “Telemarketing

  1. Maria Luiza Ferreira de Rezende

    Ótima! Só você Elika! Só você para traduzir o que sentimos!

    Curtir

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