Arquivo do mês: fevereiro 2016

O Aborto é o Roubo Infinito*

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O tema sobre o aborto é inesgotável e acho que aprofundarmos qualquer discussão é sempre válido. Tentarei verbalizar parte do que penso. Espero contribuir para o debate trazendo novos questionamentos e novas reflexões para o tema que não vi mencionados, ao menos, nos textos que li. Estou aberta a mudar tudo o que aqui será escrito; desdizer, diria Guimarães Rosa. Mas peço que fundamentem e ataquem os pontos que serão colocados ou que venham com informações diferentes dessas que mencionarei para que cresçamos todas no tema.

Primeiramente, a minha posição, óbvio, nada tem a ver com religião. Não acredito em Deus e muito menos no Diabo.

Quero começar pela palavra “escolha” que está diretamente ligada ao verbete “liberdade”. Li muito antes de vir aqui expor a minha opinião. Em todos os textos, os argumentos a favor da legalização do aborto, sem exceção, a palavra “escolha” foi usada de forma deliberada como se esse conceito fosse algo trivial. O discurso, de uma forma geral, afirma que “a mulher tem direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, tem o direito fazer suas próprias escolhas e viver como desejar, pois viver sem poder escolher não é nada mais nada menos do que transformar a vida numa prisão das circunstâncias.”

Ledo engano. Ao meu ver, nem mulher nem homem são livres para escolha alguma. Sequer a palavra “escolha” faz algum sentido se a analisarmos profundamente.

Pensemos…

Há grandes possibilidades de que as “nossas escolhas” não sejam exatamente nossas, mesmo quando temos total certeza de que as tenhamos tomado de forma consciente. Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito?

Se a Teoria da Relatividade estiver certa, passado, presente e futuro não passam de uma ilusão de nossa mente, como afirmou Einstein. Consequentemente, causa e efeito não fazem sentido já que a causa sempre precede o efeito e, por tabela, a palavra “escolha” cai por terra.

Ok. A ciência também pode ser um tremendo discurso romântico e subjetivo, mas trazê-la para a discussão nos permite perguntar se e quais forças externas desempenham algum papel na nossa tomada de decisões. E só pelo fato de flertar com a ciência sem sequer aprofundarmos em seus fundamentos já surge a dúvida: será que a razão pela qual a intuição nos diz que temos um livre-arbítrio não seria porque a nossa mente altamente limitada não consegue identificar todos os fatores que afetam a nossa “escolha”?

Se acreditarmos nas ideias levantadas por Freud, veremos que não agimos de forma livre mas sim conforme nossos impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns dos mesmos.  Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos que se encontram em nosso inconsciente. E vejamos como isso faz sentido: o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas? O quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão? O quanto estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos? Dito de uma outra forma parafraseando alguém que não me lembro quem: se um objeto lançado por nós tivesse consciência do seu movimento não poderia ele se julgar livre para perseverar nesse movimento na medida em que ignorasse por completo o impulso que demos a ele? Em que medida aquele que crê ser livre não é tal e qual uma pedra lançada ao vento que ignora a força que a impeliu?

Afinal, “o que, então, determina a minha vontade?”, perguntaria você. Eu não sei ao certo, mas se você acha que é você mesmo, perceba o quanto isso é incoerente: se é você que determina a vontade, isso significa pressupor um “você” de certa natureza que determina necessariamente a vontade. Dizer que “você” determinou sua vontade só faz algum sentido na defesa do livre arbítrio se “você” não é determinado por nada (ou por Deus). Porém, o que seria algo que não é determinado por nada (ou por uma força superior)? Complicado quando pensamos seriamente a respeito, não?

Ainda na esteira da ciência, pergunto-lhe: uma célula individual tem o livre-arbítrio? E uma bactéria, teria? Ou uma flor? E uma girafa, um cachorro ou um leão, por exemplo – será que eles têm livre-arbítrio? Em que ponto da nossa história, essa tão contraditória e ilusória ideia de liberdade para escolher apareceu em nós? E por quê? Em todas as culturas do planeta o livre-arbítrio é considerado como real? Por que na nossa cultura acreditamos e usamos deliberadamente a palavra “liberdade” que sequer é ponto pacífico a sua definição no mundo? O fato de a ideia da escolha vir associada a outra de julgamento não é por acaso: a última precisa da existência da primeira. Isso é algo simples de compreender, afinal, quais seriam as consequências para a sociedade, então, se descobríssemos que não existe livre arbítrio? Como a doutrina da condenação e salvação se sustentaria?

Entrando agora diretamente no tema, o que estão querendo quando defendem a legalização do aborto é mostrar que abortar não deve ser condenável. Na defesa da legalização, alguns argumentos se repetem:

Todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que as mulheres mais ricas procuram boas clínicas e abortam em segurança. E todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que são as mulheres mais pobres que morrem em procedimentos clandestinos, porque não têm dinheiro para pagar as boas clínicas.” – Eliane Brum

Aborto é de fato um problema complexo de saúde pública e a sua legalização é uma necessidade.  O sofrimento das mulheres e das famílias que vivenciam o abandono e a ausência do Estado quando precisam ou desejam abortar deve ser dimensionado por todos os atores públicos, se é que ocupam esta posição para defender os interesses públicos.” – Por que legalizar o aborto?, na Revista Carta Capital por Ana Maria Costa — publicado 28/09/2013

Ou seja, defende-se a legalização com o argumento que as mulheres pobres são as que mais sofrem com isso. Com a criminalização do aborto, as mulheres ricas vão para clínicas privadas, onde são muito bem tratadas, e as pobres são obrigadas a ir a lugares sem as mínimas condições necessárias. Logo, as ricas são bem cuidadas e as pobres sofrem risco de vida. Legalizar o aborto, portanto, implicaria em também proteger as mulheres pobres já que, sendo crime ou não, querendo todas abortam.

Li textos citando que nos  Estados Unidos, onde o aborto é legalizado, cerca de 4 em cada 5 mulheres que o requerem são negras ou latinas. Seria diferente por aqui no Brasil? Estamos defendendo o que afinal: a legalização do aborto ou uma limpeza social? Qual raça, coloquemos assim, que seria mais impedida de nascer quando o aborto for legalizado? Estamos protegendo as mulheres negras ou impedindo que negros nasçam?

Esse é um ponto a considerar, mas quero ir além.

Por que as pesquisas mostrando o quanto o aborto prejudica o corpo da mulher, além dela também correr risco de morrer como em qualquer outra operação, não são explicitadas? Quem as está escondendo e por quê? Existe um aumento da probabilidade real da mulher após o aborto sofrer de problemas de ordem psicológica, ter um aborto natural em futuras gestações e desenvolver outras doenças mesmo tudo sendo feito, digamos, nas condições ideais. Ainda que alguns mencionem essas colocações, fazem-no como nota de página.

Uma mulher não deveria gerar uma gravidez que não desejou, se uma mulher tomou todos os cuidados e usou os métodos contraceptivos, ao se ver vítima do destino, tendo uma gravidez indesejada deveria poder interromper a gravidez. Se não há dolo, não deve haver consequência.

Por que não concentrar toda essa energia em intensificar os métodos de prevenção, as opções de encaminhamento para adoção e sobre as causas das mulheres abortarem?

Percebam que não há mais liberdade alguma e sim mais prisão. Estudos mostraram que muitas recorrem ao aborto, sejam elas brancas ou negras, com medo dos danos às suas reputações e muitas confessaram que a gravidez foi fruto de uma relação socialmente reprovada. Mais uma vez pergunto: em que medida essa mulher está fazendo uma “escolha” quando só lhe resta essa triste opção? Em que medida ser livre é agir por medo? O que mais é um instrumento de opressão aos direitos das mulheres: criminalizá-lo ou descriminalizá-lo?

Os dados sociais oferecidos por aqueles que são a favor da legalização do aborto falam que as mulheres estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo e, quando engravidam jovens, são obrigadas a perder toda a sua juventude para criar uma criança que muitas vezes nem pai presente terá. A gravidez na adolescência compromete os estudos e a carreira da jovem. Se o aborto foi legalizado, essa mazela seria sanada. Pergunto: em que medida esse tipo de raciocínio contribui para que melhoremos como sociedade e como seres humanos?

Existe uma diferença entre ser a favor do aborto e ser a favor da legalização do aborto. Ser a favor de sua legalização não é ser a favor do aborto. Entendo isso. Mas ouvir que “não criminalizar o aborto não é incentivar sua prática”  e que “em países onde o aborto foi legalizado o número de abortos não aumentou efetivamente” não são coisas simples. Ambas colocações  vêm no sentido de proteger a mulher pobre e, vejam que interessante e paradoxal: quanto mais imaginamos um livre-arbítrio para escolher, mais nos tornamos escravos porque precisamos de regras que limitem, justifiquem e expliquem a liberdade.

Se uma pessoa perde a consciência, ou mantém a consciência e perde a sensibilidade de todo o resto do corpo, ou seja, fica tetraplégica, temos o direito de praticar a eutanásia? Dizer que o feto ainda não sente dor, ainda não tem sistema nervoso formado e nem cérebro, não justifica. Em muitos casos, fetos sobrevivem a várias tentativas de aborto, uma vez que antes de nascer, já existe algo que os faz “brigar” por suas próprias vidas. Dizer que a mulher pode fazer o que quiser com a vida dela significa dizer que ela possa fazer o que quiser com a vida que carrega dentro de seu corpo? O feto não faz parte do corpo da mulher, ele não é um prolongamento do corpo da mulher, ele é um ser próprio que está instalado no corpo da mulher. Ele é um ser tal e qual alguém que teve morte cerebral ou ficou tetraplégico. De alguma forma, ele não pode se defender e se tirarmos a sua vida é uma vida que estamos tirando e isso significa matar sim senhor seja lá o que for.

Não acho que “se o aborto for legalizado ninguém mais vai usar camisinha pois vai poder abortar”. Não acho possível que alguém ache que abortar é igual tirar um cravo. Entendo que, em certa medida, a criminalização do aborto pune apenas e exclusivamente mulheres já em situação de risco. Sei que mulheres ricas abortam e que elas só não morrem ou ficam inférteis por isso (ao menos não na maioria das vezes) porque o fazem em condições melhores. Ainda assim, elas sofrem em silêncio, muitas vezes sem apoio psicológico e passam a vida se sentindo criminosas pois não podem desabafar com praticamente ninguém.

Então, descriminalizar o aborto seria dar uma certa condição de igualdade para que todas as mulheres façam essa “escolha” e não se sintam criminosas – ainda que esse ato seja algo deplorável e digno de pena de quem vai ser submetido a ele. Aborto e legalização do aborto são coisas diferentes, nessa esteira, porque o primeiro significa ser a favor de envenenar fetos indefesos ou interromper uma vida que, dizem, ainda não tem sentido. O segundo é ser a favor de legalizar a primeira em algumas ou em todas a situações mesmo que se concorde que é um ato, literalmente, execrável.

Voltando a minha opinião de que escolhas não existem, perguntaria você: “se eu não posso escolher como posso ser julgado?” Justamente. Eu acho que essa ideia de ‘escolha’ leva diretamente a outras como de julgamento e moral que eu não aceito como objetivas e universais. Mas, continuaria você, se não há certo nem errado, matar, por exemplo, seria lícito? O aborto seria lícito? Se estou criticando a escolha, estou dizendo exatamente que quem mata não teve outra alternativa; o que não quer dizer que um assassino não deva ser condenado porque entendo que o ‘mal’ pode ser considerado como aquilo que prejudica o outro.

No caso da mulher, eu não estou querendo julgar ninguém. Pelo contrário. Sou a favor de todas as causas feministas e me considero uma fervorosa, mas esse tema me freia porque essas e muitas outras questões me ocorrem. Por ser feminista, o mundo dos meus sonhos seria um mundo sem  julgamento (sendo ou não legalizado o aborto). Acho, friso, que legalizar é, por um ângulo, fazer com que nós mulheres nos tornemos mais ainda submissas a uma sociedade machista pelos motivos pelos quais as  mulheres recorrem ao aborto. O ponto é que penso na mulher em si, no que a movimenta, no que a engrandece e a diminui e dispenso um critério exterior e moral para julgar as coisas.

Legalizar o aborto, penso eu, nos enfraquecerá e nos tirará muitas essências. Há muita coisa por detrás dessa discussão que não vi sendo colocado em nenhum dos textos feministas e temo que essa luta “pela liberdade” seja uma falácia.

Compreendo, vale observar, que a liberdade da vontade não poder ser coerentemente pensada através de conceitos (uma vez que, em última instância sempre caímos ou no determinismo ou no acaso) não significa que sua possibilidade esteja negada. Mas não consigo desistir da ideia de que a metáfora da bifurcação e de caminhos escolhidos é uma invenção que só nos serve para nos gerar culpa e medo. No caso do aborto ser legalizado, essa metáfora do caminho fará parte da decisão (como já faz parte de todos os discursos) e eu não posso aceitar que isso fará que a mulher (ou o ser humano) esteja, de fato, pensando corretamente. Acho, sinceramente, que está sendo conduzida sem saber. Ver mulheres comemorando o fato de ele não ser considerado crime me assusta. Estão felizes por quê? Compreendo os números, não precisam me apresentar. Só não consigo aceitar a legalização como a melhor forma de mudá-los à luz de tudo isso que ando pensando.

Se entendo que agi mal em uma situação é pelo fato de ter feito uma coisa de uma determinada maneira e ter tido um resultado ruim.  Neste caso, tentarei mudar, digamos, a química de meu corpo ou o meu modo de pensar para que eu seja capaz de agir de uma forma diferente quando submetida a uma situação similar. Isso vale para o aborto. A mulher quando engravida se ela se sente mal ou desprotegida ou apavorada… seria exatamente por quê? Se estamos querendo ser, digamos, iguais aos homens ou não sermos tão condenáveis assim por que defender a atitude de poder abortar e não atacamos o comportamento de todos que levam a mulher a ter essa atitude quando outras seriam possíveis (ainda que também nada fáceis) como o encaminhamento da criança para adoção?

Sou contra o aborto. Acho, sinceramente, que isso só vai contribuir para que retrocedamos como seres humanos e seres pensantes. Se quero que a mulher viva melhor, eu desejo que nenhuma tenha que passar por isso e a minha luta será nesse sentido.

Repetindo o que já disse: estou aberta a mudar tudo o que aqui será escrito. Só peço que ataquem (no bom sentido) os pontos que foram aqui colocados (os que me afligem) ou que venham com informações diferentes dessas que mencionei.

———————-

*Como disse Mário Quintana, o aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo! Fernando Sabido corrobora: “matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser”.

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Mulher-Maravilha

charge Supermae_Ziraldo

Quando fiquei grávida da Nara, fui avisar ao diretor da escola em que trabalhava na época a minha situação.
– … então, daí aconteceu que engravidei sem querer mas, claro, vou ter o bebê.
– Olha… – disse ele – Uma excelente maneira de acabar com uma excelente carreira é casando e tendo filhos… impressionante como vocês, mulheres, sabem estragar a vida de vocês.
Eu era quase vinte anos mais nova do que hoje. Era meu primeiro emprego e aquelas palavras me derrubaram. Os hormônios certamente ajudaram. Chorei como criança. Não porque achasse que minha vida seria estragada com filhos. Já tinha exemplos e espelhos a seguir. Sabia que daria conta do recado.
Fiquei arrasada por entender como esse mundo funciona. Por sentir na pele o que é ser mulher na sociedade em que vivemos. Estava apenas começando… entendi que não só teria que matar mais de um leão por dia como também teria que ter forças para carregar sempre um elefante nas costas.
E com o tempo eu entendi mais ainda o que é ser portadora dos cromossomos XX. Entrei para o mestrado. Engravidei do Yuki. Fiz o concurso para o cefet e passei. Escrevi a minha dissertação inúmeras vezes com ele mamando no meu peito e balançando o carrinho com o pé. Com três filhos, trabalhando, fiz o doutorado, curso de italiano para ler minhas pesquisas acadêmicas, comecei as corridas de rua, não deixei de estar presente em todos os momentos importantes dos meus filhos…
Hoje, separada, faço a gestão da casa sozinha. Meus três filhos não só moram comigo como contam com a minha presença para tudo. Assumi a coordenação de física no cefet, estou escrevendo meu décimo livro, estudando como nunca e me preparando para fazer um outro mestrado em antropologia e ao invés de cinco, correndo oito quilômetros três vezes na semana…
Enfim, uma excelente maneira de iniciar uma excelente carreira é apenas ter paixão e amor em tudo que faz. Meus filhos não atrapalharam em nada. Pelo contrário, fizeram essa caminhada muito mais divertida.
Faço questão de contar isso para que vocês, mulheres, entendam que para ser super homem precisa-se de capa e colocar cueca vermelha em cima da calça. Mas para ser mulher-maravilha… meninas, acreditem, para ser Mulher-maravilha, basta nascer mulher.

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Como Aprendi a Voar

voar

Quando eu era criança, morava em uma casa com quintal enorme onde havia duas árvores: um coqueiro e uma mangueira. Já tem tempo que ambas foram cortadas por motivo de doenças, mas as lembranças estão aí para impedir que esses vegetais imponentes sejam mortos.

Houve um episódio inesquecível. Na mangueira, havia muitos ninhos de passarinhos e às vezes, por descuido de Deus – a despeito de sua onipresença e perfeição -, eles caíam com ovinhos e tudo. Lembro-me de ficar bastante perplexa com aquele pequeno “berço” feito pelas aves com palhas, penas, fios, etc, para botarem seus ovos, chocarem e alimentarem os filhotes recém nascidos… Como podem fazer aquilo? Eu com duas mãos não conseguiria e eles com um biquinho constroem uma encubadora perfeita?!

Infelizmente acidentes terríveis aconteciam. O mundo, no entanto, é tão literário que faz até mesmo das desgraças poesia. Era uma tarde bastante chuvosa. Estávamos todos na sala (eu e meus dois irmãos mais mamãe) vendo sessão da tarde e um barulho começou a nos incomodar. Era uma piação danada. Os passarinhos estavam eufóricos e nem era a primavera. Mamãe não se aguentou e foi ver o que estava acontecendo. Lá no quintal chegando, gritou:

– Corram! Venham ver!

Saímos em disparada deixando o filme do Elvis falando sozinho na sala. A cena que vimos ao vivo foi muito mais antológica que a do Rei cantando no Havaí. Nós tínhamos uma cadela da raça collie que pegava no ar os passarinhos que teimavam em voar baixo. Por conta da chuva, um filhotinho havia caído do ninho e estava amuado no muro com a Laica ameaçando a comê-lo. Em cima daquela parede alta que nos separava do vizinho, estavam vááários passarinhos que piavam estericamente toda vez que a Laica se aproximava um pouco mais do filhotinho caído. A mãe dele estava em desespero total. Batia as asas, abria o bico como quem quer fazer um furacão usando leques e enfrentava o dragão canino com a fúria de Teseu, o deus grego que matou o Minotauro (deus me livre que coragem…). Um pardal freando os impulsos de um cachorro, foi o que eu vi com esses olhos que ficaram muito míopes depois que cheguei na adolescência.

Calma. A história não acaba aqui. Apenas começa.

Mamãe foi rápida. Pegou o bichinho todo molhado e frágil e o trouxe para dentro de casa. Dona Ruth, sempre agindo de forma certeira, secou a avezinha e depois tratou de alimentá-la. Forrou bem uma caixa de sapato e fez um novo ninho para o pardalzinho. Colocou-o pra dormir no quarto dos fundos que dava para o quintal. Se abríssemos a janela do quartinho (forma como chamávamos esse cômodo dado o tamanho dele muito menor que os nossos), dávamos de cara com a sombra de nossas árvores.

Qual foi a nossa surpresa quando percebemos que a mãe-pardal ia sempre visitar o seu filhote. Parecia que estava conferindo se mamãe estava cuidando bem de sua cria…

Até que houve uma manhã pra lá de especial.

A passarinha ensinou seu filhinho a voar. Da janela, ela o fazia dar vôos curtos inicialmente. Depois foram aumentando a distância, até que o filhotinho, cada vez mais dono de si pelo estímulo de sua mamãe, conseguiu subir à copa da mangueira e não precisou mais dormir sozinho no quartinho longe de sua família. Lembro da euforia e da torcida de mamãe para que a pardalzinha conseguisse levar seu filhotinho.

Eu tenho muitas recordações da minha saudosa mangueira que foi uma das minhas melhores amigas na infância. Mas essa é por demais especial. Ter acompanhado tudo isso e testemunhado a força da maternidade foi essencial para o que me tornei hoje. Quanto mais alto eles iam, ao contrário do que deveria ser, maiores os passarinhos me pareciam…

Aprendi, com esses versos, que vale muito mais ter dois passarinhos voando do que um na mão.

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Julgando o Julgamento

julga

Estava eu no salão. Ao meu lado, havia uma outra mulher bem mais arrumada do que eu. As manicures fazendo nossas unhas. E a perua desata a falar:

– Não sei por qual motivo essas pessoas ficam pegando bicho doente na rua. Não pode ver um cachorro magro que sofrem como o diabo. Com tanta criança passando fome no mundo, eles ao invés de cuidar das crianças preferem cuidar de gato e cachorro vira lata. E…

– Mas quem disse que essas pessoas não se sensibilizam com as crianças? – me meti. – E onde está escrito que quem cuida de bicho não se importa com a fome no resto do mundo?

– Ah, minha filha, não mesmo. Elas só postam fotos de cachorros e gatos!

– E qual o problema? Ainda que elas se lixem para as crianças no mundo, não é melhor que existam pessoas que cuidem dos animais? Por que ficar incomodada com elas se elas não estão fazendo mal algum, inclusive para as crianças que passam fome no mundo?

Enquanto falava pude observar que o cabelo da mulher era tratado a base de formol e ela usava uma bolsa Prada.

– Seu cabelo está lindo. – menti – O que fez nele?

– A escova london. Lá num salão no Valqueire.

– Estou doida para fazer isso no meu. – menti de novo.- Desculpe perguntar. Foi caro?

– Olha, eu não achei não. Meu cabelo é longo. Ela me cobrou trezentos e…

– Por que você não doou esse dinheiro para as crianças da África?

A mulher me olhou dos pés a cabeça mesmo eu estando sentada.

– Eu já entendi. Você é dessas…

– Sim. Sou dessas que acreditam que quem julga as pessoas não têm tempo de amá-las e compreendê-las. Sou dessas também que acreditam que quem faz bem a um cachorro de rua jamais vai fazer mal a uma criança ou a um ser humano… Sou dessas que acreditam que melhor do que nada é fazer bem até a um caramujo contanto que faça o bem. Sou des…

– Eu leio para crianças cegas…- ela me interrompeu.

Emudeci.

Morri de vergonha de mim mesma…

Enfim. Perdão, Pai. Eu pequei. Falei contra o julgamento e eu mesmo julguei errado… Mais uma vez, o preconceito me deu um forte tapa na cara. É agindo assim que perdemos pessoas especiais.

Ganhamos as duas depois que eu pedi perdão e conversamos sobre essas coisas de forma mais branda e com a mente bem mais aberta.

Saímos do salão muito mais bonitas que entramos.

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Esperança

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Poucos sabem. Eu tenho insetofobia. Pode ser um simples e linda joaninha, odeio. Acho horrorosa. Fico arrepiada, o coração dispara… Eu tenho medos. Como somos frutos de nosso passado – saibamos ou não – as minhas razões são meus traumas. Fui muito picada quando criança, quase perdi um filho por veneno de um ferrão e agora a dengue, a zika, a microcefalia. A epidemia. E a coisa não é racional como acredito que não seja nenhuma fobia ou qualquer outro sentimento. Portanto, não adianta falar não morde, não pica, veja que bonitinho. Eu acabo ficando assustada. Porém, menos pelo bicho e muito mais por ser tão difícil alguém entender e respeitar o medo do outro.

Já tentei me tratar, adianto. Mas foi inútil como uma placa para cegos. Depois, nunca se sabe qual defeito sustenta todo esse edifício, já dizia a bruxa.

O fato é que ontem à noite entrou um bicho verde no meu quarto. Estou em uma pousada em Penedo tentando descansar a mente – objetivo claramente não atingido. Estava sozinha como nos outros dias mesmo sem ser feriado. Peguei meu chinelo e mirei sem piscar o bicho para não errar a pontaria. Quando percebi que se tratava da tal da esperança. Puta merda… por que tudo tem que ser tão difícil para mim?

Fiquei observando como a esperança se comporta para ver se aprendo algo e me curo dessa e de outras fobias. Ela parecia uma folhinha. Frágil. Parecia burra também. Não parecia ter fome o que me deixou perplexa porque os bichos, como nós, caçam o dia inteiro. Não precisava alimentar a esperança? Procurei seus olhos. Meu Deus a esperança é cega…

Desisti de matá-la, pois isso poderia ser metafórico demais e eu sou ligada em poesia. Expulsar do quarto tão igual. Ora por que diabos a esperança é um inseto? Não poderia ser um filhote de urso panda? Um flor cheirosa? Dormir com a esperança? Jamais. Ela, para mim, é tão nauseante como uma barata. E se ela andar por cima de mim quando durmo? E se ela me colocar ovos na cabeça?

Abri toda a janela e também a porta. Liguei o ventilador de teto. Nada da esperança ir embora… Enquanto isso consultei na internet a foto do inseto que me acompanhava. Qual o quê…

Tratava-se de um louva deus.

Com um kamehameha cuja energia foi materializada em forma de havaiana, tentei me livrar daquele pesadelo o quanto antes.

Na mosca.

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Precisa-se…

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Estava andando pela cidade aqui que estou a conhecer. Lindinha por sinal. Mas vi muita placa escrito “precisa-se”… Precisa-se de jardineiro, precisa-se de cozinheiro, precisa-se de camareira… isso me desestabilizou (se é que em algum momento meu eixo foi equilibrado). E se eu andasse também com uma placa precisa-se? Será que adiantaria? O que colocaria na placa? Acho melhor criar um anúncio, pensei, explicando bem do que ando precisada…

Precisa-se de alguém que me ajude a ficar feliz porque ando tão feliz que não aguento mais essa alegria toda sozinha e tenho necessidade de repartir esse sentimento. Pago bem. Pois pago com a própria felicidade. Precisa-se dessa pessoa para ontem. Tenho urgências antes que tudo se transforme em drama em pleno carnaval. Tarde demais. Ok . Apenas precisa-se. Sem data certa… Mas antes que essa alegria solitária fique patética.

Precisa-se de alguém a quem pertencer. E adianto que o trabalho é bom mas é complicado, pois, a fome de me dar de presente para alguém é tanta que fiquei extremamente arisca. Preciso mas repudio. Tenho medo de revelar o quão pobre eu sou e o quanto preciso. Por isso fujo ou me escondo. Precisa-se de alguém que entenda de paradoxos.

Já sei que temos que nos bastar e ficarmos bem sozinhos. Adianto: fico ótima sempre. A cabeça ferve o tempo todo. Precisa-se, portanto, de alguém que goste de brincar de pensar mas, que a noite, freie meus pensamentos e acelere o meu fluxo sanguíneo.

Não é questão de fraqueza esse anúncio. Em matéria de forças, já provei a mim mesma que consigo carregar toneladas e toneladas de flores. E é dessa força que vem a vontade de pertencer. Cansei de possuir uma força inútil.

Já pertenci a alguém? Já. E aproveitei a oportunidade como Viviane Araújo nesse carnaval. Experimentei tudo até a última purpurina. Mas a passarela acaba, o desfile termina. Quisera eu poder sambar eternamente… portanto, precisa-se de alguém que fabrique confetes e serpentinas para além do carnaval…

A sensação que posso passar com essa placa pendurada no pescoço é que procuro alguém às cegas e que estou desesperada… Ledo engano. Isso se deve porque insisto em procurar frases que exprimam profundamente o que sentimos. Teimo em tentar traduzir por palavras esse mundo impalpável e ininteligível. Precisa-se de alguém, então, que entenda que eu tenho muitos sentimentos e ideias e que, além de gastar energia explicando-os, padeço muito mais concebendo-os. Por exemplo, que nome dar a essa necessidade de pedir licença para existir? Ou… como chamar aquilo que sentimos quando a saudade não acaba ao vermos a pessoa? O que é isso que me faz querer urgentemente uma unificação inteira que faz a presença do outro ser muito pouco para matar uma necessidade?

Precisa-se de alguém paciente. Pode ser sem experiência porque o meu amor é tanto que perdoa tudo. Menos querer me inutilizar.

Darei folga. Muita folga. Mas sempre depois de passar o horror de uma sexta a noite que dilacera. Idem com as tardes de domingo…

Há nesse anúncio sério uma festa de sambista em forma de espírito para dar. É que alegria verdadeira é assim mesmo. Não tem a menor possibilidade de ser compreendida e lembra muito uma perdição sem fundo.

Precisa-se ser encontrada.

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Pelas ruas de Copacabana

Avenida_Nossa_Senhora_de_Copacabana_(1)

Estou fazendo hora pelas ruas de Copacabana enquanto Nara e Hideo, meus filhos artistas, passavam o som antes do espetáculo.

Parei na rua para olhar uma coisa estranha tipo um homem moreno muito alto com um corpo lindo, uma sunga bem cavada e um cabelo bem grande quase até o joelho. Enquanto estou terminado meu sorvete e pensando na petulância do cavalo, ouço um mendigo falando no celular:

– Cara, isso aqui é ótimo. Hoje teve bloco na rua. Me distraí a beça. E para dormir na rua é melhor também. Super seguro. Tenho dormido sempre em frente à Pacheco na Nossa Senhora de Copacabana. Não. Não. Isso não. A galera daí é mais ser humana. Aqui os morador trata mal nóis. Tem sim. Viado a dar com o pau. Mas deixa eles. Eles não fazem mal a ninguém não. Vem pra cá, cara…

Ah gente… Eu não meu aguentei.

– Oi. Não pude evitar e ouvi sua conversa… O seu amigo dorme na rua igual a você?

– Dorme sim senhora. Lá em Madureira. A senhora conhece?

– Durmo lá também… Mas meu sonho é dormir por aqui…

– Só chegar, dona. – ele me falou sorrindo desdentadamente.

– Seu amigo estava falando do celular? – continuei a conversa.

– É.

– Onde vocês carregam a bateria?

– Na padaria. Sempre na padaria… onde nóis toma café.

E ficamos um tempo batendo um papo interessante.

Enfim, enquanto espero, as coisas vão acontecendo e eu escrevendo… aff… perdi o moreno excêntrico de vista…

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