O Aborto é o Roubo Infinito*

ABORTO-marcella-briotto

O tema sobre o aborto é inesgotável e acho que aprofundarmos qualquer discussão é sempre válido. Tentarei verbalizar parte do que penso. Espero contribuir para o debate trazendo novos questionamentos e novas reflexões para o tema que não vi mencionados, ao menos, nos textos que li. Estou aberta a mudar tudo o que aqui será escrito; desdizer, diria Guimarães Rosa. Mas peço que fundamentem e ataquem os pontos que serão colocados ou que venham com informações diferentes dessas que mencionarei para que cresçamos todas no tema.

Primeiramente, a minha posição, óbvio, nada tem a ver com religião. Não acredito em Deus e muito menos no Diabo.

Quero começar pela palavra “escolha” que está diretamente ligada ao verbete “liberdade”. Li muito antes de vir aqui expor a minha opinião. Em todos os textos, os argumentos a favor da legalização do aborto, sem exceção, a palavra “escolha” foi usada de forma deliberada como se esse conceito fosse algo trivial. O discurso, de uma forma geral, afirma que “a mulher tem direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, tem o direito fazer suas próprias escolhas e viver como desejar, pois viver sem poder escolher não é nada mais nada menos do que transformar a vida numa prisão das circunstâncias.”

Ledo engano. Ao meu ver, nem mulher nem homem são livres para escolha alguma. Sequer a palavra “escolha” faz algum sentido se a analisarmos profundamente.

Pensemos…

Há grandes possibilidades de que as “nossas escolhas” não sejam exatamente nossas, mesmo quando temos total certeza de que as tenhamos tomado de forma consciente. Para começar, se acreditamos na ciência, que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras, ou seja, que cada coisa no universo que temos observado até agora segue algumas diretrizes específicas e nada está isento da influência de forças externas, então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente? Como fundamentar o livre arbítrio, a vontade que causa algo mas não é causada, numa mente inserida num mundo físico onde nada quebra a regra da causa e efeito?

Se a Teoria da Relatividade estiver certa, passado, presente e futuro não passam de uma ilusão de nossa mente, como afirmou Einstein. Consequentemente, causa e efeito não fazem sentido já que a causa sempre precede o efeito e, por tabela, a palavra “escolha” cai por terra.

Ok. A ciência também pode ser um tremendo discurso romântico e subjetivo, mas trazê-la para a discussão nos permite perguntar se e quais forças externas desempenham algum papel na nossa tomada de decisões. E só pelo fato de flertar com a ciência sem sequer aprofundarmos em seus fundamentos já surge a dúvida: será que a razão pela qual a intuição nos diz que temos um livre-arbítrio não seria porque a nossa mente altamente limitada não consegue identificar todos os fatores que afetam a nossa “escolha”?

Se acreditarmos nas ideias levantadas por Freud, veremos que não agimos de forma livre mas sim conforme nossos impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns dos mesmos.  Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos que se encontram em nosso inconsciente. E vejamos como isso faz sentido: o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas? O quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão? O quanto estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos? Dito de uma outra forma parafraseando alguém que não me lembro quem: se um objeto lançado por nós tivesse consciência do seu movimento não poderia ele se julgar livre para perseverar nesse movimento na medida em que ignorasse por completo o impulso que demos a ele? Em que medida aquele que crê ser livre não é tal e qual uma pedra lançada ao vento que ignora a força que a impeliu?

Afinal, “o que, então, determina a minha vontade?”, perguntaria você. Eu não sei ao certo, mas se você acha que é você mesmo, perceba o quanto isso é incoerente: se é você que determina a vontade, isso significa pressupor um “você” de certa natureza que determina necessariamente a vontade. Dizer que “você” determinou sua vontade só faz algum sentido na defesa do livre arbítrio se “você” não é determinado por nada (ou por Deus). Porém, o que seria algo que não é determinado por nada (ou por uma força superior)? Complicado quando pensamos seriamente a respeito, não?

Ainda na esteira da ciência, pergunto-lhe: uma célula individual tem o livre-arbítrio? E uma bactéria, teria? Ou uma flor? E uma girafa, um cachorro ou um leão, por exemplo – será que eles têm livre-arbítrio? Em que ponto da nossa história, essa tão contraditória e ilusória ideia de liberdade para escolher apareceu em nós? E por quê? Em todas as culturas do planeta o livre-arbítrio é considerado como real? Por que na nossa cultura acreditamos e usamos deliberadamente a palavra “liberdade” que sequer é ponto pacífico a sua definição no mundo? O fato de a ideia da escolha vir associada a outra de julgamento não é por acaso: a última precisa da existência da primeira. Isso é algo simples de compreender, afinal, quais seriam as consequências para a sociedade, então, se descobríssemos que não existe livre arbítrio? Como a doutrina da condenação e salvação se sustentaria?

Entrando agora diretamente no tema, o que estão querendo quando defendem a legalização do aborto é mostrar que abortar não deve ser condenável. Na defesa da legalização, alguns argumentos se repetem:

Todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que as mulheres mais ricas procuram boas clínicas e abortam em segurança. E todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que são as mulheres mais pobres que morrem em procedimentos clandestinos, porque não têm dinheiro para pagar as boas clínicas.” – Eliane Brum

Aborto é de fato um problema complexo de saúde pública e a sua legalização é uma necessidade.  O sofrimento das mulheres e das famílias que vivenciam o abandono e a ausência do Estado quando precisam ou desejam abortar deve ser dimensionado por todos os atores públicos, se é que ocupam esta posição para defender os interesses públicos.” – Por que legalizar o aborto?, na Revista Carta Capital por Ana Maria Costa — publicado 28/09/2013

Ou seja, defende-se a legalização com o argumento que as mulheres pobres são as que mais sofrem com isso. Com a criminalização do aborto, as mulheres ricas vão para clínicas privadas, onde são muito bem tratadas, e as pobres são obrigadas a ir a lugares sem as mínimas condições necessárias. Logo, as ricas são bem cuidadas e as pobres sofrem risco de vida. Legalizar o aborto, portanto, implicaria em também proteger as mulheres pobres já que, sendo crime ou não, querendo todas abortam.

Li textos citando que nos  Estados Unidos, onde o aborto é legalizado, cerca de 4 em cada 5 mulheres que o requerem são negras ou latinas. Seria diferente por aqui no Brasil? Estamos defendendo o que afinal: a legalização do aborto ou uma limpeza social? Qual raça, coloquemos assim, que seria mais impedida de nascer quando o aborto for legalizado? Estamos protegendo as mulheres negras ou impedindo que negros nasçam?

Esse é um ponto a considerar, mas quero ir além.

Por que as pesquisas mostrando o quanto o aborto prejudica o corpo da mulher, além dela também correr risco de morrer como em qualquer outra operação, não são explicitadas? Quem as está escondendo e por quê? Existe um aumento da probabilidade real da mulher após o aborto sofrer de problemas de ordem psicológica, ter um aborto natural em futuras gestações e desenvolver outras doenças mesmo tudo sendo feito, digamos, nas condições ideais. Ainda que alguns mencionem essas colocações, fazem-no como nota de página.

Uma mulher não deveria gerar uma gravidez que não desejou, se uma mulher tomou todos os cuidados e usou os métodos contraceptivos, ao se ver vítima do destino, tendo uma gravidez indesejada deveria poder interromper a gravidez. Se não há dolo, não deve haver consequência.

Por que não concentrar toda essa energia em intensificar os métodos de prevenção, as opções de encaminhamento para adoção e sobre as causas das mulheres abortarem?

Percebam que não há mais liberdade alguma e sim mais prisão. Estudos mostraram que muitas recorrem ao aborto, sejam elas brancas ou negras, com medo dos danos às suas reputações e muitas confessaram que a gravidez foi fruto de uma relação socialmente reprovada. Mais uma vez pergunto: em que medida essa mulher está fazendo uma “escolha” quando só lhe resta essa triste opção? Em que medida ser livre é agir por medo? O que mais é um instrumento de opressão aos direitos das mulheres: criminalizá-lo ou descriminalizá-lo?

Os dados sociais oferecidos por aqueles que são a favor da legalização do aborto falam que as mulheres estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo e, quando engravidam jovens, são obrigadas a perder toda a sua juventude para criar uma criança que muitas vezes nem pai presente terá. A gravidez na adolescência compromete os estudos e a carreira da jovem. Se o aborto foi legalizado, essa mazela seria sanada. Pergunto: em que medida esse tipo de raciocínio contribui para que melhoremos como sociedade e como seres humanos?

Existe uma diferença entre ser a favor do aborto e ser a favor da legalização do aborto. Ser a favor de sua legalização não é ser a favor do aborto. Entendo isso. Mas ouvir que “não criminalizar o aborto não é incentivar sua prática”  e que “em países onde o aborto foi legalizado o número de abortos não aumentou efetivamente” não são coisas simples. Ambas colocações  vêm no sentido de proteger a mulher pobre e, vejam que interessante e paradoxal: quanto mais imaginamos um livre-arbítrio para escolher, mais nos tornamos escravos porque precisamos de regras que limitem, justifiquem e expliquem a liberdade.

Se uma pessoa perde a consciência, ou mantém a consciência e perde a sensibilidade de todo o resto do corpo, ou seja, fica tetraplégica, temos o direito de praticar a eutanásia? Dizer que o feto ainda não sente dor, ainda não tem sistema nervoso formado e nem cérebro, não justifica. Em muitos casos, fetos sobrevivem a várias tentativas de aborto, uma vez que antes de nascer, já existe algo que os faz “brigar” por suas próprias vidas. Dizer que a mulher pode fazer o que quiser com a vida dela significa dizer que ela possa fazer o que quiser com a vida que carrega dentro de seu corpo? O feto não faz parte do corpo da mulher, ele não é um prolongamento do corpo da mulher, ele é um ser próprio que está instalado no corpo da mulher. Ele é um ser tal e qual alguém que teve morte cerebral ou ficou tetraplégico. De alguma forma, ele não pode se defender e se tirarmos a sua vida é uma vida que estamos tirando e isso significa matar sim senhor seja lá o que for.

Não acho que “se o aborto for legalizado ninguém mais vai usar camisinha pois vai poder abortar”. Não acho possível que alguém ache que abortar é igual tirar um cravo. Entendo que, em certa medida, a criminalização do aborto pune apenas e exclusivamente mulheres já em situação de risco. Sei que mulheres ricas abortam e que elas só não morrem ou ficam inférteis por isso (ao menos não na maioria das vezes) porque o fazem em condições melhores. Ainda assim, elas sofrem em silêncio, muitas vezes sem apoio psicológico e passam a vida se sentindo criminosas pois não podem desabafar com praticamente ninguém.

Então, descriminalizar o aborto seria dar uma certa condição de igualdade para que todas as mulheres façam essa “escolha” e não se sintam criminosas – ainda que esse ato seja algo deplorável e digno de pena de quem vai ser submetido a ele. Aborto e legalização do aborto são coisas diferentes, nessa esteira, porque o primeiro significa ser a favor de envenenar fetos indefesos ou interromper uma vida que, dizem, ainda não tem sentido. O segundo é ser a favor de legalizar a primeira em algumas ou em todas a situações mesmo que se concorde que é um ato, literalmente, execrável.

Voltando a minha opinião de que escolhas não existem, perguntaria você: “se eu não posso escolher como posso ser julgado?” Justamente. Eu acho que essa ideia de ‘escolha’ leva diretamente a outras como de julgamento e moral que eu não aceito como objetivas e universais. Mas, continuaria você, se não há certo nem errado, matar, por exemplo, seria lícito? O aborto seria lícito? Se estou criticando a escolha, estou dizendo exatamente que quem mata não teve outra alternativa; o que não quer dizer que um assassino não deva ser condenado porque entendo que o ‘mal’ pode ser considerado como aquilo que prejudica o outro.

No caso da mulher, eu não estou querendo julgar ninguém. Pelo contrário. Sou a favor de todas as causas feministas e me considero uma fervorosa, mas esse tema me freia porque essas e muitas outras questões me ocorrem. Por ser feminista, o mundo dos meus sonhos seria um mundo sem  julgamento (sendo ou não legalizado o aborto). Acho, friso, que legalizar é, por um ângulo, fazer com que nós mulheres nos tornemos mais ainda submissas a uma sociedade machista pelos motivos pelos quais as  mulheres recorrem ao aborto. O ponto é que penso na mulher em si, no que a movimenta, no que a engrandece e a diminui e dispenso um critério exterior e moral para julgar as coisas.

Legalizar o aborto, penso eu, nos enfraquecerá e nos tirará muitas essências. Há muita coisa por detrás dessa discussão que não vi sendo colocado em nenhum dos textos feministas e temo que essa luta “pela liberdade” seja uma falácia.

Compreendo, vale observar, que a liberdade da vontade não poder ser coerentemente pensada através de conceitos (uma vez que, em última instância sempre caímos ou no determinismo ou no acaso) não significa que sua possibilidade esteja negada. Mas não consigo desistir da ideia de que a metáfora da bifurcação e de caminhos escolhidos é uma invenção que só nos serve para nos gerar culpa e medo. No caso do aborto ser legalizado, essa metáfora do caminho fará parte da decisão (como já faz parte de todos os discursos) e eu não posso aceitar que isso fará que a mulher (ou o ser humano) esteja, de fato, pensando corretamente. Acho, sinceramente, que está sendo conduzida sem saber. Ver mulheres comemorando o fato de ele não ser considerado crime me assusta. Estão felizes por quê? Compreendo os números, não precisam me apresentar. Só não consigo aceitar a legalização como a melhor forma de mudá-los à luz de tudo isso que ando pensando.

Se entendo que agi mal em uma situação é pelo fato de ter feito uma coisa de uma determinada maneira e ter tido um resultado ruim.  Neste caso, tentarei mudar, digamos, a química de meu corpo ou o meu modo de pensar para que eu seja capaz de agir de uma forma diferente quando submetida a uma situação similar. Isso vale para o aborto. A mulher quando engravida se ela se sente mal ou desprotegida ou apavorada… seria exatamente por quê? Se estamos querendo ser, digamos, iguais aos homens ou não sermos tão condenáveis assim por que defender a atitude de poder abortar e não atacamos o comportamento de todos que levam a mulher a ter essa atitude quando outras seriam possíveis (ainda que também nada fáceis) como o encaminhamento da criança para adoção?

Sou contra o aborto. Acho, sinceramente, que isso só vai contribuir para que retrocedamos como seres humanos e seres pensantes. Se quero que a mulher viva melhor, eu desejo que nenhuma tenha que passar por isso e a minha luta será nesse sentido.

Repetindo o que já disse: estou aberta a mudar tudo o que aqui será escrito. Só peço que ataquem (no bom sentido) os pontos que foram aqui colocados (os que me afligem) ou que venham com informações diferentes dessas que mencionei.

———————-

*Como disse Mário Quintana, o aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo! Fernando Sabido corrobora: “matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser”.

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

6 Respostas para “O Aborto é o Roubo Infinito*

  1. Aborto: Legalizar ou não, eis a questão? Elika Takimoto, blogueira e escritora que faz textos que muito admiro, fez um post contra o aborto e sua legalização e pede que as pessoas comentem e contra argumentem. Já aviso que sou radicalmente favorável a legalização do aborto. Em primeiro lugar, minha percepção geral é que o texto mistura a questão pessoal com a questão social. Em outras palavras, discute as motivações, princípios, crenças e valores contrários ao aborto e os aplica numa argumentação contrária a legalização do aborto. Para mim a legalização do aborto vs. ser contra ou a favor do aborto são temas completamente diferentes. Obviamente não tem como discordar de alguém que seja contra o aborto, as pessoas são absolutamente livres para serem contrárias ao aborto, mas impor isso aos outros é outra conversa. Isso é ser contrário a legalização do aborto. É natural enxergar e tecer nossas opiniões sobre o que é certo e errado, sobre escolha e liberdade a partir do nosso lugar, do nosso ponto de vista, da nossa experiência pessoal. Mas achar que toda a mulher que fez aborto tenha problemas (físicos, psicológicos ou emocionais) por ter feito aborto é mais uma projeção de uma experiência pessoal do que de uma realidade. Algumas podem ter problemas, outras não. Assim como mulheres com filhos (solteiras ou casadas) podem têm problemas por ter tido o filho e outras não. Imagine se a mulher que fez aborto aplicasse essa lógica à toda mulher que não fez aborto de um filho não desejado e que tenha aberto mão de outros caminhos possíveis na vida, a acusasse de ter perdido a oportunidade de ter vivido experiências melhores para ela. Não tem melhor ou pior, são escolhas diferentes. Cada pessoa é livre de fazer uma limonada do seu limão, ou não. Aquela que optou por ter o filho, provavelmente pode vir a passar a vida agradecendo por não ter tirado aquele filho (apesar de ter tido o filho na hora errada, com a pessoa errada, que tenha anulado outros desejos e vontades). Puxa que bom que não abortei! Pode ter aquela também que fez um aborto de uma gravidez indesejada, realizou outros sonhos e em outro momento teve um filho, que provavelmente não teria se tivesse tido o primeiro. Vai saber! Qual a escolha de fato? O que importa é que as pessoas tenham de fato condições de decidir (sendo escolha divina ou não) e não sejam obrigadas a ter um filho, ou morrer, porque sua vulnerabilidade social assim o impôs (esse é o debate).
    Sobre aborto e machismo.
    “Acho, friso, que legalizar é, por um ângulo, fazer com que nós mulheres nos tornemos mais ainda submissas a uma sociedade machista pelos motivos pelos quais as mulheres recorrem ao aborto. O ponto é que penso na mulher em si, no que a movimenta, no que a engrandece e a diminui e dispenso um critério exterior e moral para julgar as coisas.”
    Não creio que a escolha de abortar seja fruto de uma cultura machista, já criminalizar o aborto é bem machista, afinal homens “abortam” aos borbotões não só os fetos, mas filhos já paridos, diariamente. O que movimenta a mulher? O que é ser submissa? Seria abortar ou ser obrigada a ter um filho que não quer, não pode, ou julga que não pode ter? Não seria ainda mais machista obrigar a mulher a parir pois essa é parte mais importante da nobre função feminina na sociedade. Muitas mulheres inteligentes, bem resolvidas, bem sucedidas optam por não ter filhos. Existem muitas narrativas possíveis. Sou mãe e amo minha filha, mas não enxergo a mulher que optou por não ter filhos (abortando ou não) como menos mulher do que eu.
    Sobre seleção racial ou limpeza social
    “Nos Estados Unidos, onde o aborto é legalizado, cerca de 4 em cada 5 mulheres que o requerem são negras ou latinas. Seria diferente por aqui no Brasil? Estamos defendendo o que afinal: a legalização do aborto ou uma limpeza social? Qual raça, coloquemos assim, que seria mais impedida de nascer quando o aborto for legalizado? Estamos protegendo as mulheres negras ou impedindo que negros nasçam?”
    Esse tema pode ser analisado por uma lógica diametralmente oposta. Criar regras sociais, como a atual, onde quem tem dinheiro aborta com segurança (mulheres brancas de classe média), e escolhe quantos filhos quer ter ou não e garante as melhores oportunidades de educação e colocação profissional e quem não tem dinheiro morre ou é obrigado a ter meia dúzia de filhos sem oportunidades de educação qualificada, e que passam a vida subempregados não seria uma forma de escravidão moderna? Criminalizar o aborto é hoje no Brasil manter as senzalas atuais intactas, com mulheres negras produzindo mão de obra barata para as classes dominantes. É também matar mulheres negras aos borbotões, isso os números mostram. Isso é estatístico, em todos os lugares do mundo onde se aumenta a renda e a qualidade de vida a quantidade de filhos diminui.
    Sobre riscos.
    O risco de um aborto é muito menor do que o risco por exemplo de uma cesárea eletiva (prática assustadoramente comum no Brasil). Um aborto bem feito não é uma cirurgia, é um procedimento simples, não corta tecido, não abre vaso sanguíneo, não precisa anestesia forte, é uma curetagem e o risco é bem pequeno. Pode até ser realizado com medicamento dependendo do momento. No Uruguai, após a legalização do aborto o número de mortes por aborto caiu para ZERO. No Brasil o número de mulheres que fazem abortos passa de UM MILHÃO e o número de mortes e complicações passa de um quinto desse número. Esse é o debate social urgente. O outro é o debate moral de foro íntimo. Enquanto permitirmos misturar essas duas coisas, mataremos muito mais do que permitindo os abortos feitos de forma segura. Lembrando que quem é contra o aborto não vai ser obrigado a abortar caso seja legalizado!
    Em resumo, respeito a opção pessoal de qualquer pessoa de ser radicalmente contra o aborto, mas discordo radicalmente da atual criminalização do aborto. Sou radicalmente a favor da legalização do aborto e, para a urgência do problema de saúde causado pela atual proibição do aborto, pouco importa se sou a favor ou contra o aborto, essa discussão é muito mais pessoal, complexa e filosófica do que a outra.

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  2. Olá!
    Como você, sou contra o aborto, no meu corpo e nos meus mandos.
    Em oposição às suas ideias, sou a favor da legalização.
    Sou cristã e mãe, inclusive, mas a garantia do nascimento está longe da garantia de uma vida. Não consigo ver esse fato isolado.
    Poderia tentar buscar mais referências que contra argumentassem com suas informações, mas não conseguiria agora, mas podemos continuar essa conversa.
    Vou, por enquanto, me ater a alguns pontos.

    Colocar o aborto como esterelização em massa, não tem a menor coerência… Garanto a você que a clandestinidade, conseguiria eliminar, muitas vezes, duas vidas ao invés de uma…
    Claro que há riscos na prática, mas se não há como evitá-la podemos nos cercar ao máximo de segurança para que os possíveis perigos não ocorram.
    Realmente, não acredito que a ação seja fácil pra uma mulher. Conheço algumas que realizaram o aborto e por mais que não se arrependam, carregam a lembrança, não esquecem, não apagam, e vez ou outra questionam “como estariam agora?”.
    Mas estamos falando de uma realidade social, de um momento e uma decisão para uma vida, ou melhor duas. Apegar-se a nove meses ou uma célula me parece uma visão curta.
    Por mais que respeite sua opinião, termos e frases como “não se sintam criminosas”, ” ato deplorável ” e “digno de pena” mostram uma avaliação rasa e confortável, até preconceituosa. Cai em um grande risco: a generalização. E para fugirmos dela nos cabe dar munição a sociedade para que avalie e eleja seu critério.
    Nunca, em tempo algum, a garantia da liberdade de escolha é sinônimo de retrocesso. O juízo, no caso, é da mulher – se quer ou não passar por isso. O digno é garantir situações favoráveis para sua saúde e, finalmente, informações para que responda pelas consequências físicas e emocionais de sua opção.
    Das mulheres que praticaram aborto no Brasil, 64% tem renda inferior a cinco salários, e a grande maioria já possui filho. Cabe a mim ou a você, realmente, decidir?

    Vou te contar uma rápida história. Uma menina que trabalhou comigo nas tarefas de casa, devia ter 30 ou 32 anos na época, me procurou uma vez pedindo ajuda para fazer um aborto. Ela já tinha dois meninos, não estava com o homem que a engravidou, tinha tentado tirar e não tinha conseguido.
    Eu cheia de razões, falei pra ela que não poderia dar dinheiro pra isso, garantindo assim minha consciência limpa. Disse que pagaria sua consulta, a levaria na minha médica, faria os exames necessários para garantir sua tranquilidade quanto a saúde do bebê.
    A criança chegou muito bem…
    Infelizmente, perdi o contato … Não tenho notícias, isso deve ter uns sete anos.
    Ainda tem dias, que me perguntou como eles estão.
    Posso ter tido parte da responsabilidade no nascimento da criança, garanti alguns pacotes de fralda, umas roupinhas, mas em nenhum do outros momentos, eu tive encargos, contribuições ou cuidados. Não fiquei com as consequências da minha escolha. A não ser a minha consciência…

    E apesar de reverenciar enquanto poesia quanto citas Mário Quintana, onde não “pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo!” lhe garanto que há, porque pior do que ignorar é a ciência do que lhe é privado. A ausência é uma punição e tanto, e uma bela mola desenvolvimento. Daí a luta da mulher, de um novo direito.
    E perdão Fernando Sabino mas garantir a oportunidade de um arrancando a liberdade de outro não me parece a forma mais justa de uma sociedade.

    Parabéns pelo seu blog. Vou continuar por aqui.
    Bjs

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  3. Gustavo Ramalho

    Olá, Elika, e demais. Não sei como começar pq não consigo expor a minha ignorância.
    E não me lembro de quando escrevi pela última vez que não seja tecnicismo (+ de 10 anos).
    Então vou primeiro agradecer pela vida e por ter conhecido o que vc escreve (pelo menos). Me encanta e embala. Além de vc atrair pessoas incríveis. Sua luz ilumina sem ofuscar. Espero corresponder.

    Depois que recebi o email com o título, e pela forma como o colocou fiquei esses dias todos numa ebulição angustiante para escrever algo com algum sentido (sentimento), mas vou tentar (tentação é diabólica).
    Algo (outro algo) que me intriga muito é: como podemos saber “quando” se inicia uma Vida?
    Para mim, teríamos que estar no ponto de vista do criador (seja lá o que isso represente para cada um) e ter uma sabedoria tendendo ao infinito (mas dizem: Sábio é quem sabe que não sabe – dilema).
    Não me arrogo saber nem em que estágio estou/estamos de evolução/involução, pois uma imensa quantidade de seres humanos se entrega, sem qualquer resistência, a um processo de massificação desvitalizante, onde nem de indivíduos mais podem ser nominados, acreditando que o fazem de livre e espontânea vontade.
    Que dirá, então, de um ponto de vista interno à vida, saber onde ela se inicia e termina. Passa a ser mera opinião (na minha opinião).
    Penso, logo insisto que a vida não começa nem termina: está em curso.
    Quer dizer que os espermatozoides se movimentam por espasmos involuntários movidos por uma atração química desprovida de sentido vital?
    E o que dizer da maravilha do ato receptivo e de escolha do óvulo, e do encontro de ambos dando início ao processo de expansão formal (forma) da vida humana no aconchego da placenta no ventre de uma mulher?
    A vida só se inicia após um momento arbitrado pelo que os olhos veem para que o coração possa sentir?
    Não sigo uma religião, nem creio em dogmas, mas (e talvez por isso) não acho que abortar seja uma solução. Antes um paliativo ineficiente para o medo de assumir um caminho sem volta porque não tem manual e ninguém para ensinar que a vida não tem ensaio, nem mesmo nos recomeços. (medo engloba todas as dúvidas – não é uma crítica)
    Me lembrei do Chico Xavier quando ele diz para não chorarmos o passado e construirmos um novo futuro após nos depararmos com o imprevisto.

    Quanto às palavras legalização, liberação, descriminalização do aborto, fiz uma pesquisa, rápida, para entender um pouco do seu significado e poder me posicionar a respeito.
    Num primeiro momento, dado o atual estágio de ignorância sentimental onde poucos se apoderam da vida de muitos para satisfazer seus desejos irresponsáveis e inconsequentes de ganância pelo poder (não estou me referindo às questões sexuais que podem ser causa ou consequência), penso que, do ponto de vista do acolhimento da dúvida, seja uma proteção indispensável dentro de um processo de reeducação e construção de um novo futuro, que a legalização do aborto seja acolhida. Mas não como uma conquista, e sim como mais um ingrediente provisório na erradicação das injustiças sociais vigentes, ainda que pareça, num primeiro momento, uma injustiça com uma vida que se inicia. O coração das mulheres acolhidas no seu direito de escolha poderá ter espaço para falar mais alto e que cada um possa ser protagonista de seus erros, acertos e correções de rota.
    A punição do homem pelo homem é o maior engano e de consequências imprevisíveis (as vezes irreversíveis) no processo de educação para a vida.
    Um beijo no coração de todas as mulheres dessa minha vida.

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  4. Milena Afonso

    Eu sou contra por motivos de segurança mesmo. Sabe-se, que o aborto após legalizado terá outras implicações. No que tange a bioética, por exemplo, por qual motivo não abortar em caso de serem diagnosticadas doenças fetais? Para evitar tais doenças, será certo recorrer a manipulação genica? Se essa manipulação der errado, quem vamos responsabilizar? Compensa deixar nascer uma criança em família pobre? Ela vai sofrer, padecer necessidade, viver em situação de risco .. Por que não legalizar o aborto em zonas de guerra? Ou seja, todas as ações humanas têm implicações posteriores severas, no entanto, percebo que as discussões sobre o tema ainda parece inconsequente.

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  5. Já fui contra o aborto. Mas, depois de conhecer um pouco mais das situações em que essas pessoas vinham ao mundo, o submundo dos orfanatos, o tráfico de órgãos, de estudar o feminismo, acabei me tornando a favor. Bem a favor mesmo. De qualquer forma, achei a sua abordagem respeitosa.

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  6. Roberto

    Matando ou não , a Mãe será sempre mãe daquele ser ( do seu filho ) !

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