Contando sobre as Cotas…

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Há quatro anos, tivemos no CEFET/RJ nossos primeiros alunos cotistas. Para entrar lá, os jovens fazem uma prova de seleção. Naquele ano, 50% das vagas foram destinadas para alunos negros, de escolas públicas e com renda baixa.

Lembro-me que levei um susto ao entrar em sala. Havia negros e alunos extremamente diferentes na forma de se expressar. Eu simplesmente não sabia como lidar. Pensei em escrever uma carta para Dilma reclamando. Se esse governo quer colocar cotistas em sala, que ao menos nos dê uma certa infra-estrutura para recebê-los! Psicólogos, pedagogos, assistentes sociais… cadê esse time para nos ajudar? Nada? Como assim?

Da mesma forma que sempre fazia com a minha turma, eu mandava o meu aluno estudar. Dizia que se ele não fizesse a parte dele, não passaria porque bababá bububú… muitos alunos cotistas não mexiam o dedo mesmo eu repetindo o discurso: você tem que estudar! Você tem que estudar!!!

Percebi que muitos não sabiam o que era “estudar” porque, meodeos, nunca haviam estudado. Era como eu virar para qualquer outro na rua que nunca, por exemplo, estudou música e falar: você tem que treinar piano! Você tem que treinar piano! O cara ia sentar em frente ao piano e fazer o quê? Não saberia nem por onde começar! Quando percebi isso entrei em desespero porque o problema era muito maior do que pensava…

O que fazer? Desistir? Deixar que todos repetissem? Mas seriam muitos! O desespero une os seres humanos que estão sob o mesmo inferno. Nós, professores, fomos conversando e juntamente com parte da equipe pedagógica, criando subsídios para esses alunos.

A ficha caiu quando um menino de boné e cordão prata veio até mim e falou: “Professora, você fala que eu tenho que estudar. O que seria exatamente isso? Eu não quero perder essa oportunidade. Me ajuda…”

Esse menino mal sabia pegar no lápis por falta de hábito…

Tivemos que lidar também com tensões e preconceitos que existiam entre eles. Por exemplo, alguns alunos que vieram de escolas particulares com família bem estruturada não entendiam por quê o colega não fazia o trabalho direito. Inicialmente, houve, em algumas turmas, segregação. No jogo de xadrez, por exemplo, onde temos peças pretas e brancas, eles perguntavam quem seria os cotistas e os não-cotistas…

Sei que criamos aulas de atendimento… preparamos nossos monitores para atender a esse novo perfil de aluno. Ensinei a aluno segurar no lápis e organizar o raciocínio para aprender física e fazer problemas de IME e ITA como fazia em todos os outros anos e dá-lhe conversas com todos os demais privilegiados para entender que não é excluindo que incluímos ninguém. Não é fazendo o mal que faremos um bem…

O que nenhum professor do CEFET admitia era baixar o nível de nossa instituição. Eles, os alunos cotistas, teriam que alcançar os demais. Foi preciso muita dedicação, hora extra, mais avaliações para o aluno ter oportunidade de recuperar a nota – dentre outras coisas maiores como, por exemplo, amor ao próximo e empatia à causa – para que o equilíbrio, enfim, fosse alcançado.

Foi preciso muito mais trabalho…

Fizemos um forte levantamento sobre o rendimento desses alunos. Quanta emoção ver as notas deles no segundo semestre se igualando aos demais colegas que tiveram muito mais oportunidades e condições para estudar. Quanta emoção… conseguimos, gente, conseguimos… estamos conseguindo…

Percebi claramente que falta de base nada tem a ver com capacidade intelectual e me surpreendi muito quando vi minha cara se esfarelando e a poesia sambando na cara do meu preconceito ou melhor, do meu desespero – no sentido, aqui, de negar a esperança.

Este ano (como em outros nas minhas turmas do primeiro ano), minha primeira avaliação foi coletiva e não individual. Os alunos tinham que fazer um grupo, estudar entre eles e, no dia da prova, eu faria uma pergunta em que somente um deles, sorteado por mim na hora, resolveria no quadro a questão por mim colocada. A nota do aluno escolhido seria a nota de todos os demais componentes daquele grupo. Essa foi uma forma que encontrei de forçar os alunos privilegiados a me ajudarem a ajudar os menos privilegiados.

Para um jovem de 15 anos, isso beirou o absurdo das injustiças. Uma aluna veio falar comigo: “professora, eu vou ter que convencer o outro a estudar como? Eu tô chamando e ele, quando vem, nada fala!”

Com muito amor e já mais experiente e segura, expliquei a ela que estávamos lidando com uma pessoa que vinha de uma realidade completamente diferente e que a forma de incluí-la não seria fazendo um chamado comum porque esse ser já tinha sofrido na pele o diabo da exclusão social e se sentia amedrontado perante os demais. “Você vai ser o diferencial na vida dele. Dependendo da forma em que se chegue a ele, você pode despertar um artista, um sábio, um colega pensante ou minar qualquer coisa boa que possa emergir.” A menina de 15 anos me olhou assustada. Nunca talvez ninguém havia lhe dado tanta responsabilidade. Continuei: “Sim. Temos que, acima de tudo, cuidar uns dos outros sempre. Isso se aprende também na escola.”

A prova foi ontem. Sem querer, escolhi o aluno com maior dificuldade. Ele foi ao quadro e falou com certa timidez natural, mas com uma segurança que eu mesma não esperava.

Ao final da aula, a aluna veio emocionada falar comigo: “Professora, fiz o que a senhora falou. Chamei o menino de outra forma e com jeitinho fui tirando dele o que ele sabia e mostrando a ele como agir. Estudamos a tarde toda. Você viu como ele falou bem?”. Havia o orgulho e a felicidade em ter ajudado o próximo e incluir um que, em outra época, seria completamente jogado às margens da nossa sociedade sendo o que chamamos de “marginal” em sua essência.

Escrevo isso sob uma emoção ainda muito forte. Quando vejo a primeira turma de cotistas se formando com louvor sem nada mais ter do que se envergonhar em termos de conhecimento em relação aos seus colegas, eu devo agradecer por essa oportunidade que esse governo me deu de fazer com que eu fosse uma verdadeira educadora. Devo agradecer pela oportunidade de me fazer unir e dialogar com os colegas e crescermos todos como um verdadeiro centro de ensino. Devo agradecer por ter me feito um ser humano infinitamente mais sensível e melhor.

Reclama da política das cotas quem nunca sentiu na pele e testemunhou o desabrochar da dignidade de um cidadão…

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47 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação

47 Respostas para “Contando sobre as Cotas…

  1. Acompanhando o texto percebemos primeiro o peso que foi jogado sobre os tijolos que sustentam o sistema de ensino: professores, diretores e outros profissionais da escola.

    Depois vamos entrando em contato com um outra dimensão social, um exercício de empatia e de desenvolvimento humano que, na minha opinião, pode ser mais importante do que levar o ensino a quem não tinha: a integração de camadas sociais separadas por preconceitos artificiais (bem, todo preconceito é uma ilusão construída culturalmente).

    Vi de outras formas que a distância entre quem tem e quem não tem oportunidades não é intelectual, mas cultural e que esse hiato pode ser conectado.

    Lindo texto, lindo relato da história que, espero, não seja destruída pelos interesses que parecem prestes a se fortalecer (ainda que momentaneamente) no governo.

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  2. Haroldo

    Parabéns.

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  3. Gustavo Ramalho

    Elika, em minha inexistente capacidade filosófica, arrisco uma vaga sugestão para o seu ateísmo: vc ilumina onde brotariam as sombras … é “Divinal”. OBS: não sigo dogmas nem religiões.

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  4. Paola

    Bom dia, gostei muito do texto e queria saber se posso o replicar para meu trabalho de faculdade sobre Práticas de Ensino (dando os devidos créditos, obviamente). Obrigada

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  5. Fernando Temporão

    Elika, tudo bem? Ó, sou seu fã cara…vários amigos em comum e muito respeito pelos seus textos, de verdade! Mas cara “Havia negros e alunos extremamente diferentes na forma de se expressar.” é meio estranho. Que tal apenas “Havia alunos extremamente diferentes na forma de se expressar…”?

    Beijos e força!!!

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    • Pedro Florencio

      Tem toda a razão………..É bem estranho……Estranhamente racista….

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      • Alan Chavão

        Consigo entender quando a Profa. diz que há negros. É porque antes eram pouquíssimos, ou não havia. Não há espaço para racismo na inclusão

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    • Fernando, comecei a te acompanhar a alguns dias, gosto dos seus textos e já vi alguns “é meio estranho” neles, nem por isso descontextualizei o texto todo. Houve um erro sim, mas a partir dai atiçar a patrulha raivosa e fascista da esquerda, foi demais. Todos vivemos em constante processo de reconstrução e foi o que vi nesse texto de Elika. Vi um relato do momento que ela vivia àquela época, que é bem diferente de hoje.
      E se o titulo do texto fosse: “Como iniciei o meu processo de desconstrução do racismo do do preconceito classe?” Conotaria diferente , concorda?

      Abraços

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  7. Renata Fernandes

    Inspirador para mim, que amo lecionar, mas estou afastada por problemas e saúde.

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  8. Vera Rodrigues

    Um ótimo texto, e imagino o quanto deve ter te emocionado! Uma grande desafio com um resultado belíssimo. O mundo está carente de amor ao próximo. Lindo exemplo! Mas faço uma ressalva: sou a favor das cotas. Mas não cotas para negros, e sim, a favor de cotas para pessoas de baixa renda. Acho infinitamente mais justo e coerente.

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  9. Carlos

    Parabéns pelo texto, Elika! E por avor: não se vá 😦

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  10. Kareen Priscilla Ábrego

    Lindo texto, realista e emocionante.
    Parabéns!

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  11. Daniel Peres

    Olá Elika. Gostei muito, mas muito mesmo do seu texto. Revela um engajamento e uma empatia que tem desaparecido das salas de aula. Parabéns.

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  12. Patrícia Mendes

    Elika seu relato é de emoção e sinceridade, mas o momento político-social do nosso país é de ódio. E ele vem de todos os lados. Pequenas mudanças estruturais só tornarão sua crônica perfeita. Fica firme. Seu trabalho tem sido incrível!

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  13. Romualdo

    As pessoas que te criticam são burricas, Elika. Incapazes de compreender um texto em seu contexto Você não é racista e não deveria pedir desculpas aos babacas que te agrediram e te ameaçaram. Não forma seus alunos, por isso são imbecis. A culpa é dos incompetentes que deram “aulas” para eles.

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  14. Elika, é o Marcio Araujo, um amigo Facebooker seu.
    Já sinto tua falta por lá e mais do que isso, seu texto é excepcional como todos, sempre!
    A falta de interpretação do mesmo levou a este enorme mal entendido. Estou ao seu lado!
    Volte ao Face, por favor!
    Quero saber se está bem, tá?

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  15. Mensagem rápida para prestar solidariedade. E para dizer que é pela explicitação corajosa de si, ao menos para si mesmo, que se superam preconceitos. O teu texto é um mostrar-se, mas não um mostrar-se como o das vagas reacionárias que assolam o país, que mostram o seu pior como se fosse motivo de orgulho. O que você relata no seu texto é o teu devir, o teu processo. E o teu desejo de superar a si mesma. Deve estar sendo f*** para você o linchamento (eu também já fui alvo de um). Mas nada como um bom solavanco desses para a gente se afastar um pouco e voltar depois mais forte, mais seletivo… Forte abraço!

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  16. Elpidio José Coutinho

    Elika, bom dia!
    Só passei por aqui para deixar explícita a minha irrestrita solidariedade a você.
    Transformaram, infelizmente, essa linda paragem em um país binário, onde há pouco entendimento das coisas e muito julgamento.
    Precisamos de você, de sua voz, de seu pensar.
    Não desista de nós!
    Um abraço apertado e solidário.

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  17. Laura

    Elika, tive contato com o seu texto através da página de um amigo. Nunca havia lido nada seu e, confesso, gostei muito da maneira como se expressa, de como você parece “falar com a alma”. Concordo com a moça que disse estarmos vivendo um cenário de ódio. Há tempos as redes sociais se tornaram palcos para todos os tipos de agressões. E o pior de tudo é quando tais agressões vêm justamente de pessoas com as quais nos identificamos, pessoas que acreditamos defenderemos os mesmos ideais que os nossos. Foi uma grande injustiça o que fizeram com você. Espero, do fundo da alma, que venham dias infinitamente melhores e que você continue sendo essa pessoa verdadeira, corajosa e, o mais importante, “empática”. Seres humanos como você são raros e, talvez por isso, sejam profundamente incompreendidos em algum – ou muitos – momento da vida. Força ! Grande abraço !

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  18. Raphael Sanches

    O texto não mostra o preconceito, como dito pela própria autora, mas sim a sua ignorância com o que está do outro lado do muro …

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  19. Gustavo Ramalho

    Querida Elika, conheci vc (suas publicações) há um ano atrás. Outro dia assisti a um vídeo sobre amor, respeito e liberdade, do Kau Mascarenhas, onde ele fala que o oposto de amor, segundo Carl Gustav Joung, é o “poder”. Que quanto mais amor se oferece a alguém, menos poder se tem sobre esse alguém (e sua recíproca).
    Vc é, para mim e, com certeza, para milhares de pessoas, a expressão prática dessa razão; vc é, legitimamente, uma EMPODERADORA e a expressão cristalina do amor libertador.
    Permita-se sentir e vibrar com o amor dos milhares que te acompanham. Um grande e carinhoso abraço para vc e para sua família.
    Correções nos textos????……….. Quem é perfeito???!!! E vc já as faz qdo insiste em pedir participação para o melhor. Isso é amor…..

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  20. Texto perfeito que retrata a realidade da educação no país. Você foi além: Mostrou sim que é possível MUDAR esta realidade. Parabéns pelo trabalho e pela coragem de publicar este texto, mesmo sabendo das diferentes interpretações que alguns fariam dele. Você me representa e tem todo o meu apoio!

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  21. Flavia

    Parabéns!!!! ❤

    E não liguei para as críticas negativas, sempre haverá!

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  22. Jorge

    Li o texto e confesso que fiquei pensando “que mundo essa mulher vive, será que veio de família rica e nunca teve contato com a parte baixa da sociedade, ou será que é só mais um rico que se preocupa com a própria vida e ignora o que acontece ao seu redor”. O mundo é assim desde que me entende por gente, nasci em 1989 e conheço muito bem essa realidade que você só descobriu agora há pelo menos uns 15 anos. E digo mais, Universidades públicas é para ricos, simples assim. Frequento um cursinho preparatório onde a parcela gira em torno dos 1350,00, em grande maioria os alunos são de classe alta, tentando uma vaga no curso de medicina ou engenharia, ou qualquer outro que diga-se de passagem, os farão ser bem sucedidos no futuro. Vejamos que 90% deles ficam no cursinho 12 a 15 horas por dia, nesse contexto os pais bancão almoço, lanches, transporte, etc…Agora, quais as chances de uma pessoa que trabalha o dia todo para poder comer a noite tem frente aos seus concorrentes de família rica, o ensino público base é precário, um ou outro consegue sair dessa zona e se destacar meio da multidão. Estranhei seu texto, ao se espantar com a deficiência que os alunos cotistas pretos ou pobres possuem no âmbito intelectual e isso pouco tem a ver com as suas capacidades e sim com a vida que levam/levaram. Outro ponto que tive certeza que o contato com o lado negro da sociedade é escasso da parte da autora, é quando relata que leva o filho pra ter contato com a diversidade e a baixa renda, pelo amor, não sei se interpretei mal, mas é como se isso fosse novidade, como se no “mundinho” que se vive não existisse tais extremos. A “experiência social”, fazer meu filho ter contato com pobre. As pessoas não procuram saber como anda o mundo fora do seu cotidiano, fora do seu estilo de vida, fora do seu ambiente comodo, ai quando cai numa situação dessas, quando tem contato com algo “normal no mundo”, fica esse espanto e pior ainda, acham que estão fazendo muito ter que se adaptar para contribuir com tais pessoas. Minha filha, governo nenhum vai te dar assistência, se vira, isso que você teve contato é apenas uma parcela do que tem por ai e todos que estão no meio fazem sua parte, sem auxilio, curso de adaptação, curso de “aprender a lidar”. Todos ajudam como podem sem chorar as pitangas. Acorda, estamos no século 21, o mundo não é o Walt Disney, lide com o sistema ou lecione apenas para os de pedigree.

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  23. Ana

    Dois dias fora das redes e quando volto não entendo nada…
    É esse texto que está dando bafafá??
    O texto fala de preconceito sim: como cura-lo.
    Por causa dele comecei a te seguir acho que tem mais de um ano.
    O texto é lindo.
    Você é linda.
    Volta.
    Já estou com saudades!

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  24. Gê Cesar De Paula

    Após tanto se falar, resolvi ler o seu texto e, francamente, só pode considerá-lo racista quem não o leu na íntegra. E o resultado dessa falta de entendimento foi um linchamento que beira o abjeto. O que está acontecendo com o mundo?

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  25. Olá professora, fiquei triste com o seu texto, acredito que a senhora não se fez entender bem. Eu estudei a vida toda em escola pública, do ensino fundamental à graduação. Sempre fui muito estudiosa e na época das provas do CEFET não tive condições de pagar um cursinho para conseguir passar. Entrei na UFMG por cotas e isso não fez de mim melhor ou pior que qualquer colega de sala. A prova do CEFET é muito difícil, e não acredito nisso de o aluno não saber pegar no lápis. Sinceramente pareceu coisa para aparecer.

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    • Não foi. Tivemos esse caso. E outras coisas tão terríveis quanto. Não inventei nada. Não foram todos mas era muita gente a ponto de muitos professores entrarem em desespero sem saber como agir. Somamos força na época e hoje isso para nós não é mais um problema. Além de nunca mais ter visto outro caso nesse extremo.

      Quisera eu ter inventado tudo isso…

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  26. Pedro

    Força, Elika. Não te conhecia até hoje, mas já te admiro muito. Quanto aos cães que ladram, vá em frente, Caravana!

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  27. Julio Tedesco

    li seu texto faz 1 ano e agora, com a polêmica, li novamente… não acho que tenha tom ou conotação racista, é sim realista… fui aluno do cefet e hj sou professor de física… identifiquei várias semelhanças entre sua experiência e a minha… diferentemente de como vc escreveu em seu pedido de desculpas, não acredito que basta um negro dizer que seu texto é racista para que ele seja racista… nós é que nos tornamos mais ignorantes com o tempo, alimentamos o ódio e dicotomia de pensamentos… infelizmente… força e sucesso pra vc!

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  28. Parabéns Elika, esta posição de ser formadora de opinião, de ser vidraça representa um desafio enorme e sou muito grato por você ter batido no peito e assumir o debate público. Parabéns pelo texto!

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  29. Sirléia

    Muito corajosa em confirmar na prática o que a historia diz, ” A escola foi feita pela elite e para elite branca”. Parabéns pela transformação pessoal e por ter puxado uma fresta nessa “cortina de fumaça” que existem nas acadêmias ou até mesmo nas escolas primarias e secundárias. Preconceito e racimo sempre existiram e sempre existirão, assim como a divisão por classe, sexo, e etc…

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  30. Verônica Domingues

    Texto que escrevi após esse episódio a la Black Mirror

    ATÉ QUANDO VAMOS IGNORAR OS SENTIMENTOS?

    Tenho evitado comentar sobre as mais novas ondas polêmicas da internet, por dois motivos:

    1 – Não tenho mesmo que expor minha opinião sobre tudo. Às vezes penso que os “formadores de opinião” se sentem obrigados a comentar sobre tudo que acontece. Não podem ficar alheios, precisam deixar seus carimbos sobre as letras dos fatos. Da parte deles, isso pode ser consciente ou não, mas me parece uma coisa um pouco imposta, e isso não tem me agradado. Tenho ficado “na minha” para não me confundir comigo mesma.

    2 – O outro motivo, é que isso me toma muito tempo e eu estou na reta final de um texto que se pretende ser chamado de tese e ele trata de amor. As novas polêmicas de 24h geralmente são nocivas, envenenam meu pobre coração esperançoso de que podemos ter um mundo melhor. Tenho ficado “na minha” para não me confundir comigo mesma.

    Mas dessa vez meu sentipensamento me pede para que eu escreva.

    Sim, vou falar de amor e de ódio novamente. Mais uma vez, não tratarei de condenar o ódio, mas de condenar o que estamos fazendo com ele.

    Quero falar do relato da Elika, sobre sua prática pedagógica e do linchamento que sofreu na internet por esses dias. No texto, ela faz um relato recheado de sentimentos e sentimentalismos (sim, tem uns pedacinhos que achei “uó”), contando sobre suas percepções e sensações ao se encontrar, pela primeira vez, com uma sala repleta de alunos negros, advindos das políticas de cotas, em uma aula de Física do EM, dentro do CEFET (hoje IF). Sim, a escola pública de excelência, que faz prova de seleção, ou seja, que tem uma política meritocrática de acesso, que provavelmente sempre beneficiou os brancos.

    Em que trecho do texto ela pode ser considerada racista? Seria por ter se assustado com tantos alunos negros na sala? Seria por ter se espantando com alunos com outros padrões de comportamento em relação aos estudos? Seria por dizer que os alunos, que entraram pela política de cotas, não tinham a mesma base acadêmica que os demais? Na minha leitura, o texto não é racista. Talvez, traga alguns preconceitos, os quais ela assume e demonstra relutar contra. Quem sabe, houve uma falha ao evidenciar a solidariedade dos alunos não cotistas, com os alunos que entraram via política de cotas e não destacar o empenho, desses últimos, em superar as dificuldades que uma educação básica de merda lhes impôs. Mas isso faz dela uma racista pregadora da exclusão, da negação às diferenças, do ódio ao negro ou da indiferença? Diante das Leis, que artigos a enquadraria? Fora dessa coisa legalista, envolvendo o que realmente me interessa, o sentimento, creio que alguns leitores possam ter se ofendido, mas em resposta a esse “possível racismo velado” dela, veio uma onda de ódio visceral. Linchamento, ameaça, exposição, terror!!

    A cada arroto, vejo que há muita podridão nos nossos estômagos. Estamos digerindo mal nossa humanidade. Sim, em todos os tempos o nosso alimento amoroso pode ter sido empobrecido, até porque o próprio amor é assim, ora condensado, ora desidatrado, porém, me parece que está faltando amor nas prateleiras dos supermercados. Ou nas fábricas estão manipulando as latinhas de amor, colocando papel dentro, ou, comercializando-as após o tempo certo de consumo. E amor vencido, adoece.

    Amor como alimento produzido industrialmente pode ser uma metáfora interessante, se pensarmos sobre o que o capital anda fazendo com nossos sentimentos.

    O amor não está sendo bem vendido.

    O mesmo não posso dizer do ódio. Se estiver sendo adulterado, provavelmente é na versão em pó, vindo cheio de fermento. A cada dia, ele vem sendo oferecido em novas embalagens, inclusive, as politicamente corretas são as preferidas, como nos diz Maffesoli, para alimentar a República dos bons sentimentos.

    O ódio está sendo mais vendido do que nunca.

    Nossos sentimentos agonizam. Temos fome de amor e nos alimentamos de ódio contra o amor.

    Não vi nenhum anúncio de que Elika fala de amor em seu texto. Ela fala amorosamente de educação no texto. Não, não é pieguice, pois ela trata de amor politicamente na ação docente, e mostra como ele se manifestou na sua prática pedagógica. Perfeita? Boazinha? Não… mas repleta de um amor político e implicado, solidário e horizontal. O amor pelo outro ser humano como ele é.

    Mas…

    O amor foi ignorado. Ignoramos nossas práticas amorosas. Não sabemos falar sobre elas, a não ser quando estão vestidas de sofrimento ou de caridade.

    O ódio foi ignorado. Ignoramos nossas práticas odiosas. Não sabemos falar sobre elas, a não ser quando estão vestidas de julgamento ou de vingança.

    O ódio pode ser bom, meus caros. Saibamos usá-lo. Como disse Renato Russo:

    “Vamos celebrar a estupidez humana
    A estupidez de todas as nações
    O meu país e sua corja de assassinos
    Covardes, estupradores e ladrões
    Vamos celebrar a estupidez do povo
    Nossa polícia e televisão
    Vamos celebrar nosso governo
    E nosso Estado, que não é nação
    Celebrar a juventude sem escola
    As crianças mortas
    Celebrar nossa desunião
    Vamos celebrar Eros e Thanatos
    Persephone e Hades
    Vamos celebrar nossa tristeza
    Vamos celebrar nossa vaidade […]”

    Por fim, não quero, ao negar o leite talhado das barrigas gordas, me ver coberta com vômitos de vitaminas de bananas, cheias de agrotóxico.

    Dessa vez, não pude “ficar na minha”, para não me confundir comigo mesma. Tento não ignorar meus sentimentos.

    Talvez tenha medo das nódoas.

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  31. Boa tarde, Elika. Não sou esquerdista de carteirinha nem leitor assíduo de blogs, mas lendo o DCM fiquei curioso com seu caso, com tudo que você está passando, e tive que vir aqui ler o famoso post. Só quero te dar parabéns por ter escrito ele, e te agradecer por ter compartilhado ele com toda a raça humana – incluindo comigo. Lendo ele, me emocionei no final acho que tanto quanto você, acredito eu, deve ter se emocionado quando o escreveu. É triste sim, mas nunca desanimador, que palavras tão honestas e puras como as suas sejam tão distorcidas e mal-interpretadas por algumas pessoas, e que tanto ódio tenha surgido de algo que só consigo ver como positivo e construtivo, um post que “esquenta o coração” como o seu. Só resta me dizer que nós (me permitindo o direito de falar em nome de todo o grupo), as pessoas que verdadeiramente acreditam que o mundo sempre melhora, lhe agradecemos muitíssimo por tudo que você fez e continua fazendo, também por suportar bravamente esse injusto linchamento. Ficaremos eternamente em débito com você pela sua coragem de escrever o que pensa, por expor a si mesma e sua família, por acreditar que é seu dever tentar ajudar o mundo a melhorar, mesmo nessas horas sombrias onde parece que todo esforço é inútil. Te desejo toda a sorte do mundo. Tenha certeza que as suas boas intenções serão multiplicadas, como acredito já estão sendo por seus alunos cotistas ou não, que tiveram a sorte de encontrar uma professora tão dedicada ao seu ofício, além de um governo mais aberto às políticas de inclusão. Mais uma vez, obrigado!

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  32. Luciene Asta dos Santos

    A própria escreveu no texto onde se retratou (e publicou aqui no blog) ” “Inicialmente, como sempre digo, se o oprimido diz que sofreu um preconceito e foi agredido, ele tem sempre razão. Não existe mimimi. Não existe vitimismo.” Se apenas 1 negro-cotista se sentiu ofendido, houve racismo. Ela mesmo já escreveu isso e as pessoas (na maioria brancas) vêm aqui dizer que acharam ‘exagero’.

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  33. Bom dia.
    Faz tempos que quero vir aqui. Acompanhei meio que de longe a polêmica sobre seu texto.
    Não tinha me aprofundado na leitura. O fiz agora.
    Sou seu leitor desde um dia que chegou em meu e-mail uma notificação de vídeo do Youtube de entrevista sua numa rádio. Fiquei fã na hora e desde então me cadastrei no seu blog e acompanho suas postagens. Isto faz mais ou menos dois meses.
    Me assustei quando vi reações de gente do movimento negro, ativistas e outros nem tanto, a agredindo.
    No texto percebi que você fala com o coração e a alma, mas mesmo assim generaliza em pontos que, de fato, beiram ao racismo à medida que reforça esteriótipos negativos em relação ao negro. É possível que todos os alunos – ou uma parte considerável – que ficou aos seus cuidados tenham comportamentos irresponsáveis, displicência e nenhuma formação adequada anterior? Duvido. Da forma que descreve parece que somos uma sub-raça e que todo o empenho da professorinha que mobiliza a comunidade transforma a realidade.
    Creio que você só peca aí, ao retratar esse quadro aterrador envolvendo uma raça que, mesmo com todas as ressalvas, estaria fadada ao total fracasso.
    De resto, o li como leio todos os seus textos, reparando na descrição de mais uma experiência de uma professora sensível e revolucionária.
    Por esta razão transmito aqui a minha solidariedade.
    É lamentável que nestes momentos de proliferação do ódio, até os militantes do movimento negro embarquem.

    João Negrão, jornalista, membro da coordenação da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) do Distrito Federal.
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  34. aurea

    O que foi relatado no texto foi uma realidade vivenciada por muitos professores, o sentimento exposto foi o que muito professores realmente vivenciaram. É utópico dizer que não existe (existia) diferença em oferta de ensino e sim esses que foram menos privilegiados e carregam uma carga defasada de ensino. A grande diferença que ocorreu foi que esses ( do Cefet) encontraram pessoas que estavam dispostas a igualar essa diferença.Nessa instituições o publico atendido mudou muito nos últimos anos. Eu sou negra e vim de uma escola publica (porem com muita diferença em relação as outras) ao entrar na Universidade Federal, eram poucos os negros nela, eram poucos os pobres nela. Hoje, apos as cotas, apos o enem, você encontra uma gama variada de pessoas, raças, credos, socialmente diferente que não existia antigamente. Vejo que a Elika simplesmente relatou o que ela vivenciou e no desenrolar do texto é possível perceber a desconstrução da restrição àqueles alunos e a construção de um professor melhor ao procurar uma forma de vencer aquela barreira. Belo texto.

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  35. Marcelo Pereira Tavares

    Infelizmente estamos em tempos de intolerância, de todos os lados… Algumas palavras, simples palavras, podem ganhar um peso enorme, mesmo que todo o conjunto do texto venha a provar que não era bem assim.
    Certamente, muitos que lhe esquartejaram, não tiveram a minima paciência de ler até o final, a pressa maior foi em apedrejar, bastou uma palavra ou outra para formarem a sua sentença final e irrevogável.

    Estes tempos atuais andam muito difíceis, estamos em uma nova caça às bruxas, o próximo pode ser qualquer um, por qualquer coisa…

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