Arquivo do mês: maio 2016

Quando uma Mulher é estuprada, a dignidade de várias fica ferida.

estupro

Ontem minha timeline se encheu de gente reclamando e acusando os homens de estupradores em potencial pelo caso horrível ocorrido aqui no Rio em que 30 homens estupraram uma mulher, filmaram, postaram na rede e ainda receberam apoio nos comentários de mais…homens.

Dessa gente toda que comentou sobre esse triste episódio, não lembro ontem de ter visto uma postagem de nenhum homem indignado com o caso. Mas vi sim nos comentários das meninas sempre um homem dizendo “mas não são todos…”.

O dia ainda por cima coincidiu com o fato do ministro da Educação ter recebido em seu gabinete um estuprador confesso que lhe ofereceu novas propostas. Triste dia para nós… mulheres. E há ainda quem ache o feminismo desnecessário…

Enquanto os machos do mundo ficarem na defensiva em casos como este de ontem e mais tantos outros que ouvimos todos os dias e vir a público somente para se defender, você que consome pornografia em que mulher é tratada como uma pia entupida e se excita com isso, você que olha para o corpo da mulher de forma indiscreta quando ela passa na rua ou já viu gente fazendo isso e não se incomodou com a situação, você que vê seu amigo puxando uma menina pelo braço para lhe arrancar um beijo na balada (se não for você mesmo que faz isso) e acha normal, você que compartilha ou curte fotos de bunda de mulher e acha graça das piadinhas e dos comentários em que somos tratadas como um objeto sexual, você que chama mulher de vagabunda, piranha e puta e acha isso natural… você você você você é sim também culpado por essa sociedade estar desse jeito, das mulheres serem espancadas e estupradas todos os dias e a causa de eu andar na rua e morrer de medo e nojo de gente como você.

É bom que saiba que não é sem motivo ou por exagero que muitas mulheres consideram você um estuprador em potencial sim senhor.

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Portanto, rezo.

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É muito complicado ser ateia porque às vezes, como ontem, tenho vontade de rezar. E me pego pensando diante dessa vontade: se rezar soubesse, o que faria? Agradecer? Isso seria de uma egoísmo tamanho diante tantos órfãos e famintos no mundo. Obrigada por cuidar só de mim e esquecer da criança que morreu de câncer. Não. Não teria como Lhe ser grata sem questionar tanta injustiça. Pedir? Querer respostas? Pede-se o impossível a Deus? Forcei a situação. Sentei-me na cama, juntei a palma de minhas mãos e deixei fluir meus pensamentos. Mal sabia qual pronome usar e misturei todos. E assim foi a minha oração:

Faze, Senhor, que eu sinta que a Sua mão está entre as minhas e com que eu entenda o que vem a ser a eternidade de uma forma diferente que sinto nas esperas mundanas em filas de banco. Perdão, Senhor, comecei mal.  Na verdade, eu não quero entender nada. A ignorância e a certeza socratiana de que nada sei leva-me ao infinito e foi o que me levou a Você. Bom mesmo é ser inteligente sem entender patavinas. Todas as vezes que pensei que havia entendido algo foi porque fui ingênua demais.

Não deveria agradecer, mas já que estou aqui, obrigada por essa benção, Senhor, de ser uma louca sem delírios ou ter loucuras mantendo o equilíbrio. Sou doce sendo estúpida e grata por Você ter me feito assim. Arranca-me, porém, por favor, as fraquezas que trazem uma inquietação insuportável de querer ter mais consciência de tudo o que não compreendo.

Que eu seja menos egoísta, Senhor, pois tenho me aproximado de pessoas que se parecem comigo.

Na verdade, eu só queria encostar no Seu peito e ficar quietinha. Mas sei que não posso e, portanto, rezo. Talvez prefira falar com humanos que me respondem e representem a Sua proteção. Mas entendo que Você precisa mais de nós do que nós de Você, por isso, por vingança de Sua ausência, nego-me tantas vezes ao Senhor que me deste um pai e uma mãe, mas que depois de adulta, época que mais nos sentimos sós e sem certeza alguma, me abandonaste no deserto. Pois, por orgulho, demorei tanto a pedir-Lhe água. Sei que estou rezando para um Universo escuro, um nada. Mas o medo de me igualar a uma fruta que não é colhida a tempo e cai podre e murcha no chão, me traz desespero e, portanto, rezo.

Meus olhos estão cansados de serem poças cheias. Preciso chorar, Senhor. A alegria que me dás é sempre revolucionária. Já entendi que cada dia que me permite viver nunca será um dia comum e sempre extraordinário, pois, me deste o dom de descobrir nas coisas mais comuns grandes surpresas.

Sei que não é com alegria pulsante que se escreve, assim como sei que não é plena de felicidade que se vive. Mas faze com que eu faça literatura com sentimentos melhores. Tornei-me um muro intransponível no meu próprio caminho. Talvez, com uma palavra Sua, eu me supere. Ando sentindo necessidade de conversar com os cosmos. Fale, algo, Senhor. Hoje, preciso mais ouvir-Lhe do que falar-me.

Ok… continuarei minha oração…

Faze com que eu não sinta medo de amar novamente e se eu me entregar inteira que eu ainda me pertença. Faze, Senhor, com que eu entenda que a entrega de si não é a morte em si e que eu acredite, ainda que somente por alguns minutos, que não há forma mais perfeita de usar meu tempo do que o esperar por ele, seja ele quem for. E que eu pare com essa angústia de antes do encontro querer tocar a mim mesma e, ao mesmo tempo, todo o universo.

Tire essa impressão de que para eu  me sentir compreendida por alguém, este tenha que me desconhecer por completo. Tenho medo, Senhor, de que o alguém se canse de minha resistência paquidérmica em deixar que uma constelação entre e, de tão exausto, desista de mim.

Faze com que eu deixe de buscar ardentemente tudo porque isso tem me cansado. Que me encontrem e que eu não tema uma aproximação diante da certeza de que serei iludida e que, ao menos, não me transpassem como os feixes de luz se perpassam. Que eu pare com essa mania de não querer ser eu somente e de almejar sempre uma ligação com uma terra molhada e fértil. Quero ser uma mulher dormindo protegida sem contudo perder a liberdade de não ter mais limites, formas e modos. Seria possível?

Quem sabe esse socorro mudo seja ouvido. Sou como um leão ferido andando de um lado para outro como se estivesse a pensar como se livraria do projétil que atingiu sua carne. Preciso de alguém que enfrente o medo de me tocar e arranque essa bala que me faz sangrar. E que eu não sinta pudor diante de algo que seja grande demais e que me deixe germinar.

Que eu tenha, Senhor, novamente, uma primeira vez.

Amém.

 

 

2 Comentários

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Eu e Edivaldo: Fim da Saga (?).

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-Dona Elika, a senhora parece elétrica! Senta aqui para eu ver uma coisa… -Porra, Edivaldo!

– Dona Elika, terminei todo o serviço da senhora.

– Ok, Edivaldo. Bora fazer conta.

– Então, comprei umas coisas como a senhora falou.

– Quanto deu?

– 679 reais.

– Cadê as notas?

– Tudo aqui, dona Elika.

– Só essas duas?

– Sim, dona Elika. Uma de 123 reais e outra de 28 reais.

– Porra, Edivaldo! E desde quando isso vai dar 679 reais?

– Ôxi, dona Elika. Deu não? Mas olha. Tô contando a minha ida a loja. Não falei que cobro para ir comprar não?

– Ok. Entendi. Olha, esqueci de te falar. Cada prato de comida aqui eu cobro 85 reais. E copo d’água 15 reais.

– Vixi maria, dona Elika. Eu comi pouco essa semana. Mas se é assim, cada dobradiça eu cobro 200 reais para trocar.

– E que dobradiça você trocou aqui, Edivaldo?

– Ôxi, dona Elika. E tu não sabe que eu vou trocar essas dobradiças todas dessa casa

– Porra, Edivaldo! Quer me visitar pode vir, mas deixa as dobradiças! E outra coisa, posso pagar o restante mês que vem?

– Mas daí vai ser outro preço.

– Como assim?

– Temer assumiu, dona Elika, o governo mudou. Se deixar para pagar depois vai ser mais caro.

– Porra, Edivaldo!

– Paga quando a senhora quiser. Volto depois para mexer nessas portas todas.

– Deixa minhas portas em paz.

– Semana que vem passo aqui. Vou começar por essa da cozinha…

É isso, minha gente. Tudo funcionando aqui em casa. A gente aperta e as budega liga. Impressionante… O progresso, enfim, chegou em Madureira.

E Edivaldo trouxe ainda mais luz em minha vida com seu carinho, sua gaiatice e sua amizade…

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Eu e Edivaldo [3]

– Edivaldo, onde você vai com essa furadeira, Edivaldo?

– Dona Elika, ouça o barulho que ela faz. Esse é o som do progresso. Relaxa, dona Elika, que o progresso chegou em Madureira.

– Porra, Edivaldo!

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Eu e Edivaldo [2]

edivaldo2

 

– Alô.
– Dona Elika, pintou um problema aqui.

Edivaldo, meu eletricista, está lá em casa e eu aqui no CEFET resolvendo N pepinos.

– Fala, Edivaldo.
– Eu fui quebrar um pedaço da parede mas fiz um rombo tão grande que agora vocês e seus vizinhos podem jantar se olhando.
– Porra, Edivaldo! O Seu Jorge não te mordeu?
– Não, dona Elika. Ele disse para a senhora ficar calma porque ele está tranquilo.
– E desde quando cachorro fala, Edivaldo? “Seu Jorge” é o nome do cachorro da dona Jurema. O marido dela é seu Ivaldo. E eles me amam e sabem que eu resolvo tudo. Mas porra Edivaldo!
– Estava mexendo com a senhora, dona Elika. Na verdade, só estourei um cano e a cozinha da senhora está toda alagada.
– Puta merda, Edivaldo! Cacete! E agora???
– A verdade é que eu precisei de mais conduíte fui ali eu mesmo e comprei para não dar trabalho para senhora. Achei uma loja com preço ótimo. A nota está comigo. Comprei logo 250 metros. Depois a senhora guarda o resto.
– Porra, Edivaldo!

Mais sobre essa relação eletrizante assim que eu chegar em casa…

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Super-Menino

Yukiblog

A professora de teatro do Yuki pediu como dever de casa na semana passada para que as crianças inventassem um super herói e que este também tivesse uma fraqueza e que na aula seguinte contasse sobre o personagem inventado. Ontem, a caminho da aula, perguntei para meu menino:

– Qual foi o seu super herói inventado, Yuki?
– Ele se chama super-Hideo.
– Mas isso não é nome de super herói. Tem que ter mais criatividade. Super herói é “homem-aranha”, “homem de ferro”…
– Então, mãe. Não existe super herói tratado pelo nome. Não existe o super-Geraldo. O meu é diferente e você ainda fala que falta criatividade?
– Ok. Você está certo. E o que o super-Hideo faz? Qual é o Super Poder dele?
– Combater o racismo.
– Como?
– Por exemplo, quando os policiais militares pararem um ônibus e mandarem um grupo de meninos negros descerem impedindo que eles cheguem à praia, eles chamam “Super-Hideo”! Daí, Super-Hideo vem imediatamente e o super poder dele é começar a tocar guitarra. Na hora que as pessoas racistas ouvem o som irado do solo dele, elas pedem desculpas, abraçam os meninos e deixam eles seguirem em paz cantando funk no ônibus.
– E a fraqueza desse super herói?
– É a cerveja. Se os policiais convidarem ele para tomar cerveja, ele nem toca nada e vai.

Olha. Eu juro que fico me perguntando quem é esse menino que é meu filho. Juro que encho Yuki de beijinhos a cada pérola dessas e que me sinto um ser para lá de especial por ser a mãe dele…

Chorei. Para variar, chorei.

E morri de orgulho…

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Os pais educam. A escola também.

Quando chego para dar a minha aula de física, peço para que os meus alunos coloquem na mesa o livro que estão lendo. Tenho vários motivos para fazer isso: o primeiro é que quero, de fato, saber o que eles leem. Mas há outras razões: quando uma diversidade de livros começam a aparecer, é normal que eles olhem os livros que os colegas estão se distraindo. Animal curioso que nós somos, não raro vejo eles pedindo para dar uma olhada no livro do amigo. E temos absolutamente de tudo: Paulo Coelho, 50 tons de Cinza, Harry Potter, Stephen Hawkings, Clarice Lispector, Gregório Divivier… e cada dia que passa a quantidade de alunos que leem aumenta perceptivelmente. Se antes 30% colocavam um livro na mesa, hoje, quase 100% da turma o fizeram. E eu fotografei.

Ler é um hábito. Se os pais não leem, dificilmente o filho gostará desse passatempo. Mas se na escola ele percebe que outros da mesma idade que ele conseguem se divertir e crescer de uma certa forma pela leitura, é natural que esse desejo e a curiosidade o dominem.

O exemplo é dado não por mim, professora, e sim pelos próprios companheiros de turma.

Os pais educam. A escola também.

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