Portanto, rezo.

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É muito complicado ser ateia porque às vezes, como ontem, tenho vontade de rezar. E me pego pensando diante dessa vontade: se rezar soubesse, o que faria? Agradecer? Isso seria de uma egoísmo tamanho diante tantos órfãos e famintos no mundo. Obrigada por cuidar só de mim e esquecer da criança que morreu de câncer. Não. Não teria como Lhe ser grata sem questionar tanta injustiça. Pedir? Querer respostas? Pede-se o impossível a Deus? Forcei a situação. Sentei-me na cama, juntei a palma de minhas mãos e deixei fluir meus pensamentos. Mal sabia qual pronome usar e misturei todos. E assim foi a minha oração:

Faze, Senhor, que eu sinta que a Sua mão está entre as minhas e com que eu entenda o que vem a ser a eternidade de uma forma diferente que sinto nas esperas mundanas em filas de banco. Perdão, Senhor, comecei mal.  Na verdade, eu não quero entender nada. A ignorância e a certeza socratiana de que nada sei leva-me ao infinito e foi o que me levou a Você. Bom mesmo é ser inteligente sem entender patavinas. Todas as vezes que pensei que havia entendido algo foi porque fui ingênua demais.

Não deveria agradecer, mas já que estou aqui, obrigada por essa benção, Senhor, de ser uma louca sem delírios ou ter loucuras mantendo o equilíbrio. Sou doce sendo estúpida e grata por Você ter me feito assim. Arranca-me, porém, por favor, as fraquezas que trazem uma inquietação insuportável de querer ter mais consciência de tudo o que não compreendo.

Que eu seja menos egoísta, Senhor, pois tenho me aproximado de pessoas que se parecem comigo.

Na verdade, eu só queria encostar no Seu peito e ficar quietinha. Mas sei que não posso e, portanto, rezo. Talvez prefira falar com humanos que me respondem e representem a Sua proteção. Mas entendo que Você precisa mais de nós do que nós de Você, por isso, por vingança de Sua ausência, nego-me tantas vezes ao Senhor que me deste um pai e uma mãe, mas que depois de adulta, época que mais nos sentimos sós e sem certeza alguma, me abandonaste no deserto. Pois, por orgulho, demorei tanto a pedir-Lhe água. Sei que estou rezando para um Universo escuro, um nada. Mas o medo de me igualar a uma fruta que não é colhida a tempo e cai podre e murcha no chão, me traz desespero e, portanto, rezo.

Meus olhos estão cansados de serem poças cheias. Preciso chorar, Senhor. A alegria que me dás é sempre revolucionária. Já entendi que cada dia que me permite viver nunca será um dia comum e sempre extraordinário, pois, me deste o dom de descobrir nas coisas mais comuns grandes surpresas.

Sei que não é com alegria pulsante que se escreve, assim como sei que não é plena de felicidade que se vive. Mas faze com que eu faça literatura com sentimentos melhores. Tornei-me um muro intransponível no meu próprio caminho. Talvez, com uma palavra Sua, eu me supere. Ando sentindo necessidade de conversar com os cosmos. Fale, algo, Senhor. Hoje, preciso mais ouvir-Lhe do que falar-me.

Ok… continuarei minha oração…

Faze com que eu não sinta medo de amar novamente e se eu me entregar inteira que eu ainda me pertença. Faze, Senhor, com que eu entenda que a entrega de si não é a morte em si e que eu acredite, ainda que somente por alguns minutos, que não há forma mais perfeita de usar meu tempo do que o esperar por ele, seja ele quem for. E que eu pare com essa angústia de antes do encontro querer tocar a mim mesma e, ao mesmo tempo, todo o universo.

Tire essa impressão de que para eu  me sentir compreendida por alguém, este tenha que me desconhecer por completo. Tenho medo, Senhor, de que o alguém se canse de minha resistência paquidérmica em deixar que uma constelação entre e, de tão exausto, desista de mim.

Faze com que eu deixe de buscar ardentemente tudo porque isso tem me cansado. Que me encontrem e que eu não tema uma aproximação diante da certeza de que serei iludida e que, ao menos, não me transpassem como os feixes de luz se perpassam. Que eu pare com essa mania de não querer ser eu somente e de almejar sempre uma ligação com uma terra molhada e fértil. Quero ser uma mulher dormindo protegida sem contudo perder a liberdade de não ter mais limites, formas e modos. Seria possível?

Quem sabe esse socorro mudo seja ouvido. Sou como um leão ferido andando de um lado para outro como se estivesse a pensar como se livraria do projétil que atingiu sua carne. Preciso de alguém que enfrente o medo de me tocar e arranque essa bala que me faz sangrar. E que eu não sinta pudor diante de algo que seja grande demais e que me deixe germinar.

Que eu tenha, Senhor, novamente, uma primeira vez.

Amém.

 

 

2 Comentários

Arquivado em Crônicas

2 Respostas para “Portanto, rezo.

  1. Maria Luiza Ferreira de Rezende

    Amém! Senhor, a Elika precisa de Ti. Dá pra sair uma ajudinha aí?Eu sou sua amiga, ela é legal pra caramba! Deus no comando!

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