Queremos Justiça e Bobiça!

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O Brasil vive um momento tenso, politicamente falando. Há várias versões para o que anda acontecendo sem contar as teorias das conspirações onde ouvimos até que tem ET interessado que Dilma saia de vez. O ponto é que muitos de nós, brasileiros, fomos para as ruas. Euzinha que vos escreve estive em manifestações-mortadela e manifestações-coxinha. Fui nas duas porque gosto de ver bem de perto a cara do, digamos, inimigo. Mas fofa que sou, diante o caos que se apresenta e as atrocidades lidas, vi o amor em todos os lugares. Seja tirando selfies com PMs seja levando balas de borracha havia espaço para muita cena romântica merecedora de fundo musical com Elvis, Fábio Junior e Geraldo Azevedo tudo junto e misturado.

Uma coisa foi ponto pacífico em ambos os lados: não houve melhor lugar para se ligar o Tinder como fizeram os necessitados de justiça e de amor. Pela Educação, pela Saúde e por que não pelo beijo de bocas que gritam pela mesma causa? Amassos atrás de barricadas, se for da galera-Tchê e , na frente do Pixuleco, se for o povo-CBF eu vi em ambos os casos e achei lindo.

Assim como não entendemos por quê fomos às ruas em 2013, o amor também é um mistério cheio de pautas indefinidas e financiados por partidos corações. Não queremos entender. Queremos sermos ocupados. Viva la Revolución! Fuego de justiça e nas entrañas! Ocupa tudo! Somos todos Eduardo&Mônica! Não são só pelos 20 centavos, são pelas fodas não dadas! Queremos a Primavera Árabe e os Rolinhos Primaveras! Podemos na Espanha, Transemos aqui! Chega de corrupção, queremos pegação! Menos Paulo Freire, mais Paula Dentro! Fora Temer, Vem Augusto! E assim, sob essas faixas coladas na testa, quantos amores nasceram nesse momento político brasileiro…

E sabemos que o início de uma paixão tem raízes nas coincidências, naqueles mais diversos gostos em comum… você não acha que se trata de um golpe jurídico-midiático financiado pelas organizações Globo? Meu deus! Eu também! Você lê Carta Capital? Eu também!!!! Você acha Kim Kataguiri mega inteligente? Eu também! Você segue Olavo de Carvalho no Twitter? Eu também! Você acha que o Sérgio Moro vai salvar o Brasil? Eu também! Que máximo!!! Gente, quem resiste a tanto sincronismo?

Se isso não tem tudo para dar certo, eu não entendo nada dessa bagaça de amor. Até onde eu observei no mundo, as coincidências são para as mulheres um filme do Dirty Dancing e para os homens o genérico do viagra. Tesão puro, gente. Coisa linda…

E se não durar até o próximo quiprocó na política brasileira, paciência. Há amores que não duram mesmo, o que não tem nada a ver com intensidade, que fique claro. Daí, se houver choro, os olhos ficarão umedecidos como no dia em que se conheceram por causa daquela atmosfera plena. De gás lacrimogêneo.

Mar de Amor e Rio de Janeiro

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Hoje me pararam em uma blitz. Vinha eu sozinha, cheia de TPM nas cabeças, sem GPS já que estou sem celular ainda, mas com lenço e com documento.. vinha eu no Takimóvel quando, perto de casa, vi o PM dando sinal para eu encostar o carro.

Eu ando nervosa ultimamente. Duas semanas atrás, quando resolvi caminhar para espairecer um pouco, um menino com um facão destamanho veio na minha direção e disse perdeu. Assim que ele pegou uma certa distância, eu aspirei o ar de todo o planeta Terra e soltei um berro que ressoou até a cabine dos guardas municipais do Parque Madureira. Um guarda veio prontamente e seguiu a direção do meu dedo indicador que apontava para dois meninos correndo. Saiu voado atrás deles. Pegou um. O que estava sem meu celular.

Ainda assim, tive que ir na mesma viatura com o cara que me assustou e interrompeu Fábio Junior cantando no meu ouvido até a delegacia. Ouvindo o diálogo que foi a antítese do inverso do contrário do oposto do que venha ser uma poesia entre o infrator e o guarda lá estava eu pedindo ao motorista da viatura para, ao menos, deixar eu tocar a sirene para não enlouquecer. Pois liguei e desliguei muitas vezes aquele ióióióióió. Maneiro.

Chegando na delegacia, liguei o mantra nãovousurtarnãovousurtar. Era uma desgraça atrás da outra e eu ali me senti uma ganhadora da mega sena de tão sortuda por estar inteira e meu ladrão também. Pior do que emergência de hospital, gente…

Tudo isso, para dizer que estou traumatizada e meio que completamente nível 110% sem noção. O que vai fazer com que vocês entendam a minha reação que se mostrou boa e certeira diante uma situação onde muitos se descompensam e ficam presos por um bom tempo nas blitzes da vida.

Ao ver o PM me dando sinal com mais outros com a mão na metralhadora olhando para minha direção, eu parei o carro e saí imediatamente do Takimóvel com as mãos para o alto dizendo que haviam roubado meu celular mas que os documentos estavam grudados no meu sutiã e que eu ia meter a mão para entregar a eles se eles abaixassem as armas que já estavam apontadas para o chão desde sei lá quando.

Os PMs ficaram me olhando assustados pedindo para eu ficar calma mas, aquariana que sou, sempre faço o contrário do que mandam e desatei a chorar nervosa pedindo para me deixarem em paz pelamordedeos, falando que estava tudo pago e em dia menos o meu celular que está ainda na 3a prestação mas o carro está pago! Tá tudo certo!!!! Tudo revisado! Troquei o óleo mês passado! Me deixem em paz!!!!!! Tá tudo pago!!!!!!

Isso tudo com os braços esticados em direção ao céu azul de Piedade.

Eu estava agindo como se estive sendo assaltada, meu povo. Vejam vocês. Ou não. Eu estava estranha. Mega esquisita como os inseguros no mar do amor e no Rio de Janeiro. Os PMs pediram para eu abaixar as mãos, me acalmar e mostrar os documentos.

No desespero, quase mostrei meus peitos. Na verdade, acho que mostrei um pouco. Ah vá, mostrei tudo sem querer. Estava tensa… Coitados, ninguém merece trabalhar no Sol com aquela roupa e ver muxibas assim do nada.

Ganhei água, carinho e boa sorte com tudo. Fui liberada rapidinho. Enfim, se pararem vocês, fica a dica. Só agir assim que eles são bem amáveis e liberam a gente ligeirim.

beijo!

Signos do Maníaco

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Vocês que andam sempre por essas bandas como eu, já devem ter visto uma série de postagens falando de signos. Como se comporta a criança de cada signo, como reagem os animas segundo a astrologia, como cada signo se comporta em um engarrafamento, no consultório médico, pulando do penhasco, quando toma banho, quando é pedido em casamento e bababá bububú. Que fique claro, eu não nego fogo para o lado místico dessa bagaça. Sei que há entre o céu a a Terra muito mais do que sonha a nossa vã filosofia de buteco e imagino que as estrelas que são feitas da mesma matéria do que nós possam estar de alguma forma conectadas com esse povo terráqueo, mas daí para me enquadrar como aquariana vai uma longa distância medida em anos-luz.

E não adianta reclamar que você não está se vendo naquelas definições porque logo vão te dizer que é por causa da sua lua, da sua vênus, dos seus anéis de Saturno e que seu cordão de pedra ametista pode estar atraindo coisas que não sejam legais. A Astrologia não é uma ciência exata, afirmam. Oras, se eu sequer acredito que a física seja um local onde as verdades e a exatidão fazem morada, quanto mais esse troço que envolve todo o Universo mais a mente humana ávida por entender o nosso comportamento nessa budega.

Olhando os vídeos, a despeito de saber que muitos são brincadeiras, percebo que são baseados em esteriótipos de cada signo. Os aquarianos sempre são os rebeldes e desapegados do amor. Era só o que me faltava. Rebelde ok. Mas desapegada? Fui casada vinte anos e loucamente apaixonada pelo marido desde os quatorze! E separada quase dois anos, tenho recaídas homéricas que nem Jesus aparecendo na minha frente com “levanta-te e anda” dá jeito. Ouço sertanejo universitário, Pablo, Roberto Carlos e Leonardo Cohen e vejo em cada canção minha biografia não autorizada. Pode ser coisa de quem tentou seguir em frente sem fazer a bendita psicanálise. Comecei até, mas vi que a terapeuta não ia ligar para ele e convencê-lo a voltar para mim, daí desisti. Ah mas isso acontece porque a sua vênus é em câncer… Mas eu sou de aquário caramba e cadê esse desapego, essa abnegação, esse desamor, desinteresse, indiferença e o caramba a quatro que dizem que os que nasceram próximo do carnaval têm?  Cadê, gente? Em mim é que não está!

Ah fala sério. Nesse momento meu lado escorpionino muito bem ilustrado por Chico vem à cabeça: “Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, … se dane o evangelho e todos os orixás!Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz”. Ah esse mercúrio que acaba comigo…

A verdade é que, se entendi bem, todos nós quando nos apaixonamos somos meio piscianos de cabeça, leoninos quando queremos algo e arianos quando chegam as contas. Passamos por crises taurinas horríveis de identidade, quando não correspondidos no amor viramos cancerianos abandonados no meio de uma estrada escura e, ao ver algum amigo mal, o nosso lado libriano se exalta em nosso espírito. Ao stalkear viramos escorpioninos com lua, vênus e marte todos em escorpião! Quando superamos o desprezo de quem amamos baixa-nos o Exu de Sagitário, na Leroy Merlin somos todos geminianos, na TPM, virgens e perante os elogios de um chefe capricórnio nele!

Ah! Já ia me esquecendo…

E aquário somos todos até encontrarmos um grande amor em nossa vida.

Tenho dito. Unghf.

Alunos à Prova [2]

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Hoje foi dia de prova de física no CEFET. Dei bom dia para meus alunos e disse:

– Ninguém aqui precisa ficar preocupado em colar. Podem ficar tranquilos. Quem vai corrigir a prova são vocês mesmos comigo na semana que vem. Então, se tiverem que me enganar, façam isso na quinta quando corrigiremos a prova em sala. Vou resolvendo questão por questão no quadro e mostrando quanto eu daria para cada coisa que vocês fizeram. Vocês que irão pontuar o que está escrito. Daí, se quiserem, é só copiar o gabarito no quadro e dar dez para vocês.

Os alunos me olharam assustados. Continuei:

– A prova é o meio onde não somente o aluno é avaliado, mas o professor também. Se a média foi baixa, certamente falhei eu com vocês de alguma forma. Ensinei mal, errei na mão… sei lá. Então, terei obrigação de me redimir tentando fazer melhor e dando uma oportunidade para vocês subirem a nota. E se vocês tirarem uma nota baixa, não precisam ficar nervosos com isso. Darei o máximo de oportunidades que eu puder para você se recuperar e estarei ao seu lado te ajudando. Se, no entanto, você colar agora ou copiar o gabarito do quadro achando que está me enrolando, você dificultará esse nosso diálogo. Mas se não quiser tê-lo, será uma escolha sua. Estou te dando toda a liberdade, minha amizade e meu voto de confiança. Você faça com tudo isso o que achar melhor.

Dito isso, entreguei a prova para a turma e falei:

– Vou ali conversar com outra turma e dizer o mesmo para meus outros alunos. Vocês vão ficar sozinhos por alguns minutos. Evitem conversar porque pode atrapalhar a concentração do colega. A prova tem um tempo para ser feita e eu fiz pensando no tempo justo. Não posso passar disso porque teremos mais provas depois de vocês. Se tiverem que perguntar alguma coisa, perguntem para quem sabe: eu. Isso será bom porque eu verei onde você está com dificuldade e poderei te ajudar. Sou paga para isso.

Saí.

O mesmo fiz na outra turma.

Voltei.

Turma toda em silêncio fazendo a prova. Ao longo da avaliação, vários alunos vieram tirar dúvidas. Ajudei no que pude, sem contudo, responder. É claro.

Conheci muito mais meus alunos hoje. O processo vai continuar na semana que vem. E, pelo que entendi, será enriquecedor para todos nós em vários sentidos. Pode ser que tenha um ou outro que me enrole mas, sinceramente, haveria de qualquer maneira. No mais, há melhor avaliação do que a feita por nós mesmos? Há melhor aprendizado do que enxergarmos com nossos próprios olhos o que e onde erramos? Encarar de frente as nossas deficiências não é uma das melhores formas de amadurecermos?

Acredito que tenha mostrado, nesta manhã fria de sexta-feira, que meus alunos têm a capacidade e a responsabilidade de escolher se as ações deles seguirão um caminho virtuoso ou não. Dei a oportunidade de experimentarem essa sensação e pretendo fazer isso muito mais vezes.

Enfim… Os pais educam. E a escola também.

Não perdoe, Senhor, eles sabem bem o que dizem…

jesus

Eu sou ateia e leio de tudo. E se tem algo que gosto de ler, por cultura e pelas histórias bizarras que deixam no chinelo vários episódios de Game of Thrones é a Bíblia. Mas o que eu gosto mesmo nas Sagradas Escrituras é o Novo Testamento. Sei praticamente de cor as falas de Jesus.

Daí que eu fico vendo esses pastores evangélicos falando e percebo o quão safados esses caras são. É “faça o que eu digo e não o que eu faço” nível hard. Diria você para eu deixar em paz essa gente. Poderia… se eles não tivessem na liderança desse House of Paranauê chamado Brasil e se metendo nas leis que me regem também e estão longe de ser divinas. Claro que a falta de caráter não se resume a somente esta religião mas, como disse, são desta os líderes que não me deixam em paz.

Em verdade vos digo: Esses pastores nada entendem de Jesus. Eu que não acredito naquela história toda sem pé nem cabeça mas que acho linda e extremamente simbólica afirmo que se eles seguissem Jesus estariam agindo da forma contrária a que estamos vendo.

Há uma passagem clássica quando um jovem rico quer ser amigo de Jesus. O “Filho de Deus” disse que, para isso, o cara tinha que doar tudo para os pobres. E, então, proferiu a célebre frase: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Ora ora… Não há líder dessa comunidade evangélica que eu conheça pobre. Aliás, o discurso que tenho acompanhado de Malafaias, Bolsonaros, Felicianos e coisas afins é que se os fiéis acreditarem e fizerem o que eles mandam, os pobres terão o que os ricos têm porque “Deus dá em dobro”. Dízimo com quem andas e eu te direi quem tu és. Se estiver no bolso de um rico, esse é um líder evangélico (ou algo que o valha).

(Se houver algum que não seja rico, por favor, me falem. Não quero ser injusta.)

Se formos mesmo usar a Bíblia nas escolas como estão querendo,mas se pudermos usar como um livro a ser interpretado e criticado, vocês da Escola Sem Partido, defensores da Família Tradicional Brasileira e a favor das propostas de Alexandre Frota, deveriam ter muito mais medo de Jesus do que de Marx e Engels. Jesus se não era comunista era radicalmente contra um sistema que permite que uns tenham de tudo e outros quase nada. E mais! Jesus estaria a favor, certamente, das políticas sociais instaladas no Brasil. Pois ele foi O Cara que distribuiu pão e multiplicou os peixes e só depois é que ensinou a pescar porque sabe que quem tem fome tem pressa.

Jesus era um pé rapado. Vivia descalço de vestidão, parecia que nunca viu um pente e uma tesoura para aparar aquela barba. Não tinha vaidades, não usava terno e, principalmente, não tinha preconceito algum. Jesus não julgou ninguém. “Atire a primeira pedra aquele que…” é A Frase mais LGBTT que eu já vi nesse mundo. “Não faça com os outros aquilo que você não quer que façam com você” resume todo o resto. Se cada um seguisse esse mantra, ah que mundo melhor não teríamos… sem pastores safados como estamos vendo sobretudo liderando nosso país.

Eu tenho a impressão de que se Jesus voltasse, a primeira coisa que ele faria era tacar uma bomba em várias Igrejas que doutrinam as pessoas e as obrigam praticamente a selecionar somente um tipo de amor que lhes é permitido e ainda por cima lucram exorbitantemente falando coisas que Jesus jamais proferiu e vendendo de tudo com a Sua imagem. Há uma passagem que eu adoro em que Jesus chega chutando literalmente o pau da barraca. Quando ele chega no Templo de Jerusalém e vê um punhado de gente vendendo vários badulaques, Jesus fica possesso e sai quebrando tudo. O que ele faria no Templo do Salomão? Ou vá lá, no Vaticano? O que ele faria vendo Malafaia oferecendo todos os dias produtos em sua rede?

A verdade, é que se Jesus voltasse, ele seria crucificado de novo. Exatamente pelas pessoas que falam diariamente em Seu nome.

Vai entender esse mundo…

Viajando na Volta para Casa.

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Sexta passada, encontrei um amigo que está com uma viagem marcada para Paris. Da penúltima vez que nos vimos, ele havia acabado de comprar as passagens e estava empolgado escolhendo um apartamento que iria alugar por lá. Ele é desses que não fica em hotel e gosta de algo mais pessoal. Vai sozinho para trabalhar e ter alguns dias de rotina diferente na Cidade das Luzes. Ah quem me dera…

Isso posto, ao vê-lo, quis saber:

– E aí, empolgado com a viagem? Já escolheu o cafofo? – perguntei feliz como ficamos diante daqueles que representam um sonho.

– Acredita que não? – respondeu-me sério como aqueles diante da escuridão.

– Ué. O que houve? – sondei como faço sempre com qualquer um que se apresenta diante de mim com os olhos enevoados.

– Tô com medo. Tô apavorado! – confessou.

– De quê, exatamente?

– De viajar sozinho. Nunca fiz isso. Não consigo escolher o apartamento de jeinehum. Freud explica… – explicou ele mesmo olhando com seus olhos azuis (ou verdes?) para o horizonte em plena cafeteria em que estávamos.

Meu amigo é adulto já. Tem em torno de 50 anos e tem medo de ir sozinho para Paris. Eu, mãe de três, com mais de 40 não consigo ir até São Paulo sem ter uns três ataques de pânico e insônia uma semana antes, durante e depois de tanta adrenalina que corre em minhas veias. Compreendi imediatamente aquele olhar. Já o vi no espelho N vezes…

– Eu no seu lugar estaria desesperada. Quando você me falou, morri de inveja. Não por Paris, mas pela sua independência. Te achei o super macho alfa das galáxias. Viajar sozinha sem ser dominada por receio, apreensão, ansiedade, preocupação, incerteza e tudo o mais é algo que para acontecer comigo eu precisaria reencarnar umas três vezes, pelo menos.

– Você não está me ajudando, Elika…

Mas não tinha mesmo como ajudar. Muito pelo contrário.

Há dois tipos de problemas. Um corresponde aos problemas, diria, mundanos: um chuveiro queimado, louça suja, governo interino, pedra nos rins, carro enguiçado e coisas afins. Esses se resolvem rápido ou nem tanto, mas a solução é clara e quase universal. Quando um amigo chega com esse tipo de coisa na sua frente, não adianta falar muito se quisermos mesmo ajudá-lo. Temos que agir com ele de forma direta. Mas há um outro tipo de problema: os sem solução ou sem fórmulas para serem resolvidos: amores não correspondidos, falta de ânimo para viver ou, vá lá, fazer exercício físico, medo de seja lá o que for… Nestes casos, não adianta consolo ou relatos de experiências individuais porque as experiências são próprias de cada ser e o que serve para um, definitivamente, pode não servir para outro. As pessoas que ficam contando casos pessoais e como superaram suas fobias são gente de boa vontade, tolas porém, que acham sempre que suas palavras ditas em um referencial exclusivo e muito particular, serão capazes de encher o vazio do sofrimento do outro, tão ímpar e especial quanto.

Qualquer coisa que eu falasse só iria piorar porque eu tenho meus medos e não tenho a menor ideia de como enfrentá-los ainda que lide com eles diariamente. Faço de meu jeito desengonçado. Muita gente diz que eu sou inteligente e se isso for verdade, posso lhes garantir: inteligência nada tem a ver com felicidade e desenvoltura para superar obstáculos. Como disse Guimarães Rosa, “felicidade só em raros momentos de distração”… Pensar, no entanto, pode me ajudar a sofrer sem desespero, com tranquilidade – como ao fazer uma tatuagem que sangra ao nascer, mas que tem como destino um e pelo menos um olhar de aprovação.

No mais, só os que sonham têm muito medo e, portanto, não vi razão para ajudar o meu amigo porque entendi que seu receio era algo bom, não paralisante, pelo contrário. Ele está ansioso de ir até Paris porque, possivelmente, faz das Cidades das Luzes o que qualquer mortal faria: uma utopia. O que nos remete a Eduardo Galeano. Para que serve uma Utopia? “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” E para levar meu amigo até Paris, completaria.

Além de eu não ter ajudado em nada aquele homem angustiado, a conversa mexeu muito comigo e, depois que me despedi dele, do Leblon até Madureira tive tempo suficiente para refletir sobre mim mesma. Qual seria a raiz do meu pânico? Cheguei a conclusão que o meu temor de sair pelo mundo afora sem um conhecido por perto pode ter outras raízes – fincadas em solos cobertos por outras substâncias bem diferentes das que estamos acostumados a pisar. E isso independe do destino. Seja Paris seja Paquetá, um fantasma me assusta.

O caso dele, de todas as possibilidades que cogitei é, no meu referencial, o mais assustador. Paris para mim representa tanta primavera que se um dia eu fosse para lá sozinha seria equivalente a eu jogar um livro lindo de poesia na fogueira. De Pablo Neruda, para ser bem exata. Espero que meu amigo adoravelmente louco não me leia porque daqui para a frente tudo o que pensei sobre o tema só piora.

Já ouvi de muita gente que viajar sem companhia é, na verdade, um encontro consigo mesmo. Bah. Quem garante? E, cá para nós, grandes coisas esse papo de auto-conhecimento-a-nível-de-mim-mesmo-enquanto-ser quando estamos sós pelo mundo. E será que é mesmo? E se for e eu tiver medo de encontrar-me? Mais ainda: isso é possível? Encontrar-se? A beleza de descobrir nossa identidade é páreo para quem procura a todo custo a beleza nas coisas? No mais, quem sabe estamos querendo férias de nós mesmos?

Outra coisa: perder-se também não pode ser cogitado em uma situação como essa? O que seria pior? E,vamos combinar, não precisamos pegar o avião para que nos achemos ou escapemos de nós mesmos. E se isso acontecer, não é motivo de felicidade ou desespero e de sentimento de grandes realizações ou fracassos, pois, enquanto não morrermos, somos passíveis de grandes mudanças e pronto: já estamos nós a qualquer momento de novo sem saber o nosso propósito no mundo ou nos enganando acreditando que entendemos alguma coisa sobre todo o Universo ou, vá lá, sobre nós mesmos – o que é a mesma coisa dado o alcance de nossas mentes. Que Deus permita que jamais nos habituemos pelo maior tempo possível…

Não há medo de solidão no meu caso e acredito que do meu amigo também. Conhecemos um bando de gente, temos um ao outro, família e coisa e tal. Eu fico muito tempo sozinha, digo, sem pessoas de carne e osso na minha frente. Ando sempre com um livro aberto diante os meus olhos e isso, penso eu, pode ser considerado, em certa medida, como a presença de alguém. Mas sabemos que não é a mesma coisa. Ok. Antes que você diga que estar sozinho é diferente de sentir-se só, adianto: eu já senti muita solidão dentro de casa e no meio de um bando de gente e não me incomodaria em nada sentir-me um lixo em outro país. A questão não é essa. Não é receio de um isolamento e nem da incomunicação em tempos atuais.

Assim como é impossível provar a Primeira Lei de Newton já que não há a menor possibilidade de isolarmos um corpo de forças externas porque sempre este irá interagir com um segundo que é, no mínimo, o observador, penso que é impossível estarmos sozinhos com nós mesmos. Sempre seremos nós nos outros e nos outros nos refletiremos e estes, de alguma forma, refletirão em nós. Fazemos parte do Universo e não temos como fugir disso.

Não há um ou O Encontro comigo mesma, pois dentro de mim há milhões de unidades e, assim como não há uma pessoa igual a outra nesse mundo, não há dentro dessa carcaça uma correspondência entre todas as potências do meu ser. Sou uma geração de energia em suas mais diversas formas. Elétrica, definem-me alguns.

Confesso: buscando-me já encontrei tantas outras e alguns dos que me leem nem sequer encontram uma de mins. Há muitas palavras nunca ditas prestes a serem proferidas. Não sei o que a luz diferente somada a uma música, lembranças, saudades e um olhar de um estranho pode ocasionar aqui dentro. Talvez uma lágrima com um sabor diferente. A ausência tem um peso considerável. A mudança pode ser equiparada a uma massa plena de gravidade que pode beirar o insuportável em um determinando momento, mas por deus, como esse troço vicia. Morro de medo, portanto, quero. Tudo que eu amo, custa-me um grande descarte. Jogo a bússola longe e entrego-me à desorientação de viver o que não consigo entender. Viajar sozinho, escrever, ouvir música, correr, ler, caminhar, deitar-se em uma rede… tudo isso é um forma de se colocar no vazio. E é, nesse vazio, que emerge uma nova existência. Meu deus quanto perigo! Quero. Para isso, não precisamos ir para longe, ainda que concorde que certos translados facilitem as metamorfoses mesmo não sendo as causas necessárias para que elas ocorram.

Estou me contradizendo, parece. Meus pensamentos são sempre muito difusos e, às vezes, se apresentam com um incoerência que grita no papel. Voici ma plus grande préoccupation: a minha maior fobia, suspeito depois de trinta quilômetros de engarrafamento, é que eu volte como fui como tantos que viajaram sozinhos por aí que regressaram cheio de fotos, histórias e postagens em redes sociais, mas nada de radiografias…

Nenhum medo, porém, jamé foi tão grande a ponto de me impedir de voar. E não será, certamente, com meu amigo porque ele há de vencer essa resistência interna sem a minha ajuda e fazer como sempre fazemos, de um jeito ou de outro, tudo ter valido a pena. Porque pelo que entendi, somos como pássaros que amam o vôo e, a despeito de tanto pânico para alçar grandes altitudes, nos recusamos a buscar uma proteção em gaiolas.

Para Igor, com muito carinho e inveja boa.

Buraco da Lacraia

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Ontem eu fui no Buraco da Lacraia, uma das boates gays mais tradicionais do Rio de Janeiro. Há 25 anos, a casa existe e há 4 temos o show “Cabaré on Ice” que eu não consigo definir com palavras o que é exatamente aquilo. Sei que já vi essa mesma apresentação umas 5 vezes e pretendo ver outras tantas… Depois do espetáculo, tem o famoso videokê onde as bichas arrasam. Adoro. Amo. E, de brinde, antes do Cabaré on Ice, tem Simone Mazzer, uma das maiores cantoras do Brasil dado seu tamanho e seu talento. Simone Mazzer já começa a acumular alguns prêmios importantes na Música Brasileira. Enfim, coisa boa em um lugar autêntico. O Buraco é apertado e pequeno mas super aconchegante.

Isso posto, gostaria de compartilhar um momento que vivi ontem ali. Após o show do Cabaré, Luis Lobianco (o que também está no Porta dos Fundos e integra o Cabaré) se dirigiu ao público mais ou menos com essas palavras:

– Hoje é um dia muito triste. Há uma semana, em um lugar exatamente como esse, 50 pessoas que estavam se divertindo como nós, morreram assassinadas. Eu trouxe a lista dos nomes de todos eles que tiveram suas alegrias estancadas de forma tão violenta. Enquanto eu leio esses nomes, peço para que todos pensem sobre o mundo que estamos vivendo e o que podemos fazer para melhorá-lo. O ódio venceu o amor neste dia, mas não podemos deixar que isso aconteça sem refletirmos sobre o momento atual. Então, lerei nome por nome enquanto pensamos juntos.

E assim começou a ler uma lista enorme. Silêncio sepulcral. Literalmente. Um clima sem definição tomou conta do lugar. Afinal, ficamos juntos quase duas horas chorando de rir com o show que havíamos acabado de ver e, de repente, uma pontada de dor a cada nome lido. Muitos começaram a chorar em silêncio. Empatia nível espírito-transcendental. Para finalizar, ele leu mais nomes de gays que morreram assassinados nesta semana aqui no Brasil. Pesado. Triste.

Climão.

O elenco inteiro, após o término da leitura, pegou um saco bem cheio e, aos gritos que o amor há de vencer tanto ódio, eles fizeram uma chuva de pétalas de rosas e purpurina em todos que ali estavam. Foram muitos abraços e beijos de várias espécies acontecendo ao mesmo tempo numa harmonia linda de se ver. Eu agarrei um viado maravilhoso de tão doce que me abraçou forte e me permitiu ficar um tempo naquele abraço.

Nara, minha filha, chorava rios e ganhou muito carinho dos gays, das sapatas, das bis, dos héteros e das héteras que estavam ao lado dela.

Bobos, idiotas, imbecis são todos os que falam mal de um ambiente como esse onde não há o menor indício de maldade no ar. Só amor mesmo. De qualquer jeito. De todas as formas. Porque assim tem que ser.

E há de ser…

Reciclando Lixos

homens de gelo

Leidedái é conhecida no subúrbio carioca. É uma mulher negra, forte do tipo gorda e que puxa algo que se assemelha a uma carroça onde carrega lixo reciclável como garrafas pets e muito papelão. Todo dia que o caminhão de lixo passa, antes dele, vem Leidedái acompanhada de um, dois, três, quatro… cinco, seis? sete? filhos. Sempre os seguindo, vemos uma vira lata abanando o rabo correndo de um lado para outro. As crianças ajudam no serviço. Todos remexem os sacos de lixo a procura do que pode ser colocada na carroça de Leidedái. A despeito da pobreza, eles estão sempre rindo, brincando e afofando a cachorrinha. Quando Leidedái anda, os menores sobem no veículo tracionado pela força e disposição de uma mulher.

Mas houve um dia em que Leidedái estava diferente. Ela, que sempre dava bom dia e batarde para todos, queria assunto. Uma senhora que estava varrendo a calçada foi a primeira a ser interrompida em seu dia a dia.

– A senhora sabe que mataram meu filho? – perguntou a negra.
– Foi? Nem percebi. Você tem tantos…
– Pois é. Mas mataram Zéduardo. Menino bom toda vida. Me ajudava que só.
– Ah mas a senhora tem muitos! Não vai faltar quem te ajude. – e dito isso a matrona voltou a varrer aquela sujeira preta da rua.

Leidedái olhou para o movimento da vassoura por um tempo. Quieta. Calada. Muda. E resolveu, então, continuar seu caminho.

Mais a frente, encontrou um senhor. Enquanto seus outros filhos remexiam o lixo da rua, Leidedái puxou assunto com o homem que estava voltando da padaria.

– O senhor sabe que mataram meu filho? – perguntou a negra novamente.
– Não. Não estão todos aí?
– Infelizmente meu Zéduardo não. Era um menino danado e lindo de doer. Mataram meu Zéduardo.
– Isso acontece todo dia… é a vida… a senhora vai superar. – e dito isso voltou a andar em direção a sua casa.

Leidedái olhou para aquele alimento branco que nada nutria carregado por aquele corpo murcho. Oco. Vazio.

No final da rua, Leidedái viu uma moça que estava chegando do supermercado e tirando as compras da mala do táxi. Resolveu aproveitar o momento.

– A senhora sabe que mataram meu filho? – tentou pela terceira vez.
– Foi? Como? – perguntou a jovem enquanto continuava a tirar as sacolas de dentro do carro com a ajuda do motorista.
– O menino estava soltando pipa quando…
– Obrigada, moço. Toma. Está certo. Bom trabalho para o senhor!- disse simpaticamente para o taxista.
– Daí, o menino estava soltando pipa, quando…
– Qual deles?
– O Zéduardo. Bonito que só a senhora vendo. Lembra dele não? Ele sempre vinha com o uniforme da escola que daqui ia direto estudar. Estudioso que só meu Zéduardo…

A moça escutava mas olhando para os lados com medo dos meninos fuçarem as suas compras pensando que fossem lixo e quisessem ainda por cima levar alguma coisa. Quiçá roubá-la. Logo ela, que trabalhava tanto para ganhar seu suado dinheirinho.

– A senhora vai me desculpar, mas preciso entrar.
– Mataram Zéduardo… – lamentou-se Leidedái.
– Esse mundo não está fácil. Acontece. Vá cuidar dos seus meninos. – e dito isso, tratou de trancar o portão, deixando Leidedái do lado de fora. De sua casa. De sua vida.

Leidedái olhou fixamente para o movimento da chave que girava girava girava como tantas outras que rotacionamos todos os dias nas fechaduras das mais diversas portas que travamos…

De noite, com as crianças já todas dormindo, Leidedái sentou-se à porta de seu barraco e ficou olhando, de cima, a cidade. Observava, a despeito da distância e de muitas luzes acesas, a infinidade de cômodos apagados nos prédios, nas casas e nos olhos dos transeuntes.

O coração de Leidedái não lhe permitia sentir sono. Havia um bolo enorme na garganta e uma saudade de doer os ossos e cada pedaço daquela mãe representava uma incompreensão a respeito do sentido de tudo isso e da interrupção violenta da vida de um menino tão filho de Leidedái tão bom ah meu deus como Zéduardo era bom para Leidedái…

– Socorro… como vou viver sem meu Zéduardo, Senhor. O que fiz para merecer essa dor? Como viver sem meu filho, Senhor? Meu Deus, pela amor de deus, devolva meu Zéduardo…

A vira lata estranhando a sua dona não ter se deitado, foi lhe fazer companhia. Sentou-se ao seu lado em silêncio.

– Xuxa, mataram Zéduardo…

Xuxa olhou para Leidedái com ar de tristeza e de um tipo raro de sabedoria que possuem aqueles que sabem ouvir.

– Mataram, Xuxa.
– …
– Ele estava soltando pipa quando perguntaram para ele se ele havia visto a Jucileide. Zéduardo falou que viu ela andando para lá com Pé de Cabra. Mal sabia ele que Jucileide estava aprontando e traindo o Maico da Serrinha. Pé de Cabra não perdoou quando soube quem havia dedurado. Veio e deu um tiro no nosso Zéduardo que estava olhando para cima, para o céu, para sua pipa que foi embora para as estrelas depois que ele caiu morto.
– …

Xuxa colocou sua cabeça na coxa de Leidedái que se debruçou em cima dela com uma saudade que não cabe nesse mundo. E, enfim, a mulher conseguiu o mínimo que precisava: Leidedái chorou em um ombro amigo.

No dia seguinte, Leidedái continuaria a carregar seus lixos recicláveis aos olhos dessa doente sociedade. Papelão, plásticos e mais Zémauro, Jãomauríço, Tuninho, Maria Vitória, Lorena e Cleitim.

Me dê um chêro…

chero

Hoje entrei no banheiro do CEFET. Estava eu prestes a fazer meu xixi das onze na paz do senhor e entrou uma mulher:

– Quem está aí? Quem está aí???- ela gritava.

Oras… que diabos era aquilo? O que eu ia responder? O que estava acontecendo?

– Eu.- falei meio assustada enquanto subia a calça sem nem ter começado os trabalhos.

– Seja lá quem for você, saiba que eu te segui pelo cheiro pelos corredores e vi que o cheiro entrou nesse banheiro. Nunca senti um cheiro tão bom na minha vida…

Abri a porta ainda com o zíper escancarado. Joguei o cabelo para um lado. Depois joguei o cabelo para o outro e falei:

– Nasci assim, flor. Esse é meu cheiro natural.

Rimos muito.

– Pode me dizer o nome do perfume que eu quero ter esse cheiro natural também. Divide a felicidade aê, japonesa linda.

A verdade é que uso o mesmo perfume há vinte anos assim como minha takimochila. O nome dela é Môcha e o dele é Meochêro… dei para a maluca uma amostra grátis e ganhei um abraço com as calças abertas.

Vou-me já agora, galera.

Beijo

Masturbação Mental

universo2

A polícia foi chamada há duas semanas. Havia um rapaz que estava se masturbando em frente ao barzinho no Barra da Tijuca. Alguns  já haviam lhe chamardo a atenção, ele saía por um tempo e voltava. Parecia desnorteado. Louco. Mas, ao mesmo tempo, tinha um ar irritante de normalidade naquela alma e naquele corpo branco bem vestido. A polícia chegou.

– Vamos parar de putaria aqui, rapaz! – falou o policial Alfredo.

O rapaz incontido, diante do tom autoritário, guardou seu pênis lentamente na cueca. Depois fechou a calça e subiu o zíper. Olhou serenamente para os policiais.

– Qual seu nome? – perguntou Leonardo, o outro policial.

Alfredo e Leonardo era uma dupla tipo o antigo seriado da década de 80, Chips. Trabalhavam juntos há uns quatro anos. Já passaram por muitos fogos cruzados, saias justas, disse-me-disses, quiprocós, sais de baixo, deus nos acudas, vade retros, nem-jesus-na-causas… Em todas as situações, Alfredo era, digamos, o machão-alfa e Leonardo, no melhor sentido da palavra, a fêmea. Alfredo chegava batendo, mostrando a arma para os vagabundos, falando que dorme abraçado com o capeta… chegava, para ser precisa e clara, soltando os caralhos. Leonardo não. Leonardo era curioso. Queria saber tudo da vida do cara não importa qual delito estava cometendo. Leonardo era uma mistura de psicólogo com padre dando a extrema unção mais uma melhor amiga, aquela que ouve tudo sem julgar mas que esconde o doce se o pecado de quem fala for a gula.

– Não sei. Me esqueci.- disse o punheteiro.

– Onde você mora?- questionou Leonardo como se estivesse falando com uma criança perdida no parque.

– Não me lembro. – respondeu o jovem olhando para o chão.

– Olha para mim quando tiver falando comigo, Caralho! – gritou Alfredo que chamava todo mundo de caralho.

O rapaz levantou a cabeça. Olhava para todos constrangido, não pelo ato libidinoso, mas por estar sendo chamado a atenção em público e sendo apalpado por Alfredo que procurava, em vão, algum documento nos bolsos da calça do infrator.

O gerente no Bar estava acompanhando tudo de perto e pediu para que levassem transgressor dali porque estava atrapalhando os negócios dele. Os policiais, já conhecidos de muito tempo do gestor do estabelecimento muito bem frequentado, atenderam-lhe prontamente e levaram algemado o que não sabemos o nome.

No caminho para a delegacia, dentro da viatura, Leonardo quis saber:

– Mas você não tem cara de quem é indigente e nem de quem dorme na rua. Onde você mora?

– Não me lembro, senhor. Sou homem de bem, disso vocês podem estar certo. Fui muito bem educado pelos meus pais que sempre me ensinaram a ter dignidade dentro das limitações deles, é claro.

– Mostrando os caralhos em público? Que dignidade é essa, Caralho? – perguntou, bem, vocês já sabem.

– Ah eu fiz aquilo porque estava me sentindo sozinho e não consigo mais me punhetar sem ouvir barulho. Sinto medo. – confessou.

– Medo de quê, Caralho?

– Medo? Em um banheiro público, por exemplo, ouvindo barulho das pessoas fora… ainda sente medo? – quis saber Leonardo.

– Sim. Preciso ver pessoas de verdade. Mas não faria nada com ninguém não. A não ser que a mulher quisesse porque, vale observar, não sou gay não. Nada contra. Mas não sou.

– E seus pais sabem que você faz isso?

– Eles estão mortos. Meu pai matou minha mãe e eu matei meu pai anos depois dando um veneno para ele. Ninguém jamais desconfiou que tivesse sido eu.

– Matou seu pai, Caralho? Que filho da puta! Dá mesmo atenção para esse vagabundo, Leo! Olha só! Eu sabia que essa porra não valia nada!

– Matei. E não me arrependo não senhor. Papai havia arrumado uma amante e mamãe descobriu. Portanto, vamos corrigir algo aqui. Eu não sou filho “da puta” e sim de “um puto”. Na época, eu tinha 12 anos. Sabia que estava acontecendo alguma coisa. Eles sempre discutiam depois que eu entrava para o meu quarto mas, naquela noite, eu fiquei de espreita com o ouvido colado na porta. A discussão estava pior do que nos outros dias. Havia muita tensão no ar. Papai traiu mamãe e ela estava dizendo que ia embora comigo para a Bahia. Papai sempre foi louco por mim. Disse pelamordedeos para ela não fazer isso. Ela gritou muito com ele naquela noite e, de repente, ela parou de gritar e ficou gemendo. Depois, fez-se o silêncio. Acordei com a casa cheia de gente e papai transtornado falando que mamãe havia morrido por uma crise de asma. Mas eu sei que foi ele que sufocou ela. Com dezoito anos, já não aguentando mais de saudades de minha mãe e abismado com a falta de remorso do papai, a despeito de ele me tratar com muito carinho, matei ele colocando uma espécie de ácido na cerveja. Morreu como se tivesse enfartado. Ninguém desconfiou de nada. A gente sempre morou em comunidade e em favelas ninguém vai perder tempo querendo saber a causa da morte de ninguém seja ela morte matada seja morte morrida. Morre-se. Ponto final.

– E você mora sozinho?

– Não me lembro com quem moro e nem onde moro agora. Mas sei que sou pessoa do bem. Tenho meus livros de história. Adoro estudar história. Leio Piketty e Marx. Sonho com uma sociedade mais justa, com menos crianças tendo a necessidade de se drogar ou se prostituir. Sonho em matar esses homens que exploram mulheres. Mulher para mim tem que ser muito bem tratada. Tipo princesa mesmo. Elas têm uma jeito de ver e de cuidar do mundo bem diferente de nós, homens.

Enquanto falava, Alfredo dirigia e Leonardo olhava para a frente mas com o foco nas nuvens que se mexiam lentamente tendo a  lua minguante e brilhosa iluminando-as por detrás.

– Mas você já matou mais alguém? – quis saber Leonardo.

– Ah sim. Outro dia, voltando para casa, que não me lembro onde é, vi um cara já velho, devia ter mais de quarenta anos o desgraçado, que pegou um cachorro e estava enfiando uma garrafa no cu dele. O bicho, mesmo com o focinho fechado com esparadrapo, urrava. Aquilo me deixou muito puto. Por que as pessoas fazem mal aos bichos? Os bichos não são capazes de fazer mal a nenhum ser humano. Só matam se tiverem fome. E cachorro, fala sério, cachorro é quase que gente. Eu gosto tanto de bicho que sou vegetariano, se vocês querem saber. Não aceito que façam maldade com os animais indefesos. Isso é um fascismo com os animais e eu me recuso a ser um fascista de qualquer espécie. Peguei um pedaço de pau no lixo e com toda a força dei uma só marretada na cabeça do infeliz que morreu na hora. O cachorro morreu também. Consegui tirar a garrafa de dentro dele, mas saiu o intestino todo do coitadinho. Vomitei em cima do infeliz que fez isso com o bicho. E daí eu te pergunto: quem era o animal nessa história? E se eu pegar de novo fazendo atrocidades com os bichos, acho que sou capaz de matar de tanta porrada…

– Você sabe o que pode te acontecer se você for pego matando ou descobrirem isso, né?- questionou Leonardo olhando para a encarnação do São Francisco.

– Olha, não tenho a mínima. Mas só lamento pelas crianças da comunidade se eu ficar preso um tempo. Eu leio para elas todas terças e quintas.

– De qual comunidade? – sondou Leonardo para ver se conseguia pescar algo.

– Não me lembro o nome. Mas pode ter certeza de que haverá gente sentindo a falta de Monteiro Lobato.

Por mais mentirosa que essa última informação possa ser, havia algo de fato estranho. O homem branco e de boa aparência falava de forma muito bem articulada como os que lêem mesmo.

– Você trabalha ao menos? – questionou Alfredo de forma bem mais branda, pois havia se lembrado de sua mãe lendo Reinações de Narizinho quando ele era criança.

– Não que eu me lembre…

Não sabemos o que aconteceu. Leonardo e Alfredo deixaram o cara na delegacia e, tudo indica, que ele foi solto ou fugiu. Não há registro de nada. Mas acabo de ler no jornal de hoje, que um homem de boa aparência e sem nenhuma identificação foi visto se masturbando em frente a entrada de uma boate em Niterói…

(O que me fez aqui, na solidão de um Domingo gélido de outono, pensar, traçar um perfil e inventar um passado desse interessante personagem.)