Arquivo do mês: julho 2016

Terapia

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Ninguém é totalmente ateu quando a porca torce o rabo. Sendo assim, fui me meter com os deuses orientais. Todos sabemos que há uns conhecimentos milenares por aí associados a pirâmides e chás que funcionam tão bem como bonecos de vodu. Só é difícil encontrar pessoas portadoras desses saberes no subúrbio carioca. Aqui temos muita batucada, trabalhos com galinhas pretas, cultos evangélicos, mas nada que se pareça com o que fazem os monges do Tibet ou algo que o valha. E eu precisava algo nessa linha aê para resolver um probleminha aqui que tem tirado meu sono.

Doctor Gogol me ajudou e lá fui eu para uma espécie de templo em Copacabana que fica em um prédio que a gente sobe num elevador antigo. O ambiente era cheio de letras que não entendia patavinas do que estava escrito, tinha uns elefantes e uns vasos indianos que me lembro de ter visto algo parecido nas lojas ting lings de Madureira, mas certamente aqueles foram feitos de barro branco colhido das montanhas em que conseguimos ver o equinócio surgindo a 12 graus leste de Meca, assim suspeitei com todo o meu conhecimento sobre o assunto querendo fazer parte daquele novo mundo. O que estava escrito com letras do nosso alfabeto dizia mais ou menos assim: Guru Shishya Abhilasha Baijayanthi, Dakshirina Tantra. Ou algo parecido. Tinha Yoga também. Não me lembro direito. Acho que foi o chá que me deram, mas continuando…

Indicaram-me levitação mental dos monges do vale Kangra. Fiquei interessada. Levitação é sempre uma boa para quem padece de amor não correspondido e insônia por causa desse desgraçado. Mas para ficar melhor ainda, eu também poderia fazer dança indiana, ministrado pelo guru Dakshayani Damayanti. Ou algo que o valha… Não me lembro direito. Deve ser o charuto que me deram, mas continuando…

Eu queria fazer algo só para conseguir pronunciar os nomes daqueles malucos barbudos vestidos de branco daquele ambiente. Já ia me sentir melhor. Ofereceram-me de cara “Tagrahashi dance” que prometia me ajudar a fazer uns movimentos que estimulariam os chakras meridionais. Adorei. Preciso, disse com a firmeza daqueles que sofrem.

O cheiro de incenso-patchuli já estava nos meus cabelos e às olheiras somaram-se náuseas que foram rapidamente percebidas pelo guru Champabati Achala que me convidou para uma reunião que iria acontecer ali, naquele momento, com a pretensão de equilibrar o cosmos interno do Eu Kama Surta. Namastê, ele me disse. Saravá, respondi no reflexo. Os nomes me confundem, não os lembro direito, deve ser as folhas que me mandaram cheirar, mas continuando…

No local, havia almofadas orientais no chão e uma mestra que queria saber o que eu conhecia sobre os ensinamentos do Maharish Kartikeya. Eu que nunca fui boba e sempre um pouco mentirosa, mandei na lata que havia lido algo sobre encarnações, Brahmas, Karmas, pontos de energia cardeal e coisa e tal. Na mosca.

– Você sabe que vai estar entrando em transe daqui a pouco e preciso preparar você para isso.

Pronto. Até aqui havia nos ajudado o Senhor. Após esse gerúndio, a macumba da magia do placebo desandou toda. Eu fui lá para fazer uma lobotomia ou algo que trouxesse o ser amado em três dias, mas aplicando mal o português nem Buda na causa. Porém, eu já estava lá dentro e acabei ouvindo sobre o tal do Maharish Kartikeya e os sete patamares energéticos de evolução do edifício nirvana que nos leva a uma transcendência espiritual de uma força cósmica que emana de Shiva. Algo que é idêntico ao tudo e ao nada e que explicam os limites do Universo por forças antagônicas Yin Yang e mengalafumenga. Sei lá. Não me lembro direito, deve ser o pedaço de gengibre ou algo que o valha que me deram para mastigar enquanto ouvia uma flauta de bambu plantado há 2345 anos nas montanhas sudoríficas cósmicas energéticas e mais outras palavras proparoxítonas que estavam confundindo o meu entendimento. Mas continuando…

Eu estava com um problema kármico nessa encarnação que me impedia de ver a beleza da essência absoluta já que estava apegada ao amor egoísta ocidental judaico cristão e meu espírito tinha que se preparar para se libertar desse encosto e, para tanto, parecia que a presença de um narguilé era necessária. Deitaram-me no tapete do Aladim que estava estacionado naquela sala plena de ídolos hindus, cântaros made in china, espelhos, bambus, parede cor de curry com letras formando uma geometria bizarra mandalence e muitos vidrilhos. Com certeza, nos vales dos confins da Índia há um local com essas artes decorativas brhamitosas desenvolvidas por peruas esotéricas.

Havia uma energia no ar. Isso é certo. Os guias espirituais me orientavam a abrir a mente, as narinas, a boca e grazadeus as pernas ficaram cruzadas o tempo todo por recomendação, ou seja, não iriam abusar de minha xakra. Sei que tive uma orientação de repetir um mantra que tinha um som bom mas nada significava já que as palavras nos aprisionam e são traiçoeiras como uma serpente. Devidamente desmentalizada, massageada tantricamente na cabeça, ter dividido um chá em um cumbuca de madeira, dançado para aumentar a minha potência enquanto ser cósmico, fiz o check in no nirvana e acumulei pontos para as próximas existências e desistências.

Aquela nhaca toda não me deixava mais perceber a realidade como outrora. Estava mergulhada numa zoeria malucobelezóide e tudo chegava a mim carregado de profundas simbologias e as sequelas profundas somente dessa encarnação vinham sob a forma de emoções vertiginosas. O aqui e agora era só dejá vu, as paredes rebolavam e as moléculas de ar são lindas e como são todas coloridas gente…

Para vocês entenderem bem como me senti, era algo como uma semente perdida no núcleo duro de um caroço amargo do meu âmago habitado no interior do meu ser volátil se desabrochando. Não sei se fui clara. De uma forma didática, o arquétipo do meu eu inconsciente holisticofrênico me liberava de fobias arcaicas naquele transe demencial de uma forma que não dá para explicar por qualquer linguagem inteligível.

Houve mais detalhes, mas resumidamente foi isso. Super adiantou. Saí de lá, recebi uma mensagem-convite para tomar um café. Não era do causador das insônias. Deus ouviu minhas preces e me deu força nesse momento. Devidamente espiritualizada, ciente dos meus 1762 anos na Terra, depois de resistir a entrar por tantas portas que se abriram, aceitei.

Nada como uma ilusão bem vivenciada.

Batuquemos.


Claro que eu não entendi nada do que escrevi. Essa narrativa faz parte da brincadeira. A verdadeira, única e real experiência foi escrever esse texto. Terapia para mim é isso.

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A Queda dos Corpos e o Peso das Reflexões.

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Hoje, eu levando Yuki para a escola, rolou um diálogo entre nós:

– Mãe, qual o nome daquele negócio que tem em volta dos planetas no Angry Birds Stars Wars?
– Sei lá, Yuki. Atmosfera?
– É a atmosfera que atrai os projéteis quando passam perto dos planetas?
– Ah não, é o campo gravitacional.
– Isso! Era esse o nome que tinha me esquecido.
– Mas ó, filho, o campo gravitacional existe mesmo nos planetas que não estão no jogo do AngryBirds, tá?
– Então quer dizer que se tacarem algo no planeta Terra, isso pode ficar rodando até cair de vez?
– É.
– E se jogar muito rápido? Pode ficar girando sem cair como no AngryBirds StarWars?
– Sim. Esse é o princípio que se usa para colocar satélite em órbita.
– Que maneiro! Quem descobriu isso?
– Isaac Newton. E ó, atmosfera não tem nada a ver com campo gravitacional. Na Lua, não tem
atmosfera e ela também atrai os corpos.
– Da mesma forma que a Terra?
– Não. Como ela tem a massa muito menor, a força da gravidade que é gerada é bem menor.
– A gravidade depende da massa do planeta?
– Justamente. É o que falam. E a até agora não teve nada, até onde eu saiba, que contradissesse isso, ou melhor, um planeta com pouca massa e com um campo gravitacional muito potente.
– Mas pode acontecer?
– Nada impede. O universo sempre é capaz de nos surpreender e teoria científica, ao fim e ao cabo, não deixa de ser um ato de crença.
– Como assim?
– “Acreditou-se” um dia que um corpo só se movia se houvesse uma força atuando sobre ele, ou seja, só tem velocidade se tiver força.
– E não é mais assim?
– Não. Newton mostrou que força não tem nada a ver com velocidade e sim com variação de velocidade. Um corpo pode se mover sem que nenhuma força atue sobre ele.
– Como ele explicou isso?
– Usando a palavra inércia…

A conversa se estendeu a ponto de eu ter a ideia de escrever mais um livro infantil e Yuki chegar atrasado.

Deixei meu menino na escola, ele está no quarto ano. Mas tive a impressão de que se ele fizer a prova do Enem, pelo menos em física, ele se sairia muito bem. Está sabendo as três leis de Newton e a essência da lei da gravitação universal. E creio eu que não vai se esquecer já que aprendeu com o coração.

Assim deveria ser qualquer aprendizado. No tempo em que as perguntas aparecem, com alegria e trabalhando a curiosidade e o prazer da descoberta e não isso que temos… com crianças e jovens aprendendo o que não tem a menor vontade de saber no tempo em que queremos que ela aprenda e não quando ela está preparada. Se o estômago não tiver preparado, não adianta, ele não vai digerir o alimento que sairá do jeito que der e assim que puder do nosso corpo. Por que insistem nesse modelo?

Enfim, acho que essa foi a melhor manhã de terça que tive na minha vida… Yuki se despediu de mim pensando e eu muito mais.

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Sobre o “Escola sem Partido”

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Há muitos ainda que não entenderam qual é dessa discussão da “Escola sem Partido”. Primeiramente, há de se concordar que o nome é lindo e que de cara nos leva a pensar: “claro que sim! Escola não pode ter partido!” e, a depender da pessoa, ainda complementam: “chega de doutrinação esquerdistas nas escolas!”. De uma forma, digamos, objetiva, trata-se de um Projeto de Lei (n. 193/2016) em tramitação no Congresso Nacional que pretende subordinar conteúdos e atividades escolares às crenças de pais, bem como “monitorar a doutrinação ou cooptação política e ideológica em sala de aula”.

Gostaria de falar que não basta ler o nome do projeto e ler o projeto como um todo. Deve-se prestar atenção em quem defende esse projeto e com quais objetivos. Você deve ler, claro, mas deve também contextualizá-lo. Saber, por exemplo, que temos dois Bolsonaros envolvidos e encabeçando esse projeto é bastante significativo e já coloca em xeque a tal “neutralidade” apontada e defendida no Escola sem Partido. A escola, segundo quem luta pela aprovação desse projeto, deve servir para incentivar ideias como meritocracia e propriedade privada. Isso é ser neutro, segundo seus defensores. Discutir temas em sala de aula, não é ser neutro, portanto, deve ser proibido para esses que estão defendendo a Escola sem Partido.

Uma das bandeiras levantadas por esses políticos que avançam com esse projeto (e que já está sendo implementado em algumas escolas no Brasil) é que “professor não é educador”. O professor, segundo dizem, foi feito para instruir. Educação vem de casa e da Igreja. Nessa esteira, seus defensores dizem que, com isso, protegem as crianças e os jovens de serem doutrinados e, para tanto, ficamos, nós professores, proibidos de discutir qualquer tema em sala como religião, política, notícias, atualidades… e assim, dizem, prepararemos melhor os futuros cidadãos. Oras…Como é que se desenvolve um pensamento crítico se não discutindo política, filosofia, sociologia, história?

O advogado Miguel Nagib, por exemplo, afirmou que “em matéria de educação religiosa e moral, vale o princípio: meus filhos, minhas regras. Nós não queremos impor a nenhuma família uma maneira de agir em relação a seus filhos. Mas também não aceitamos que a escola venha fazer isso”. Assim, a crença ou a moralidade dos pais passaria a ser adotada como critério para o controle familiar da educação escolar, podendo inclusive resultar em punição para os desobedientes. Como seria esse controle? Através de denúncias anônimas. Bastaria um aluno me denunciar para o Ministério Público ser acionado. Ou seja, a conduta de professores, gestores e funcionários passará a ser a ser patrulhada por todo e qualquer indivíduo caso o projeto seja aprovado.

Vale observar que a Constituição Federal distingue educação familiar da educação escolar, do ensino, atribuindo a este último o papel principal de preparar o educando para o exercício da cidadania. Isso significa, por exemplo, que se a família decide educar a criança para torná-la fiel a uma determinada crença, o mesmo não pode ser exigido da educação pública, laica, cujo escopo jurídico-político não se subordina a valores. Amém. Ao professor, segundo nossa Constituição, cabe a liberdade de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber. E é ótimo para o futuro cidadão ter contato com outras ideias e que seja estimulado a pensar e repensar, não? O pluralismo de ideias implica que a educação pública deve transmitir livremente a ciência e a arte, preparando o educando não somente para desenvolver pensamento crítico, mas também para respeitar a diversidade, a alteridade e a divergência de opiniões que caracterizam as sociedades democráticas. Por que isso é visto como algo ruim?

Não estou dizendo que a família não seja fundamental na sociedade. Mas, os pais não têm e nem devem ter direito absoluto sobre seus filhos. A educação moral não pode (e nem deve) ser exclusiva da família. Toda pessoa tem direito a se apropriar da cultura e a observar o mundo de forma crítica. A educação escolar é uma atribuição do Estado brasileiro. E o cidadão brasileiro tem o direito de aprender sobre o evolucionismo de Darwin, a origem do pensamento científico, a luta pela abolição da escravatura, a origem das desigualdades sociais e por aí vai. Como vamos conseguir debater esses temas se esse projeto for aprovado?

Todo professor, claro, sempre faz uma escolha ideológica e isso sempre fica claro para os alunos que costumam sair de sala, muitas vezes, fora da área de conforto (esse local que se morre em vida) porque estão repensando, refletindo, questionando sua leitura sobre o mundo. Desde quando isso é ruim? Oras… que tipo de cidadão se prepara para uma sociedade que frequenta uma escola que não o prepare para pensar, debater, discutir, criticar? Que tipo de cidadão estão querendo que formemos e com quais objetivos? No mais, nenhum país que tem bons sistemas de ensino tem leis absurdas como essas propostas pelo Escola Sem Partido.

Eu, como professora de física, adoto uma metodologia que coloca o aluno a todo tempo que comigo está em sala de aula a questionar o conceito de ciência, por exemplo. Procuro mostrar o modus operandi de como as ideias surgem sempre fazendo uma contextualização histórica com um enfoque estritamente filosófico. Dentro dessa perspectiva, questionamos sempre sobre “verdades universais”, “objetividade” e se procede, de fato, a separação entre ciências exatas e humanas já que não existe ciência sem uma mente humana para concebê-la. Ou seja, meus alunos refletem sobre valores, repensam o que lhes é passado pelo senso comum, questionam se procedem as “verdades” que lhes são apresentadas. Se o projeto Escola sem Partido vingar, serei obrigada a me calar. Não mais ensinarei ninguém a refletir e sim, como está escrito no projeto, serei obrigada somente a instruir meus alunos. Serei escrava de um sistema que gera mais escravos passivos.

Se os pais hoje preferem que seus filhos frequentem escolas orientadas por valores idênticos aos de suas famílias têm a opção de matriculá-los em escolas confessionais, privadas, instituídas pela Constituição Federal exatamente para atender ao tipo de demanda prevista. Mas nas escolas públicas, mantidas com impostos pagos por todos os brasileiros, a prioridade deve ser a formação do cidadão –não do escravo obediente e acrítico– e nela devem prevalecer a tolerância e a cultura de respeito recíproco e de convivência harmoniosa entre todas as opiniões, ideologias, crenças e religiões.

Em que contexto surge esse projeto? Hoje, nas escolas, debatemos sobre a cultura eurocêntrica, o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ainda é tão seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações. Discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos tem feito os futuros cidadãos pensar e tem gerado instabilidades nesse sistema. Bolsonaros defensores desse projeto Escola sem Partido, por outro lado, cultuam suas verdades e por isso, esse projeto busca silenciar e amordaçar professores fazendo com que escola seja um espaço de conformismo social, cultural e intelectual. Educar sempre foi um ato político e, com Bolsonaros no poder, busca-se fazer com que a política propagada seja somente uma. À luz desse projeto, analisar criticamente as realidades, óbvio, é um problema já que hoje educamos para autonomia e para o pensamento crítico.

Não tem como não citar Paulo Freire numa hora dessas e vou terminar com ele: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Por isso, a pressa desses conservadores em aprovar o projeto e a luta em barrá-lo. Lembrando que essa luta não é somente de nós, professores, e sim de todos que não querem uma sociedade plena de amebas ambulantes e rindo quando chicoteadas.

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Parabéns também aos que NÃO estão no quadro!

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Eu queria parabenizar também os alunos que não estão nesse quadro pendurado no meio do pátio da escola. Certamente, são pessoas bacanas, esforçadas, cheias de potencial, empáticas, amigas e criativas. O que não quer dizer que esses que aí estão não sejam serumaninhos legais, mas não estão aí por isso.

O conceito “A” dos alunos que estão nesse “quadro de honra” quer dizer que eles se adaptaram bem a um sistema de ensino que prima pela competitividade e exclusão dos que dele fazem parte e dos que não conseguem a ele se moldar. Vale observar, que se Einstein vivo fosse e estudasse nessa escola não somente não estaria com seu rosto estampado nesse cartaz como poderia ter sido expulso dado seu comportamento rebelde com esse modelo que não estimula os alunos a perguntar, a questionar e sim a responder e obedecer regras.

O conceito “A” desses alunos significa que eles entendem bem como resolver um determinado tipo de problema. Certamente, eles sabem aplicar a equação de Torricelli, fazer gráficos de equações logarítmicas e a diferença entre briófitas e pteridófitas. Mas absolutamente nada diz sobre a capacidade de lidar com o próximo e sobre a felicidade que eles terão no futuro e até mesmo se tem no presente. Por outro lado, nada garante que os que não estão no quadro também estejam se sentindo bem, sejam jovens soltos e felizes. Possivelmente, muitos até estão se sentindo burros e incapacitados por não terem conseguido obedecer regras de redação que se Guimarães Rosa e Mário de Andrade tivessem obedecido não teriam escrito o que escreveram e, portanto, não tiraram conceito A”.

O conceito “A” significa que os alunos sabem fazer um determinado modelo de prova e se adaptaram bem a um sistema de ensino que me fez acreditar por mais de trinta anos que eu não sabia escrever. Nunca tirei nota dez em redação alguma feita na escola por sempre fugir do tema e escrever sobre o que me desse na telha.

O Colégio Pentágono merece parabéns porque tem cumprido bem o objetivo, a dizer, colocar alguns alunos com conceito “A” nas provas de seleção e aprovar um percentual nas universidades. Isso eu posso garantir porque meu filho estuda aqui desde o primeiro ano e se tem uma coisa que essa escola se preocupa desde o ensino fundamental é com vestibular. E que fique claro que eu não tenho nada a opor a uma política de seleção rigorosa. Se tivermos que encarar isso de frente, ok. Eu encaro. Apenas me recuso a chamar isso de “Educação” já que o meu conceito de Educação envolve um bem estar de uma maioria. E rigor, competição e disciplina que são tão valorizados nesse sistema de “Ensino” nunca geraram tantas crianças e jovens frustados, infelizes, doentes, egoístas e que pouco ou nada sabem sobre empatia. No mais, esses alunos que estão nas fotos em destaque serão os melhores independente­mente do método de ensino?

Mas enfim, a escola e esses alunos, dentro desse método e com esse objetivo esclarecido, estão de parabéns sim.

Não pude, porém, ao ver esse quadro pendurado na sombra assim que trouxe meu filho à escola hoje, deixar de pensar nos alunos que não estão nesse cartaz. Certamente, são pessoas extremamente iluminadas…

Portanto, parabéns aos que não estão com o rosto impresso. Entendam bem o que significa estar no quadro. Esse conceito “A” nada tem a ver com capacidade intelectual, ainda que os que estão no quadro sejam capacitados a pensar em outras áreas e ambientes.

Não desistam dos seus sonhos e jamais deixem de acreditar no potencial de vocês, ok?

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O Rosto do Flávio

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Recebi uma intimação oficial para comparecer em uma audiência sobre o menino menor de idade que roubou meu celular há um mês munido de um facão afiado. Fui. Lá chegando, tive que relatar, mais uma vez, com detalhes tudo o que havia acontecido, a forma da abordagem e como ele foi pego pelo guarda municipal que prontamente disparou atrás dele. O rapaz não estava presente nesse momento na sala da audiência porque isso me exporia demais. Achei justo. Amém.

Eu já sabia (porque tive que ir no mesmo dia que fui assaltada prestar depoimento) que o menino ficaria não preso (pois é menor) mas “recluso”. Era a terceira vez que ele passava pela polícia e, portanto, ficaria durante um ano sob os cuidados de um grupo especializado em menores. A famosa galera dos “Direitos Humanos” que tanto falam.

Em um determinado momento da audiência, a juíza me perguntou:

– Você seria capaz de reconhecer o garoto que te roubou?
– Sim. Claro. – respondi prontamente.

Daí, ela me levou para um local que parecia coisa de filme. A juíza me assegurou que ele não conseguia me ver, mas eu, de onde estava, vi cinco meninos e cada um segurando uma placa com um número. Ela então falou:

– Quem foi que te apontou a faca?

Fiquei olhando. Não vi. Depois pensei: vou sair eliminando quem eu tenho certeza que não é. Não é o 2. Não é o 5. Não é o 1. Nem o 4.

Seria o três? Olhei bem… era ele mesmo!

– O número 3.
– Ok. Voltemos para a sala, então.

Lá chegando, assinei vários papéis e fui dispensada. Mas antes de sair, senti um bolo na garganta e pedi a palavra:

– Eu queria dizer algo…

– Pois não, senhora.- permitiu-me a juíza.

– Eu queria confessar que tive dificuldade em reconhecer o Flávio, ainda que eu tenha certeza de que foi ele que tenha me roubado. Mas tive meus motivos… e queria fazer uma pergunta para vocês. O que esse menino fez aqui durante esse mês que ele ficou recluso?

– Ele fez cursos, está matriculado em um curso de marcenaria. Está tendo acompanhamento psicológico e conversando com assistentes sociais. Ele tem praticado esporte todos os dias e ouvido música… e assim vai ficar durante mais quase um ano já que é a terceira vez que ele passa pela polícia.

– Ele está com outro rosto. – falei emocionada. – O Flávio que me roubou parecia um rato, não tinha foco no olhar, estava imundo, descalço, com cara de bicho mesmo. Abandonado. Agora não. Ele está limpo. Com um olhar sereno. Parecia um aluno meu… Eu queria dar um abraço nele, sei que não posso, mas gostaria que vocês mandassem esse abraço para ele e dissesse a esse menino bonito que eu acredito que ele pode ser muito melhor do que se mostrou para mim há um mês atrás e que eu já vejo que ele está melhor! Quero dizer a ele que o perdôo e que vou continuar lutando para que a sociedade não o exclua tanto e que ele não sinta mais necessidade de roubar.

Eu sempre acreditei que os seres humanos se constroem com as experiências e aprendizados, portanto, o meio em que se vive tem grande influência sobre ele. E o rosto do Flávio me provou que estou certa. Tenho agora a visão ainda mais clara de que algo acontece na sociedade que transforma as pessoas em marginais…

Eu queria dar os parabéns para vocês que trabalham lutando pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e compartilhar algumas perguntas que me ocorrem:

O que há na sociedade que leva essas crianças e esse meninos a cometerem crimes? O que podemos fazer para diminuir? Mais presídios? Diminuição da maioridade? Suponhamos que a maioridade no Brasil fosse de 16 anos e ele fosse preso junto com adultos e recebendo o mesmo tratamento que nossos presidiários recebem. Flávio estaria com esse rosto que eu vi hoje??? Ou estaria com uma aparência ainda mais assustadora???

Definitivamente, o rosto do Flávio só me deu a certeza de que ao reduzir a maioridade penal não estamos focando na raíz do problema, estamos apenas sugerindo uma maneira de remediar. Pouco importa se a maioridade penal é de 16, 18 ou 21 anos se o país continuar a formar criminosos! Devemos pensar em maneiras de diminuir a criminalidade, no processo que transforma as pessoas em transgressoras da lei, ou logo teremos mais presídios do que universidades e mais marginais do que cidadãos comuns! Devemos também mostrar que essa transformação no rosto e na postura do Flávio não é à toa. Tudo bem, ele pode retornar à sociedade e voltar a cometer crimes, mas pode ser que não dessa forma que vocês estão fazendo. Da outra, com certeza, ele será de novo reincidente!

Punindo apenas, aplicando mais violência ainda e enclausurando esses infratores não os transformamos em seres melhores e estamos gastando nosso dinheiro público à toa! Pior, todos esses que estão presos sob esse regime estão sendo soltos todos os dias! Melhores? Como eu vi o Flávio??? Claro que não!

Então, gostaria de dizer a todos os presentes nessa sala, antes de eu ir, que eu acredito no trabalho de vocês, embora tenha plena consciência de que ainda há muito a se fazer e a melhorar. Vocês concordam com isso, não? – todos responderam positivamente com a cabeça.

Continuei:

– E que fique claro: eu não quero que criminosos não sejam punidos. Todos devem pagar penas! Mas sei que a pessoa só vai presa depois de cometer o crime, isto é, depois que alguém já foi lesado como eu fui e por isso aqui estou hoje. Portanto, a minha luta será para que a sociedade não estrague mais tantas crianças. Acredito, depois de ter visto o Flávio, no resultado dos esforços em reabilitar e prevenir a reincidência. Gostaria de parabenizar todos vocês por isso.

Eu quero que ele continue recluso, porque não quero que ele faça mais nenhuma vítima quando voltar à sociedade. Continuem dando atenção a ele, por favor. Sempre desconfiei que aplicando mais violência em quem comete um crime é ir na contra-mão da reabilitação. O rosto do Flávio me provou que há grandes chances de todos aqui nesta sala estarmos certos.

Obrigada a todos. Por tudo. E não esqueçam de mandar meu abraço a ele.

Saí de lá só depois de receber alguns abraços. Acho que quebrei algum protocolo, sei lá. Falei demais mas agradei aos que lá estavam. Coisa rara por onde passo…

Voltei para casa usando o GPS mas, mesmo sem ele, sinto que estou no caminho certo.

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Vem comigo, boneca.

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Não sei quanto aos amigos de vocês, mas os meus me aparecem com cada bizarrice sexual catada na internet que não é mole não. Aliás, nada mole meesssmo. Eu que estou chegando ao marco olímpico surreal de quase um mês sem usar celular, por motivo de força e trauma maior fui poupada nesse tempo, dentre tantas coisas bacanas, de vídeos que me eram enviados pelo whats por aqueles que viviam com a libido a mil e aparentemente com todo o tempo do mundo de manter seus conhecidos a par das novidades nesse universo pleno de buracos negros.

Antigamente, na época dos meus bisavós, era por e-mail que a quixotada, rabularia e lambuzeira vinha sob o título no assunto: CUIDADO com o capslock ligado e piscante. Já sabia logo que se tratava de assuntos bobiciais.

O diabo é que esse tema cabeludo – que tem andando bem careca dado a moda da depilação – desperta a curiosidade das pessoas mais fofas como eu, por exemplo. Vejam vocês, a despeito de me portar como equilibrada e intelectual publicamente, abro, quando nem deus está me vendo, todas as imagens e vídeos que me mandam e, embora eu seja do do tipo prafentex, em se tratando de vuco-vuco, serei, pelo que estou entendendo, eternamente neófita porque o ser humano não para de inventar…

Por mais fanfarras e jactâncias que tenha visto em telinhas de celular, putaria é um assunto inesgotável como qualquer serumaninho, depravado ou não, em si o é. Eu juro que não procuro muito saber mas, não sei se é coisa de Brasil ou essa budega é endêmica nessa planeta, mas se você não vai à putaria, e tem pelo menos um amigo saudável e feliz, a putaria – ah pode ter certeza.. – vem até você.

Como ia dizendo no primeiro parágrafo, eu estou sem meu celular e, dentre outras coisas, limitada para receber esse tipo de informação o que tem me feito focar em outros assuntos como politica brasileira por exemplo que não deixa de ser putaria também. Ainda assim, embora haja uma regra clara de segurarmos a nossa onda nessa rede social que tanto nos balançamos, outro dia, vi uns amigos com muita testosterona compartilhando um vídeo em que mostrava a fabricação de bonecas ditas infláveis, mas que não esvaziam mais como aquelas com cara de Marylin Monroe depois que foi atropelada por um caminhão e, as seguir, por um trator. Os novos brinquedos são feitos de cyberskin, uma borracha que imita perfeitamente a textura de nossa pele, e por dentro tem um esqueleto todo articulável que promete posições que só vemos feitas pelos artistas do circo de solé.

O vídeo era casto, contido, apenas informativo já que não podemos soltar a franga, o ganso, a galinha e o peru por aqui. Com as aves todas amarradas, eu, estudiosa que sou e já com o lote reservado na fornalha do Capiroto, fui aprofundar sobre o tema na santa web e aqui estou com algumas informações nada imaculadas que se você parar de ler aqui não vai perder nada na vida. Se as trago é porque sou bem fã de Spinoza que disse que conhecimento – seja lá sobre o que for – aumenta quando compartilhado – ainda que este seja tão inútil quanto a equação de Torricelli que todos aprenderam na escola ou cópulas com bonecas, sendo o último muito mais difícil de entender do que o primeiro, a meu ver.

Fuxiquei tudo e vi fotos de altíssima definição me sentindo o próprio ginecologista enfiando um bico de pato (instrumento muito usado em exames ginecológicos) na paciente. Pasmem, tem todos os tipos de xanas inclusive com pelos para quem não se acostumou com esse desmatamento todo moderno que mexe, de um jeito ou de outro, com o pau brasil. O rosto também impressiona pelo realismo. Mas, como esses engenheiros e designers com uma criatividade do caralho inventam, vi umas com um buraco circular no alto da cabeça para, supus, colocar uma latinha de cerveja enquanto estiver com o badalhoco na boca da boneca que, segundo minha análise – agora de dentista procurando cárie – não possui nenhum sistema de sucção e nada que controle o movimento da língua quando o ganso estiver não afogando mas imergindo e emergindo naquelas águas cujas margens são lábios que podem ser tipo Angeline Jolie ou Bianca Rinaldi. E também não entendi para onde vai aquela porra toda já que não há a tal goela abaixo e, se não suga, certamente não cospe de onde concluí com esses olhos curiosos que, ao fim e ao cabo, basta lavar que tá novo como são a maioria dos buracos negros reais nesse universo pleno de energia e fornicadores.

O que me deixou mais intrigada foi o preço daquelas meninas de borracha. Uma fortuna que já não me lembro mais. Mas a loja que vi vendendo atende também aos menos abastados e oferece somente uma vulva com aquele mesmo esquema, a dizer, você pode escolher se acompanhadas de pelos ou não. Achei estranho. Pode ter sido preconceito já que não vejo com tanta íris exposta as bitolas em riste dos mais diversos modelos, cores e tamanhos de borracha que abundam e abucetam nos catálogos nas lojas de sex shop.

Como a empresa busca se aproximar ao máximo da realidade para satisfazer o freguês, havia também outra opção, não tão cara quanto a boneca inteira e um pouco mais completa do que só uma chavasca. A variação vinha com a vulva como a supracitada acompanhada de duas esferas cheias de silicone (ou algo que o valha) com um vale simulando o vulgo rêgo que abriga, como em todos nós, um orifício que está em alta como nunca e que é fetichizado desde os maias: o cu. Só me restou fazer uma colonoscopia e se o fiz foi porque fiquei boquiaberta com o preço que era muito mais do que o dobro de um só buraco. Oras, se um buraco vale x, dois, por uma regra de três simples, vale?, dois x! Nananinha. Valia o olho do c… quer dizer da cara. Muito mais do que o dobro. O mistério permaneceu. O buraco era uma argolinha rugosa embora não houvesse lá por dentro um tubo digestivo, mesmo por quê, não havia espaço para isso já que se tratava de algo parecido com uma bacia mutilada.

O vídeo que vi onde o final mostra várias bonecas na vitrine me deu angústia. Embora saiba que são bonecas, essas de hoje estão tão parecidas com gente de verdade de carne, osso e sangue correndo nas veias que meu lado feminista deu vontade de ir até a loja e soltá-las como devemos fazer com qualquer ser vivo preso. Mas, são brinquedos e apenas objetos sexuais ainda que… ah deixa para lá…

Mundo bizarro esse em que vivemos, não?

Enfim,como disse, você poderia ter ficado muito bem sem todas essas informações inúteis. Perdoem-me quem leu até aqui com uma expectativa de encontrar algo que prestasse ou engrandecesse o espírito. Não foi dessa vez… Culpa do Steve Jobs que facilitou tanto essa navegação em mares nunca dantes navegados onde mastros apontam de todos os lugares. A postagem termina assim sem nenhuma grande reflexão, pois, o mundo decididamente nem sempre  – quase nunca – se rege pelas noções de beleza, calma e poesia como sonhava a madre Teresa de Qualcutá…

 

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Ah essas malditas embalagens…

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Hoje eu passei em uma farmácia onde fui comprar algo que disfarçasse essa transformação de asa da graúna em garça, ou seja, tinta para essa juba, quando vi um Neutrox. Caraca… quanto tempo não via aquilo… lembrei-me que quando passava aquele creme na peruca e meus fios ficavam lindos e soltos, brilhantééééérrimos! Era isso ou creme rinse… mas Neutrox era o que havia em emponderamento de cabeleira.

Esperta que sou, comprei a budega. Aliás, se meu cabelo hoje para ter 30%do que já foi um dia requer hidratações com óleo de argan, girassol, lavas vulcânicas do Tibet e mel de abelhas criadas com ração de semente de cerejeiras (como me falam as vendedoras mega instruídas em milagres nas lojas de cosmésticos de Madureira) tudo isso foi porque nunca mais vi Neutrox daquele amarelinho (o rosa era para praia ou piscina) vendendo porque com certeza era ele o responsável pela robustez, exuberância e voluptuosidade de meus cabelos.

Entrei no chuveiro. Lavei com xampu normal já que não se tem mais o Colorama Ovo que era outro banho de espelho nessa fiarada preta aqui. Depois vem, Neutrox. Vem ni mim…

O cabelo secou. Bah. Mesma coisa insossa. Mesmo efeito do óleo tirado do tubarão que mergulha em águas profundas do Pacífico…
Já não se fazem mais Neutroxes como os de antigamente viu.

O mesmo posso dizer dos biquinis. Esses de hoje? Um modelo pior do que outro. Tudo deixa a gente com um barrigão mole prostrado. Bom mesmo eram aqueles shorts silze curtinhos que deixavam a nossa perna viçosa, entusiasmada e toda durinha… e aquele creme nívea de lata que tapava todas as nossas rugas… e aquele primeiro sutiã Valisere, gente, sem bojo nem nada que a gente nem sabia o que era muxiba… E nem vamos falar que essas fotos digitais engordam a beça… bom mesmo eram aquelas que a gente revelava e nos deixavam com cara de adolescente…

Ah que falta esses produtos de vinte anos atrás me fazem…

Maldito neutrox que mudou de embalagem.

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