Coisa de Viado

bambi

Yuki, meu caçula de 9 anos, passou este fim de semana com uma pessoa da família dele que, ao vê-lo calçar um chinelo com lacinho, advertiu-o:

– Não faça isso! Isso é coisa de viado!

Hoje, pela manhã, ele me contou a história e pediu a minha ajuda de como deve se comportar em uma situação como essa. A pessoa em questão é amada por ele e isso pesa nessa história já que ele tem como objetivo melhorá-la como ser humano.

– Mas como, mãe?

Vale observar que Yuki já sabe o que é homofobia, uma relação homoafetiva e caga para isso já que para ele toda forma de amor é mais do que natural – dado as pessoas que frequentam aqui em casa. Isso só faz com que ele fique ainda mais assustado quando ouve de alguém uma frase com o tom pejorativo sobre os gays.

Tratar de um tema como esse com uma criança não é uma tarefa das mais simples (o que para mim faz a coisa muito mais estimulante pelo desafio).

Então, tentei.

– Meu filho, para começar, você pode mostrar para ela que não há nada melhor para se rotular como “coisa de viado” do que a própria homofobia. Em outras palavras, Yuki, homofobia é coisa de viado.

– Não entendi nada, mãe.

– Vou te explicar. Há tempos, mais precisamente, há vinte anos, provaram na Universidade da Georgia que os homens que mais reclamavam dos gays em público e por eles se sentiam incomodados, ou seja, os famosos homofóbicos, frequentemente são homossexuais reprimindo suas próprias tendências biológicas. Ou melhor, o cara quer namorar outro homem, não consegue por problemas pessoais dele lá, e daí dá de falar mal de quem venceu o preconceito e assumiu sua sexualidade. Essa pesquisa vira e mexe é reforçada. Em 2012, por exemplo, na Universidade da Inglaterra foi feito um teste bem mais preciso com imagens cerebrais de homofóbicos que corroborou essa ideia. Claro que nem todos os homofóbicos são gays, Yuki. Esse comportamento pode ser cultural ou simplesmente uma dificuldade de lidar com o diferente. Mas pessoas que nascem gays em ambientes repressivos muitas vezes aprendem a suprimir a homossexualidade e sentem raiva dela. Geralmente quando vemos uma reação muito agressiva, excessiva até ao ponto da gente ter dificuldade de entender e a pessoa de se explicar é porque há um conflito interno em quem ataca. Enfim, meu filho, comportamento homofóbico muitas vezes é a manifestação de homossexualidade reprimida. E, por isso, aqueles que fazem discurso de ódio mereçam mais compaixão do que raiva.

– Mas ela é mulher, mãe…

– Então. O que nos leva a uma outra reflexão em cima daquilo que acabei de falar. O que seria “coisa de viado”? Usar um chinelo rosa? E quantos homens héteros se vestem de forma, diria, “feminina” porque assim se sentem mais bonitos? Ser sensível é coisa de viado? Quantos homens héteros choram por qualquer coisa? Ser fresco? Já viu o seu pai lavando um copo? Quer mais frescura que aquilo? Chamar bolinho de cupcake? Já viu Hideo, seu irmão, quando fica quando falamos “cupcake”? Ele é gay? Não. Percebe como é difícil definir essa expressão “coisa de viado”?

– Mas e aí… o que faço?

– Ah, Yuki. Isso já não é mais problema meu. Eu só te coloco para pensar. O que você vai fazer vai do seu sentimento na hora. Eu não sei. Mas usando outra expressão de forma que ela entenda, eu acho que no seu lugar eu falaria que tem que ser “muito homem” para ser gay em um país como esse. Mas, pensando bem, também não gosto dessa expressão porque remete a outra pejorativa “coisa de mulherzinha”. Outro dia,veja você, postei no facebook que passei a tarde com meu amigo gay conversando. Não demorou surgiu um comentário: “Toda mulher deveria ter um amigo gay. Deve ter sido ótimo para você passar uma tarde falando sobre sapatos”.

-Você falando de sapatos?

– Pois é, Yuki. Para você ver. Eu, mulherzinha, e ele, um viado, passamos a tarde falando sobre matemática e literatura… O preconceito sempre levando na cara.

– Mas e então?

– Então. Para finalizar, você é viado?

– Não sei. Ainda não sou nem adolescente.

– E se for? Ela vai te amar menos?

– Alguém ama menos porque o outro é gay, mãe?

– Acontece, infelizmente, por causa dessa sociedade que insiste em diminuir o outro com esse tipo de expressão vazia em sua essência. Você sentiu vontade de calçar o chinelo rosa?

– Não. Eu ia com ele porque foi o primeiro que vi. Mas, na verdade, nem havia reparado na cor do chinelo.

– E se sentisse, você vê algum problema nisso?

– Nenhum. Na verdade, o problema foi ela querer que eu tirasse o chinelo. Eu acabei nem indo onde queria.

– Então. Quando alguém te falar isso de novo, o que pensa em responder, meu filho?

– Penso em falar tudo isso aê que você me falou e depois dizer: dizer “coisa de viado” é “coisa de gente que não pensa sobre o que diz”.

– É, mas sempre com carinho para que o outro não se feche ao que você tem a dizer, ok?

– Ok, mãe…

Enfim, é difícil, dá trabalho, mas vale a pena dialogar sempre. Mais um dia fazendo “coisas de mãe” por aqui.

3 Comentários

Arquivado em Crônicas, Educação

3 Respostas para “Coisa de Viado

  1. Nossa, parabéns! Muito legal seu dialogo com seu filho, isso é desenvolver um ser humano, precisamos de mais respeito a todos. Parabens, tenha uma ótima terça!

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  2. Maria Luiza Ferreira de Rezende

    “Coisa de viado” é coisa de antigamente. Na minha família isso era muito falado até que um gay nasceu nesta família. E todos conheceram uma pessoa maravilhosa! E viveram felizes para sempre!

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  3. Levei. Muito legal isso de deixar a resposta aberta, pra ele pensar. Puxa, perdi essa quando as minhas mulherzinhas eram crianças…

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