Aquarius

sb
Ontem eu vi Aquarius. O filme mexeu muito comigo por um motivo muito particular. Desde que me entendo por gente e antes mesmo de me casar, eu tinha uma fobia. A de ficar viúva e numa casa sem filhos. Sozinha em um lar plena, apenas, de passados.

A separação me fez viver uma espécie de luto. Não mais convivo com o Nelson e isso para mim foi um dos meus maiores medos que tive que enfrentar muito antes do que esperava. Percebi que consigo resolver muita coisa sem ele. Ainda tenho como vício lhe contar trivialidades e querer conversar. Até o convidei para ir comigo ver o filme, agora vejam… Ele disse não e fui mesmo assim. Dá para viver. E sem muito sofrimento. Fui como aqueles dispostos a povoarem um deserto.

Quanto aos filhos casarem ou simplesmente saírem de casa, parece que também  já superei bem essa angústia. Não que eu aceite o discurso que criamos o filho para  o mundo. Nananinha. Crio para que tenhamos uma ligação que não se rompa seja lá para aonde eles forem. Aqui a gente faz cordão umbilical de adereço. Depois que isso ficou bem claro pela própria postura deles, os pesadelos recorrentes cessaram. Durmo como aqueles que têm certeza de que todas as portas foram trancadas.

Sonia Braga está no papel do que era meu pânico encarnado. Viúva. Com três filhos. Mas muito bem resolvida morando sozinha em uma casa cuja sala é repleta de livros e ainda por cima tem uma rede. Adoro. Ela, a personagem Clara, empoderadérrima. Observei tudo como quem observa um futuro.

Havia uma poltrona nessa sala. Mais essa para lidar. Minha maior aspiração material. Ter uma cadeira bem aconchegante de leitura em frente a uma estante onde eu possa cochilar abraçada com um livro sob o olhar de vários… Não acreditei quando a cena apareceu. Chorei disfarçadamente como aqueles que, depois de muita suspeita, deparam-se com uma prova esperada.

Não vi o que chamamos de senhorinha e sim uma mulher mais experiente que de velha nada tinha, sobretudo, no olhar. É possível continuar a ser feliz mesmo repleta de pretéritos perfeitos. Os olhos de Clara me mostraram isso.

Enfim. Ontem eu vi Aquarius mas foi muito mais do que um filme pois saí feliz como aqueles que comem uma pizza e namoram em plena sexta. Andando pelo Largo do Machado, ao invés de pesadelos, sonhos. Senti algo em minha mão.

Era alguém a segurando?

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

6 Respostas para “Aquarius

  1. ana maria santeiro

    fui atrás da resenha sobre Aquarius e descobri uma escritora. Gostei do que li, do blogue. Sou agente literário e não conhecia seus livros. Parabéns!

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  2. Amanda Machado

    Muito, muito bom, Elika! Falou de um lugar com o qual me identifiquei. Também quero poltrona, rede, estante e o empoderamento de Clara…

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  3. Ceu

    O olhar do outro que te faz o ver mais além!
    Hoje gostei mais do filme, relembrando, do que no dia que assisti!

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  4. Jackson Britto

    Ainda não vi o filme, mas entendi o sentimento! Lindo!

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