Arquivo do mês: outubro 2016

Dorme, meu pequenininho.

– Mãe, faz aquele carinho que eu gosto no meu braço? – pediu o fofo do meu filhotinho ontem.
– Faço, mas escove os dentes e deite com o pijama que você vai dormir quando eu fizer o carinho.
– Vou não, mãe.
– Vai sim.
– Vou não. Só um pouquinho.
– ok.

Aff. Dormimos os dois.

Acordei lá pela meia noite com Hideo, meu filho de 23 anos, aqui ao meu lado roncando de calça jeans, camisa pólo e tênis. Berrei no ouvido dele e o maluco nem tchum pra mim.

Fiz o que qualquer mãe faria. Troquei a roupa do marmanjo.

Coloquei meu pijama oncinha nele e ele nunca mais vai fazer isso de novo. Super sempre dá certo esse tipo de coisa.

(Eu mesma levei mó susto agora acordando e vendo Hideo de camisola babando no meu travesseiro.)

pijama

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Dia do Professor em 2016.

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Nesse dia do professor, eu gostaria de fazer algumas observações sobre a minha profissão. Primeiramente, fora Temer porque com ele esta profissão está morrendo. Esse governo cujo ministro da Educação recebe em seu gabinete Alexandre Frota e flerta com o projeto Escola Sem Partido que tem como líderes e porta-vozes pessoas altamente conservadoras como Bolsonaros, Felicianos e Malafaias não é um governo que valoriza essa profissão.

O papel do professor está longe de ser o detentor do saber nesse mundo moderno. Qualquer pessoa com acesso à internet tem todas as informações passadas nas escolas há trinta, vinte, dez anos atrás. Não faz o menor sentido o aluno sair de casa para assistir uma aula que esteja disponível no Youtube. Se a nossa aula está no Google, somos mesmos desnecessários. Hoje, temos que estimular nosso aluno a buscar conteúdos, conectar informações e pensar sobre elas. O celular, nesse sentido, não é inimigo e sim uma boa ferramenta nesse processo, vale observar.

O professor do século 21 não pode ser apenas o transmissor de informações, mas sim, e sobretudo, uma elaborador de situações que possibilitem ao sujeito buscar naquilo que já sabe elementos para desvendar o que ainda não sabe. E cai por terra, assim, o professor-guru, o sabe-tudo. O importante em sala de aula passa a ser as interações produzidas entre quem ensina e quem aprende e o aluno agora não é somente “o quem aprende” mas também “o quem ensina”.

Cabe ao professor reconhecer suas limitações, trabalhar em prol do crescimento coletivo, respeitar as diferenças individuais e crescer com seus alunos.

Mas isso tudo, se Temer e seus comparsas permitirem…

Hoje, 15 de Outubro de 2016, ouço ecos do discurso de que o ensino deve formar um cidadão e que ao professor não lhe cabe a tarefa de educar e sim de ensinar. Entende-se por “ensinar” enfiar goela abaixo do aluno conteúdos distantes de sua realidade e domesticá-lo para servir a um sistema que insiste na ideia de que “ser alguém na vida” é um ser que tem muito dinheiro para consumir coisas supérfluas.

Não é sem motivo que sempre são os grandes empresários e administradores (e não educadores em sua essência) que lideram o projeto da escola obrigatória e não é difícil perceber que o modelo de formação industrial como uma linha de montagem é perfeito para ser usado como “boa educação”. Por outro lado, é muito fácil entender o motivo dessa resistência em modificar o papel do professor.

Se há um projeto Escola Sem Partido em andamento cujo discurso vem acompanhado de que os professores fazem uma doutrinação marxista é porque discutir o pluralismo de ideias significa, para esses grandes empresários, uma ameaça, pois implica que a educação pública deva transmitir livremente a ciência e a arte, preparando o educando não somente para desenvolver pensamento crítico, mas também para respeitar a diversidade, a alteridade e a divergência de opiniões que caracterizam as sociedades democráticas. Por incrível que pareça, isso é visto como algo perverso.

Hoje, há professores estimulando o debate sobre a cultura eurocêntrica, o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por quê as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ainda é tão seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados a natureza da perversidade das relações. Hoje, há professores estimulando a discussão sobre as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos e isso tem feito o futuro cidadão pensar e, por isso, estamos sendo criticados.

Em pleno 15 de Outubro de 2016, vejo pessoas querendo calar e amordaçar o professor exigindo que ele desempenhe o mesmo papel de 20 anos atrás e lutando para que a escola continue sendo um espaço de conformismo social, cultural e intelectual. Para esses seres que flertam com as ideias fascistas dos Bolsonaros, analisar criticamente as realidades é um problema – já que hoje há vários professores educando para autonomia e para o pensamento crítico.

Eu não sei quanto aos demais colegas, mas eu nada tenho a comemorar no Dia do Professor. O Ensino Público vai piorar, as vagas para as universidades já diminuíram e estamos caminhando para o fim da Universidade Pública gratuita.

Querem nos fazer acreditar que será através dessa “escola pública” que estão nos impondo que vamos tirar as pessoas da pobreza. Se estudarmos o mínimo, veremos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Só mudam os atores, os personagens são os mesmos…

Não tem como não citar Paulo Freire no dia de hoje e vou terminar com ele: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

Por isso, a animação desses conservadores em calar o professor que se recusa a ser uma marionete desse sistema e que aceita seu novo papel inspirado em escolas de países que são considerados modelos de boa educação.

Vale lembrar, que a luta pela liberdade do professor não é somente nossa e sim de todos que não querem uma sociedade plena de amebas ambulantes e rindo quando chicoteadas.

Ainda que me falte a danada da esperança, continuarei lutando porque não quero passar por esse mundo como alguém que foi amputado sem grito, resistência e  repúdio diante de tanta atrocidade e dor.

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Mergulho

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Muita gente pensa que as mudanças importantes que realizamos na vida são fruto de grandes resoluções como entrar para um doutorado, emagrecer vinte quilos, parar de fumar ou roubar um beijo. Pode ser. Mas às vezes, são as atitudes aparentemente pequenas que nos transmutam por completo. Neste fim de semana, por exemplo, pela primeira vez, usei uma roupa de mergulho que comprei há três anos em uma viagem que fiz para São Paulo quando participei de um Congresso de História e Filosofia da Ciência em que apresentei um trabalho sobre a metafísica implícita na elaboração de muitas equações de D´Alembert.

Voltando da USP, quase chegando no hotel no início da noite, passei por uma loja de roupas de mergulho. Como o dia foi tenso pensei: “por que não? Não tenho roupa de mergulho e mergulhar deve ser bom. Vai que Nelson (na ocasião, ele era meu marido) resolva comprar a lancha que tanto quer? Eu odeio água gelada e não vai ser legal eu não ser parceira dele só porque não tenho uma roupa de borracha térmica”. Num átimo de loucura desses que nos acometem quando estamos bêbados (no meu caso, de cansaço) ou diante da foto do Padre Fábio de Melo mostrando seus bíceps, eu, sem pensar (claro), comprei pelos olhos da cara aquele artigo de primeira necessidade dos sobrinhos de João Dória.

Nelson não acreditou quando cheguei em casa com aquilo. Sou dessas de fazer pedaços de sonhos (somente pedaços) se materializarem. A lancha que venha no seu tempo, pensei satisfeita. Fiz a minha parte tal como aqueles que compram um chaveiro para usar no dia em que tiverem uma BMW. Estava bem feliz porque tinha dado meu primeiro passo e aquele recado de esposa fofa que quer ser companheira em todas as horas – principalmente se o marido estiver ostentando por aí em um barco com motor potente.

A roupa, como muitos já devem supor, ficou pendurada em uma despensa de uma casa de vila em Madureira: a minha. Nesse tempo, Nelson não somente não comprou a lancha como se separou de mim. Falei assim como se a culpa fosse somente dele. Perdoem-me o português ruim. Deve ser o inconsciente que quer sempre jogar para o outro a responsabilidade de tudo de ruim que nos acontece. Quando um casal se separa ou briga, há sempre, no mínimo, duas pessoas envolvidas que protagonizam no mesmo grau de importância toda a cena.

Fato foi que aquela goma elástica em forma de macacão adquirida com um sentimento tão romântico ganhou outra conotação depois que Nelson saiu de casa. Cada hora que olhava para ela tinha vontade de pegar a tesoura e picar aquilo tudo como aqueles que rasgam uma foto de casamento na intenção de que esse gesto funcione tal e qual uma lobotomia. Superior e inteligente que sou, claro que não rasguei nada. Apenas embrulhei em um papel para não ver nunca mais aquilo e joguei nos confins do último andar do meu armário que só se chega com aquelas escadas de bombeiro.

Pronto.

Problema resolvido.

Qual o quê, minha gente, qual o quê…

Um amigo meu (que é todo dado a aventuras no meio da natureza) me ligou perguntando se eu queria ir até Ilha Grande porque o amigo do amigo dele tinha direito a 10% de uma lancha de doze lugares e estavam sobrando duas vagas. Bora, Elika? E, tomando uma atitude aparentemente pequena, respondi: bora.

– Pena que você não tem roupa de mergulho, né? – lamentou-se todo.

– É. Pena. – respondi cheia de amnésia da boa. – Não. Pera. Eu tenho sim.- lembrei daquele bando de látex embrulhado em três sacos de lixo, preso e amarrado em nome de Jesus para que não saísse nunca mais daquela passagem para Nárnia.

– Ah que legal! Você já mergulhou, então? – concluiu muito previamente meu amigo que me conhece há dois meses.

– Nunca mergulhei. – respondi olhando para o horizonte como os que olham para a última cena do Cinema Paradiso.

– Tem há pouco tempo, então? – tentava o amigo entender.

– Uns três anos mais ou menos. – e adiantei: – Já escrevi sobre. A crônica até saiu no meu livro.

– Aquilo foi verdade?! Eu jurava que você tinha inventado toda aquela história! – assustou-se ele certamente se dando conta com o que ele estava lidando.

– Não invento nada não. Tudo verdade. Tenho a roupa para provar. Bora mergulhar em Ilha Grande. Leva pé de pato para mim.

Adiantando bem a história, pulando crises de choro, eu sendo apresentada à alcachofra, vendo um vinagre sendo vendido por uma bagatela de 79 reais no mercadinho da Marina e vários arco-íris nas gotas que eram espalhadas pela lancha e mais outros detalhes que não servem nem ilustram o propósito desse texto (que não tenho a menor noção de qual realmente seja), a embarcação parou em uma praia para que a tripulação mergulhasse, as mulheres pegassem Sol no convés ou lesse Antonio Prata, como eu prontamente fiz na sombra.

Vários começaram a cair na água. Alguns voltavam rápido reclamando do frio. O piloto da lancha, um sujeito de 50 anos que parecia ter saído da série Armação Ilimitada (aquela com Kadu Moliterno, André de Biase e Andrea Beltrão), veio até mim e, com uma atitude aparentemente pequena, perguntou-me se aquela roupa ali não era minha e se eu não ia mergulhar. Respondi que sim. A roupa é minha. E depois respondi não sei, sem saber, de fato, como lidar com tanta simbologia em forma de látex.

– A verdade é que nem sei vestir esse troço. Nunca usei. – confessei.

– Eu te ajudo. É uma excelente oportunidade de você experimentar. – falou ele fofamente com todo o respeito.

– Tá fria a água. Tão dizendo… – ponderei.

– Mas por isso você tem essa roupa. Ela não deixa o frio passar por ela. Vai. Levanta daí que eu te ajudo.

Guardei meu livro em um local bem seguro, tirei meu short e comecei o trabalho de enfiar aquela vestimenta que ia me espremendo conforme ia entrando. O rapaz foi dez e sem ele e sua experiência – conferida pelo coro manchado de Sol e os lábios brancos de protetor – eu não conseguiria fazer todas as manobras com a escápula que o momento exigia.

Pronto. Eu estava dentro.

Fui para a escadinha da lancha, andando como um astronauta sem conseguir dobrar direito os joelhos e os cotovelos. As poucas pessoas que estavam ainda por ali se afastaram recolhendo as pernas para que eu passasse. Um pai gritou para o filho: deixa a moça passar!, ela vai mergulhar!.

Alertei ao pai que aquele processo seria lento e que poderia durar mais uns três anos. Ele não entendeu o que eu disse, pensou que fosse uma metáfora ou algo que o valha.

Sentei na popa da lancha e fiquei, se o tempo fosse medido pela densidade de meus pensamentos, o equivalente a alguns anos olhando para a água. Questionava se Deus sabia quando me viu comprando aquele bando de borracha (que eu sentia, naquele momento que estava fundido no meu corpo) que eu só ia usá-lo nesse dia – e não juntamente com meus filhos, após meu marido jogar a âncora no mar para que víssemos todos juntos tudo o que tem dentro de um oceano. E, depois, comeríamos sanduíches que eu, mãe e esposa perfeita, teria preparado na noite anterior com queijo branco e um pouco de salada no pão integral. E, se Ele tem essa onisciência toda, por que não me poupou desse sofrimento? (Sim. Não estava pensando nas crianças que morrem de fome na África, estava em uma praia que só se chega de barco em Ilha Grande com os pés em uma água transparente revoltada com Deus por me fazer passar por aquilo. Sou dessas.)

Estava apavorada de molhar aquela roupa e sentir toda a frieza não da água, mas do Universo. Ok. Estava com medo da água fria também, confesso. Vou sentir gelidez nos pés e, na cabeça, tudo pode acontecer quando os cabelos se encharcarem com essa salmoura… Enquanto divagava sobre a finitude de tudo – inclusive do amor – e da resistência daquela bagaça de borracha que estava em perfeito estado como se eu tivesse comprado ontem, ouvi uma voz que vinha de lugar nenhum e, paradoxalmente, de todos os lugares. Olhei para o céu, as nuvens se afastaram lentamente. Percebi que eu estava escutando Mufasa como geralmente acontece em momentos assim: “O passado pode machucar, mas você pode fugir dele ou aprender com ele”.

Nesse instante, meu amigo emergiu perto dos meus pés e me disse empolgadaço:

– Ali tá cheio de peixinho! Tem uma parte que dá pé e está dando para filmar bem com minha câmera! Vem!

E, numa dessas atitudes aparentemente pequenas, pulei na água.

Coloquei a máscara, o snorkel e fui. O primeiro susto foi perceber que estava quentinha como se estivesse enrolada em um cobertor. O outro foi constatar que não fui para o fundo (do poço). A roupa me fazia boiar mesmo se eu abraçasse meus joelhos, coisa que fiz por alguns minutos de olhos fechados em posição fetal quando embaixo de mim tinham corais coloridos. Tive a sensação de que estava para nascer de novo. Depois fingi que era um urubu planando e fiquei como uma estrela do mar com as pernas e os braços abertos deixando uma leve corrente me levar.

-Fica assim que vou tirar uma foto sua! – ouvi de meu amigo que estava mega eufórico fotografando até, sei lá, eu (e a minha superação).

Depois, ele pegou em minha mão e começou a me apontar bichinhos esquisitos, plantinhas coloridas, peixinhos que pareciam de desenho animado. Só saímos da água quando todos já estavam embarcados e gritando para irmos embora.

Ao final do passeio, o piloto veio falar comigo me orientando de como devo fazer para guardar a roupa de forma que ela dure anos. Aproveitou e me parabenizou pela estréia. Olhei fixamente em seus olhos desconfiada se não era Rafiki, o amigo conselheiro de Simba, disfarçado. Fiquei sem saber.

Muita gente pensa que as mudanças importantes que realizamos na vida são fruto de grandes resoluções como entrar para um doutorado, emagrecer vinte quilos, parar de fumar ou deixar que lhe roubem um beijo. Pode ser. Mas algumas vezes, são as atitudes aparentemente pequenas – como dar um simples mergulho com uma roupa de borracha – que nos transformam por completo.

mergulho

Foto de Marcello Teixeira, a quem dedico esse texto.

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Questão de Postura

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Como já disse em outros textos, eu circulo pelo Rio de Janeiro do Oiapoque ao Chuí. Moro em Madureira, mas frequento os mais diversos tipos de ambientes da Cidade Maravilhosa. Vai da vontade do dia. Posso sair de uma sessão de um cinema mega cult em Botafogo direto para uma sessão espírita em Cavalcante (para quem não sabe, Cavalcante é um bairro inexplicável no subúrbio do Rio). Subo o Pão de Açúcar a pé e volto de BRT para casa. Adoro o Buraco da Lacraia. Sou dessas.

Observo coisas por onde ando e a Zona Sul do Rio também é o meu lugar. Portanto, trago orientações de como fazer bonito e ser enturmado rapidamente por alguns grupos bem típicos dessa região.

A despeito de muitos andarem com sapatinhos, bolsas e camisas de marca em lançamentos de livro nas bibliotecas do Leblon, se você disser que está indo para Miami comprar roupas, alguns irão te olhar como se você fosse leitor de Paulo Coelho. Melhor dizer que está indo para o centro histórico de Bérgamo, uma cidade na Itália, ver umas roupas artesanais em uma feirinha de coisas usadas que ocorre sempre na Primavera. Vão te adorar de cara e dizer que a feirinha é ótima – ainda que você não faça ideia de qual região do seu cérebro você tirou aquilo. Não faltarão dicas de brechós onde você possa ir por aqueles lados.

Se quiser que te aceitem, jamais revele que fez uma excursão na Europa pela CVC. Será discriminado como são aqueles que sabem todas a coreografias das músicas de axé. Para ser bem tratado como os que adoram queijo muito mofado, tente dizer que pensa em voltar a Europa para fazer o Brit Movie Tours. Mas se prepare porque vai chover de gente falando de outras caminhadas cults com temas de arquitetura, artes de rua, espionagem e outros motes que você nem sonha que exista.

Faça como eu. Divirta-se com essa trupe. Nunca perco a oportunidade de sondar se eles foram ver a exposição permanente do Pierre Choinier em Paris. Adoro fazer essa pergunta porque sempre tem mais de um dizendo que sim. Pierre Choinier, para quem não sabe, é um grande artista renascentista francês inventado por mim na década de 80 em uma apresentação da escola quando o professor pediu para eu citar o nome de um pintor famoso e contar um pouco sobre ele em um trabalho oral. Ganhei 10 e, desde então, aprendi a blefar com maestria.

De vez em quando, esqueço e dou uma rateada. Confesso empolgada, sem querer, que fui passar Lua de Mel em Cancun. Jamais, eu disse jamais, façam isso quando estiver no meio dessa tribo específica porque eles vão achar que você mora na Barra. Nada contra a Barra, diga-se de passagem. Puro preconceito mesmo dessa gente. Se foi a Cancun, diga calmamente que foi para um lugar onde pode ver as antigas civilizações maias, astecas e toltecas, que esteve no Complexo de las Monjas e que a astronomia, a geometria, a matemática, a engenharia e as artes plásticas dos Maias são de cair o cu da bunda. Não. Perdão! Jamais fale assim. Fale que Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro González Iñárritu fariam a festa com aquele cenário. Pronto. Verás orgasmos múltiplos e serás invejado por ser burguesia-cultural-nível-hard. Vão te achar hiper cool. Depois me conta.

Se souber se comportar direitinho, você tem o mundo em suas mãos. Por exemplo, sempre que chego aqui na minha vila em Madureira e encontro meu vizinho lavando o carro na calçada, dou um berro:

– Fala, corno! Teu time, hein! Vou te contar!

Ele sempre me mostra o dedo do meio e depois me joga um beijo. Não faço ideia para quem ele torce e o campeonato que esteja rolando…

É o que eu digo sempre, tudo é questão de postura, gente.

 

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Coletor Menstrual

sonho

Semana passada comprei o tal coletor menstrual. Muitas mulheres já o usam há tempos. Eu não. Demorei. Relutei. Mas semana passada, enfim, comprei.

Sou dessas que compartilham até esse tipo de coisa publicamente porque sei que, em termos de angústias e medos, nunca estamos sozinhas nesse mundo seja lá qual for a origem deles.

Dois dias depois, a budega chegou. Abri a caixa com aquela ansiedade de quem recebe um presente de surpresa. Rasguei todo o papelão com uma faca e tcharããã! Gente… é isso mesmo?

Homens, essa postagem não é para vocês. A partir de agora é papo reto só com quem tem útero. Vou contar intimidades. Por favor, saiam.

Então, meninas, para quem ainda não sabe, o coletor é do tamanho de um copo de cachaça. Todo feito de silicone maleável e coisa e tal. Mas é grande. Não parece com aquele chumacinho de algodão dos absorventes internos. Tenso. Tem jeitinho de colocar mas, repito, é grande. Tipo um quinto do bilau do Zulu. E fica ali encaixado por umas oito horas se a gente quiser.

Como assim vou ficar andando com um copo inserido dendimim? Não vai incomodar?

E dá-lhe vídeos na internet. Como insere, como tira, como limpa, se pode correr, se pode machucar…

Fiquei com medo de não conseguir tirar e meu corpo fagocitar a parada. Depois lembrei que pari dois de parto normal. Cada criança que saiu de mim tinha mais de três quilos. Na pior das hipóteses, daria a luz a um coletor fazendo força. Moleza para mim.

Sei que nunca desejei tanto uma menstruação na vida. Nem na época em que suspeitei que estava grávida fiquei tão animada quando ela desceu. Oba!!!!! Vou enfiar o coletor!!!! Que maneiro!

No primeiro dia, coloquei e tirei nem sei quantas vezes só pela ansiedade de ver o copo encher. Eu estava crente, pela sensação que temos, que eu vazava uma garrafa de sangue a cada meia hora. Qual o quê. Mega sem graça. Em uma hora, sai quase nada.

Meninos! Ainda aqui? Aff. Bando de fofoqueiros.

Depois que a gente tira, a gente cheira. Normal. E essa foi outra surpresa. Nenhum mau cheiro. Aquela nhaca que sentimos com os absorventes ocorre porque o sangue entra em contato com o oxigênio. Se isso não ocorrer, zero odor. Vivendo e aprendendo.

Passei o dia entre ler, preparar palestras, cuidar de filhos e enfiar e tirar o coletor para ver o nível da parada. Vale observar que temos que lavar bem as mãos antes de brincar disso. Fiquei chateada por dois motivos naquela segunda-feira. Zero mensagem do crush e o pior: não consegui ver meu copinho cheio nem uma vez. Mais essa para lidar…

Fora isso eu pulei muito e dei umas cambalhotas na cama para ver se ele não ia sair mesmo. Não sai. Beleza.

Chegou a noite. Pode dormir com ele? Pode. E é a oitava maravilha porque não incomoda nada e nos sentimos sequinhas e limpinhas. Acordei. Fui fazer xixi. Pode fazer xixi com ele? Pode. Precisa tirar? Não. Mas era de manhã e tirei.

Ah gente que alegria! O copo lotado! Joguei tudo no vaso e lavei meu coletor cantarolando toda boba às cinquemeia da manhã.

Então é isso. Essa é a novidade da vez. Sei que muitas já usam, outras ainda têm medo e mais uma galera ainda desconhece.

Gostei. Achei bem higiênico e não faz lixo. Isso fez com que eu me sentisse melhor também. Ah! Quase não se acha em farmácia para comprar. Bem mais fácil conseguirmos pela internet.

Agora tô aqui vendo modelinhos de panelinhas para ferver meu novo bichinho de estimação. Mega divertido ser mulher gente. Adoro.

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Sobre o Fim.

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Muitos ficam horrorizados quando um casal que transpirava união, cumplicidade e que vivia sorrindo para todos se separa. Não faltam pessoas desesperadas dizendo que não acreditam mais no amor.

Deixem disso. Trago um alento.

Primeiramente vale observar que os casais que não se separam nem sempre são os que se amam até a eternidade. Muitas das vezes, eles apenas se aturam até que a morte os separe. Viver junto, portanto, nada tem a ver com amor. E o fato de um casamento acabar não quer dizer que ele deu errado. Pelo contrário. Pode significar que foi uma união perfeita e que de tão primorosa vale até a pena proteger o amor de ontem do feijão com arroz rotineiro e do conformismo com o hábito.

Separar-se pode simbolizar unir-se ainda mais. E, certamente não ocorre por falta de tentativas. Acontece que vem o dia em que percebemos que o único jeito de mantermos o casamento é com, pelo menos, um de nós se anulando. Então, é chegada a hora de trocarmos as rodas com o carro em movimento. Não é fácil. É muito além de díficil. É atemorizante, pois, não esqueçamos, estamos falando de uma relação onde ainda existe muito carinho. Proteger as lembranças, deixá-las intensas e belíssimas e amar de um outro jeito é uma forma de conjunção.

Por vezes, por medo de romper o relacionamento, vamos procrastinando uma decisão, protelando, empurrando com a barriga, com o estômago, com o coração apagado, com os olhos secos e, nessa delonga, as recordações vão se perdendo transformando-se em angústia, em indiferença, em desespero por não conseguirmos deixar de ser covardes e de pararmos de falar “e se…?”.

Daí, humanos que somos, tratamos de jogar toda a culpa de nossas frustrações, da falta de tesão, do nosso fracasso, de nossa irritação no outro. E, em muitos casos, quando vem a separação já por motivo de violência, traição, discussões plenas de falta de respeito, o casal já não é mais nada. Dois seres isolados querendo apenas a maior distância que conseguirem um do outro. A sensação de tempo perdido.

Não estou dizendo que se separar antes que o ódio impere se dá sem sofrimento. De forma alguma. A dor nos acompanha de segunda a sábado e domingo, esse dia que se morre em vida, entramos em desespero achando que nunca-jamais-em-tempo-algum seremos de novo felizes.

Isso porque uma mentira contada muitas vezes, já dizia minha avó, se torna verdade. Daí que acreditamos que há somente um jeito de sermos felizes cuja fórmula é o “dois em um” e que aspirações e desejos que ameacem essa relação devem ser reprimidos porque devemos “valorizar o que temos”. De imediato, vem o diabo da culpa que vai entrando como cicuta paralisando os músculos devagarzinho causando uma dor inenarrável. Mas passa. Chega sem demora o dia seguinte. Sabemos que os porquês de nos separarmos são muitos e variam conforme os dias vão acontecendo. Por incrível que pareça, podemos mudar sempre o nosso passado.

A verdade é que somos todos doentes, inseguros quer estejamos dentro de um casamento quer fora dele. A dúvida nos persegue porque vivemos sempre no rascunho, como disse Kundera. Mas quando há a cisão do casal que ainda se ama e se respeita, para além do despedaçamento dos bens materiais, unimo-nos nessa brutalidade do destino, encontramo-nos da ausência do outro como já não nos recordávamos de ter estado na presença.

As convenções que se danem nessa hora. Não há certo nem errado como em qualquer situação que envolva sentimentos. Ninguém tem culpa por querer, deixar de desejar e amar fora dos padrões. Ninguém peca por ficar ofegante de alegria em plena terça-feira.

Enquanto escrevia esse texto, meu ex-marido ligou dizendo que está com saudade de conversar com todos nós aqui e que vai vir jantar conosco amanhã. Adoro quando ele faz isso.

Entendam, então. Não se trata de fracasso. Não há como definir esse processo e é em nome dessa coisa indecifrável que sempre nos faz estremecer de tanto sentimento que declaramos o fim do casamento e não de uma relação.

É uma forma de amor que não é aquele eterno dos cinemas, mas que também não tem fim.

Portanto, podem continuar acreditando nele.

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Mãe, estou apavorado. Acho que vou ser gay.

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Hoje, dia 01 de outubro, comemoramos aqui dez anos de Yuki que estreou no dia 27 de setembro. Fiz o que ele me pediu: queria passar o dia com seus melhores amigos. Isso significou que desde às 11h da manhã de hoje até às 20h a minha casa estava com dez meninos. Está tudo de cabeça para baixo aqui. Ou seja, estamos todos mega felizes porque tudo correu na mais perfeita ordem.

Passamos o sábado entre brincadeiras e algumas observações sobre o dia de amanhã. Agora, antes de dormir, Yuki veio me perguntar se Crivella era homofóbico.

– Tudo indica que sim, Yuki. Ele já fez discursos falando que homossexualidade não é coisa de Deus.

– E Pedro Paulo?

– Este bate em mulher. Machista. Se é homofóbico não sei mas, a julgar pela postura, não duvido.

– Por que as pessoas são assim? Por que se irritam com o outro se o outro nem se mete na vida delas?

– Não sei, meu filho.

– Eu não quero ser gay, mãe. Não quero ter que lidar com gente assim.

Oh, Senhor. Era só para dar um boa noite e ele me vem com essa? E lá vamos nós porque mãe não pode perder oportunidade…

– Bom. Duas coisas. A primeira é que isso não é uma opção. No momento certo, você vai saber o que te atrai. Se é mulher ou se é homem. Mas você agora está muito novo para pensar sobre isso. Segundo, ainda que lááááá na frente você queira namorar só mulheres, a homofobia vai continuar sendo um problema seu sim senhor.

– Mas eu não terei medo das pessoas me maltratarem.

– Mas terão outras sendo maltratadas e, enquanto houver gente sofrendo, isso diz a nosso respeito porque o mundo é um só e temos todos a obrigação de fazer dele um lugar bom de se viver para qualquer um. E se você pensa que não é problema seu, saiba que está tudo interligado. Mais cedo ou mais tarde você vai ver como fazer o bem é contagioso e idem com o mal. E mais! Você vai ver como tudo nos atinge…

– Mãe, a verdade é que estou apavorado. Eu não quis chamar meninas para minha festa. Eu acho que vou ser gay.

– Ué. Normal só querer andar com meninos na sua idade. Isso não diz nada a respeito de sua sexualidade no futuro. Há muitos homens héteros que quando criança agiam exatamente assim como você hoje. Mas já disse, Yuki, está cedo para você se preocupar com isso. Daqui a uns dois anos, talvez tenhamos algumas indicações, mas agora não. Você é ainda uma criança.

Agora perceba… vai que você seja gay ou bi. Se eu pensasse, como você pensou agora há pouco, que pelo fato de eu ser hétera não preciso me preocupar com homofóbicos e não tivesse levantando essa bandeira contra a homofobia em cada oportunidade que tive para fazê-lo, a sua vida já ia ser muito mais difícil. Percebe como é importante cuidarmos uns dos outros? Tudo é uma coisa só, meu filho.

– Entendi. Se eu não for, meu filho pode ser…

– Justamente! Ou seu amigo, por exemplo. Já pensou ver o Nikolas apanhar ou morrer porque é gay?

Tive que parar de falar. Yuki começou a chorar. Ele é desses que sofrem quando entendem tudo.

Abracei-o como abraçamos um objetivo.

– Gostou do seu dia?

-Amei, mãe…

– Vamos fazer mais isso independente de seu aniversário?

– Pode, mãe?!

Pronto. O rosto já mudou e consegui reverter aqueles pensamentos… Conversamos sobre a farra que rolou aqui hoje. Ele chegou a gargalhar, até que finalmente dormiu.

Agora estou aqui pensando no que mais posso fazer para que, nos próximos anos, eu continue vendo esse sorriso estampado no rosto de um filho que tanto sonha…

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