A Solução

garfo

 

Uma chamava-se Almira e a outra, Alice. Em ambas, a beleza – tal como muitos a consideram -era parca. O criador, se existe, não teve a menor paciência em esculpi-las. Para Almira, digamos, Ele colocou barro demais de modo que ela tenha ficado com um formato extremamente côncavo vista de alguns ângulos e planos em outros. Não satisfeito, aplicou-lhe poucos cabelos. Em Alice, a firmeza nas mãos terminou justamente quando se modelava o rosto. Míope de oito graus, bem dizer, Ele foi justo com o nariz que de tão grande sustentava de forma satisfatória os óculos. Os dentes eram tortos e Alice, somente depois de adulta, teve dinheiro para tentar amenizar aquele descuido da natureza e começou a usar aparelho. E era com ele que estava quando foi morar com Almira que adorava todas as comidas que brilham muito.

Almira e Alice, suburbanas de berço, se conheciam desde os tempos de escola e resolveram dividir o aluguel de um apartamento em Botafogo. Almira trabalhava no banco. Era gerente. Conversava muito com os colegas e invejava os problemas que eles traziam de seus relacionamentos. A que trabalhava no caixa, por exemplo, vivia reclamando que o marido isso o marido aquilo. Almira ouvia cada reclamação desejando que um dia proferisse algo parecido. Seu companheiro de sala, outro gerente, queixava-se da adolescência dos filhos e da instabilidade emocional da sua cônjuge. Almira, cheia de carnes, gorduras e potencialidades para ser esposa, mãe, casada, enfim, plena de desejos de não lhe pertencer por completa, cobiçava cada analgésico tomado pelo seu vizinho de mesa pela desobediência dos seus meninos e pela bipolaridade, chamemos assim, de sua mulher. A cada desabafo dessa natureza vindo de seus amigos, Almira comia chocolate para tentar aliviar um pouco o vazio que sentia por não ter de quem reclamar.

Alice era bibliotecária. Foi moradora de Realengo por anos de sua vida em uma casa com mangueiras no quintal. Seu pai e sua mãe, que vivem lá até hoje, além dela, tiveram mais dois filhos. Todos batizados. Os outros já eram casados e tanto o pai quanto a mãe de Alice não concordaram com ela sair de casa sem passar pelo matrimônio. Pela distância do seu trabalho que lhe cansava não a beleza que não tinha, mas sim o corpo frágil e o rosto torto, Alice resolveu encarar as críticas de toda a família e foi morar com Almira que exagerava no rímel e no perfume todas as manhãs.

Já se iam dois anos morando naquele apartamento. Se antes nunca foram vistas namorando, durante esse tempo morando juntas, não foi diferente. Não eram de sair em companhia uma da outra. Cada uma tinha seu grupo de amigos e Almira gostava de ficar em casa enquanto Alice era dessas que não perdia um filme bem avaliado pela crítica internacional. Não raro, as ruas de Botafogo testemunhavam os suspiros de Alice após as sessões de cinema.

Almira e Alice ardiam em sua solidão como aqueles que moram no inferno devido a seus tantos pecados. Ao trancar as portas dos quartos, as duas, secretamente, mexiam em si mesmas. Alice colocava seus óculos na cabeceira já que eles sempre embaçavam e Almira, o chocolate em lugares onde não dava para sentir o gosto, somente percebia sua textura que mudava com o calor vindo de suas fendas e cavidades.

Até que aconteceu.

Foi exatamente enquanto espetava uma batata que se deu o fato.

Não se sabe exatamente o que se passou na cabeça rala de Almira enquanto fazia a janta e olhava para aquele garfo mas, ao ver Alice sair do banho, chamou a amiga.

– Sente-se aqui que preciso lhe mostrar uma coisa – disse com a firmeza de quem viu uma solução.

Alice, que não tinha pressa naquela noite de quarta-feira, atendeu-lhe prontamente ainda que com pouquíssima curiosidade. Ao sentar-se, Almira com o garfo em riste olhou Alice de uma forma que toda a miopia parecia ter desaparecido. Alice, assustada, enxergou a gravidade. Tentou se levantar, mas Almira a segurou.

– Fica quieta. – ordenou de forma ríspida mas delicada porque, nesses momentos, a lógica vai passear e os paradoxos fazem a festa.

Alice tentou mais uma vez se desvencilhar de Almira que se mantinha determinada em sua ação.

– Fica quieta! Me obedece! – falou com mais secura enquanto arrancava a toalha que cobria o corpo de Alice usando (de forma precisa) aquele talher com pontas.

– Almira, para, por favor… – pediu Alice desesperada por estar vivendo algo que seus pais não aprovariam.

Almira, surda à voz de Alice mas atenta a outros sons, pegou os braços dela com firmeza depois de jogar o garfo longe, deitou aquelas peles murchas no sofá, sentou-se em cima de Alice sem pesar e foi com sua boca de forma suave direto aos mamilos de Alice.

– Para, Almira, para! – lutava Alice sabe deus contra o quê meu deus.

Almira era, em parte, bruta para poder domar Alice. Em outra, totalmente graciosa com sua língua que percorria os seus seios. Com uma mão, segurou firme as duas de Alice mantendo-as acima de sua cabeça. Com a outra, acariciou lugares onde Alice jamais tocara. Até que Almira percebeu que não mais precisaria usar força nenhuma e soltou Alice de cuja boca aberta reluzia o seu aparelho.

– Fica assim, Alice. – disse Almira enquanto abria-lhe as pernas e pegava um pedaço de chocolate fazendo um uso dele que, dessa vez, sentia diretamente o seu sabor misturado com a umidade que brotava de Alice.

Após aquela noite, outras tantas iguais ocorreram, mas com inúmeras variações (ah os paradoxos. Eles…) que poderiam ser descritas, a despeito de meus freios, caso eu não soubesse que todos conseguem muito bem imaginar.

Alice, no entanto, começou a ter pesadelos. Teve que iniciar terapia, visitava os pais com mais frequência pela necessidade vinda de um passado recheado de discursos onde a cultura patriarcal era passada como se fosse genética de família. Guiada pela culpa, afastava-se de Almira que tudo percebia e ria (como os margaridas) sabendo que Alice não a abandonaria porque por ela estava apaixonada.

Com todo o amor que lhe cabia, Almira conversava e tratava de desanuviar a visão de Alice quando ela voltava. E Alice entrava por aquela porta de várias formas diferentes. Por vezes, gritando, por outras, emburrada. Uma só vez, com os cabelos de uma cor que Almira sempre disse que não gostava (mas, amou em Alice). Inúmeras, sedenta.

Nunca na vida Almira teve tantos problemas sérios de convivência para enfrentar. Por ser segredo, não os dividia com ninguém em forma de reclamação. Todos no banco, porém, perceberam a leveza que irradiava de Almira em forma de felicidade.

 

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Esse texto foi inspirado em um homônimo de Clarice Lispector que dá um outro destino para o garfo.

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Arquivado em Crônicas

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