Lugar de Fala. Lugar de Silêncio.

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Não faz muito sentido essa história de que só mulher pode falar sobre o machismo (depende do momento, vale observar), só LGBTs podem falar de LGBTfobia, só negros sobre racismo e por aí vai. Como já observado, precisamos trabalhar na coletividade para poder discutir também, numa outra perspectiva, sobre assuntos que tocam a todos como reforma política, cortes de gastos na Educação e Saúde e reforma da previdência, por exemplo.

Se começo o meu discurso falando sobre a necessidade de ser empático com os negros, mulheres, LGBTTs, deficientes físicos, pobres… devo dar o exemplo e compreender a revolta de pagar pelos pecados de outros e do homem branco em querer falar e ser impedido de se manifestar.

De fato, ninguém pode ser culpado pelo que os tataravós fizeram. Mas somos todos responsáveis pelos demais. Então, se alguém não se posiciona frente a uma atitude opressora e preconceituosa – seja ela de qual espécie for – ou silencia a voz do oprimido na sua vez de falar, esse alguém está corroborando para que a hierarquia permaneça entre nós.

O fato de alguém ser “macho” e tudo o mais que lhe enche de privilégios não pode ser sinônimo de “inimigo”. Ao fim e ao cabo, percebo  que “machos  bonzinhos” e “fêmeas revoltosas” falam da mesma coisa, querendo o mesmo mundo melhor, possuem um consenso na pauta mas, por estarmos em “lugares” diferentes, há momentos em que eu vejo, claramente, que é muito melhor um homem ouvir do que falar sobre feminismo, por exemplo. É extremamente difícil fazer com que muitos  entendam isso. No entanto, se pensarmos com calma, não é tão complicado entender o porquê eles não entendem. Basta mudar um pouco o ângulo de ver a coisa.

Explico-me a seguir.

Há vários tipos de conhecimento. Por exemplo, é possível que, em certo sentido, eu conheça muito mais a Itália – sem nunca ter pisado na Europa – do que alguém que tenha feito turismo por lá. Posso afirmar várias coisas sobre a terra de Galileu que não são do conhecimento dos próprios italianos. Quero dizer com isso que o acesso a um assunto (tema, conhecimento, informação…) é livre e qualquer um – independente de gênero, religião, cor da pele, preferência  sexual – pode conseguir.

Porém, quando falamos de dor e, se quisermos entendê-la, para ajudar a curar é bom que se ouça os feridos. Posso falar muito sobre a Itália, mas jamais proferir com propriedade sobre o que sentem os que lá nasceram.  Indo direto ao nosso assunto e deixando de lado os paralelos e as analogias, em determinadas situações, a problematização trazida pela reivindicação do “lugar de fala” faz todo sentido. Se quero conquistar a minha emancipação e mostrar que tenho (o mesmo) valor independente da autorização e da aprovação de um ser considerado socialmente superior (homem branco, heterossexual, cis e rico), ninguém melhor do que eu, portadora da experiência da opressão e do preconceito, para fazer isso. É preciso descentralizar o fazer pensar. Mas, mais do que isso, é preciso, em muitos contextos, que a fala seja em primeira pessoa e não em terceira. Isso tem muito significado para quem (dependendo de quem) ouve.

No caso dos movimentos feministas, por exemplo, estar entre mulheres e ouvir somente vozes femininas nesses debates nos ajudam a proferir palavras sem medo e criar mais segurança. É o famoso e necessário empoderamento. Precisamos nos sentir confiantes e aprender que podemos nos expressar. Isso ainda é muito difícil para muitas de nós que tivemos uma educação castradora e vivemos em uma sociedade machista. Então, quando uma de nós mais segura fala, outras começam a se inspirar. Se um homem nos tira esses importantíssimos minutos que sejam, pode resultar, naquele ambiente, em menos mulheres fortalecidas. O que seria um desserviço e não uma ajuda à causa por mais interessante que seja a sua fala.

Voltando ao paralelo com o saber de um italiano e o de quem pesquisou muito sobre a cultura da terra de Caravaggio, ainda que o estudioso queira falar sobre tudo o que leu e sua vivência intelectual (que não deixa de ser também um conhecimento verdadeiro), há momentos, se quisermos entender sobre sentimentos genuínos de quem vivenciou uma opressão, que a sabedoria do pesquisador pode ser prejudicial se significar o silêncio de quem precisa gritar.

Ainda não entendeu? Tentemos mais um pouco: se um homem branco endinheirado resolve falar sobre a condição subalterna da mulher para várias mulheres negras, por exemplo, ele reforça a hierarquia e anula, na prática, o conteúdo do seu discurso, dependendo do local e do momento em que isso seja realizado. Dito de outro modo, o lugar de fala pode auxiliar pessoas a compreenderem como o que proferimos e como o fazemos reforça as relações de poder e reproduz, ainda que sem querer, os preconceitos de classe, de gênero e  religiosos.

Se o discurso e o movimento são emancipatórios eles devem ser proferidos pelos oprimidos para lhes dar legitimidade. É necessário dar espaço para as pessoas contarem como é a vida delas a partir das suas experiência. Caso as silenciemos, a “experiência” contada e a visão proferida será sempre a do homem branco, que é o privilegiado da sociedade.

No entanto, vale observar, em outros contextos, é necessário que haja o diálogo entre os dois extremos (homem, branco, hetero, classe média/alta, sem deficiências versus mulher, negra, transexual, classe baixa, com deficiência, por exemplo) porque o aspecto relacional é importantíssimo na desconstrução social das diferenças.  As experiências individuais são muito importantes e bem vindas para uma reflexão sobre como construir um denominador comum para a coletividade.

A agressividade que emerge nos movimentos gritando um “cala boca, macho branco” quando o ideal seria “dá licença, deixa eu falar pelamordedeos” é compreensível porque todos estamos muito cansados e somos muito emotivos nessas horas. Não aguentamos mais ouvir que a nossa dor é mimimi, que estamos problematizando tudo, que tudo está muito exagerado sendo que mal começamos.  É muita opressão em cima de um tiquinho de luta. Entenda que não é pessoal, tente reconhecer seu lugar de fala e seus privilégios. Procure enxergar que, dependendo do local, o seu silêncio contribuirá de forma muito mais eficiente para o empoderamento dos oprimidos. É necessário romper com os regimes de invisibilidade impostos sobre esses segmentos fragilizados.

Mas, em se tratando de ser humano, nada é tão simples. Podemos ter casos como Fernando Holliday, um jovem político liberal, negro, gay e periférico, que tem utilizado o seu lugar social para defender pautas contrárias dos movimentos liderados pode negros, gays e periféricos. De onde concluímos que a voz do oprimido não é sinônimo de verdade objetiva (ela existe?). Sabemos que há mulheres que falam mal do feminismo mesmo sofrendo com o machismo diariamente.

Para conhecer não é suficiente viver (ainda que seja necessário dependendo da pauta). O conhecimento se dá através de outros meios e não há fórmulas certas para que isso ocorra. Pode vir no trabalho, na conversa com um desconhecido, na leitura de um livro, ao ver uma maçã cair… Sei que a cultura nos cega por demais e a nossa é estruturada em uma sociedade, por essência, excludente. Não é nada fácil sermos empáticos dependendo da miopia causada pela nossa educação.

O caso de mulheres que repudiam o feminismo e dos Fernandos Hollidays na vida mostra que o protagonismo deve ser dado ao oprimido, mas isso não pode significar um privilégio epistêmico, ou seja, que determinado tipo de pessoa teria acesso privilegiado de uma verdade universal (se é que ela existe…). O conhecimento advindo pela vivência deve ser sempre considerado, mas está longe de ser suficiente para melhorar o coletivo. É necessário o diálogo e o respeito entre todos os envolvidos.

Se quisermos avançar, penso eu, devemos ser se não empáticos (o que é  muito difícil), ao menos, mais esforçados em entender. Entrar em um debate procurando algo para atacar, rebater ou simplesmente sair se defendendo e falar e não para ouvir e, depois, debater e aprofundar só contribui para aumentar nossas diferenças e enfraquecer a luta dos oprimidos.

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