Amando novamente

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Depois que eu me separei e de ter passado por uma crise depressiva, fiz tudo o que ensinaram os monges budistas, os psiquiatras, Simone de Beavoir e a Tati Quebra Barraco. Procurei me bastar, ser feliz sozinha…aquele papo né, não somos metade de nada. Somos inteiros. Não podemos colocar no colo do outro a responsabilidade por sermos felizes. Ok. Procurei assimilar isso.

Foi um puta aprendizado. Digo, ser mãe de três filhos, resolver problemas elétricos dentro de casa, vaso entupido, fazer compras, viajar para congressos, dar aula alucinadamente, escrever quando bate inspiração, levar filho na escola todo dia, tentar publicar meus livros custe o que custar, ler sem ter com quem conversar sobre tudo o que pensei, passar finais e finais de semana sozinha em casa produzindo, fazer exercícios físicos, enfim, aprendi com muito custo – mas aprendi – a ser a mulher maravilha.

Durante esses anos, recusei-me a ser chamada de namorada, a despeito de talvez ter sido. Não queria envolvimento com mais ninguém, dizia. Compromisso para quê? Dar nome ao que sentimos com qual objetivo? Apenas me leve para passear e me dê sua companhia. Assim seremos sempre livres, leves e felizes, dizia toda segura de mim. Você pode sair com quem quiser, não quero exclusividade. Se eu for sua prioridade, já está ótimo. Dizia enquanto sentia que havia evoluído espiritualmente e me tornado uma mulher-super-cabeça-mega-bem-resolvida.

E assim, de fato, percebia a tal da paz.

(Aquela insossa)

Mas paz.

Zzzzz.

Até que aconteceu algo inesperado. Conheci alguém que me mostrou que eu não estava evoluindo e sim morrendo. Por um motivo desses que não tem explicação, ao beijá-lo, uma descarga de serotonina, endorfina, adrenalina, e mais outros hormônios começaram a circular no meu corpo e eu sem saber o que era aquilo tudo… Perguntava-me por onde andavam os budistas e Beauvoir, e mais: por que estava vendo a explicação do que sentia nas músicas de Weslley Safadão e Fábio Junior e não mais nos livros de grandes filósofos?

Daí bateu medo, insegurança, desespero, aquela independência toda foi para o ralo antes do estalar dos dedos. Felicidade foi saber que havia simetria nessa doideira chamada (por quem já sentiu algo similar) de amor.

Parafraseando o poeta, nunca a metade foi tão inteira, numa medida que se supera. Metade era eu, a companheira. Outra metade era ele que eu era.

Não conseguia mais me definir sem falar em seu nome. Não conseguia dar nome ao que me definia. Não bastava estar perto, queria ele dentro, não bastava ele dentro, queria a transposição dos corpos. Estava superlativa, transcendendo e transbordando ao som de sinos, tóins tóins tóins de martelos de borracha na minha cabeça e música sertaneja.

Ressuscitei no terceiro beijo.

Sentia-me viva de novo.

Acordada e disposta a envergonhar Confúcio, Nietzsche, Sartre e minha mãe (mais uma vez…).

Preparada para sofrer e pular no precipício de braços abertos com um sorriso de orelha a orelha.

E assim o fiz. Surpreendentemente, caí em uma cama elástica armada por ele que me esperava nela de braços abertos.

A cama não aguentou.

Rompeu.

E estamos agora no chão quebrados em vários pedacinhos, juntando-os e misturando as peças, gargalhando com a bagunça que estamos fazendo.

8 Comentários

Arquivado em Crônicas

8 Respostas para “Amando novamente

  1. Santa identificação! Separação recente, três filhos, percalços domésticos, mania de escrever… estou a ler minha vida na sua crônica… e a vida é mesmo crônica, né!

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  2. Ana Paula arias

    Linda!!!!!

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  3. Denise Quélhas Cardoso

    Hehehe… Muito bom! :*

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  4. Gilberto Barros Vieira

    Isso é pura paixão!!!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Bom ler histórias assim! Com a limitação da teoria e surpresas da realidade! Bonito texto!

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  6. Elcio Silva

    Como sempre, impecável!
    Muito bacana o texto.
    Parabéns.

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  7. Adorei, ri muito e também dei uma choradinha. Parabéns, Elika, seus textos são muito bons!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Jackson Britto

    Muito bom!Muita sorte no amor!!!

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