Até breve, Juazeiro do Norte

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Estou aqui no aeroporto de Juazeiro do Norte esperando meu avião para o Rio. Vim até essa terra através de um convite de uma professora para dar uma palestra no Encontro Pedagógico no Instituto Federal do Ceará. Eu imaginava que seria um momento especial como costuma ser cada viagem que faço a trabalho. Pisar em um lugar no qual nunca vimos sempre é algo ímpar a ser experimentado.

Mas não esperava que sairia daqui tão transformada.

As professoras que me receberam, Joquedebe e Roberta se tornaram bem íntimas na primeira noite. Não estou falando em terem sido simpáticas. Não. Já fui recebida com muita educação e sorrisos agradáveis em outros lugares.

Fora isso, sou amiga virtual há um ano de George Macêdo, um rapaz que me chamou a atenção pela sua inteligência e sensibilidade. Publicitário esperto e antenado, vale observar, assim que soube que eu viria a Juazeiro se prontificou a fazer as honras da casa. Fofo.

Inicialmente, eu, anti social e desconfiada, agradeci a todos eles que se ofereceram a me apresentar a região do Cariri. Combinei um café com eles separadamente e me programei para fazer tudo sozinha (como sempre prefiro) no meu dia de folga que foi ontem, no sábado.

No primeiro café, já estávamos (sabe-Deus-como-isso-aconteceu) todos juntos conversando sobre alegrias e angústias. George se integrou rápido no grupo das professoras e formamos um time que saiu na sexta à noite e que, no dia seguinte, passaria horas passeando, chorando, gargalhando e almoçando pelos melhores pontos turísticos daqui.

Tudo foi tão intenso e impossível de ser contado que é mega passível de ser considerado uma “fanfic” ainda que seja narrado de forma resumida. Mas vamos tentar.

George, completamente ateu, ajudou Roberta – que está naquela fase de sofrência – a receber a graça do Padre Cícero depois de ter dado a ideia de ela levar seu coração como oferenda no santuário do padroeiro. Roberta, que ouve atenta qualquer um que lhe aconselha, entendeu tudo ao pé da letra e, ao visitarmos um local de esculturas, foi direto ao artesão pedir para que ele esculpisse um coração (Oi? Como assim?!, pensei). Quando o objeto estava quase terminado, Roberta recebeu o telefonema esperado por meses do seu amor e desatou a chorar emocionada com o milagre.

Eu que também estou amando e sem saber o dia de amanhã e que também sou ateia, mas de burra não tenho nada, fiquei boba com aquela graça alcançada com tanta rapidez.

Ao chegar no horto do Padre Cícero e me deparar com a estátua gigantesca, dei três voltas na bengala do Padre fazendo três pedidos conforme os seus devotos agem quando querem algo com urgência.

O primeiro pedido eu pensei no meu amor. O segundo dei uma reforçada no primeiro. E o terceiro pedido foi para que o segundo fosse levado super a sério. Tudo isso sendo testemunhado por George que me conhece bem das redes sociais e estava com o queixo no pé sem acreditar que me via tonta de tanto girar na estátua do padinciço feliz da vida porque iria passar o resto dos meus dias com mozão.

Depois, Roberta falou para eu amarrar uma fitinha na grade de padinciço e fazer um pedido quando desse o nó para dar aquela garantida.

Comprei dez.

Amarrei vinte porque Roberta está na torcida por mim e me deu o resto. Amiga de infância está aí para essas coisas. Joquebede que está super bem no amor e não acredita em nada daquilo tentava sem sucesso frear todas as nossas tentativas de amarrar nosso mozão para a eternidade e fazer com que eles rastejassem aos nossos pés. Bobinha a Joquebede.

Visitei as urnas de pedidos por escrito para Padre Cícero. Já estava completamente tomada pela energia mágica do local. Registrei com vontade no papel: “Amor para o mundo. Meu amor para mim.” Coloquei o bilhetinho com carinho na caixinha. Não segura desse grande passo e para deixar tudo bem claro fiz outro: “Favor dar um jeito. Foco no segundo pedido que é mais fácil de ser atendido”. Pronto.

Virei-me para Meca e fiz o sinal de cruz.

No local das graças alcançadas, regozijei-me com um vestidinho longo e branquinho. Desejei também.

À noite, fomos até à Igreja de Santo Antônio. Falaram para eu colocar a mão no pau do santo casamenteiro pensando em mozão. Enorme o pau do santo. Aponta para as estrelas de tão grande. Comecei timidamente alisando aquela maravilha e, minutos depois, para garantir, fiz meu pole dance à la Madureira no pau do santo.

Disseram para escrever o nome do meu amor naquela tora abençoada de Santantônho que não teria erro daqui para a frente com mozão. “Santo Antônio é porreta”, ouvi por ali. Não tinha caneta. Que desgraça… Ôxi!, disse uma encalhada que estava por perto e já havia rabiscado no tronco ereto. Pois tome a minha! Fofurésima.

Escrevi no pau inteiro. Arranquei uma lasca e vou dar uma água batizada para mozão assim que nos encontrarmos de novo.

Trouxe a foto dele e fizeram um boneco idêntico ao meu amor. Depois, me explicaram a arte do vodu. Nada como cercar por todos os lados. Amei essa terra, gente.

Na volta, Roberta fez questão de me tirar do hotel e me fazer dormir na casa dela. Como já éramos amiga de infância, eu, toda reservada, não tive como dizer não.

Tomamos café todos juntos hoje de novo. Conversamos sobre os problemas graves na Educação do Brasil. Combinamos de fazer um documentário já que temos material humano (publicitário foda, professoras engajadas e pedagoga marxista) para tocar esse projeto de cunho social para a frente denunciando o sucateamento das escolas públicas e mostrando, como disse Darcy Ribeiro, que a falência da educação pública é um projeto e não um acidente.

Almoçamos bolo de chocolate.

A despedida doeu. Queria ficar. Quero voltar. Amigos não se medem pelo tempo que os conhecemos e muito menos pelas horas que passamos juntos. A amizade é boa quando o amigo nos mostra um lado que nem sabíamos que existia dendagente e que nos surpreende pela transformação que nos causou para todo e o sempre.

Volto para o Rio melhor. Outro ser. Visivelmente bem satisfeita pelos rituais que experimentei. Mas, verdade seja dita, muito mais segura pelas trocas que vivi. O laço de amizade – dado com carinho nesses dias que aqui passei – é muito mais forte que todos os nós que dei naquelas fitas do Padre Cícero. E olha que não tem intempérie que desfaça aquilo…

As melhores viagens que fazemos são realizadas não pelos locais que passeamos, mas sim pelas pessoas com as quais interagimos.

Juazeiro do Norte, obrigada por sua gente.

Até breve.

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4 Comentários

Arquivado em Crônicas

4 Respostas para “Até breve, Juazeiro do Norte

  1. Jackson Britto

    Muito bom! Deve ter sido mesmo uma viagem fantástica, e o texto…….

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  2. Rapáizi! Homessa! Essamenina! Me senti no local. Como filho de nordestino que sou, foi como uma volta ao lar. Delícia de texto. Um abraço.

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  3. Denise

    Ri de chorar. Obrigada por trazer leveza a um dia que estava tão pesado. 🙂

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  4. Pingback: Até breve, Juazeiro do Norte – enrkpnnl

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