​O Brasil me obriga a rezar.

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Não perdoe, Pai, eles sabem o que dizem. Eles têm conhecimento de como Hitler agiu e incitou sua turba. Eles estão a imitá-lo, Senhor. O início é tentar desmoralizar o inimigo e tacar o terror na sociedade. Depois, eles se apresentam como salvadores da pátria.

Não perdoe quem os segue também, Senhor. A burrice não merece benevolência nesse caso. Ficam dizendo que querem um mundo mais limpo sem que comunistas erotizem ~nossas crianças~. Mesmo discurso dos fascistas, Senhor. Deus me livre. Aliás, nos livre disso, Senhor.

Logo eles, Senhor, que se calaram quando a Xuxa apresentava programas de fio dental, quando as mulheres eram mostradas seminuas em propaganda de cerveja nos comerciais de TV, em outdoors, em tudo qué lugar, Senhor. Era um inferno…

Logo eles que se faziam de mortos quando as pessoas perguntavam para as crianças com quem elas estavam namorando na escola, quando viram homens assobiando para meninas nas ruas (se não eram os próprios que faziam isso), que falam mimimi quando mostramos o número de estupros, que nunca lutaram para que tenhamos escolas públicas de qualidade já que seus filhos estão em escola particular, logo esses, Senhor, vêm dizer “salvemos ~nossas crianças~ dos comunistas”?!

Não os perdoe, Senhor! Castigue com toda a Sua fúria a hipocrisia.

Agora veja o tamanho do mau caratismo, Senhor. Outro dia mesmo saímos do mapa da fome. A mortalidade infantil caiu que foi uma beleza. Os pobres estavam conseguindo chegar às universidades, Senhor. Algo lindo de se ver. Eles, Senhor, Lhe agradeceram por isso? Sei que não. Só estavam aproveitando a deixa para dar um basta nisso já que falar abertamente que quer que pobre se lixe é feio.

Daí veio essa história surreal de tirar a Dilma para livrar o país da corrupção. Foi a deixa que falei. O que temos agora, Senhor? Mais crianças morrendo tudo de novo de diarreia e inanidade. Eles falam ~nossas crianças~ nesses casos, Senhor? E a quantidade de meninas que são prostituídas nos confins do Brasil? Cadê a preocupação com as nossas crianças, Senhor?

Mas daí pegam uma exposição daqui, uma performance artística ali (ok, Senhor, eu achei também nadavê mas não tinha nada de oh-meu-Deus) e ficam “nooosssaaa o que será de ~nossas crianças~ e o futuro do Brasil? Nossaaaaaa!”.

Não perdoe, Senhor. Não perdoe! Tudo falsidade. Bando de falsos moralistas, Senhor.

Há fome aqui no nosso país. Há prostituição infantil. Há casos de pedofilia sérios que nada tem a ver com posição política e sim com uma sociedade doente. Nossos homens não conseguem controlar aquilo que carregam entre as pernas, Senhor. E isso não tem ligação nenhuma com “ser de esquerda” como eles fazem que os imbecis que os seguem acreditem.

Eles não são tão burros a ponto de considerar que aquele artista pelado é um perigo, de fato, para a sociedade, Senhor. Mas são inteligentes o suficiente para fazer com os abobalhados que os idolatram pensem assim.

Poderia pedir para que o Senhor lhes dê livros. Mas ninguém lê nada por aqui. Aliás! Por favor, Senhor. Dê sim livros para eles! Aqueles bem grossos e bem pesados tipo a Bíblia mesmo! Mas taque daí de cima na cabeça desses canalhas.

Pai, não perdoe. Eles sabem muito bem o que dizem e estão cagando para as crianças do Brasil. Eles só querem manter os privilégios das crianças deles e agem dessa forma dissimulada.

Não abençoe, Senhor. Não perdoe.

Amém.

Abrindo as asas

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Dizem por aí que tudo tem fim e pelo que estou entendendo é verdade. Daí fico imaginando como será o nosso. Se até lá estaremos morando juntos ou nessa loucura de você pelo mundo e eu aqui presa nas minhas neuras.

Sejamos otimistas e juntemos nossos trapos em um local qualquer desse Brasil.

Certamente haverá um jantar em silêncio. Ambos cheios de novidades, mas sem vontade de compartilhar coisa alguma. Um de nós dois fez algo que feriu o outro. Não me ocorre nada agora pois tudo o que eu fizer jamais será para te machucar. Mas ainda assim, pode acontecer.

Do seu lado também.

Daí, nesse momento, devo chorar porque não lido bem com o fim de nada. Nem da tristeza já que a felicidade me assusta. Vou ficar me lembrando de tudo o que fizemos juntos.

Aquela primeira peça que você me ajudou a escrever. Aquela vez que você deu vida a uma crônica que fiz e interpretou um dos personagens. Aquele texto que fizemos juntos onde eu era um menino que fazia um desenhos malucos e você uma menina que roubava rosas. Aquela vez em que consegui decorar um conto de Clarice com sua ajuda já que nunca jamais em tempo algum consegui memorizar uma frase até então. Aquela música em que te ajudei a compor colocando o lá lá lá na hora certa. Aquela ciranda que dançamos juntos. Aquela viagem para o deserto que era meu sonho. Aquela cachoeira que tropecei, me machuquei e foi você quem chorou. Aquela festa com todos os nossos filhos. O primeiro reveillon que passamos juntos eu só conseguia ver o azul que te envolvia. Aquela tarde que dormi no seu colo profundamente enquanto você alucinava. Todas aquelas noites que passamos acordados. Aquela música que você compôs na clarineta para mim.

Aquele livro que escrevi só sobre você.

Pode ser que esse momento em que estaremos com trombas nos espere lá na frente quando teremos uma espécie de seca dentro de nós e não mais quinze anos. Mas, assim como enxergamos a água no oceano nos nossos pés ao mesmo tempo em que ela se estende ao infinito, podemos ter sorte e uma vida eterna pela frente. Ou melhor, duas bem vividas.

É que a ideia de que estou sendo feliz me atordoa e sinto necessidade de lembrar que o verão insuportável está chegando.

Pensando bem, não iria olhar para trás nesse dia infeliz. Acho que a história da mulher de Lot sendo castigada por Deus me traumatizou. Não sou dessas.

O que eu sei é que te quero e que você é louco por mim. Tivemos sorte em chamar de amor, palavrinha tão comum, algo que juramos não ter paralelo.

Surpreendentemente não tive medo quando mirei o precipício. Advinhei-me igual a você e sabia que, se eu pulasse, você não ficaria me olhando. Iria me respeitar e me desejaria ainda mais.

Viria atrás.

Posso me esborrachar, mas é certo que estou dando muitas piruetas antes. Talvez consigamos voar, mas só saberemos se abrirmos bem essas asas.

Portanto, abrace-me forte e continue atuando para mim.

Dizem por aí que tudo tem um fim e, pelo que entendi depois de olhar para tanto futuro, isso pouco importa.

O fim das escolas públicas no Brasil pelo Supremo Tribunal Funeral

Sem título

Está faltando amor no mundo mas também interpretação de texto, como disse Sakamoto. Acrescento: está faltando claramente contextualizar as informações.

Desde que tiraram Dilma da presidência, não economizamos em alertas de que o que motivou a interrupção do mandato não foi as tais pedaladas e muito menos a vontade de acabar com o corrupção do país. Basta olhar o histórico e a ficha de nossos deputados, senadores e daqueles muitos que vestiram a camisa da CBF para pedir o impeachment e veremos os interesses por detrás de tudo. O que queriam era instaurar um governo conservador – que jamais conseguiria vencer nas urnas – cuja base econômica está no agronegócio, historicamente alheio à questão nacional e à democracia. Quem nos governa hoje é o capital financeiro cuja articulação multinacional é  a principal ameaça ao conceito de Estado-nação, como todos estamos testemunhando.

Articulados social e culturalmente pelo discurso construído por uma imprensa monopolizada ideologicamente a serviço dos piores interesses da classe dominante são os que estão no poder depois desse golpe.

Tudo o que estamos vendo sendo votado e aprovado às pressas não seria possível se fosse submetido à opinião popular.  As pautas que estão passando representam  uma ruptura, a meu ver, muito mais profunda que a de 1964, e como esta o foi, só está sendo levada a termo por um governo ilegítimo, fundado num direito autoritário que o atual Congresso não titubeia em legislar.

Isso posto, vamos ao que aconteceu ontem quando o Supremo Tribunal Federal determinou que um Estado laico como o Brasil é compatível com um ensino religioso confessional, vinculado a uma ou várias religiões específicas, nas escolas públicas.

O que tínhamos antes disso era um ensino público religioso facultativo não confessional, ou seja, quem ministrasse a disciplina poderia expôr as doutrinas, as práticas, estimularia o debate sobre as dimensões sociais, refletiria sobre correntes não religiosas explicando o que é um ser ateu e agnóstico, enfim, poderia fazer nessa aula ponderações de nível filosófico, sociológico, antropológico ajudando o aluno a entender melhor as diferenças. O que o professor não podia fazer era propagar uma só religião e atuar como representante dela dentro das escolas públicas brasileiras, pois isso violaria a  laicidade do Estado.

Águas passadas. Ontem, isso tudo foi para o ralo.  A maioria dos ministros do Supremo considerou que há como pregar a religiosidade e crenças específicas em escolas públicas sim senhor.

Há quem acredite, diante dessa terrível conjuntura, que poderemos falar sobre as mais de cem religiões dentro das escolas. Eu gostaria de ter esse nível de ingenuidade, mas o crucifixo no plenário do Supremo, assim como o que vemos na Câmara, não me permite. Há quem bata na tecla que o ensino continuará sendo facultativo. Perdoe, Pai, eles não sabem que em muitas escolas, como foi apontado diversas vezes durante o julgamento, os estudantes são expostos a sérios constrangimentos quando se negam  a entrar na aula de religião. No mais, para aqueles que não conhecem a realidade de nossas escolas públicas, saibam que sequer há alternativas curriculares para quem se recusar a ter as aulas de religião.

Mas não é só isso. Larga de ser ingênuo e visite as escolas do seu bairro e fique sabendo que o ensino religioso já tem sido usado por determinados grupos religiosos que  disputam o Estado. E, assim como em muitas Igrejas, as escolas acabaram sendo também um local onde se propaga  intolerância e preconceito.

É de deixar o queixo caído ouvir pessoas dizendo que o ensino religioso será pluralista. Fico pensando onde essa galera vive. Cadê a “pluralidade educacional”até mesmo nas escolas que não têm o ensino religioso? Onde estudamos a história da África, onde debatemos os outros conceitos de ciência? Onde aprendemos que “devemos  estudar para ser alguém na vida” e que “ser alguém na vida” quer dizer ter muito poder de consumo? Onde aprendemos que se não ficarmos quietinhos e formos extremamente obedientes não iremos ter sucesso na vida, a dizer, dentro de uma empresa? Onde aprendemos a obedecer cegamente e sem questionar as ordens que nos são dadas? Onde aprendemos a só dar respostas e não a refletir sobre as mazelas do mundo? Onde somos desencorajados a descobrir que temos força para reverter todo esse quadro de desigualdade social? Onde aprendemos que o mundo é assim mesmo, que temos que aprender a nos comportar direitinho nele para termos “sucesso”? Onde aprendemos a não discutir sobre o quanto  a miséria é algo abominável? Onde não nos fazem pensar que jamais  deveríamos ficar felizes com a comida que comemos enquanto houver fome no mundo? Essa escola pública (municipal ou estadual) que busca uma “educação plural” está em que lugar do Brasil que eu, trabalhando há mais de 20 anos com isso, nunca vi?

Quando deveríamos, pela nossa realidade, lutar para acabar com o ensino religioso separado, desvinculado das aulas de história, de geografia e (por que não?) de ciências, quando deveríamos repensar se faz sentido essa disciplina em escolas públicas ou se a presença dela já por si só não constitui uma exceção, feita pela Constituição, à laicidade do Estado, voltamos dez casas e estamos discutindo se essa exceção poderia ou não estar vinculada a uma específica religião.

Foi como disse o relator do processo e defensor do ensino não confessional, o ministro Luís Roberto Barroso: “Vejo esta prova como uma discussão fora de época, entre iluminismo – que já no século XVIII pregava pela separação de igreja e Estado – e pré-iluminismo!”

Estamos acompanhando a recente ascensão do conservadorismo religioso e de suas expressões políticas nos poderes do Estado. Há uma forte corrente querendo a qualquer custo proibir o tratamento de temáticas relacionadas a gênero e à raça nas escolas públicas que em absolutamente nada tem a ver, como dizem os ignorantes, em sexualizar as nossas crianças.

E como disse no início dessa conversa, estão faltando amor no mundo, interpretação de texto e muita contextualização das informações. Entendam de uma vez por todas que nem tudo que é legal é legítimo.

O pronunciamento final do STF ontem não deixa dúvidas sobre a grande relevância da necessidade de uma forte resistência a essa onda conservadora. O que veremos, fiquem sabendo, é mais do mesmo, a dizer, o fortalecimento da imposição de pensamento “cristão”/evangélico, já que essa é uma bancada que só cresce dentro de nossa estrutura política. Nada contra nenhuma religião, vale observar, contanto que nenhuma delas seja imposta nas escolas públicas.

Cadê os educadores nesse debate? Por que não fomos convidados para participar? Como assim o STF está agindo como se esses ministros fossem políticos eleitos?

Este é um estado de exceção com sabor de fascismo.

A escola pública está morta assim como a Democracia no Brasil.

Batuquemos.

Pausa para o mercham

​Aqui. Só para as lindas.

Comprei uma parada aqui para passar na minha juba. A quantidade de cabelo que tenho é proporcional às minhas neuras e os meus fios são longos. Lavar essa peruca dá um trabalho da porr# e uma preguiça do c%r#lh*.

Passa shampoo. Enxagua. Passa condicionador com o cuidado de não colocar no coro para não me encher de caspa. Desembaraça tudo. Deixa agir um pouco. Enxagua bem…

E eu lá cantando Faroeste Caboclo dez vezes nesse ritual.

Daí fui ao supermercado hoje e vi uma parada que não é shampoo nem condicionador, mas disse na embalagem que lava, que eu ia ficar linda e que era uma aplicação só. Tudo em 1.

Eu que estava entediada com a vida, sentindo um vazio que não sabia se era fome ou saudade do Pipo ou tudo junto, cobra criada e ligada nas coisas boas que só o capitalismo nos proporciona que é tapear a tristeza, olhei aquilo e disse: é tu. Vem comigo.

Cheguei em casa, fui direto pro banho porque sou dessas. Mulher madura. Resolvida. Focada em ver se jogou ou não dinheiro fora.

O negócio não é barato. Vem um tubão do tamanho de um extintor de incêndio e só vende nesse volume. E é caro. Tipo 30 reais. Digo, se ficar bom tá bom mas se ficar ruim é caro. Vocês me entendem.

Na embalagem, promete lavar, condicionar e modelar. Ok. Acreditei porque sou dessas de confiar nas pessoa tudo.

Coloquei uma quantidade na mão. Falou para colocar pouco e mandarvê. Deus é pai.

Passei na cabeça. Não faz espuma nenhuma. Mega estranho. Senti que tinha jogado dinheiro fora. Droga.

Disse na embalagem para esfregar normalmente. E depois enxaguar normalmente. Tudo normalmente.

Nem precisa deixar agir não. Disseram.

Muito cabelo. Zero espuma. Consistência de creme… vai dar merda.

Pensei. Vou ficar igual a Maria Bethânia. Nada contra. Mas almejava algo como Gisele Bündchen.

Enxaguei. Zero espuma. Repito. Zero espuma. Saiu só água da minha cabeça praticamente.

Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça, me bota na boca um gosto amargo de fel… tava até vendo.

Secou naturalmente.

Estou linda, gente. Os cabelos estão soltinhos. Mega com brilho. E o melhor. Nem me lembrei de comer e fiquei cinco minutos sem pensar no Pipo. Assim. Direto. Inacreditável o que faz com a cabeça isso.

Tem para todos os tipos de cabelo.

Odeio fazer propaganda de graça mas vai que a L’oreal descubra a minha existência e me mande uma caixa com dez “Elseve Light-poo tudo em 1”. Réchi tégui L’oreal nunca te pedi nada.

A ideia é tirar mesmo as substâncias que fazem o cabelo ficar pesado como o sulfato (que faz espuma) e o petrolato (que não sei para que serve nem sabia que usava isso mas sei que sem ele ficou bem melhor).

Desse jeito. Lava, condiciona, modela e dá umas aliviada nas neura porque uma mulher feliz com seu cabelo é outro tipo de serumana.

Tô me sentindo.

Agora dalissensa que Nara chegou aqui com um potão de argila rosa que promete deixar a pele igual de bebê. Depois eu conto.

Tô ótima de cabeça gente.

Beijo obrigada denada.

Temas que me escapam

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Há tantas coisas sobre as quais gostaria de escrever. Pego-me pensando por que não o faço. Tenho medo de alguns temas, de tão extensos e confusos na minha cabeça, acabarem virando livros e me prenderem por meses, quiçá até o fim da vida. Outros, temo que se esgotem em uma frase ou um parágrafo. Tomo cuidado porque não sei o que pode me acontecer quando descobrir que o que vejo como um furacão que me atormenta e me faz correr em desespero não tenha força para girar meu catavento.

Eu gostaria de escrever mais do que duas ou três linhas sobre o meu corpo. Morro de vergonha dele desde que me conheço por gente. Não vou à praia, não frequento clubes e nunca ninguém me viu de biquíni.

Também me agradaria escrever um pouco sobre a minha alimentação. Já comi cobra, jacaré, coelho, tatu, certamente gato, tartaruga, mas hoje não consigo colocar um pedaço de carne na boca. Parece que estou comendo gente. Na gravidez do Yuki isso, estranhamente, aconteceu. Eu podia estar morrendo de fome e me oferecerem a picanha mais suculenta. Meu organismo rejeitava. Fiquei preocupada porque nunca havia sentido aversão à carne. Assim que ele nasceu, voltei a minha dieta carnívora sem problemas. Há dois anos, meu corpo passou a rejeitar qualquer alimento que, se vivo, teve um coração batendo.

Teria muito e ao mesmo tempo pouquíssimo para falar sobre o mundo atual: estamos todos cegos de ódio e estou muito cansada desse ambiente.

Tenho necessidade de escrever sobre o meu medo de dormir sozinha que enfrentei como uma criança: na base da porrada. Quando comecei a viajar por conta do meu crescimento profissional, simplesmente não dormia. Não descansava. Chorava no quarto de hotel sozinha de pavor. Semana passada estive em Joinville e, com alegria, declarei-me curada. Sabe deus o quanto eu sofri para alcançar essa liberdade de espírito.

Escreveria um tratado sobre o quanto acho ridícula a fragilidade de muitos homens e atraentes de tantos outros.

Gostaria de me aprofundar sobre minha inquietude e falta de foco para tudo. Não consigo estudar, ler, dissertar sobre uma coisa só. Ao completar dois anos de carteira assinada como professora de física, resolvi fazer faculdade fisioterapia e cheguei a cursar três períodos. Queria algo-nada-a-ver mesmo com o que estava trabalhando. As aulas de anatomia, no entanto, foram um obstáculo que não consegui superar. Ao ver um corpo cujas unhas estavam pintadas de vermelho, vomitei. Voltei chorando da Barra (onde era a faculdade) até Madureira. Trabalhava de dia e estudava à noite. Cheguei em casa e abracei muito meu filho Hideo e minha filha Nara. Yuki não era nem pensamento ainda.

Poderia escrever uma história mega engraçada de como menti descaradamente na entrevista de doutorado dizendo que sabia italiano. A minha tese, disseram, exigiria muitas leituras cujas fontes primárias eram todas no idioma dos mama mia, tutti frutti capuccinoÉ claro que você sabe, né? Perguntaram-me. Claro que sim, respondi rindo pensando comigo que merda e agora que só sei falar pizza? Um ano depois daquela tarde, já conversava com desenvoltura nessa maravilhosa língua. Em dois, estava formada pelo Consulado da Itália. Era mãe de três filhos na época e foi uma loucura.

Tenho muitas experiências quase inacreditáveis envolvendo um, digamos, contato com a quinta, digamos de novo, dimensão. Sou ateia mas não sou burra e muito menos desatenta. Deus não existe, mas há muita coisa além do que sentimos. Isso é certo.

Gostaria de fazer um texto sobre o fato de eu não ir mais a médico há cinco anos. Mas não quero falar sobre isso porque não estou disposta a enfrentar julgamentos e com medo de me rogarem praga. Se sentir necessidade, irei. Mas, por enquanto, só quero distância.

Dissertaria páginas sobre o quanto exercícios físicos me fazem bem por me forçarem a descansar a minha mente e o quanto odeio ter que fazê-los.

Adoraria redigir uma linda redação sobre a necessidade de me mudar desta casa e o tamanho da preguiça que tenho para isso. 

Sobre ser reconhecida nas ruas, teria muito a dizer também. Tenho achado estranho as pessoas querendo me abraçar, agradecer, tirar fotos. Gosto muito, mas não consigo me acostumar com essa ideia e aceitar que comovo alguém.

Das estações, ah como me faltam palavras para descrever o que significa para mim uma primavera…

Poderia ficar horas tentando explicar o quanto me sinto insegura em todos os ambientes que frequento e as manobras mentais que faço para lidar com isso. A menina que existe em mim, a despeito de eu ter tentado de todas as formas exorcizá-la, não sai. E ela ocupa um lugar que deveria ser de uma adulta que, apesar de inúmeras tentativas de fecundá-la, não nasce.

Um dia ainda escrevo sobre minha aversão a qualquer vestimenta branca. Depois que soube o que significa um vestido de noiva e a importância do branco no dia do casamento, prometi com meus nove anos que nunca usaria isso em mim. Todas as vezes que uso qualquer roupa branca me dá um mal estar. Definitivamente, não sou pura.

Sobre a minha solidão ininteligível e essa tarde de domingo intragável, escrevo outra hora. Fiquei procurando palavras que exprimam essa sensação e não achei nada que chegue perto.

Já roubei muitas rosas. Mas sobre isso jamais escreverei.

“Eu te amo, Elika”.

Alucinação

Lembro-me de que já não acreditava mais no amor. Não falo amor entre os seres humanos, mas no amor romantizado dos filmes. Depois de 25 anos com a mesma pessoa e de um casamento muito feliz com 19 bodas, alguns anos separada, um flerte forte com a depressão e de recentemente ter experimentado um breve relacionamento calmo, verde, altruísta em sua essência por não querer e muito menos exigir exclusividade nenhuma, achei que tivesse, enfim, evoluído – o amor é uma construção social e eu não cairei mais nessa.

Quando conheci Pipo estava, como dizem, inteira. Naquele dia, saí de casa, porém, com a clara e estranha sensação de que ia conhecer um grande amigo. O convite para nos encontrarmos partiu dele, muito tempo depois de eu tê-lo pedido em casamento em uma primeira troca de mensagens pelo twitter, mas isso já é uma outra história. O que me traz aqui nessa página em branco desse editor de textos é a vontade de tentar me recordar do que senti ao ouvir dele, pela primeira vez, que eu estava sendo amada depois de ter me desapegado por completo dessa ideia maluca.

Tenho a mania de dizer que as experiências dos outros não servem para mim de nada. Por tabela, as coisas que eu vivi não deveriam significar e nem serem usadas como exemplo para ninguém. O que foi bom para mim, pode ser horrível para você. Por isso, não suporto ouvir casos pessoais quando estou passando por problemas e evito falar qualquer coisa de mim para dar suporte à conduta de um filho, por exemplo. O passado de um terceiro jamais vai se repetir tal como aconteceu e não temos garantia de nada, portanto, não me serve como uma variável para eu colocar na  equação que vai resolver a minha questão ou me fazer ponderar sobre os próximos passos a serem dados por mim.

O que não contava era descobrir que o meu próprio pretérito completamente imperfeito também não poderia me servir como guia. Se assim fizesse, hoje, não experimentaria uma das coisas mais indescritíveis que insisto, paradoxalmente, em usar palavras para descrevê-la.

Muita gente diz que escrevo muito sobre mim mesma. Não ouço isso como critica, entendo até como uma certa admiração, pois sei o quanto é difícil ficar nua perante uma multidão. Escrever sobre o que penso não é, de fato, um exercício simples. Mas não escrever é algo, para mim, inalcançável.

Iludem-se, porém, aqueles que pensam que sabem muito ou tudo sobre a minha vida. Narrar minhas histórias é a melhor forma de me tornar uma completa desconhecida.

Vamos ao momento:

Até pouco tempo antes de conhecer Pipo, eu andava com um papo para lá de furado de que não precisamos dar nome para as coisas. Para que dizer “eu te amo”, por exemplo? As palavras nos escravizam, eu proferia outrora. Para que dizer que “estamos namorando” se não para dar uma satisfação para a sociedade? Questionava me sentindo uma monge budista.

Qual o quê.

A primeira vez que o trouxe para a minha casa, que foi um pouco depois de termos nos conhecido, na certeza do que estava sentindo era algo que beirava o assustador, avisei-lhe que o amava. Mas não assim diretamente. Fiz pior. Disse-lhe olhando fixamente para Pipo que ele não precisava me comunicar quando quisesse voltar. Era tudo extremamente recente em nossas vidas, eu sei. E se fosse refletir sobre todas as coisas que li e vivi, sequer aceitaria me encontrar com ele uma segunda vez. Falei, sublimando qualquer responsabilidade, que o lugar ao meu lado na cama era dele. E para sempre. Pois é. Desse jeito. Recordando disso agora nem eu acredito na ousadia do meu voar.

Nesse instante, já esperava, dentre tantas possibilidades, que ele catasse as roupas e saísse correndo daqui como muitos homens certamente fariam. Estava me lixando sobre o que Pipo pensaria a meu respeito e faria com essa informação. O tempo urge e é necessário falar o que se pensa quando estamos diante de uma certeza descomunal. Aceitei o risco como todo mundo que vive plenamente um segundo. Aceitei o risco não por uma escolha, pois sequer acredito em escolhas, mas por uma necessidade ontológica do meu ser. Meu instinto sempre precede a minha inteligência.

Pipo me olhava com os olhos arregalados com aquela pintinha que ele tem no canto do olho direito.

Após muitos beijinhos e carinhos sem ter fim, ele, no escuro, disse mais para ele do que para mim (assim pareceu-me): “Eu te amo, Elika”.

Eu, que já estava completamente drogada de tanta química diferente rolando em meu corpo e considerando o meu problema de audição, pensei que tivesse alucinado.

Levantei-me e disse secamente: vou beber água.

Desci enrolada na toalha. Cheguei à cozinha. Era de madrugada. Acendi a luz. Perguntei-me o que tinha vindo fazer na cozinha aquela hora. A toalha caiu. Não me importei, ainda que soubesse que a casa estava cheia de gente. Subi pelada. Entrei no quarto. Pipo estava no banheiro. Olhei para a minha cama vazia. Estava certa de que havia imaginado tudo e de que não havia ninguém ali comigo. Deu sede. Tornei a descer sem roupa nenhuma. Vi a toalha no chão da cozinha. Perguntei-me o que a minha toalha estava fazendo no meio da cozinha. Bebi muita água. Subi. Encontrei Pipo sentado com os olhos arregalados. Levei um susto por ele estar ali.

Será que havia eu escutado direito? Como poderia perguntar isso a ele? Você disse que me ama? E se ele dissesse não? Como lidar com isso? O que ele estava fazendo sentado na minha cama? Era ele? Meu amor?! Amor?! Um amor?!

Eram perguntas muito maiores do que eu e as respostas me levariam para um lugar que eu temia não querer e nem conseguir mais sair.

– Você está bem? Ele me perguntou já sabendo da resposta e sabe deus nosso senhor o que ele estava pensando. Porque convenhamos. Dizer eu te amo para alguém com tanto carinho e esse alguém ter a reação que eu tive deve desencadear uma série de devaneios suicidas.

Eu tenho vocação para amar. Não tive mais dúvidas disso assim que trocamos as primeiras mensagens. Por mais que tivesse repudiado a ideia e tentado me enganar para viver em paz, eu tenho sim vocação para amar. Mas vocação é diferente de ter jeito para a coisa. Fui chamada para o amor romântico – que jurava ser uma concepção social e inexistente na vida real -, mas não sabia como lidar com ele novamente.

– Pipo, não. Não sei o que aconteceu. Não sei se você está aqui ou estou sonhando.

– Vem cá, meu amor. Senta aqui e me conta tudo.

Não estava com dificuldade em me expressar e sim de conceber essa nova realidade. Refiro-me à realidade que vem da plena consciência de ser realmente incapaz de entender qualquer coisa. Nossa senhora gente que até eu me assustei com o quanto não estava acreditando. A burrice consciente tem a enorme vantagem de ser libertadora e, com toda as limitações que ela impõe à vida, faz-nos ganhar muito tempo.

Nem seis meses que nos conhecemos, sequer vivemos uma primavera juntos e cá estou eu presa numa tela de cinema. Inconformada com a distância, e inquieta de tanta saudade. Completamente fora da minha zona de conforto, esse local que se morre em vida.

O que é grande, por ser grande, desconcerta mesmo. E não sou dessas de me conformar com a mediocridade de existir.

Quando ele sai coloco outro no lugar.

Preciso contar. Moramos longe. Ele Brasília. Eu Rio de desespero. Ficamos muito mais tempo separados do que perto.

Quando ele sai, fica um buraco. Mas não sou dessas de deixar nada vazio aqui. Arrumo alguém para colocar no lugar. E tem que ser rápido porque nunca senti nada mais urgente do que essa carência que as costas dele me causam quando se distanciam.

A eternidade? Vejo-a assim que me despeço de Pipo.

Como passar os dias a esperá-lo com tanto eu para dividir?

Meu amor sempre me disse que o que ele sente por mim independe do meu comportamento. Isso me dá leveza para trazer para cama quem eu quiser. Nada como a liberdade de ser o que der vontade.

Não raro, durmo com mulheres.

Com o objetivo forte de preencher essa sexta à noite, para vocês terem uma ideia de como sou, hoje estou com Fernando. O Sabino. Relendo O grande mentecapto. Ontem, babei nas páginas de Clarice. Estava extremamente cansada e apaguei no meio de um parágrafo do A Hora da Estrela. Lilian Hellman me espera. Em Joinville, fiquei em um quarto de hotel com António Prata.

Ler é a minha maior arma contra essa falta que meu amor me faz.

Ainda assim, hoje, ela me venceu. Nem Rubem Braga na causa.

Estou morta de saudade de você, Pipo…